Marilena Chauí defende diálogo da esquerda com o ‘subproletariado’

A filósofa e professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, Marilena Chauí, defende aproximação dos movimentos de esquerda com a nova classe trabalhadora, que surge sobretudo da precarização do trabalho pela perda dos direitos trabalhistas e dos programas sociais.

“Não sabemos o que pensam as pessoas que estão voltando à condição de miséria. Em São Paulo, o grau de exclusão atingiu uma situação alucinante, com desempregados morando nas ruas com suas famílias, o que não se via nem durante a ditadura e nem no governo de Fernando Collor. Ao mesmo tempo, em um contexto neoliberal, surgem uma nova classe trabalhadora totalmente precarizada e mais miséria. Não temos a dimensão de seus valores e percepção política e eleitoral”, disse Chauí nesta sexta-feira (12), em entrevista aos blogueiros Wellington Calasans e Romulus Maya, do Duplo Expresso.

A filósofa considera essa distância da esquerda um “problema gravíssimo”. “Tenho estudado o assunto e não vejo as esquerdas pensando nisso”, disse, ressaltando considerar que a vitória de João Doria (PSDB), para prefeito de São Paulo, não é uma simples vitória da abstenção.

“Há o grande risco de envolvimento dessa nova classe trabalhadora no processo de despolitização, da crença de que a política é corrupta e que você precisa é de um gestor. A mídia vem construindo imagens para nomes com chances de vir a ser candidatos à Presidência da República. Lula é apresentado como messiânico, populista, salvador; Bolsonaro como o nome da segurança e da ordem, e Geraldo Alckmin como o grande gestor. Nenhuma dessas imagens é política”, disse.

Ela destacou que esse diálogo é importante para o debate sobre caminhos para a desconstrução de ideologias neoliberais baseadas na supervalorização do empreendedorismo como alternativa ao emprego, ao desmonte e privatização do estado com perda de direitos. (Do Sul21)

2 comentários em “Marilena Chauí defende diálogo da esquerda com o ‘subproletariado’

  1. Não sei em SP, mas, aqui em Belém, até agora, o que se vê nas ruas é o mesmo que se via antes. Não que eu esperasse que houvesse melhoras, muito pelo contrário. Apenas registro o que eu vejo.

    Nos sinais de trânsito, nas marquises, nas igrejas, nas calçadas dos bares, nas paradas de ônibus, no interior dos coletivos, o que se vê é o mesmo número elevado de pessoas em condições de hipossuficiência, de risco, enfim, de completo desamparo em que sempre viveram. Isso sem esquecer das filas dos hospitais.

    Um dado que me parece ter aumentado a frequência diz respeito às funestas intervenções do carro preto e do carro prata.

    No interior, com o inverno e a chegada da temporada dos alados vou poder constatar se piorou alguma coisa nas localidades pelas quais costumo peregrinar aos finais de semana.

    Mas, o que eu noto é que se é verdade que há este distanciamento das esquerdas do subproletariado, tal não tem repercutido no eleitorado, posto que o ex, segundo as pesquisas vem cada vez mais se consolidando na liderança do pleito de 2018.

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  2. Ela tem razão, mas isso não é novidade.

    É preciso um grande esforço de esclarecimento.

    Um exercício simples. Muito se disse que o governo Lula era uma certa continuidade de FHC. Portanto, seguindo essa mesma lógica, seria plausível considerar que Serra, candidato de FHC, teria feito o mesmíssimo governo de Lula e alcançado os mesmos resultados. Mas a realidade mostra que não é por aí. Serra queria privatizar a Petrobras, a Eletrobras, etc… Serra não teria arriscado no pré-sal e, se tivesse, não faria a Lei de Partilha e nem a de conteúdo nacional. Serra é um tucano. Serra é entreguista e, não fosse a pausa socialista, a política neoliberal tucana já nos teria transformado num imenso Haiti.

    Outra razão prática. No período do boom das commodities, houve a destinação de mais recursos para a saúde e para a educação e, nesse mesmo período, o crescimento das políticas sociais, principalmente do Bolsa Família. Ao fim e ao cabo, o PIB multiplicou-se por cinco. Muitos avaliam que todo esse crescimento deveu-se apenas ao boom das commodities. Isso não é toda a verdade. E por quê não é toda a verdade? Por que as commodities não respondem sozinhas pelo PIB nacional, ainda que sejam parte importante da produção brasileira. Se, e somente se, o PIB fosse totalmente integrado por commodities e toda a cadeia de suprimento da produção primária, haveria uma relação direta entre alta/baixa de commodities e alta/baixa do PIB. Mas o setor que mais contribui com o PIB é o terciário, com cerca de 2/3 do PIB.

    Ou seja, o Brasil cresceu com os governos progressistas do PT. A retórica de que é tudo coincidência por causa do boom das commodities ou que o trabalho duro foi feito por FHC nos anos 90 é pura falácia. O discurso tucano é conversa pra boi dormir.

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