Emerson se despede do Papão

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O goleiro Emerson não chegou a um acordo para renovação de contrato com o Paissandu, encerrando seu ciclo no clube e uma participação inesquecível em momentos importantes da história do clube. Sobre isso, a Assessoria de Comunicação distribuiu na tarde desta segunda-feira o seguinte comunicado:

“O Paysandu Sport Club agradece encarecidamente ao goleiro Emerson pelas três temporadas em que defendeu de forma honrosa, profissional e competente a camisa bicolor. De 2015 a 2017, o jogador conquistou dois títulos de campeão paraense e um da Copa Verde. Também ajudou o Papão a chegar, pela segunda vez na história, às oitavas de final da Copa do Brasil, em 2015.

Ao todo, Emerson disputou 165 partidas entre Campeonato Paraense, Copa Verde, Copa do Brasil e Série B do Brasileiro. Ele também ganhou três vezes o prêmio de melhor goleiro do Parazão (Troféu Meio-de-Campo, em 2016 e 2017, e Troféu Camisa 13, em 2016) e um prêmio de craque do Parazão 2016 (Troféu Camisa 13).

O ciclo do goleiro na Curuzu termina no fim deste mês, mas o nome de Emerson ficará para sempre gravado na história do Paysandu Sport Club. Muito obrigado, Emerson!”

O lado obscuro do ‘milagre econômico’ da ditadura: o boom da desigualdade

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POR BEATRIZ SANZ/HELOÍSA MENDONÇA

O Brasil polarizado tem reproduzido uma frase que estava na boca de alguns saudosistas de tempos em que notícias sobre violência e economia em marcha lenta pareciam raras. “Na época dos militares era melhor”, tornou-se bordão de quem viveu aqueles anos, e ignora a repressão e a presença de censores nos jornais da época para filtrar notícias negativas à ditadura.  A ideia ressurgiu inclusive entre jovens que se anunciam eleitores do pré-candidato à presidência Jair Bolsonaro, por acreditar que no tempo do regime militar o Brasil era mais alentador do que os dias atuais. Bolsonaro alimenta essa ideia tecendo elogios ao período. Entre os argumentos mais utilizados pelo candidato e pelos defensores da intervenção para mostrar a eficácia do regime está a conquista do “milagre econômico”, que ocorreu no Brasil entre 1968 e 1973. De fato, nesta época, o país conseguiu crescer exponencialmente, cerca de 10% ao ano, e atingiu, em 1973, uma marca recorde do Produto Interno Bruto (PIB), que aumentou 14%. O avanço veio acompanhado também de uma forte queda de inflação. A taxa, medida na época pelo Índice Geral de Preço (IGP), caiu de 25,5% para 15,6% no período.

A melhora na atividade econômica se explicava, à época, por uma combinação de fatores. Uma conjuntura mundial mais favorável naqueles anos permitiu crédito externo farto e barato, por exemplo. O Brasil, por sua vez, criou regras que facilitaram a entrada de capital estrangeiro e investiu num programa de desenvolvimento do parque industrial além de reformas estruturais. O crescimento foi acompanhado pela abertura de novos postos de emprego no mercado formal e da expansão do consumo interno. Economistas ouvidos pelo EL PAÍS explicam que o milagre aconteceu principalmente regado a dinheiro internacional que aterrissou através da entrada de multinacionais que encontraram no Brasil um terreno propício para a expansão sob a tutela dos militares, e também por empréstimos advindos de fundos internacionais. Era um ambiente oposto ao do período anterior ao golpe de 1964, quando a grande convulsão política, em plena guerra fria, no país tornava o ambiente econômico incerto e afugentava o investidor.

