França vence com frieza e estratégia

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POR GERSON NOGUEIRA

Sem abrir mão de seu poderoso contra-ataque, arma decisiva ao longo de toda a Copa, a França de Didier Deschamps passou alguns aperreios na final, foi dominada pela Croácia em boa parte da partida, mas triunfou pela objetividade no aproveitamento das chances surgidas. É o segundo título mundial do país que inaugurou os mundiais de futebol.

Poucas seleções foram tão precisas e certeiras nas ações ofensivas quanto a França. Desde a fase de grupos, o time já se diferenciava pela maneira letal como destroçava os sistemas defensivos mais desatentos.

Nos confrontos eliminatórios, frente a oponentes mais qualificados, agiu com mais pragmatismo ainda. Baseou sua força nas habilidades de Pogba e Kanté, se desdobravam na marcação e na recuperação de bola, e na categoria de Griezman para abrir espaços nas defesas inimigas, seja conduzindo a bola ou lançando seus companheiros mais avançados.

Para completar, a França teve Mbappé, veloz e driblador, fazendo o papel de demolidor de defesas pelo lado direito do ataque. Esse conjunto bem balanceado responde pela vantagem obtida na fase aguda do Mundial. Nem mesmo a presença de um poste como Giroud no ataque foi capaz de enfraquecer a afinada orquestra de contragolpes montada por Deschamps.

A França foi surpreendida pela pressão inicial imposta por Modric e seus companheiros. A Croácia cercou a área e quase abriu o placar. Só que, aos 17 minutos, Griezman cavou falta na intermediária e se encarregou da cobrança. A bola desviou em Mandzukic e enganou o goleiro Subasic.

Apesar disso, dez minutos depois, Perisic igualou o placar, fazendo um golaço em jogada que teve linha de passe na área francesa. O gol deu ao jogo seu período de maior equilíbrio (e justiça) até então. Com paciência e disciplina, a França resistia ao cerco croata e ia tocando bola no meio.

Penal assinalado pelo VAR, marcando presença histórica em final de Copa do Mundo, deu nova vantagem à França, que não mais permitiu a aproximação croata no marcador. Griezman, melhor do jogo, converteu a penalidade nascida de uma bola que resvalou no braço de Perisic.

Na etapa final, que teve de novo um começo forte da Croácia, chegando a ter 60% de posse de bola, a França voltou a se impor pelo contra-ataque. Mbappé quebrou a pressão croata aos 6’ com uma impressionante arrancada de 25 metros que só parou diante do goleiro Subasic.

Sem Kanté, substituído por N’Zonzi, a seleção francesa se fechava e esperava o instante de dar o bote. Aos 13’, Pogba lançou Mbappé, que foi à linha de fundo e tocou para Griezman, que recuou para o volante concluir o lance que havia começado. França 3 a 1.

A Croácia jogava mais, distribuía bem o jogo, mas era punida pela velocidade e técnica apurada do trio francês. Pelas leis imutáveis da objetividade, resultado merecido. A partir desse momento, com o peso do  cansaço acumulado após tantas batalhas, o quarto gol surgiu quase naturalmente: aos 19’, Mbappé finalizou outro contragolpe perfeito.

Ainda havia espaço para mais um gol croata e quem colaborou para isso foi o goleiro Lloris, que resolveu fazer uma graça e permitiu a Mandzukic tocar sutilmente para as redes. A Croácia não teve mais forças para coordenar jogadas, apesar da valente insistência.

O título fica nas mãos da seleção que batalhou por ele e que, mesmo sem maior brilho, soube escolher a estratégia vitoriosa.

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Modric, melhor da Copa, simboliza a indômita Croácia

Era mais ou menos previsível que o troféu de melhor da Copa iria para o pequeno Hobbit croata. Luka Modric foi de longe o jogador mais importante e cerebral do torneio, conduzindo seu time a uma inimaginável decisão de título. Vale lembrar que há pouco mais de um mês a equipe croata levou um baile do Brasil na fase de preparação para o Mundial.

Modric conquistou o troféu pelo que fez, mas também por representar brilhantemente a incrível esquadra que desafiou a descrença generalizada para se tornar vice-campeã do mundo. Escolha justíssima.

