A chance perdida da Seleção Brasileira

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Por Paulo Junior, no Trivela

Essa seleção brasileira, a de Tite, que completou na Copa do Mundo dois anos de trabalho, jamais poderá reclamar da falta de apoio da torcida. Assumiu o treinador que era uma unanimidade técnica como havia muito tempo não se via, e a equipe se arejou no embalo do inédito título olímpico conquistado pouco antes da estreia do novo comandante. O time se acertou, enfileirou vitórias e foi o primeiro a se classificar nas eliminatórias. Um sucesso, e muito rápido.

Diante do 7-1 em campo e dos escândalos envolvendo os dirigentes do futebol, Tite criou um escudo. O trabalho respirava novos ares e o time, leve e vencendo os principais rivais, foi retomando a simpatia popular. Depois de participações ruins em competições seguidas, aparecia uma nova onda de otimismo que só o Brasil parece ser capaz de ter no futebol, uma condição bipolar ao extremo, do medo de não ir à Copa com Dunga para o melhor time do mundo com Tite num par de jogos.

Mas daí quando o resultado não aparece já voltam os velhos traumas da relação. Neymar, se o gol não sai, vai à rede social, contra tudo e contra todos. Tite se empolgou nas coletivas como não se costumava ver, exagerando na avaliação de atuações e defendendo o time de críticas como se fosse tão preciso. Paulinho fez cara feia e ironizou os repórteres na zona mista, mais um que não parecia desfrutar do privilégio de ter uma rara carreira com duas Copas do Mundo, mas sim jogando para responder, para provar. A comissão, transparente e profissional, acabou por assumir uma certa omissão nas condições físicas e médicas reais de Fred, quando o treinador admitiu que mal podia contar com ele para os jogos decisivos. E, no fim, se a carta de Dona Lúcia parecia fruto de outro planeta, Edu Gaspar concedeu uma palavra final sem nenhum tom crítico aos problemas ou ao tratamento sobre sua maior estrela.

Neymar, aliás, que teve à disposição um time para chamar de seu, não jogou exatamente mal, mas se recusou a falar com a torcida ao fim da Copa. Um terço do time voltou ao Brasil, o que mostra que a relação com a seleção brasileira parece cada vez mais uma nostalgia distante, e o camisa 10 não deu as caras na descida do avião. Parece não suportar mais o próprio personagem que criou, o jogador mais querido do país às vezes se atrapalhando dentro da própria ambição de assumir esse papel.

E aí a grande contradição: se há o elogio para uma eliminação sem caça às bruxas ou que queime jogadores de nível internacional indiscutível, caminha ao lado uma defesa do “menino” Neymar. Participações constrangedoras de comentaristas ou apresentadores em verdadeiros editoriais em que contextualizam cada passo do mais bajulado jogador brasileiro da história. Um craque que, definitivamente, precisa sair dessa bolha puxa-saco e ir atrás do seu primeiro título na seleção adulta.

O pior é que a semana sem Brasil na Copa já começa com o noticiário dos clubes voltando a engolir o maior torneio de todos, e logo as rodadas do Campeonato Brasileiro vão correr se atropelando com a Copa do Brasil e Libertadores a cada esquina, e a seleção brasileira vai voltar a jogar seus amistosos na Inglaterra no horário da sessão da tarde. A sensação é que essa seleção brasileira perdeu uma grande chance de trilhar um caminho que pudesse redefinir a relação com a torcida e com o próprio futebol brasileiro, de reciprocidade e alegria. Mas o final de semana nos lembrou que todo aeroporto tem uma saída dos fundos, para todo microfone há uma conta de Instagram, e no fim tudo vai virar só mais um capítulo de uma história gigantesca. Uma pena.

Direto do Twitter

“Nunca acredite numa só fonte. Procure se informar lendo, relendo, pesquisando a informação produzida por vários veículos, blogs e plataformas. E tente entender a motivação de cada um. Não pense que é fácil encontrar a isenção. Siga o dinheiro e saberá a que senhor cada um serve”.

Sidney Rezende, jornalista

Sem Brasil na Copa, audiência da TV despenca

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A eliminação do Brasil em partida contra a Bélgica na última sexta-feira (06) afastou o interesse de parte dos telespectadores para os jogos seguintes da Copa do Mundo. A queda foi de até 36% comparando os resultados deste sábado (07) com o passado (30/06).

Neste sábado, por exemplo, tanto Suécia x Inglaterra como Rússia x Croácia, exibidos às 11h e 15h, respectivamente, não empolgaram no Ibope apesar de terem registrado índices acima do que a Globo alcançaria com sua grade normal.

Com Suécia x Inglaterra, entre 11h e 12h52, a média foi de 16,6 pontos. SBT e Record TV tiveram 6,9 e 2,6 pontos, respectivamente.

O canal de Silvio Santos não foi impactado, mas a Record TV, com a exibição do “Esporte Fantástico”, segue sendo prejudicada. Em relação à semana passada, a queda é de 36%. Com França x Argentina, a Globo havia marcado 26 pontos de média.