Problemas sociais

Como a distribuição dos resultados do crescimento econômico foi bastante desigual, a concentração de renda também aumentou muito no período, especialmente entre a população que possuía um grau maior de instrução. Isso fez com que a desigualdade social conhecesse níveis nunca vistos antes. Em 1960, antes da ditadura, o índice de Gini, utilizado para medir a concentração de renda estava em 0,54 (o coeficiente de Gini vai de 0 a 1, quanto mais perto de 1, mais desigual) e pulou para 0,63 em 1977. Os economistas foram unânimes em dizer que os empresários e a classe média que possuía maior nível de instrução foram beneficiados em detrimento da parte mais pobre da população.

Os altos índices de crescimento do PIB vividos enquanto a ditadura esteve instalada no país também não foram acompanhados de uma melhora nos indicadores sociais. Foi exatamente o oposto do que aconteceu.

Além disso, como o governo militar fez uma escolha de investir maciçamente na industrialização, inclusive do campo, muitas pessoas decidiram abandonar o sertão com o sonho de tentar uma vida melhor na cidade, incentivando um êxodo rural sem planejamento e nunca revertido. Segundo o IBGE apenas 16% da população morava no interior do país em 2010.

O crescimento econômico durante a ditadura começou a ser alavancado durante o Governo de Castelo Branco, que adotou um ambicioso programa de reformas para equilibrar as contas públicas, controlar a inflação e desenvolver o mercado de créditos. Batizado de Plano de Ação Econômica do Governo (PAEG), ele foi responsável por reformas fiscais, tributárias e financeiras. Castello Branco implementou diversas medidas no sentido de incentivar um maior grau de abertura da economia brasileira ao comércio e ao movimento de capitais com o exterior. A partir de 1964, também foram introduzidos na legislação brasileira diversos mecanismos de incentivos às exportações.

Mas foi no Governo do general Emílio Garrastazu de Médici, sob o comando do então ministro da Fazenda, Antonio Delfim Netto, que o projeto econômico teve como princípio o crescimento rápido, com expressivo aumento da produção – com destaque para indústria automobilística- e grandes obras de infraestrutura. “O Governo apostou em grandes obras e investimento estimulando o setor privado e usando o crescimento como propaganda para legitimar o regime durante a época mais repressiva da ditadura. Era muito importante que ele tivesse apoio de uma parte da sociedade”, explica Muller.

Foi nessa época que nasceu o primeiro Plano Nacional de Desenvolvimento (IPND). O plano investiu principalmente na construção de estradas e obras de infraestrutura, como por exemplo, a Ponte Rio-Niterói (começou em 1969 e foi inaugurada em 1974) e a nunca terminada rodovia Transamazônica.

Crise do petróleo

Na crista do ciclo do crescimento, a economia brasileira tão dependente de empréstimos estrangeiros, passou a enfrentar certa dificuldade quando uma forte crise econômica abalou o cenário internacional: o choque do petróleo. Conflitos entre países membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) derrubaram a oferta do insumo entre 1973 e 1974, fazendo os preços quase quadruplicarem no período (o barril subiu de três dólares para11,60), afetando países importadores como o Brasil.

“Com a crise internacional de 1973, temos uma quebra deste modelo econômico baseado no alto endividamento externo e, com isso, a economia vai perdendo força”, afirma o historiador Pedro Henrique Pedreira Campos, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Como a estabilidade econômica era um argumento essencial para a manutenção do governo militar, os economistas que faziam parte do regime optaram por não abrir mão do modelo e decidiram que o país deveria continuar crescendo a qualquer custo, mesmo que continuasse se endividando cada vez mais.

Foi nesse contexto que surgiu o segundo Plano Nacional de Desenvolvimento (IIPND), este ainda mais ousado que o primeiro, que investiu especialmente na criação e expansão de empresas estatais. A Petrobras ganhou subsidiárias, a usina hidrelétrica de Itaipu foi construída, mostrando o quanto a geração de energia era uma bandeira importante naquele momento em que o Brasil ainda não tinha uma matriz energética estabelecida e necessitava da importação desse bem.

