Aromas, temperos e sabores a serviço do turismo do Pará

POR GERSON NOGUEIRA

O turismo gastronômico move o mundo. Instrumento mercadológico consolidado há tempos nos países europeus, passou a ser visto como importante ferramenta cultural e de negócios no Brasil das últimas quatro décadas. A Amazônia, recanto idílico no imaginário dos visitantes estrangeiros, sempre teve nas receitas tradicionais um importante atrativo para outros povos. No Pará, essa tendência sempre foi mais forte, em vista da rica mistura cultural refletida na gastronomia herdada dos povos formadores – índios, negros e colonizadores portugueses.

A divulgação dos encantos gastronômicos do Pará gerou um fenômeno curioso e lucrativo para o turismo regional. Quando alguém se refere hoje a Belém faz de imediato uma conexão com as cores, aromas e sabores dos alimentos e produtos naturais do Estado. Receitas culinárias atualizadas e pratos de corte mais tradicional deliciam visitantes de toda parte, alçando o Pará à privilegiada condição de mais bem avaliado nas pesquisas feitas com turistas.

Recente pesquisa encomendada pelo Ministério do Turismo, divulgada pela Secretaria de Estado de Turismo (Setur), aponta a gastronomia paraense como a de maior aprovação pelos turistas estrangeiros: 99,2% dos entrevistados revelaram-se plenamente satisfeitos com o que consumiram em restaurantes, bares, lanchonetes, shopping center e praias paraenses. Nenhum outro Estado obteve tamanho índice de satisfação.

Muito se discute hoje o segredo do fascínio exercido pela gastronomia paraense. A forte influência das raízes indígenas explica boa parte do mistério. Tanto pelo sabor dos alimentos quanto pela curiosidade dos turistas.

A condimentação das comidas guarda estreita ligação com a herança cultural deixada pelos escravos africanos, aqui representada pelos costumes e hábitos dos povos quilombolas. Há, também, a expressiva contribuição da culinária de perfil português, por conta da presença dos colonizadores e seus descendentes.

Maniçoba

Pela força de sua gastronomia, o Pará despontou nos últimos 10 anos para o panteão dos Estados mais celebrados e admirados no segmento gastronômico, cativando visitantes e encantando especialistas. Caso do chef paulista Alex Atala, um dos mais prestigiados do país, que se tornou habitué da diversidade e abundância da feira do Ver-o-Peso.

Atala (foto ao lado) foi ciceroneado inicialmente por Paulo Martins, pioneiro e desbravador das fronteiras planetárias para a cozinha de natureza tipicamente paraense – hoje preservada pelo instituto que leva seu nome, presidido por sua filha Joanna Martins.

Com o tempo, eventos como o festival Ver-o-Peso da Cozinha Paraense entraram para a agenda dos maiores gastrônomos, pesquisadores e cozinheiros do Brasil e do mundo. Em meio a isso, surgiram novos nomes na culinária regional, como Tiago Castanho, hoje celebrado pela criativa mistura de itens de sua gastronomia e a inspirada recriação/releitura de pratos típicos da cozinha paraense.

No rastro das incursões de Atala, Morena Leite e outros chefs nacionais através da maior feira-livre a céu aberto do mundo, chegaram a Belém outros mestres da culinária, ávidos por conhecer a riqueza dos alimentos naturais, frutas, essências, folhagens, sementes, raízes e animais exclusivos do naco paraense da Amazônia.

A partir da descoberta, desembarcaram no Pará importantes divulgadores e influenciadores da gastronomia contemporânea, como o apresentador e chef norte-americano Anthony Bourdain, que passou por Belém fazendo o conhecido tour de degustações, experiência exibida ao mundo através de seu programa de TV.

Gastronomia do Pará (Foto - Fernando Sette) (4)

Todos, sem exceção, deixaram Belém seduzidos pelas delícias de seus pratos, entradas e sobremesas. Mais do que nunca, justifica-se em certo sentido o conteúdo dos versos famosos da antiga canção: “chegou ao Pará, parou; tomou açaí, ficou…”. É claro que todas as experimentações foram muito além do saboroso fruto que hoje é símbolo do Pará.

Na esteira desse avassalador sucesso de público e crítica, o turismo ganhou combustível extra, utilizando a culinária como alavanca para aumentar os índices de visitação ao Estado. Nos cartazes de apresentação do Estado ao público externo as imagens predominantes são pratos como a maniçoba, o vatapá paraense, o pato no tucupi, o casquinho de caranguejo, o tacacá, o pirarucu de casaca e peixes regionais, em inequívoca demonstração do irresistível apelo que a gastronomia paraense passou a ter aos olhos dos turistas do mundo inteiro.

