Em 2016, 145 prefeitos concorreram na mesma situação de Lula e 70% foram empossados

É destaque na Mônica Bergamo nesta quinta (5) que a defesa de Lula mapeou o número de candidatos que concorreram na mesma situação em que ele na eleição de 2016, foram eleitos e conseguiram reverter eventual indeferimento de registro.
Segundo a assessoria de Lula, foram 145 eleitos em 2016, sendo que 70% desse total conseguiram “reverter a decisão [registro indeferido] depois do pleito, foram diplomados e tomaram posse.”
“Se tirar o Lula antes da disputa, a Justiça Eleitoral vai retirar dele a chance que deu a outros 145 candidatos em 2016. Terminada a eleição, vários indeferimentos se mostraram equivocados”, diz o advogado Luiz Fernando Pereira, que dá consultoria ao ex-presidente e ao PT. (Do Jornal GGN)

Antipolítica e conservadorismo explicam fenômeno Bolsonaro

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Por Tiago Pereira, da RBA

O crescimento da extrema-direita antissistema e anti-globalização é um movimento global que já se materializou na vitória de Donald Trump, nos Estados Unidos, na campanha do Brexit, que culminou com a saída do Reino Unido da União Europeia, ou ainda no crescimento de partidos que impunham a bandeira de combate à imigração em países como FrançaAlemanha e Itália, além de triunfos em outras partes do continente.

No Brasil, parte da população que se identifica com tais anseios autoritários acredita que a sociedade atual vive numa “bagunça generalizada” na qual imperam a insegurança e a corrupção, e se alinham à candidatura de Jair Bolsonaro (PSL). Hoje, ele é o segundo colocado na preferência do eleitor, atrás apenas da candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

É, portanto, um fenômeno social que não pode mais ser ignorado, e merece ser entendido e estudado. Essa é a constatação da professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Esther Solano, que têm realizado pesquisas de campo sobre os movimentos políticos de direita que passaram a disputar as ruas e as redes sociais brasileiras nos últimos anos.

Ela diz que esses movimentos de extrema-direita, no Brasil e no mundo, são tratados como “caricaturas“, que revelam a dificuldade que o campo progressista, e até mesmo intelectuais, têm para se aproximar desse fenômeno. Trump e Brexit não eram considerados como opções críveis, até de fato ocorrerem.

Para entender o crescimento da “bolsonarização” da política e do avanço dos extremismos no Brasil, ela organizou uma série de “entrevistas em profundidade” com simpatizantes do candidato, que já insinuou estupro a uma deputada e ofendeu negros e homossexuais.

Dentre os entrevistados, de perfis socioeconômicos bastante heterogêneos, “a questão número um é que as pessoas dizem votar no Bolsonaro porque querem ordem“, aponta a professora, que apresentou os resultados da pesquisa Crise da democracia e extremismos de direita nesta terça-feira (3), em São Paulo.

Segundo ela, a ideia de “ordem” almejada por essa parcela do eleitorado não é apenas a da militarização e do combate à violência, mas uma “ordem existencial“, de pessoas que não entendem plenamente as transformações tecnológicas, econômicas e sociais ocorridas nos últimos anos, e se ressentem de um lugar social anterior, e que foi perdido.

O fortalecimento do discurso de inclusão social e maior organização de grupos que lutam por direitos, como os movimentos negro, feminista e LGBT nas últimas décadas, causaram uma “reorganização no campo cultural e na esfera pública“, que faz com que uma pessoa conservadora de direita se sinta perdida. “A pessoa não consegue enxergar esse mundo novo, não sabe muito bem o que fazer, e quer a volta de uma ordem existencial na qual ela se sentia muito mais à vontade“, ressalta a professora.

O radicalismo de direita ganha, portanto, ares de “reação virulenta“. Esther diz que esse discurso autoritário também cresce na esteira de “vácuos” deixados pelo campo progressista nos temas relativos ao combate à violência e à corrupção. “Refiro-me fundamentalmente a questões como segurança pública, tradicionalmente deixada de lado pela esquerda brasileira, e a corrupção, que também se deixou monopolizar por uma direita moralista, hiper punitiva e populista. A extrema-direita se fortalece exatamente nesses vácuos políticos que a esquerda não soube ou não quis administrar politicamente“, anota Esther.

Além da reação em favor da ordem, da autoridade e do reforço das hierarquias sociais, outro componente importante é a crise de representação e o crescimento da antipolítica. Nesse quesito, Esther diz que a Operação Lava Jato teve fundamental contribuição, por se basear na “espetacularização midiática” e no “Direito Penal do Inimigo“. “A ideia que o corrupto é inimigo, e contra o inimigo não tem Direito, mas basicamente perseguição. A Lava Jato é uma operação absolutamente teatralizada. Tudo isso tem como consequência o aumento do sentimento antipolítico.”