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Leão tropeça e entra na zona do desespero

O Remo cumpre nesta Série C todos os itens do manual do rebaixamento. Contratou muito mal, trocou de técnicos na competição e não consegue formatar um time minimamente competitivo para superar adversários sofríveis. O empate em 0 a 0 contra o Botafogo-PB, sábado à tarde, tornou a situação desesperadora para os azulinos. A tabela está afunilando. Restam quatro jogos, dos quais o Remo precisa vencer três para não cair.

Com Isac no comando do ataque, o time foi errático e atrapalhado nas tentativas de produzir manobras criativas no ataque. Facilitou o trabalho da zaga adversária com cruzamentos sem rumo durante quase todo o jogo.

Desta vez, o Remo só levou perigo em três momentos: um cabeceio de Isac, um chute de Rodriguinho e uma finalização de Nininho. Muito pouco para quem precisava sufocar o adversário e produzir situações de gol. Além da pouca inspiração dos homens de frente, o time sentiu muito a ausência de Everton, principal articulador da equipe.

(Coluna publicada no Bola desta segunda-feira, 16)

CR7 desembarca em Turim para se apresentar à Juve

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Cristiano Ronaldo chegou esta tarde à cidade italiana de Turim, para iniciar uma nova etapa na carreira. A Juventus filmou a aterrissagem do jato privado de CR7, que viajou com o filho, a namorada, a mãe e o padrasto.

O craque português chegou acompanhado do filho mais velho, Cristiano Ronaldo Júnior, da namorada, Georgina Rodríguez, da mãe, Dolores Aveiro e de José Andrade, companheiro da mãe.

Num vídeo publicado pela Juventus na rede social Twitter, é possível ver o avião a pousar e Ronaldo saindo acompanhado pela família. À sua espera estava um carro da marca que patrocina a Juventus, no qual a família Aveiro deixou o aeroporto.

Ao entrar no carro, Cristiano Ronaldo posou para a primeira de muitas fotografias que certamente vai tirar nos próximos dias. Para esta segunda-feira está marcada a apresentação oficial, momento em que deverá vestir a nova camisa pela primeira vez.

Filhos de imigrantes garantem triunfo francês

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Uma França miscigenada levantou neste domingo a Taça Fifa, ganhando o segundo título mundial de sua história. A exemplo do que aconteceu há 20 anos, a ótima campanha e o placar elástico da final premiaram uma seleção baseada na diversidade. Onze dos 32 convocados são filhos de imigrantes, a maioria com raízes na África Sub-Saariana.

Pogba tem raízes na Guiné. Mbappé é filho de mãe camaronesa e pai argelino. A ancestralidade africana fez a diferença mais uma vez, tal qual em 1998. Uma oportunidade a mais para se repensar a exclusão social a que são submetidos os imigrantes e refugiados nos subúrbios da França.

Com a vitória, o técnico francês Didier Deschamps se tornou o terceiro ex-atleta a conquistar uma Copa do Mundo de futebol como jogador e treinador. Antes dele, só o brasileiro Zagallo e o alemão Franz Beckenbauer.

França vence Croácia e conquista o bi

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A França tornou-se bicampeã mundial neste domingo, após vencer a Croácia por 4 a 2 na final da Copa do Mundo da Rússia. A partida foi disputada no estádio Luzhniki, em Moscou. Marcaram para os franceses Mandzukic (contra), Griezmann, Pogba e Mbappé. Já os croatas fizeram com Perisic e Mandzukic.

O placar foi construído aos poucos pelos Bleus, que se aproveitaram do desgaste físico do adversário, atrapalhado pelo cansaço das três prorrogações disputadas no mundial.

Foi o segundo título da França, campeã em 1998 no torneio disputado no próprio país há 20 anos atrás. Já o vice-campeonato representou para a Croácia o melhor resultado em Copas do Mundo. Antes, o melhor ano dos europeus também foi 98, quando perderam pra os franceses na semifinal.

A história do jogo – O primeiro tempo começou nervoso, com muitas faltas no meio do campo e diversas roubadas de bola. Mais ofensiva, a Croácia chegava com mais perigo, abusando dos cruzamentos na área. Enquanto a defesa francesa se virava como podia, o ataque estava bem marcado, com Mbappé sem ter como avançar e tentar as jogadas.

Coube a Griezmann a missão de encontrar espaços na defesa croata. O primeiro gol surgiu de falta cavada pelo camisa 7 na intermediária. Na cobrança, pelo próprio Griezman, a bola desviou em Mandzukic e foi às redes.