Boa parte do total de pessoas (1.030.359, sendo 114.092 estrangeiras) que visitaram o Pará em 2016 está diretamente associada ao atrativo que a culinária representa hoje. Para 2017, com o incremento da divulgação no exterior, a expectativa é de que a tabulação de números se mostre ainda mais positiva, depois de quedas registradas nos últimos três anos.

As experiências mistas do turismo com a gastronomia têm sido bem-sucedidas em todos os âmbitos. Na recente Feira Internacional de Turismo, realizada entre agosto e setembro em São Paulo, as misturas irresistíveis de sabores pontificaram no evento, a partir de parcerias entre chefs paulistas e paraenses.

Vatapá paraense, reforçado com jambu

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ROTAS DO PALADAR NA COZINHA MAIS ORIGINAL DO PAÍS

Com base no mote “Pará, obra-prima da Amazônia”, o turismo tem colecionado importantes vitórias e avanços nos últimos anos, motivando operadores, jornalistas, produtores e agentes de viagens do trade turístico a olharem com mais atenção para as perspectivas oferecidas pelo Estado.

O caráter original da gastronomia terminou por dar vazão ao aparecimento de um novo circuito de restaurantes e bares orgulhosamente voltados para a mistura de produtos naturais do Estado, além de contribuir para que chefs estrangeiros viessem ao Pará em busca de novas ideias, inspirações e sabores.

maniçoba, do casquinho de caranguejo e dos peixes de água doce, mas passaram a ir além do tradicional, experimentando e oferecendo novas receitas, tendo como farol o pioneiro Lá em Casa, restaurante de Anna Maria Martins e do filho Paulo que foi um dos primeiros a apostar no cardápio essencialmente regional.

“Em qualquer mídia social que se observe, os posts da gastronomia paraense são os mais curtidos. Esse reconhecimento é resultado de todo um trabalho e luta de gerações e que nos traz ainda maiores esperanças de um futuro com mais sucesso”, observa Joanna Martins, neta de Anna Maria e filha de Paulo, expressando o pensamento predominante entre a nova geração de operadores da gastronomia paraense.

Filhote ao molho de tucupi e jambu

Já o secretário estadual de Turismo, Adenauer Góes, entende a gastronomia como peça-chave na formatação de produtos e rotas turísticas. “Temos um entendimento claro da importância da gastronomia, sob a ótica cultural, voltada a produtos turísticos, baseado naquilo que vem sendo construído ao longo do tempo e que propiciou esse fortalecimento da culinária paraense tanto no cenário nacional quanto internacional. Se hoje o Pará é uma referência nesse aspecto, isso é resultado da capacidade técnica dos chefs paraenses, dos equipamentos oferecidos, bem como dos insumos utilizados”, analisa.

A Setur investe no circuito gastronômico e incentiva a Rota do Queijo do Marajó, Rota da Comida Ribeirinha, na região insular de Belém, e a Rota do Peixe da Esquina, em Santarém, no polo do Tapajós. Estratégias que usam a profusão de sabores da gastronomia paraense como fator de atração de turistas e agregação de valor econômico ao produto turístico paraense.

Um sinal evidente da forte presença paraense na agenda turístico-gastronômica internacional foi o excepcional sucesso de evento promovido pelo governo português, em parceria com órgãos turísticos do Pará, em junho de 2014, em Lisboa.

Foi uma noite dedicada exclusivamente à apresentação de pratos da culinária paraense para deleite de um contingente seleto de gourmets e apreciadores da alta gastronomia, que ao final aplaudiu de pé a iniciativa, tendo o pesquisador e escritor Álvaro Espírito Santo como anfitrião.

(Crédito das fotos: Bruno Carachesti, Ney Marcondes e Wagner Santana/DIÁRIO DO PARÁ; Fernando Sette/SETUR) 

5 comentários em “Aromas, temperos e sabores a serviço do turismo do Pará

  1. Quer reconhecer um paraense numa rodoviária ou aeroporto? Procura quem anda com um isopor! Paraense costuma ser intimado a levar os sabores da terra pra onde quer que vá. Não há lugar onde eu vá que não perguntem pelo açaí, cupuaçu, a maniçoba e o tucupi. A curiosidade pela culinária paraense é grande. O Pará tem tudo para ser um destino do turismo gastronômico, sem dúvida.

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