Ela diz que os movimentos que saíram às ruas para defender o golpe do impeachment também migraram, gradualmente, de uma posição antipetista para uma postura antipolítica. Se no início os grupos se aglutinavam no slogan “Fora PT“, aos poucos, a palavra de ordem se tornou “prendam todos“, também por influência do punitivismo perseguidor exalado de Curitiba.

Memes de ódio

O “mérito” dos grupos de extrema-direita foi substituir as formas “duras” dos lemas e discursos de outros tempos por formas mais assimiláveis com memes e vídeos sintonizados com a linguagem de internet, mas que preservam o mesmo conteúdo xenófobo, misógino e de combate ao diferente, contribuindo para a banalização do discurso de ódio, principalmente entre os mais jovens. Outra questão, segundo Esther, que garante a adesão de parcela da juventude é o fato de terem crescido nos anos em que a esquerda estava no poder.

Se nos anos 1970 ser rebelde era ser de esquerda, agora, para muitos destes jovens, é votar nesta nova direita, que se apresenta de uma forma cool, disfarçando seu discurso de ódio em formas de memes e de vídeos divertidos“, constata a pesquisadora. Quando confrontados com o teor preconceituoso dos discursos de Bolsonaro, alegam que se trata de um exagero, fruto de uma perseguição por parte da imprensa, que estaria alinhada às velhas estruturas de poder.

Outra ideia comum entre os entrevistados, segundo a professora, é uma concepção absolutamente individualista, de valorização do esforço individual como forma de alcançar o sucesso. Por isso, repudiam políticas sociais como o Bolsa Família e as cotas para negros em universidades, pois, segundo eles, esses mecanismos de inclusão fariam com que outros “furassem a fila” da meritocracia.

Segundo a professora, muitos apoiadores de Bolsonaro dizem ter votado em Lula nas eleições passadas, pois este também era visto como o político “diferente“, “carismático” que falava a língua do povo. A ironia é que os que rejeitam Lula o fazem após terem ascendido socialmente, não se identificam mais como pobres, mas como pertencentes à nova classe média.

Neymar e Coutinho: uma década de cumplicidade

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Por Luis Miguel Hinojal, no El País

A aliança espontânea gerada entre dois adolescentes sem barba, na primavera de 2008, foi considerada o augúrio de um futuro esplendoroso nas categorias de base mantidas pela Confederação Brasileira de Futebol. Enquanto a liderança da CBF deu poderes a Dunga como técnico da seleção, na base da pirâmide treinadores sensíveis e capazes trabalhavam para potencializar as raízes ancestrais do futebol brasileiro. Neymar e Philippe Coutinho se encontraram pela primeira vez na convocação da seleção sub-17. E a primeira prova do conjunto nascido em 92 seria realizada na Costa Brava catalã.

Ganharam prestígio no torneio MIC (sigla em inglês de Copa Internacional do Mediterrâneo), que reúne todos os anos desde 2000 os melhores celeiros do planeta. Os rumores foram se tornando um clamor que percorria os estádios na província de Girona: o Brasil tinha uma dupla de garotos que transformavam cada jogo em uma festa de gols impossíveis, dribles espetaculares, controles delicados, passes exuberantes e um arsenal de assistências cúmplices executadas com precisão cirúrgica. Naquela seleção brasileira, estavam no banco outros dois jogadores que agora sonham em vencer a Copa do Mundo: o volante Casemiro e o goleiro Alisson.

Coutinho jogava no Vasco da Gama, era conhecido como Philippinho e disputava sua terceira edição do MIC: em 2006, com a seleção infantil, derrotou o Real Madrid com um gol de diferença na final, desatando um recital de futebol enquanto mantinha um impressionante duelo individual com o fogoso capitão madridista Dani Carvajal. Em 2007, Coutinho já usava a número 10 na seleção sub-15, e o Brasil venceu o Espanyol nos pênaltis na final. O responsável das categorias de base da CBF era Lucho Nizzo: um treinador por vocação obcecado para que jovens talentos completassem em seu país determinados ciclos de treinamento antes de emigrar. Nizzo trabalhou olhando no longo prazo e com muito cuidado na evolução de uma geração de jogadores nascidos entre 1988 e 1994: Marcelo, Willian, Renato Augusto… Em 2008, Neymar o deslumbrou: um atacante do Santos tão magro que lhe rendeu o apelido de “filé de borboleta”.

