Sem Brasil

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POR FLÁVIO GOMES

Para muita gente, é o fim do mundo. Para quem tem alguma noção da realidade, era apenas uma questão de tempo e consequência de uma série de circunstâncias que envolvem o automobilismo em geral e o nacional, em particular. Pela primeira vez, desde 1970, uma temporada de Fórmula 1 não terá um piloto brasileiro no grid. Naquele ano, Emerson Fittipaldi fez sua estreia pela Lotus (foto) na sétima etapa do campeonato, o GP da Inglaterra. Foi, inclusive, a última temporada a começar sem um piloto do país inscrito entre os participantes. A partir de 1971, em todos os Mundiais a prova de abertura teve um brasileiro pronto para a batalha, firme e forte.

Oh, agora o que será de nós?

Bem, a Terra não vai parar de girar, lamento informar. Potências como França, Itália, Espanha e Alemanha também viveram seus períodos de vacas magras. Nem por isso esses países deixaram de acompanhar e de amar a Fórmula 1. Outros têm seus GPs há anos, ou tiveram, e jamais contaram com pilotos participando, como China, Turquia, Bahrein, Abu Dhabi, Coreia do Sul, Singapura… Malaios, japoneses, canadenses, austríacos e americanos também vêm e vão, e nem sempre com sucesso.

No Brasil, a julgar pelo tom dos comentários de algumas pessoas nas redes sociais — felizmente elas não representam o todo, espero que sejam uma minoria, embora barulhenta e chiliquenta –, a F-1 vai acabar e merece morrer e ser enterrada sem honra. Não vai. Pode ser que o público seja depurado, fenômeno verificado depois da morte de Senna. O fim trágico de sua carreira mostrou claramente que por aqui havia uma enorme massa de gente que gostava dele, não de corrida. Que se apropriava de suas vitórias “nas alegres manhãs de domingo”, e que ele servia mesmo para isso: melhorar o dia de algumas pessoas e suas vidas miseráveis.

Brasileiro é egoísta. Exige que seus atletas vençam e sejam campeões para que tornem seus dias mais felizes — dos torcedores, não deles, esportistas. Se não vencem e não são campeões, transferem suas frustrações a eles, atletas. São os culpados por nossos dias não serem melhores. É uma pobreza de espírito monumental.

Barrichello sofreu muito na pele essa “cobrança” de torcedores enfurecidos e frustrados, por anos a fio. A TV Globo tem muito a ver com isso, por vender expectativas falsas sobre as possibilidades que ele tinha de vencer corridas e campeonatos — quando não tinha; ganhar um GP era uma esperança remota diante de um companheiro tão melhor como Schumacher, e ser campeão, impossível. Por isso, sua imagem junto ao mui exigente torcedor de poltrona do Brasil é a de um simpático fracassado. E isso está acontecendo com Massa, agora.

Esse fã efêmero e carente não interessa a esporte algum. Se assiste a uma corrida apenas para ver um brasileiro correndo e vencendo, tem uma visão míope do esporte e da vida. A Fórmula 1, ao contrário do que muitos pensam, não perdeu a graça quando Senna morreu. E não vai perder a graça agora que não haverá um brasileiro no grid. Ela continua forte, exuberante, com momentos bons e ruins, será como sempre foi.

No dia em que o brasileiro médio compreender que esporte algum foi concebido para brasileiro ganhar — exceção feita às competições dominicais que a Globo inventa para tocar vinheta e hino, os “jogos mundiais de verão”, os “desafios internacionais de futebol de areia”, as “travessias universais do Arpoador” e coisas do gênero –, passará a gostar de esporte de verdade. Até lá, teremos de aguentar a depressão desse povo que não entende nada de nada.

7 comentários em “Sem Brasil

  1. FINALMENTE!
    A GLOBosta conseguiu o que ha anos (desde a morte de SENNA) vem tentando: enterrar a F-1 que nestes mesmos anos a tem obrigado mentir e mentir e mentir, para embebedar seus mais que midiotas telespectadores.
    O texto do excelente Flávio Gomes, além de ortográfica e politicamente correto, põe pingos nos ii na “conversa” e, ao tempo, baixa a porrada na mesma cambada midiota de poltrona que “tá nem aí” pro esforço individual ou coletivo dos atletas tupiniquins, preferindo, isto sim, estorquir-lhes vampirescamente o sangue, que os deixará mais corados. QUE SE EXPLODA A MIDIOTA!
    AVE, FLAVINHO!

  2. Por mim isso pode acabar, nem no tempo do Senna eu aguentava a monotonia de ver carros zumbindo pela TV, pra mim isso nao é nem esporte é hobby de ricaços.

  3. Com todo o respeito pelos aficcionados, eu também nunca me senti atraído, nem pela Fórmula 1, nem pelos respectivos “heróis”, brasileiros ou não, que dela emergem do automobilismo. No máximo, eu me permito deplorar os integrantes da crônica dita especializada, quando estes querem atrair para si destaque semelhante, ou até maior, do que aquele que efetivamente têm os protagonistas da modalidade. Aliás, procedo deste modo em qualquer modalidade esportiva.

  4. F-1 é igual golfe, tênis ou polo. É esporte de ricaço ou europeu que a vênus platinada insistiu e insiste em popularizar. É melhor continuar só no futíbol.

  5. O comentário de Gleydson expressa o que eu penso. Não assisto corridas nem de lesmas, que tem a vantagem de não fazer barulho. O único esporte que merece minha atenção, ainda, é o futebol.

  6. Essa excelente análise do Flávio Gomes pode ser estebdida ao futebol. Quando comparamos a média de público das equipes do país que disputam competições futebolísticas de forma claudicante com as mesmas médias de público de inúmeras equipes tão claudicantes em competições mundo afora, percebemos o que certa vez alguém de quem não lembro nome disse, com extrema sabedoria, de que “o brasileiro não gosta de futebol, gosta é de vitória”. Se ela não vem… nada feito.

    1. Certamente, amigo Malcher. O brasileiro torce com interesses claros. Quer vencer e vencer, apenas. Não importa como.

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