O Brasil precisa descobrir Torquato Neto

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Por Xico Sá, no El País

Eu, brasileiro, confesso, minha culpa meu pecado, meu sonho desesperado… Não bati panelas, que seja dito, porém pouco fiz para evitar a desgraceira, engoli, engolimos, goela abaixo, no máximo fui bolchevique de redes sociais, é pouco, muito pouco, pouco mesmo, piada, que fraqueza, meu rapaz.

E sabe aquele seu melhor amigo de infância, lá da sua rua em Teresina, o Wellington? Rapaz, não te conto. Está por trás dessa ressaca toda. É um dos homens da tramoia que levou o Vampirão às cabeças. Sabia que você, amante dos filmes “B” de terror, iria curtir essa parada. A gente ri de nervoso, compreende?, isso alivia pra caramba. Ave. Calma que o drama nem começou deveras. Abrem-se as cortinas.

Wellington Moreira Franco. Ele mesmo. O que são os destinos na mão da mesma cigana. Você partiu para a Bahia, tropicalista sina, o gato angorá -apelido dado pelo Brizola- seguiu os rastros da bufunfa da política. Sejamos grato ao angorá pelo menos em uma coisa: o desalmado falou com carinho sobre você no filme. Memória delicada. Vade retro. Corta. Você e esse miserável na mesma rua e no mesmo gibi dos primeiros passos.

Ah, que filme fodidamente lindo os meninos fizeram sobre sua trajetória. Chorei. Que pancada. Seu filho Thiago Nunes… Psiu! Não vamos acordá-lo às três da madrugada. Choro e alento, juro que me aluí do canto. No conjunto da obra, o filme também me animou para a existência, vide quão paradoxal a essa altura. Não, não falarei sobre o falso anti-Édipo em relação à mamãe coragem, só indo ao cinema. Dona Maria Salomé estava certa: o tropicalismo que se danasse, ela queria o filho no prumo da venta. Só lhe restou pegar uns panos para lavar, ler um romance, vê as contas do mercado, como aconselhara o filho. Mamãe, mamãe não chore.

Eu, brasileiro, nesse perigo da hora, recomendo, não deixe de se ver neste filmaço: Torquato Neto — Todas as horas do fim, de Eduardo Ades e Marcus Fernando. Estreia nos cinemas na próxima quinta-feira, dia 8. Tanta violência, mas tanta ternura. Recitaria o poeta Mário Faustino (1930-1962), igualmente genial e piauiense, na sua balada eterna para um vate suicida.

Deu saudade de Teresina. De beber e conversar com Albert Piauí e Kenard Kruel. De comer “Maria Isabel”, marca da culinária da terra, um dos pratos que justificam a descoberta do fogo pelos primeiros homens da América – piauienses, óbvio, lá da serra da Capivara, se é que o leitor esclarecido me entende. Deu água na boca em pensar no capote com cuscuz que comi da vez derradeira.

Que filme, rapazes. O ator Jesuíta Barbosa, que “dubla” em off o poeta, é para arrombar a tabaca de Chola, como se diz na hipérbole pernambucana – jovens, ao Google. Bonito demais. Deu drama e dignidade a tudo na prosódia. Ler Torquato doravante é ter essa voz como eco no sótão do inconsciente.

Prestem atenção na fala de Tom Zé e no entendimento de Gilberto Gil, parceiros que compreendem, de cara, a agonia criativa de Torquato. Por favor, se liguem como as imagens do Cinema Novo de Glauber etc e do Cinema Terrir/Udigrudi de Ivan Cardoso & companhia encobrem e descobrem a inadaptação, a estranheza do Torquato-Nosferatu-do-Brasil diante do sol do tropicalismo. Era muita “alegria, alegria” para um estrangeiro do Piauí, minha gente.

O filme é tão rico que esta pobre crônica-resenha não passa de um bilhete de boas intenções aos náufragos. Torquato parece ter, tinha, a consciência da vida como permanente tic-tac das horas finais . Tanta coisa a essa altura. Três da madrugada em São Paulo, quase nada, a cidade abandonada, Irene dorme, Larissa idem, os dois corações são meus atabaques babilônicos, minhas sístoles e diástoles. Tudo e nada, a mão fria toca bem de leve em mim.

Bem que o escritor Marcelino Freire elegeu como homenageado da Balada Literária do ano passado esse gênio-mor estranhamente ainda desconhecido para muitos brasileiros. Torquato Neto ou nada. Torquato Neto ou morte.

Tanta violência, mas tanta ternura. Só vendo o filme outra vez e sempre. Beijos.

Xico Sá, escritor e jornalista, é autor de Big Jato (editora Companhia das Letras), entre outros livros. 

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