O frenético Liverpool x City e uma reflexão sobre a intensidade do jogo na Premier League

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POR RENATO RODRIGUES, na ESPN

Liverpool e Manchester City, no último domingo, protagonizaram um jogo com a essência da Premier League. Não faltaram transições, duelos pessoais, brigas em 1ª e 2ª bolas, gols… Mas a palavra mais certa para definir o confronto e, principalmente, a liga em que as duas equipes jogam é intensidade. Termo que, apesar de muito usado em solo brasileiro nos debates sobre futebol, não é totalmente compreendido.

Intensidade também inclui ações com bola e existem diversas maneiras de a ter com a posse. A velocidade de execução (tempo em que o jogador domina e passa/finaliza/lança), por exemplo, é um dos pilares deste conceito.  A mobilidade, como deslocamentos para achar linhas de passe, também entra dentro deste pacote. A rapidez na tomada de decisão idem. E temos também a reação após a recuperação da bola, que nada mais é o quanto você demora para atacar um espaço,  para dar uma opção de passe ou  infiltrar no exato momento em que recupera a posse. Ou seja, intensidade é bem diferente de “correria”, como muitos acham.

A organização e a criação de um modelo de jogo que se integre ao tipo de jogadores e clube que está também são de extrema importância. Intensidade sem estrutura, sem uma ideia por trás, vira um catado. É correr errado apenas.

No duelo do último domingo em Anfield vimos muito disso. Um jogo frenético. O alto número de ações com e sem bola, principalmente do Liverpool, nos dá uma dimensão de como foi o jogo e nos dá uma referência na hora de “medir essa intensidade”. Ao melhor estilo Jürgen Klopp, os Reds pressionaram a bola a desde o início, atrapalhando muito a saída de bola da equipe de Pep Guardiola. Na recuperação, acelerava e atacava espaços em profundidade. Firmino, em mais uma ótima atuação, flutuava por todo terço final, abrindo espaços e jogando com um ou dois toques, ajudando a desequilibrar a defesa de Manchester.

O duelo entre Arsenal e Chelsea (2×2) foi outro que também chamou a atenção neste sentido. Ainda mais por ter acontecido em meio ao boxing day (período no campeonato inglês com jogos seguidos em um curto espaço de tempo, que considero bastante inadequado, inclusive). Claro que os dois jogos citados aqui são de equipes gigantes, onde a qualidade técnica é maior pelo poderio financeiro, mas é possível ver tal velocidade, tal ritmo, tal intensidade, em jogos de menor porte também.

Obviamente que a Premier League é uma das (ou a) liga mais intensa do mundo. Seria até leviandade compará-la com o futebol praticado no Brasil neste sentido. Mas se olharmos para outros centros como Espanha, Alemanha, Itália e até Portugal, ainda estamos bastante atrás. Convivemos por aqui com um jogo lento, muitas vezes com posses pouco objetivas e, principalmente, quase sempre pragmáticos. Um arroz com feijão mal feito. Uma sonolência que tem a ver com a nossa cultura de jogo.

“Ah, mas os caras têm muito dinheiro!”, “Mas os melhores jogadores estão lá!”, “Vai jogar em Caruaru às 16h para você ver se tem intensidade!”… São vários os argumentos que recebi após levantar este assunto no Twitter. Todos com seu valor, inclusive. Já que englobam nas justificativas para um jogo tão pouco intenso que vemos no Brasil.

Claro que a qualidade técnica é essencial para a boa prática do futebol. E é fato que nossos grandes jogadores já não estão por aqui. Mas apesar de tudo isso, não poderíamos fazer mais? Somos um dos países que mais carregam a bola no futebol mundial. Ainda não achei uma estatística que comprove isso, mas a olho nu é bastante perceptível.