A serviço do poder

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Por Charles Alcantara, no Facebook

É ingenuidade acreditar que Moro detém o poder. Moro serve a quem tem poder, e será protegido enquanto servir.
É ingenuidade (de muitos) e má fé (da maioria) acreditar que a atuação de Moro é contra a corrupção. Moro está cercado de gente corrupta, e é com essa gente que se refestela em eventos e rega-bofes.
Deixaram esse moço agir sem qualquer limite.
Concederam-lhe licença para agir fora-da-lei.
Esquentaram-lhe as costas a tal ponto, que passou do ponto. Eis aí o couro do moço a exalar odor de queimado.
Os reais detentores do poder não costumam cativar os que não lhes têm mais serventia, e esse moço já começa a não servir mais.

Justiça de republiqueta

Teresa Cruvinel, no Jornal do Brasil, faz outra boa análise do imbroglio judicial de ontem e de suas consequências. E com o diagnóstico que parece unânime, salvo nos repletos de ódio insano: sem poder fazer campanha, Lula cresce com o episódio, no qual se mostra explicitamente que vale tudo para mantê-lo preso.

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Por Teresa Cruvinel, no JB

As praças se encheram de pessoas esperando por Lula Livre e a noite caiu sem que a ordem de soltura do desembargador Rogério Favreto fosse cumprida. Uma sequência de atos impróprios e mesmo ilegais postergaram a soltura até que se encontrasse a solução para manter Lula preso, mandando às favas os escrúpulos em relação ao Estado de Direito, como fizeram os que assinaram o AI-5.  Solto, mesmo não podendo ser candidato, Lula mudaria completamente a dinâmica da disputa presidencial. Por isso valeu tudo ontem para mantê-lo preso. 

O longo domingo terminou com o presidente do TRF-4, Thompson Flores, decidindo que o desembargador de plantão não tinha autoridade para conceder habeas corpus a Lula, e dando razão a Gebran Neto, que desautorizara a soltura. Este capítulo inesperado da saga de Lula – que em nenhum momento acreditou que seria liberado – terá suas consequências, e a mais óbvia delas será o aumento da percepção de que há parcialidade da Justiça contra  Lula.  E isso terá seus efeitos eleitorais.

O juiz Sérgio Moro será novamente denunciado ao  Conselho Nacional de Justiça, agora por desobediência à Justiça e quebra da hierarquia. Por outros abusos, nunca foi molestado. Nove entre dez juristas, do porte de um Lênio Streck, sustentaram ontem que um juiz em férias não pode se imiscuir em procedimentos judiciais. E muito menos, determinando à PF que descumprisse a ordem de um desembargador que lhe é superior, violando a hierarquia. Foi com absoluta naturalidade, como se isso não fosse escandalosamente ilegal, que  policiais federais informaram os deputados petistas autores do pedido de habeas corpus – Paulo Pimenta, Paulo Teixeira e Wadih Damous – que o juiz havia ligado de Lisboa desautorizando a soltura. 

E quem foi que avisou Moro em Lisboa? Pimenta soube que foi o delegado-chefe, Roberval Ricalvi. Só numa republiqueta um delegado federal, ao invés de cumprir uma ordem judicial, vai atrás do juiz que condenou o réu, pedindo sua autorização. Depois da ordem telefônica, Moro tascou um despacho contrário à soltura, embora estando de férias. Esta sua disposição para sujar a toga na caça a Lula foi maior que na condução coercitiva e que na divulgação de grampos ilegais para impedir que Lula fosse nomeado ministro, e com isso seus processos fossem transferidos para o STF. Difícil de prever com que rigor o CNJ examinará o caso, agora que o Judiciário perdeu completamente a racionalidade. 

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A ordem de Moro era ilegal e discutível, e por isso a PF seguiu protelando a soltura até que viesse solução mais consistente. E veio a manifestação do desembargador Gebran Neto, alegando o fato de ter sido relator do processo de Lula no TRF-4. A defesa usara argumentos impróprios, induzindo seu colega Favreto a erro, disse ele. Mas Gebran também está de férias, e logo tão impedido quanto Moro. 

Às 16hs04m Favreto expediu sua terceira ordem de soltura, dando prazo de uma hora para ser cumprida e contestando o colega. Não fora induzido a erro algum. Lula, além de ter ainda direito a recursos, devia ser solto em função de fato novo, a condição de pré-candidato a presidente. Com ele preso, privado de participar da campanha, o processo eleitoral se entortará, sem a garantia de igualdade de oportunidades aos concorrentes.

Um país com os nervos retesados esperou pelo transcurso desta uma hora. Atos se formaram em Curitiba, Rio, Brasília e outras cidades. O Sindicato de São Bernardo novamente foi ocupado. Às 18 horas, os deputados petistas foram levados a uma sala da PF, e informados de que a ordem de soltura só agora havia chegado. E lá ficaram sem receber informações, enquanto lá fora o país seguia em suspense. Finalmente, a solução para manter Lula preso foi dada por Thompson Flores, com o despacho em que deu razão a Gebran Neto.  

Essa batalha não acabou ontem. Ela desemboca na eleição com Lula livre ou preso. O Judiciário saiu mais desacreditado e a vitimização de Lula, fortalecida.