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Não demorou muito para que os croatas reagissem. Em boa jogada trabalhada na área, Vida ajeitou para Perisic ajeitar, limpar o lance e soltar um chute no canto esquerdo de LLoris, sem chances para o goleiro francês. Um golaço.

Quando o primeiro tempo encaminhava-se para um empate, um lance polêmico fez o árbitro de vídeo (VAR) entrar em ação. Após bola lançada na área, Perisic acabou colocando a mão na bola. Após consulta ao VAR, o árbitro argentino Nestor Pitana entendeu como lance não natural e marcou o pênalti. Griezmann converteu deslocando Subasic e deixando os franceses em vantagem novamente.

No segundo tempo, o time da França continuou com o ímpeto ofensivo, com Mbappé explorando os espaços deixados pela Croácia, que tentava a todo custo o empate. Em uma das subidas do camisa 10 dos Bleus, a bola sobrou para Griezmann ajeitar para Pogba. O craque teve que bater duas vezes para furar o bloqueio e fazer o terceiro.

Exaustos, os jogadores da Croácia continuaram tentando a reação, ampliando a presença no campo defensivo da França. Foi assim que surgiu o quarto gol francês. Em contragolpe fulminante, Mbappé achou um vazio na entrada da área, teve calma para dominar e bater no canto de Subasic.

A vitória francesa desenhava-se com tranquilidade até o goleiro Lloris cometer uma lambança. O arqueiro vacilou ao tentar fintar o atacante Mandzukic, que o desarmou e fez a bola ir direto para as redes francesas. Apesar da vontade, os croatas continuaram a pressionar, dominando o jogo, mas sem efetividade.

Vitória do time mais regular da Copa e que foi quase sempre pragmático, jogando atrás e explorando o contra-ataque.

A seleção que não desiste nunca

 

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POR GERSON NOGUEIRA

Com perdão do trocadilho de pé quebrado, não caio na infantilidade de considerar a Copa russa como a melhor de todas, como fez o presidente da Fifa, em gesto de empolgação marqueteira. Penso que os mundiais do Brasil e a da Alemanha, em organização e qualidade, foram superiores.

O decantado domínio europeu, com quatro seleções semifinalistas, precisa ser analisado ao longo dos próximos anos para se ter ideia mais clara do que seria uma nova ordem estabelecida no futebol, longe disso.

Na verdade, a competição que acontece de quatro em quatro anos é uma fotografia do momento, às vezes tendo a felicidade de captar pequenas revoluções em campo (Holanda de 1974), gênios indomáveis (Maradona em 1986) ou fenômenos em ação (Ronaldo em 2002), mas em geral não registra nada de importante pelo simples fato de que nada está ocorrendo. E é justamente o que acontece neste ano da graça de 2018.

O futebol não vai evoluir um centímetro em relação ao que era antes da Copa. Os times continuarão, no mundo inteiro, a investir na força bruta e a lançar 400 bolas na área em busca de um cabeceio ou desvio acidental.

De todos os jogos que pude ver – passei batido apenas nas peladas entre Bélgica e Tunísia e Inglaterra x Panamá -, o que merece de fato destaque é a incrível bravura dos croatas, seguidos de perto pelos próprios russos nesse esforço muito mais físico do que cerebral.

A chegada da Croácia à primeira decisão de sua história é um acontecimento a ser enaltecido. Afinal, representa o triunfo de um país que emergiu de intrincada divisão territorial e política, merecedor de todo respeito pelo esforço de seus jogadores. A seleção veio da repescagem nas eliminatórias e transformou a caminhada na Rússia em algo épico.

Pode-se (e deve-se) discordar das cantorias com tintas fascistas de alguns de seus jogadores, mas é admirável a determinação com que se lançou aos confrontos eliminatórios, superando oponentes difíceis como Dinamarca, Rússia e Inglaterra.

Os puristas podem reclamar, mas Modric e seus companheiros têm sido o ponto fora da curva de uma Copa bastante enfraquecida no aspecto da tradição por ausências importantes – Itália e Holanda nem se classificaram; Argentina, Alemanha e Espanha dançaram logo de cara.

A França de Mbappe e Griezman conseguiu representar o lado da “normalidade” tradicional, mas não jogou o suficiente para que seja vista como favorita absoluta na grande final deste domingo.