Muller destaca que “os militares tinham planejamento a longo prazo” e que a ideia inicial era de que o país ficasse independente da importação de energia e começasse a gerar renda com a sua produção própria, essa renda seria utilizada para saldar a dívida externa. O plano deles, entretanto, não contava com a retração das maiores economias que, em determinado momento, chegaram para cobrar a fatura. A crise se prolongou mais do que o Governo imaginava.

Mas a conta do crescimento desenfreado baseado em um alto grau de endividamento ficou para a redemocratização. Ao deixarem o poder em 1984, a dívida representava 54% do PIB segundo o Banco Central, quase quatro vezes maior do que na época que eles tomaram o poder em 1964, quando o valor da dívida era de 15,7% do PIB. A inflação, por sua vez, chegou a 223%, em 1985. Quatro anos depois, o país ainda não tinha conseguido se recuperar e ostentava um índice de inflação de 1782%. No jargão econômico, costuma-se dizer que os militares deixaram uma “herança maldita”.

“Embora o regime tenha aparelhado muito bem grande parte do nosso parque industrial, melhorado em aspectos técnicos e tecnológicos a infraestrutura, quando veio a conta, a conta veio muito alta”, explica Guilherme Grandi, professor da Faculdade de Economia e Administração da USP (FEA/USP)”

Os militares e a corrupção

Outra percepção recorrente é a de que no período da ditadura não havia corrupção. “Vários estudos já comprovaram que existia corrupção e era mais fácil que esses malfeitos ocorressem porque não havia investigação”, ressalta Grandi. Segundo ele, a relação promíscua entre interesses privados e órgãos públicos foi aprimorada nesse período.

Pedreira Campos é autor do livro Estranhas Catedrais: as empreiteiras brasileiras e a ditadura civil-militar, 1964-1988 que analisa mais profundamente essa relação. “Houve vários casos de corrupção na ditadura, principalmente no período da abertura envolvendo agentes do estado que foram acusados de se apropriar de recursos públicos”.

A ausência de notícias sobre corrupção no período tem também outra explicação. O Brasil viveu sob um regime de censura que foi estabelecida nos meios de comunicação que estavam orientados a publicar notícias que fossem favoráveis ao governo. E é por conta dessa propensão a maquiar a realidade que notícias denunciando escândalos de corrupção não estampavam a manchete dos jornais. “Um cenário como esse é ideal para a prática da corrupção, os indícios indicam que havia mais corrupção naquele período”, completa Pedreira Campos.

Rival do Grêmio, Lanús é forte em campo. Fora, tenta consertar o mundo

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POR JOZA NOVALIS, na ESPN

Para muitos, a presença do Lanús na final da Copa Libertadores é surpresa; para poucos outros, não. Isto porque estamos falando de um clube que leva planejamento a sério como nenhum outro na América Latina. Planos para um ou dois anos; para cinco, 10, 20, 30 anos. Mudam as gestões e ninguém ousa mexer naquilo que foi estabelecido. No clube, não se vê a relação promíscua entre dirigentes e barras bravas, tão comum aos demais clubes do país. Não se apresentam dirigentes despreparados aos microfones etc.

O suporte ao técnico Jorge Amirón é de chamar a atenção. Há uma equipe gigantesca de profissionais, responsável até pela previsão de problemas como o da greve dos jogadores, no início de 2017. No clube, os dirigentes não esperam resultados para o anúncio de suas intenções. Foram a público e disseram: “Vamos priorizar a Libertadores e jogaremos o campeonato local com reservas”.

E assim foi feito. O Lanús parece ter domado a demagogia que toma conta da maioria dos clubes da América do Sul. Contudo, nem sempre foi assim. Por isso, antes de falarmos sobre como joga o rival do Grêmio, vamos entender um pouco de onde vem a grandeza do Granate.

Não há nenhum clube da América Latina que se doe tanto à sua comunidade quanto ao Lanús. As ações são tão numerosas que não caberiam neste texto. Vamos, porém, a alguns exemplos.

