Os ‘fuzilamentos’ de Bolsonaro

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POR JUAN ARIAS, no El País

Sou filho de uma guerra civil, a da Espanha, com mais de 1 milhão de mortos – a maioria fuzilados -, e de uma ditadura militar de 40 anos, marcada por mortes e intolerância com as diferenças. Talvez por isso, ao escutar de novo, em um vídeo, a palavra “fuzilar” na boca de Jair Bolsonaro, candidato a presidir o Brasil, senti arrepios. De acordo com suas palavras, “é preciso fuzilar” os responsáveis pela exposição de arte Queermuseu do Santander Cultural, em Porto Alegre. No vídeo, Bolsonaro repete três vezes com ênfase: “É preciso fuzilar”. E Freud nos ensina como a linguagem nos trai.

Hoje, o deputado Bolsonaro tira da gaveta o maldito verbo “fuzilar” contra os responsáveis por uma exposição de arte, não contra inimigos em uma guerra. Talvez porque meus sonhos ainda sejam às vezes perturbados pelo estouro dos fuzilamentos da minha infância, confesso que escutar de um responsável pela vida pública que aqueles que trabalham com arte e cultura devem ser fuzilados me perturba duplamente neste Brasil, país que escolhi para acabar meus dias e onde nem os mais idosos se lembram da última vez que houve uma guerra.

Esse chamamento a fuzilar os responsáveis por uma exposição de arte, por mais polêmico que seja, me traz outra lembrança, desta vez já como adulto. Acabada a ditadura e morto o caudilho Franco, a imprensa livre divulgou como o ditador decidia os fuzilamentos do dia seguinte. Era algo que ele fazia enquanto tomava seu cafezinho depois de almoçar. Levavam a ele a lista dos condenados à morte pelo regime e ele decidia de que maneira e a que hora deveriam morrer. E cada decisão era decorada com um toque artístico. O general desenhava uma flor ao lado de cada nome condenado à morte.

Tantos anos depois escuto que deveriam ser fuziladas as pessoas relacionadas com a arte e a cultura, e vejo que a pessoa que manifesta esse impulso de violência, candidato à Presidência do Brasil, já contaria com milhões de votos. Pergunto-me, dolorido e espantado, triste e perplexo: “O que está acontecendo com o meu Brasil? Até onde quer chegar a loucura que se incrustou em suas veias?”.

Não deveria ser esta a hora em que os artistas, os poetas, os intelectuais, os trabalhadores – todos aqueles que não acreditam na força das armas mas sim na do diálogo, do encontro, da soma dos esforços pela paz – deveriam se unir para mudar o verbo fuzilar de Bolsonaro para amar e aceitar o outro? Sim, a todos, inclusive aqueles que não pensam como nós.

Como escreveu no Facebook a minha mulher, a poeta Roseana Murray: “Quando a arte e o pensamento se transformam em bode expiatório é urgente se desarmar. E amar”. Se algo deve ser “fuzilado”, neste momento, é a intolerância. E se algo deve ser salvo e com urgência, é a liberdade de viver, de pensar, de criar e de amar como cada um quiser. Todo o resto tem cheiro de morte.

A triste era da idiotice

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POR FERNANDO BRITO, no Tijolaço

Não pensem que é só na política que a onda de idiotia vai crescendo e ganhando adeptos.

O obscurantismo projeta sua sombra pavorosa por toda a parte.

Além da política, todos estão vendo como a treva cobriu o campo das artes e da sexualidade, onde acabamos aceitando discutir “a sério” o que, a rigor, só caberia debater no início do século passado.

Mas a maré de estupidez é um verdadeiro tsunami e uma reportagem da BBC, ontem,  comprova isso.

Trata dos “terraplanistas”, grupos nacionais – claro que copiados de norte-americanos – que jogam fora milênios de aprendizado científico para afirmar, como nos tempos medievais, que a Terra não é um globo, mas um plano.

Saem Aristóteles, Eratóstenes, Ptolomeu, Copérnico, Galileu, entram Bolsonaro e Marco Feliciano.

Nada surpreendente para quem já viu surgir o “criacionismo”, onde trocamos Darwin por Marina Silva.

A vez dos nativos

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POR GERSON NOGUEIRA

Ao ser apresentada, no começo da semana, a nova equipe de assessoramento da presidência do Remo elencou 10 mandamentos de gestão a serem cumpridos a partir de agora. Desconfio dessas formulações, quase sempre mais comprometidas com o marketing do que com a funcionalidade.