Se Modric, Rakitic e Subasic brilham intensamente, algumas estrelas de primeira grandeza saíram apagadas da Rússia. Cristiano Ronaldo, Messi e Neymar não fizeram a diferença, como se esperava.

O que fez a diferença, no fim das contas, foi a velha gana de vencer e a capacidade indomável de não desistir nunca. Por esse quesito, a Croácia já pode ser considerada a melhor das seleções que passaram por esta Copa.

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Thiago e Coutinho incluem Brasil na lista dos melhores

Não poderia fugir à tradição de eleger a seleção da Copa. Ao contrário da Fifa, que vai escolher os melhores em cima das semifinais e finais, o escrete da coluna foi em busca de talentos que saíram mais cedo do torneio.

O goleiro é o croata Subasic, que agarrou até pensamento e foi decisivo nas partidas de mata-mata, batendo recorde de penalidades defendidas.

Escolhi três zagueiros levando em conta o deserto criativo nas laterais: o francês Varane, o uruguaio Godin e o brasileiro Thiago Silva.

O meio-campo começa por Pogba, que se consolida definitivamente como o principal médio do mundo, superando o brasileiro Casemiro.

Os meias Modric, Griezman e Philippe Coutinho complementam o quadrado. O croata é o mais regular da Copa. Liderou, criou e assumiu a responsabilidade criativa de sua seleção. Só perde o troféu de melhor do Mundial se o menino Mbappe estraçalhar na decisão.

Griezman trafegou numa faixa diferente daquela que ocupava na seleção francesa da Euro 2016 e no Atlético de Madrid. Recuou alguns metros para render mais, funcionando como o motor criativo da França.

Coutinho foi uma das vítimas da derrocada brasileira. Não fez um mundial perfeito, mas encantou com seus toques refinados e com participações minimalistas na formação ofensiva do time de Tite.

O ataque vai de Hazard, Cavani e Mbappe. Cavani saiu logo, mas deixou assinalada sua participação com grande atuação diante de Portugal. Hazard foi o mais efetivo da badalada Bélgica. Mbappe assombra pela velocidade, pela fúria definidora e os dribles à brasileira. Vai longe.

(Coluna publicada no Bola deste domingo, 15)

Um canalha culpa as vítimas pelo massacre de Eldorado dos Carajás

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Por Leonardo Sakamoto, no UOL

O deputado federal e pré-candidato à Presidência da República, Jair Bolsonaro, defendeu os policiais que participaram do Massacre de Eldorado dos Carajás no exato local dos 19 assassinatos nesta sexta (13). ”Quem tinha que estar preso era o pessoal do MST, gente canalha e vagabunda. Os policiais reagiram para não morrer”, disse Bolsonaro no registro do repórter Leonencio Nossa, do jornal O Estado de S.Paulo.

O Brasil desmemoriado talvez não se lembre do que foi o massacre, o horror sentido país afora e a vergonha internacional que isso nos causou. Para quem se lembra, a imagem de um político atacando os sem-terra mortos em seu memorial como parte de e uma estratégia de campanha para ganhar espaço na mídia, buscar votos de certos fazendeiros e policiais e receber chuvas de likes de gente desinformada soa como ignomínia.

Visitei o memorial pelos mortos diversas vezes. Deveria ser um local de reflexão sobre nossa ignorância, não um espaço para que ela aflorasse. Dito isso, não vale perder tempo criticando marketing eleitoral de mau gosto. Mas sim explicar o que foi Eldorado dos Carajás e suas consequências à população para a qual Eldorado dos Carajás não significa nada. Pois a certeza da impunidade deixada pelo massacre segue produzindo filhos em toda a Amazônia. Por exemplo, em maio do ano passado, não muito longe dali, dez trabalhadores rurais sem-terra foram executados pela polícia no que ficou conhecido como o Massacre de Pau d’Arco.

O que foi o massacre?

O massacre de Eldorado dos Carajás foi o palco da execução de 19 sem-terra e deixou mais de 60 feridos em uma ação violenta da Polícia Militar para desbloquear a rodovia PA-150, no Sudeste do Pará, no dia 17 de abril de 1996. Um mês antes, a fazenda Macaxeira, em Curionópolis (PA), havia sido ocupada por mais de 1,2 mil famílias sem-terra.

