Fargo 2ª temporada: ironia fina, direção firme e excentricidades seguram a trama

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Por Vitor Gross, no Omelete

Uma das minhas poucas ressalvas com a primeira e brilhante temporada de Fargo era a maneira como alguns cacoetes de narrativa e arquétipos de personagens foram praticamente tirados do longa de 1996 e implementados – com muita habilidade, vale ressaltar – na televisão. Não levo isso como um defeito em si, mas como algo que poderia ser melhor aproveitado. E foi o que Noah Hawley fez no segundo ano da produção do FX: tudo mudou, mas a essência irônica e excêntrica da criação dos irmãos Coen foi mantida com originalidade.

Ambientada em 1979 na cidade de Luverne, Minnesota, Fargo retornou com a difícil tarefa de orquestrar quatro núcleos diferentes e narrar a caminhada de seus personagens até o massacre de Sioux Falls, mencionado na primeira temporada por Lou Solverson (então vivido por Keith Carradine, papel segue no segundo ano para Patrick Wilson), o pai de Molly e agora protagonista da série. O ainda jovem policial precisa investigar um sangrento crime envolvendo a criminosa família Gerhardt; o estranho casal Peggy (Kirsten Dunst) e Ed Blumquist (Jesse Plemons); e o conflito entre os criminosos locais e a máfia de Kansas, com sua trupe liderada pelo filosófico Mike Milligan (Bokeen Woodbine).

No início do primeiro episódio é possível notar que o humor negro será um personagem recorrente. Logo quando Rye Gerhardt (Kieran Culkin), filho mais novo do casal Floyd (Jean Smart) e Otto (Michael Hogan), entra em cena e discute com seu irmão Dodd (Jeffrey Donovan), Fargo antecipa em apenas algumas linhas de diálogo a bagunça absurda que aguarda os personagens nos próximos capítulos.

Mesmo que o humor por vezes ácido e característico das produções dos irmãos Coen – produtores executivos da série – apareça com frequência, a maneira como ele é implementado acaba sendo o diferencial. Por mais que todos os personagens contribuam para o ar cômico em algumas cenas, eles fazem isso sem perder a seriedade e densidade de suas personas. Os momentos genuinamente dignos de uma comédia são fruto de situações absurdas e personagens preparados para isso, como Karl Weathers (Nick Offerman), o único advogado da cidade que claramente tem uma personalidade inspirada em Walter Sobchak (John Goodman), de O Grande Lebowski, e rouba a cena em seus poucos minutos de tela.

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Já a seriedade do programa alcança um nível muito mais profundo do que o visto na primeira temporada. Abandonando o simbolismo e alegorias dos primeiros dez episódios – que levaram muitos a acreditar que o Lorne Malvo de Billy Bob Thornton fosse o próprio diabo -, Fargo volta com uma proposta um pouco mais desenvolvida. O contexto social da época é refletido de maneira quase que intimista em seus personagens, fazendo com que o tempo de tela de cada um deles seja relevante não só para o andamento da trama, mas também para a construção daquele universo recheado de um medo sutil e momentos que flertam com o realismo mágico. Desde o papel de uma mulher na estrutura familiar da época, bravamente desafiado pelas personagens de Dunst e Smart – ambas entregando performances sensacionais -, até a apreensão trazida pelos conflitos governamentais e internacionais da época, a série balanceia com perfeição o absurdo e uma teórica vida normal.

[Cuidado, possíveis spoilers abaixo!]

A palavra “absurdo” não foi mencionada tantas vezes por nada. A premissa de Fargo basicamente se apoia nas incoerências que resultam de pequenos crimes e como eles influenciam a vida de todos os envolvidos. Porém, essa temporada não se reservou apenas aos inesperados surtos de violência que acabavam por reduzir o número de personagens e aumentar a contagem de cadáveres. A inesperada presença de alienígenas é um fator determinante para a trama da série desde seu primeiro episódio, quando Rye para no meio da estrada ao avistar um disco voador e é atropelado por Peggy. A imprevisibilidade desses pontuais e inimagináveis eventos adicionam um charme – com o perdão do trocadilho – de outro mundo ao programa.

Fargo aposta sempre na capacidade do espectador de aceitar que as decisões e ações de seus personagens são nada menos do que dignas de suas problemáticas e complexas personalidades, desafiando sempre essa habilidade de aceitação por tomar direções inesperadas que, por mais absurdas que sejam, sempre soam naturais e friamente calculadas para encaixar no complexo esquema de eventos do seriado. Mike Milligan, por exemplo, representa parte do sentimento de inquietação passado, já que sua presença ganha um tom ameaçador uma vez que imprevisibilidade e astúcia se tornam aspectos marcantes de sua persona. Toda a expectativa em torno do que o personagem seria capaz só se torna realidade quando ele abandona seus incríveis monólogos filosóficos para liquidar três personagens introduzidos de uma maneira tão cerimoniosa que era fácil confundi-los como grandes reforços ao elenco.

Balanceada com perfeição entre momentos inesperados e grandiosos com suas cenas mais intimistas, Fargo fecha com maestria sua segunda antologia pontuada por personagens e atuações excêntricas e uma trama que funciona no melhor estilo Coen, homenageando várias produções dos consagrados diretores mas criando uma personalidade forte sem perder a sua essência.

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