Nizzo lembra hoje com orgulho em conversa com o EL PAÍS: “Gostávamos da perspectiva de contar com jovens dotados de um potencial enorme, que poderiam ir muito longe se fossem trabalhados de forma correta. Coutinho era uma raridade. Tinha uma inteligência bem acima da média e era muito técnico. Pensava antes e melhor do que ninguém e gostava mais do passe do que do gol. Logo se deu bem com Neymar, que tinha fundamentos difíceis de ver no futebol de hoje, como a condução em alta velocidade, executando mudanças bruscas de direção com a bola presa ao pé. Já dominava os gestos técnicos e os dribles que vemos agora. Seu entrosamento com Coutinho era enorme. Só não faziam chover, porque o que faziam em campo era um absurdo, com muita qualidade técnica e velocidade de pensamento”. O Brasil passou como um festivo carnaval pelas primeiras fases do MIC. Nas semifinais, enfrentava o Konoplev, da Rússia, no Sant Antoni de Calonge. Com o gramado artificial transformado em uma lagoa pela chuva, os russos submeteram Neymar ao mesmo tipo de caça seletiva que hoje enfrenta em qualquer jogo da Copa.

Nenhuma reclamação saiu de sua boca. Nem um único protesto ou exagero como os que agora criam polêmica nos estádios russos. Alvo de muitas faltas, não terminou o jogo. Empate em 1 a 1. O gol brasileiro foi marcado por Coutinho, com um chute inteligente da entrada da área. O Brasil venceu nos pênaltis, com o vascaíno marcando seu gol com classe. Neymar acabou congelado de frio e chorando de dor no vestiário sob os cuidados dos fisioterapeutas.

Em 23 de março de 2008, em Palamós, o Brasil enfrentava na final outro forte time russo, o Lokomotiv, que acabou sucumbindo à superioridade técnica da seleção canarinha em que Neymar e Coutinho tiveram outra atuação brilhante. O Brasil venceu por 1 x 0. No dia seguinte, a imprensa catalã destacava o surgimento de uma parceria que não se podia perder de vista, pois, naquela manhã, Coutinho e Neymar encheram o gramado de Palamós de beleza e traços raros. “Jogaram com personalidade impressionante e combinando com uma química especial”, lembra Nizzo. “Gritava para que Neymar não driblasse, que estavam batendo muito nele, que tocasse… Respondeu que, quanto mais lhe chutassem, mais iria enfrentá-los com a bola.”

Juanjo Rovira, diretor do MIC, lembra o impacto gerado pela presença de Neymar: “Uma expectativa enorme. Havíamos credenciado muita gente da imprensa e muitos caça-talentos de clubes europeus. Neymar esteve perto de assinar com o R. Madrid em 2004, e isso funcionou como um chamariz. Com ele, chegava Coutinho. Nós os chamávamos de Zipi e Zape, porque estavam todo o dia juntos. O torneio para os brasileiros não foi apenas um banco de ensaio. Também uma grande vitrine de mercado para os jogadores”.

Toni Lima trabalha hoje como um experiente olheiro do Manchester United. Ex-jogador por Andorra, em 2008 foi secretário técnico do Ibiza, clube com o qual assinou um convênio de colaboração com o Inter de Milão para identificar jovens talentos. Lima também colaborava com a CBF e examinava com olho clínico a evolução de cada garoto que chegava ao torneio. Alguns parágrafos do relatório exaustivo que Lima escreveu em 2008 para o Inter, no litoral catalão, representaram um entusiástico aviso de que, na sub-17, uma parceria muito frutífera estava sendo modelada: “Coutinho e Neymar são dois polos opostos em termos de personalidade. O primeiro é tímido e quieto. O segundo, altamente extrovertido, com forte caráter competitivo e capacidade de puxar o grupo. Conectam-se maravilhosamente dentro e fora do campo. É algo comum em categorias de base, onde bons jogadores se identificam, se reconhecem e buscam um ao outro”. O Inter contratou Coutinho no ano seguinte, pagando 2,5 milhões de euros (cerca de 11,5 milhões de reais no câmbio atual) ao Vasco. Neymar continuou no Santos. E juntos continuaram crescendo nas seleções de base brasileiras.

Agora, com 26 anos, são os dois jogadores mais caros do planeta e o melhor trunfo para que o Brasil consiga o hexacampeonato. “Evoluíram em dois aspectos”, diz Nizzo. “No físico, porque ganharam massa muscular, e taticamente, porque na Europa adquiriram fundamentos e compreensão do jogo. De resto, são quase iguais como em 2008. E continuam buscando. Neymar vai crescer nos momentos decisivos. Sempre fez isso. E Coutinho trabalha muito para a equipe em uma função complicada, que está cumprindo perfeitamente na Rússia.”

Dezoito dos 23 convocados por Tite para a Copa do Mundo passaram pelas categorias de base da seleção. Um número recorde. Tite agora colhe os frutos de um bom trabalho feito por outros técnicos menos conhecidos, aos quais o Brasil deve reconhecimento. São os guardiões de suas essências.