No mês seguinte, um grupo com mais de mil pessoas ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) começa uma marcha para Belém a fim de pedir a desapropriação da área e sua destinação à reforma agrária, obstruindo a rodovia. Duas pessoas foram condenadas por reprimir com morte a manifestação: o coronel Mario Colares Pantoja (a 228 anos) e o major José Maria Pereira Oliveira (a 154 anos), que estavam à frente dos policiais.

O massacre se fez apenas com duas pessoas?

Os responsáveis políticos na época, o então governador Almir Gabriel (que ordenou a desobstrução da rodovia) e o secretário de Segurança Pública, Paulo Câmara (que autorizou o uso da força policial), nunca foram processados. Outros 142 policiais militares que participaram da matança foram absolvidos. Isso sem contar que as denúncias de fazendeiros locais que teriam dado apoio para a ação policial ficaram por isso mesmo.

O massacre foi algo novo no Pará?

Se fossemos contar todos os casos anteriores de sindicalistas, trabalhadores rurais, camponeses, indígenas cujos carrascos nunca foram punidos no Pará, teríamos o maior post de todos os tempos. Por exemplo, na década de 80 e 90, os fazendeiros resolveram acabar com o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rio Maria, no Sul do Pará, e assassinaram uma série de lideranças. Foram a julgamentos, houve condenações, fuga de pistoleiros, mandantes que viveram em paz até a sua morte natural.

A certeza da impunidade pavimenta a tortura e a violência contra trabalhadores e populações tradicionais no Pará. Periodicamente, lideranças sociais são agredidas e mortas na Amazônia. Alguns casos são mais conhecidos e ganham mídia nacional e internacional – como as mortes da irmã Dorothy Stang (em fevereiro de 2005, em Anapu) e das lideranças extrativistas Maria e Zé Cláudio (em maio de 2011, em Nova Ipixuna). Mas a esmagadora maioria passa como anônima e é velada apenas por seus companheiros.

Mudanças positivas têm acontecido na Justiça no Pará graças à sociedade civil, à imprensa e a promotores, procuradores e juízes que têm a coragem de fazer o seu trabalho, mesmo com o risco de uma bala atravessar o seu caminho. Mas tudo isso é muito pouco diante do notório fracasso em garantir a dignidade daqueles que lutam com melhores condições de vida até o presente momento.

Um massacre gera filhos?

Muitos. Por exemplo, uma ação conjunta das Polícias Militar e Civil do Pará, em maio do ano passado, levou à morte de nove homens e uma mulher no município de Pau d’Arco. Segundo o governo do Estado, os policiais estariam cumprindo mandados de prisão de acusados de assassinar um segurança de uma fazenda, mas a Comissão Pastoral da Terra afirma que foi uma execução em uma ação de despejo. Os policiais tem sido soltos e presos em uma gangorra judicial desde então.

Pau d’Arco tem o mesmo cheiro e gosto que Eldorado dos Carajás. Mas repercutiu bem menos dentro e fora do país. Não por conta dos nove mortos a menos, mas pelo massacre de 1996, que não recebeu devida Justiça, ter aberto uma porteira para outras ocorrências. Como as nove pessoas que foram assassinadas em uma área próxima a um assentamento em Colniza (MT), município que faz divisa com os Estados do Amazonas e Rondônia, em abril de 2017. Dois foram mortos a facadas e sete com tiros de calibre 12 por pessoas encapuzadas, de acordo com sobreviventes.

Pegue diferentes matérias sobre os assassinatos no campo. Verá que é só trocar o nome dos mortos, do município (às vezes, nem isso) e onde foi a emboscada para serem a mesma matéria. As mesmas desculpas do governo, os mesmos planos de ação parecidos, as mesmas reclamações da sociedade civil, os mesmos grupos sendo criados para debater e encontrar soluções. Pode-se prender um ou dois. Mas as condições que fizeram Eldorado dos Carajás estão aí produzindo vítimas. De novo. E de novo. E de novo.

O massacre foi algo isolado?

As mortes no campo são resultado de um modelo de desenvolvimento concentrador e excludente, que fomenta a grilagem de terras e a especulação fundiária. E está pouco se importando com o respeito às leis ambientais, por que acredita que o país tem que crescer rápido, passando por cima do que for.