De qualquer maneira, o tal receituário já ficaria de bom tamanho – e mais fácil de ser cumprido – se fosse sintetizado em dois pontos: pagamento em dia dos compromissos com atletas e funcionários e política regionalista na formação do elenco para 2018.

Pagar em dia é o chamado básico do básico e nem deveria ser incluído no campo das promessas. No Remo, porém, o simples se torna normalmente complicado, daí a justificativa de oficializar o compromisso.

Mais importante agora é a adoção de uma política austera de contratações. Nos últimos anos, o clube padeceu com seguidos equívocos na aquisição de jogadores. Foram quase 400 atletas trazidos para o Evandro Almeida nos últimos 10 anos.

Pouquíssimos ainda têm seus nomes lembrados pelo torcedor. A maioria não deixou saudades, nem feitos marcantes na história do Leão de Antônio Baena. Alguns só saem do ostracismo quando acionam o clube judicialmente.

Os desastrosos critérios de prospecção de atletas, quase sempre contratados a partir de informações errôneas e – não raro – mal intencionadas, contribuíram enormemente para o crescimento da dívida trabalhista do clube. Pode-se dizer, sem sombra de dúvida, que o Remo tem sido vítima de uma criminosa prática de transações, que dilapidou suas finanças e contribuiu para o lucro pessoal de muita gente.

Quando se diz que muitos se servem do Remo, ao invés de servi-lo, não há exagero na frase. É fato. Mais grave ainda é a impunidade dos que se locupletaram, contando com a crônica passividade das instâncias fiscalizadoras do clube.

Os erros do passado recente precisam ser extirpados. Práticas lesivas não podem conviver com a nova realidade. Para isso, é imperioso que os dirigentes tenham autonomia para executar o plano de trabalho, livres da centralização e dos métodos ultrapassados.

Lá no começo de sua atividade como dirigente, Manoel Ribeiro não agia sozinho. Tinha ao seu lado baluartes como Ronaldo Passarinho, Dagoberto Sinimbu e José Miranda. Foi Ronaldo, por exemplo, quem contratou Paulo Amaral, aconselhado por ninguém menos que Nilton Santos.

Paraenses constituíam a ampla maioria dos elencos formados no período – casos de Cuca, Elias, China, Aderson, Dico, Edson Cimento, Rosemiro, Marinho, Rui Azevedo, Marajó, Mesquita, Mego, Amaral e Leônidas.

Sob o peso das dívidas acumuladas, o novo Remo terá que seguir a mesma filosofia exitosa há mais de 50 anos, prestigiando os valores do próprio clube e jogadores de baixo custo garimpados no Estado.

De fora, a essa altura, só mesmo o goleiro Vinícius, solitário destaque na Série C. A base do novo time deve ter Gabriel Lima, Jayme, Tsunami, Jefferson, Lucas Vítor, Felipe, Sílvio e Edcléber, acompanhados dos nativos Flamel, Dudu e Martony. É o melhor começo possível.

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Bola na Torre

Guilherme Guerreiro apresenta o programa, a partir das 21h, na RBATV. Participação de Giuseppe Tommaso e deste escriba baionense.

Gols, noticiário e análise da rodada da Série B e da situação dos demais clubes paraenses. Sorteios e participação do telespectador.

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Reforços podem estar ao alcance da mão

A dinâmica do mercado boleiro no Brasil não perdoa hesitações. Quando os dirigentes do Papão desistiram de nomes das séries A e B, passando a olhar para os destaques da Série C, a hora de contratar já havia passado. O atacante Dico, do Botafogo-PB, foi abordado, mas o Náutico chegou na frente. O meia Djavan (CSA) e o atacante Jean Carlo (Salgueiro) se transferiram para o ABC.

Já mencionei aqui os nomes do meia Doda e do centroavante Leandro Kível, ambos do rebaixado ASA. Jogam bem mais do que jogadores que o PSC trouxe para a disputa da Série B. O Salgueiro tem Cássio Ortega, meio-campista de bons recursos, na medida para um setor até hoje não preenchido na Curuzu.

Mesmo que esses ou outros atletas da Série C não sejam contratados, o Papão aprendeu uma lição importante: evitar o erro de menosprezar uma divisão inferior na hora de garimpar reforços. É possível achar jogadores de bom nível e custo menor na Terceirona. Para isso, porém, é preciso romper com o vício de olhar apenas para o Sul e Sudeste.

(Coluna publicada no Bola deste domingo, 17)