Se há um hospital no município que necessite de aparelhagem, o clube resolve. Porém, o mais interessante é a convicção de que a ajuda não pode ficar apenas na compra de um aparelho. Ela tem de abarcar o aperfeiçoamento de todos os serviços prestados à comunidade pelo hospital.

Ou seja, se o clube resolve ajudar uma instituição, ela precisa ser outra, completamente renovada, após a intervenção do Granate. Objetivo final desta e de todas as outras campanhas consiste em melhorar o padrão de vida das pessoas. No início, isto se voltava exclusivamente para o bairro. Mas, nos dias atuais, também para toda a grande extensão do município de Lanús. Há o “Dia da Criança no Grana”, no qual a garotada participa de atividades de recreação e cada uma leva uma sacola com presentes para casa.

Esta campanha é um seguimento de outra, que leva e apresenta o clube aos pequenos torcedores. Em vista, o aumento da torcida, no futuro. Jogadores visitam escolas, levam presentes e doam material escolar para os necessitados. Além disso, em conjunto com as escolas, cria campanha de premiação por aproveitamento escolar. Jogadores também vão a hospitais infantis visitar vítimas de doenças graves, como câncer. Mas não fica somente nisso.

O Lanús tem recuperado várias instituições de bairros, algumas falidas ou já fechadas, como clubes e associações de amigos. O clube recupera suas instalações, aumenta o número de quadras, constrói campos de futebol, vestiários, lanchonetes, enfim, cria espaços de recreação para que as pessoas tenham opções de lazer. Alguns desses clubes recuperados são para todos; outros, passam a ser exclusivamente para mulheres ou para crianças.

O Granate tem o propósito de que nenhuma criança do município fique nas ruas sem ter o que fazer. No inverno, o clube promove a campanha “Frio zero”, que consiste em doar comida e roupas para os moradores de rua e outros necessitados. A partir do sucesso desta campanha o clube criou outra, a “Ação pelos sem tetos”, que acontece regularmente e que distribui comida a cerca de 300 pessoas no município, duas vezes por semana.

Em geral, um bom número de profissionais se junta, oferecendo serviços como consulta oftalmológica, distribuição de material de higiene, entrega de roupas e até ações mais simples, como o corte de cabelo, são executadas.

Enfim, são inúmeras campanhas e elas exigem muito dinheiro. De onde ele vem? Quase nada do clube, mas das empresas, de doações particulares. E quanto à mão-de-obra, de pessoas que atendem ao chamado do clube e espontaneamente se apresentam para ajudar.

Mas por que todo mundo confia no Lanús? Quem garante que se eu doar uma soma em dinheiro ela não vai parar na conta de algum dirigente? Quase impossível de acontecer. Credibilidade do Granate está prestes a fazer aniversário de 40 anos.

O que dirigentes podem fazer para afundar um clube. E o contrário 

Em 1977, o Lanús fez uma campanha terrível na primeira divisão e foi para uma partida desempate contra o Platense. Em jogo, a permanência na elite argentina. Uma torrente de água caia sobre o Viejo Gasómetro, local da partida. O duelo terminou empatado e foi para os pênaltis. Foram 20 cobranças sem que nenhum levasse vantagem.

Então, o goleirão do Lanús foi para a cobrança e perdeu. Pela regra, era o momento de o goleiro do Platense cobrar. No lugar dele, bateu um atacante, que guardou a pelota no arco e saiu para o abraço. O Calamar seguia na elite e o Lanús caia para a segunda divisão.

Dirigentes reclamaram com o árbitro, mas de nada adiantou. Dias depois, recorreram à AFA. Copa do Mundo estava prestes a acontecer e a entidade não queria problema. Ofereceu ao Granate a possibilidade de retornar e jogar na elite ou uma boa soma em dinheiro aos seus dirigentes para que o clube seguisse na segundona e eles se calassem. E os dirigentes granates o que fizeram? Ficaram com a grana, que, aliás, não foi revestida ao clube.