Esse modelo explora mão de obra, chegando a usar trabalho escravo a fim de facilitar a concorrência (desleal) e o dumping social em cadeias produtivas cada vez mais globalizadas (o Pará é o Estado com maior incidência de trabalhado escravo: dos 52.766 libertados, entre 1995 e 2017, 13.211 (25%) estavam lá, a maior parte na pecuária bovina).

Tudo com a nossa anuência, uma vez que consumimos os produtos de lá alegres e felizes com nossa ignorância, elogiando algumas marcas e empresas que – ao contrário de nós – não estão imersas em ignorância.

O massacre feito por policiais é apenas culpa do poder público?

A pergunta é: quem comanda o quê? Há uma relação carnal que se estabelece entre o público e o privado na região amazônica. O detentor da terra exerce o poder político, através de influência econômica e da coerção física. É frequente, por exemplo, encontrar policiais que fazem bicos como seguranças de fazendas por conta da baixa remuneração de sua atividade. Em outros casos, as tropas públicas ficam diretamente a serviço de particulares.

Sabe qual a chance de trabalhadores rurais que solicitam a destinação de terras griladas para a reforma agrária ou de comunidades tradicionais que exijam a devolução de terras roubadas terem o mesmo sucesso que grandes proprietários que pedirem a desocupação de terras? Anos atrás, grandes proprietários rurais e suas entidades patronais chegaram a demandar intervenção federal no Pará uma vez que o poder público local não estava sendo célere – em sua opinião, claro – para garantir reintegrações de posse de terras (muitas das quais, com sérios indícios de grilagem). Se fossem trabalhadores pedindo isso, o ato seria encarado como um levante e reprimido à bala.

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A quem interessa que massacres no campo continuem acontecendo?

Não é de hoje que as regiões de expansão agropecuária e extrativista da Amazônia e do Cerrado vivem uma situação de conflito deflagrado. O Estado brasileiro tem sido incompetente para prevenir e solucionar crimes contra a vida no campo e há uma situação clara de conflito deflagrado. Mortes no campo não são de hoje, mas há muitos produtores rurais e extrativistas gananciosos que estão com sangue nos olhos. Sentem-se fortalecidos por verem no atual governo federal um aliado para suas demandas.

Tem sido um bom negócio para ambas as partes: eles garantem a manutenção de Michel Temer (inclusive com a concessão de votos para livrar seu pescoço das denúncias de corrupção passiva, organização criminosa e obstrução de Justiça) e, em troca, ganham perdões bilionários e apoio para sua pauta de retorno ao feudalismo.

Querem mudar as regras da demarcação de territórios indígenas, suprimir ainda mais a proteção ambiental, ”flexibilizar” as regras para a implantação de grandes empreendimentos, enfraquecer o conceito de trabalho escravo contemporâneo, atenuar a punição para as piores formas de trabalho infantil. E, principalmente, desejam manter sob seu domínio a terra que, muitas vezes, grilaram da coletividade ou roubaram de comunidades tradicionais. Passando bala em quem estiver no meio do caminho, em alguns casos.

Qual o município mais violento do Brasil? Rio de Janeiro, com seus 40 mortos por 100 mil habitantes? Não, Altamira, no Pará, com seus 107 mortos por 100 mil habitantes. Em tempo: um grupo de homens armados atacou um acampamento com dez famílias de trabalhadores rurais no município de São João do Araguaia, próximo à Marabá, no Estado do Pará, em maio deste ano.

Encapuzados, chegaram às margens do rio Araguaia, onde elas estavam acampadas, em duas caminhonetes com pistolas, revólveres e escopetas. De acordo com a Comissão Pastoral da Terra, adultos e até bebês foram vítimas de uma sessão de tortura por quase uma hora. ”Os adultos foram espancados a golpes de paus, facões e coronhadas. As marcas ficaram espalhadas pelos corpos dos trabalhadores.

Os pistoleiros dispararam suas armas próximo do ouvido de duas crianças gêmeas de três meses de idade para aterrorizar sua mãe. Atiraram em redes com crianças dentro, além de derrubarem e pisotearem crianças no chão. Uma das mães que estava grávida, que também foi pisoteada e teve sangramento”, afirma nota da Comissão Pastoral da Terra. No acampamento, havia crianças entre três meses e dez anos de idade.

Malditas crianças, canalhas e vagabundas.