Cada lugar tem sua cultura e sua forma de ver/jogar futebol. Não dá para nós brasileiros abrirmos mão do nosso estilo. Quando cobramos uma melhora na qualidade do nosso jogo, não queremos simplesmente copiar. Mas sim adequar as boas lições que outros lugares podem nos dar e adaptá-las à nossa realidade, sem perder nossa essência. E o nosso problema vai além de dinheiro, qualidade técnica, organização… Tem a ver como tratamos e desenvolvemos futebol.

Primeiro que nossos métodos são ultrapassados. Claro que isso não é praxe de todos nossos treinadores, mas ainda enxergamos por aí treinamentos longos e exaustivos. Muitas vezes utilizando todas as dimensões do campo. Trabalhar espaço reduzido e em menor tempo tem sido a tônica nos grandes centros. E faz sentido. Você diminui o espaço, cresce as ações. Com o aumento de toques na bola, aumenta-se a participação de cada atleta. Mais ações = a mais intensidade.

Também não adianta fazer um treino em campo reduzido e usar a continuidade nele. Por exemplo: faça um 6 vs 6, mas jogue os jogadores 40 minutos neste exercício. Depois de 15 minutos a intensidade dos movimentos começará a cair de força gradual. Por conta disso os exercícios intervalados são bem mais usados nos grandes centros do mundo. Ainda em cima disso, entram os objetivos destes treinamentos. Largura para trabalhar amplitude (abrindo o campo), cumprimento para trabalhar profundidade, regras para levar a bola num devido setor ou mesmo estimular algum tipo de comportamento nos atletas… O repertório é vasto e exige criatividade dos treinadores, já que eles precisam sempre ter um objetivo final para aquele exercício, sempre pensando em refletir este conteúdo no jogo.

Nosso calendário apertado também vira um vilão nestas horas. Em ano de Copa do Mundo a situação se agrava muito, já que algumas equipes não terão nem 15 dias para realizar uma pré-temporada decente. Inclusive já pontuamos por aqui a importância desse período (clique aqui). Ou seja, já se começa errado por aqui. E, inevitavelmente, essa demanda vai ser cobrada lá na frente. Questões como a temperatura também entram no pacote. Aqui os dias e regiões quentes castigam qualquer atividade física.

Mas temos também a nossa cultura de “picar os jogos”. Caímos no chão após qualquer choque para esfriar o jogo. Fazemos bolinho no árbitro. Retardamos cobranças de tiro de meta. Enquanto alguns querem jogar a todo custo, nós queremos apenas ganhar. E não importa a forma como isso vai acontecer. São pequenas atitudes que colaboram para a qualidade do nosso jogo. A arbitragem, que ainda sofre com sua não profissionalização, também ajuda a complicar o cenário.

Está mais do que na hora de darmos este salto de qualidade no futebol praticado em solo brasileiro. O produto que oferecemos está longe de ser interessante. Enquanto isso, perdemos cada vez mais espectadores. Os estádios esvaziam. Se vende menos, se paga menos. E para dar os primeiros passos nessa direção, a primeira coisa que precisamos é aprender ver o futebol num todo. Aceitar que ele é sistêmico e deixar de individualizar problemas, já que são várias as questões que o cercam. A mudança é necessária. E ser auto-crítico está longe de ter síndrome de vira-lata. Queremos mais porque podemos mais.

Análise interessante. 

Um comentário em “O frenético Liverpool x City e uma reflexão sobre a intensidade do jogo na Premier League

  1. Em ouro comentário aqui no blog afirmei que o futebol inglês já evoluiu muito tecnicamente, mas ainda não consigo ver um jogo por inteiro da Premier League. Justamente por causa da correria. A bola ainda é pouco trabalhada e o toque individual refinado de craques como Messi, Cristiano Ronaldo, Griezmann seriam ofuscados no meio da intensa correria. Felipe Coutinho sai feliz do Liverpool para o Barça sabendo que seu futebol evoluirá e se revelará para o mundo. Portanto, nem oito nem oitenta. Nem correria nem individualismo inútil, pois futebol é esporte coletivo. Ainda vários degraus acima estão alemães, espanhóis, italianos e portugueses em termos de futebol.

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