No ano seguinte, a equipe caiu para a terceira divisão. O Lanús devia o equivalente aos dias atuais cerca de 80 milhões de dólares – uma catástrofe para um clube pequeno – e sofria com mais de 200 processos judiciais. Torcedores, revoltados, não iam aos jogos, sócios eram 2 mil e diminuíam a cada dia, um caos.

Foi então que em meados de 1978, uma ala de jovens dirigentes transforma os velhacos em “rainhas da Inglaterra” e toma o poder de fato no clube. Entre eles, estava Néstor Díaz Pérez, que hoje empresta seu nome a um dos maiores estádio da Argentina, mas que então não passava de um amontoado de tábuas. Os novos dirigentes reaproximam o clube dos torcedores, e se comprometem a tornar público o destino de cada centavo que a partir de então entraria na instituição.

Muitos desses dirigentes vão diretamente às residências dos hinchas; mostram as intenções, as propostas, os projetos. O primeiro deles, falava em voltar à segunda divisão em dois anos; à elite, em dez. Depois disso, o objetivo seria o de não ser rebaixado nos cinco anos subsequentes.

Institucionalmente, um dos projetos falava em reconstruir o estádio e torna-lo moderno e motivo de orgulho em dez anos. Além disso, tornar a dívida administrável e reduzi-la a cada ano. Para termos uma ideia do que representava a iniciativa, é instaurada imediatamente uma comissão de estudo, revisão e redução da dívida e de apontamento de sua responsabilidade.

Esta comissão passa a ocupar o lugar de presidente do Lanús, inicialmente por tempo indeterminado, mas, depois, ficando no comando até dezembro do mesmo ano. A resposta foi a melhor possível e os torcedores voltam a apoiar a equipe nas arquibancadas. O que aconteceu, na prática, foi a refundação do Lanús. Com ela, nasce um novo clube que abomina e combate a corrupção justamente em tempos de ditadura, nos quais acobertar roubalheira é prática comum, no caso, em todos os clubes de futebol.

Resultados não demoram a aparecer. O clube torna-se campeão da terceira divisão, dois anos depois, já somando dez mil sócios. Desses tempos para cá, o Lanús deixou de ser uma piada ao Sul da Grande Buenos Aires para se tornar um clube modelo a ser seguido.

Realidade à frente das paixões

Em 2015, os irmãos Schelotto deixaram o comando do Lanús, após três anos e meio de glórias, coroados com a conquista da Sul-Americana de 2013. Eles haviam ficado famosos e caros e já eram disputados pelos grandes do futebol argentino. O Granate tinha condição de pagá-los em novo contrato, mas a decisão de não renovar era porque se a realidade do clube não é a mesma de Boca e River, então jamais vão pagar a um técnico um salário semelhante a um dos gigantes locais. E tem sido assim desde a chamada “refundação” do clube, em 1978.

A chegada dos irmãos Schelotto representara uma mudança de postura em vigor. Então, o clube tinha “cantera” para dirigentes, o que ainda existe, e para treinadores. Esses cartolas podem até levar jogadores do Lanús, mas não recebem ajuda financeira. Se eles conseguem salvar o pequeno clube da falência, então são aproveitados em La Fortaleza; do contrário, não. Com esta prática, o Lanús já evitou que 13 pequenos clubes do país deixassem do de existir.

Da mesma forma, em 2010, foi criada a “cantera” para técnicos que consistia em fazer com que um profissional treinasse os times menores até chegar à equipe principal. O projeto termina, menos de três anos depois, com a saída de Gabriel Schurrer e a chegada dos irmãos Barros Schelotto. Ocorre que a prática da “cantera” de técnico era só um efeito de outra pretensão: a de perpetuar no Lanus uma identidade de jogo voltado às teorias futebolísticas que têm nos técnico argentinos alguns dos principais teóricos no mundo do futebol.

Com a presença dos “mellizos” (gêmeos) Schelotto, o que os dirigentes fizeram foi a troca da ideia da “cantera” pela da adoção de técnicos diferentes, mas que adotem a mesma proposta. A contratação de Jorge Almirón foi precedida de dois tipos de consultas. Uma delas, a cada um dos jogadores, perguntando sobre que tinha seu trabalho de semelhante ao de Barros Schelotto. A maioria deles apontou o nome do então técnico do Godoy Cruz. A outra consulta foi a especialistas. Também estes concluíram que Almirón era quem apresentava uma proposta parecida e até mais evoluída futebolisticamente do que a do “mellizos”.

Então ele chegou, ao mesmo tempo em que alguns dos principais atletas saíram, rendendo uma boa grana ao Lanús. Jogadores baratos ou da base foram colocados nos seus lugares. Proposta continuou a mesma e enquanto a maioria dos clubes argentinos aprofundava dividas, o clube do Sul da Grande Buenos Aires lucrava como poucas vezes na sua história.

Em junho de 2017, o contrato de Almirón foi renovado por apenas mais seis meses. Parece estranho, porém isto é somente mais um exemplo de que a realidade se sobrepõe às paixões, entre os dirigentes granates. O fato é que ocorre com ele o mesmo que se passou com os irmãos Schelotto: ficou importante, prestigiado e caro. O Lanús conta com a saída do técnico em 2018 e já estuda perfis para substituí-lo, quando acontecer.

Luta inglória em busca do anti-Lula

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POR FERNANDO BRITO, no Tijolaço

A fim da aventura Huck precipita definições de um quadro de uma sucessão presidencial fadada a permanecer com uma indefinição principal, até julho: se vai ou não se consumar o golpe da exclusão de Lula da disputa.

Ainda assim, sugere novas condições para o campo conservador, a mais evidente delas para um eventual reviver da candidatura de João Doria Júnior.

Embora já perdido o cheiro do verniz de novidade, é fato que Doria recebeu um pacote de sua farinata  para alimentar suas últimas pretensões de ser candidato a Presidente, moribundas, mas ainda esperançosas de receber uma transfusão de sangue  provinda de Michel Temer e de um PMDB com tempo de televisão, máquina partidária e sem candidato.

Alckmin, se ganha com o fim da possibilidade de que o “fernandismo” do PSDB vir a mergulhar do caldeirão, sabe que precisa “abrir o olho” com o temerismo crescente da ala mais governista do tucanato. Mas, sem dúvida, respira mais aliviado com a saída de Luciano Huck do páreo.

Bolsonaro, mais ainda porque, sem Huck, volta a ter expectativas de que, com a “roda presa” de Alckmin, só ele possa ser a “esperança branca” das próximas eleições. Com o animador de autitórios, seria impossível ou que já lhe é difícil: crescer além dos 15 ou 20% dos fanáticos envenenados pela mídia.

Creiam ou não, Bolsonaro torce para que Lula possa concorrer eque sua presença “justifique” uma alternativa feroz à direita.

O resto dos candidatos de si mesmos, a começar por Marina Silva – mas também Joaquim Barbosa –  celebram a desocupação do salão da tolice e sonham em bailar pelo espaço vazio que Huck ocuparia.

Todos eles, porém, têm uma quase intransponível dificuldade. Ou nunca empolgaram, como Alckmin, ou tropeçaram na própria empolgação, como Doria, ou ainda despertou empolgações em fanáticos que criam medo, como Bolsonaro.

A direita não encontrou um novo Aécio e perdeu o antigo, que seria seu candidato natural se não tivesse aderido, desde 2014, ao golpismo que o tragou. Já tinha morrido, mesmo antes de ser sepultado dentro de uma mala da JBS.