A vítima é o futebol

7 de julho de 2017 at 1:04 14 comentários

POR GERSON NOGUEIRA

Calou fundo nas almas mais sensíveis a carta-desabafo de Cristina, irmã de Sérgio Serra, que renunciou ao cargo de presidente do Papão, ontem. O texto assinado por ela é uma radiografia eloquente do futebol paraense, um testamento valioso sobre o atual estado de coisas.

Poucas palavras foram tão duras e verdadeiras sobre a indignidade humana que domina aquele que já foi motivo de congraçamento e alegria entre multidões, que era inclusivo, festivo, que aproximava ao invés de desunir.

A paixão extremada está sempre a um passo da insensatez. Cada período da mensagem de Cristina expõe essa realidade. O Pará, dividido ao meio por duas bandeiras, tornou-se um imenso ringue que mescla rivalidade e ódio.

Os sinais de que o monstro estava por vir começaram há umas quatro décadas, com os primeiros choques entre facções ditas organizadas. Era a alvorada do caos. Numa dessas ocasiões, minutos antes de um Re-Pa, um atleta do Remo foi esfaqueado ao atravessar a avenida Almirante Barroso.

Nos anos seguintes, assaltos e arrastões se tornariam uma triste rotina nos estádios de Belém. O avanço da violência no futebol feriu mortalmente uma das maiores riquezas do Pará: a alegria contagiante de seu povo, exposta no amor que dedicava aos dois titãs dos gramados.

Aos poucos, embora muitos insistam em não ver o importante papel dos criminosos nisso, as torcidas foram minguando nas arquibancadas e as rendas diminuindo. Nos três últimos anos, o Mangueirão – mesmo com capacidade de público reduzida – nunca mais se viu abarrotado de gente como no passado. Talvez nunca mais receba as mesmas plateias.

As torcidas de verdade foram escorraçadas pelos salteadores que se disfarçam de fãs de futebol, os mesmos que atacaram Serra. Há tempos, eu insisto: eles não gostam de futebol. Pelo contrário, eles querem o fim do futebol como paixão legítima. O futebol, para os criminosos, é mero pretexto para roubos e saques.

O que aconteceu com Serra no domingo à noite, conforme o relato de sua irmã, é próprio de uma cidade sitiada pelos marginais e incapaz de reagir a ataques contra famílias nas praças. Como presidente do Papão e cidadão, Serra teve sua intimidade violentamente agredida. Ao lado da esposa e do filho, viu seu amor pelo futebol ser subjugado pela força da arma.

Foi ameaçado, com todas as letras, como se a campanha do time na Série B fosse caso de vida e morte. Como se o time nunca tivesse sido rebaixado ou sofrido derrotas. Essa noção bárbara sobre o verdadeiro sentido do futebol foi incutida na cabeça de alguns selvagens, que passaram a entender que o esporte vale mais que a vida e o respeito às pessoas.

Lembrei de um documentário sobre os cartéis das drogas na Colômbia, que entre suas muitas vítimas fez tombar um defensor da seleção nacional de futebol do país, por ter perdido um penal em Copa do Mundo. Não é muito diferente do que já vivenciamos no futebol paraense. Os bandidos impõem a sua vontade como os mafiosos colombianos faziam.

As redes sociais – sim, não podemos ignorá-las – amplificaram a audácia e a virulência verbal dos baderneiros. Perde-se um pouco a ideia de respeito a cada frase doentia contra jogadores, técnicos, dirigentes, jornalistas.

Recentemente, um grupo de “organizados” invadiu um treino no Remo, para ofender jogadores e técnico com xingamentos e cusparadas. Houve quem aplaudisse a iniciativa. Esta coluna repudiou, como repudia há anos e repudiará sempre. São ações desse porte que estimulam a insana perseguição de que Serra foi vítima.

Com a renúncia dele, o Papão ganhará outros rumos, mas o futebol fica ainda mais fraco e vulnerável. O gesto de desistência, humano e compreensível, é um grito de lamento pelo que perdemos ao longo dos anos e pelo muito que ainda haveremos de lamentar. Pela coragem de escolher o lado certo e abraçar a causa dos sãos, Serra merece respeito.

———————————————————————————————-

Um Botafogo valente como João Sem Medo

Muitos ainda não acreditam, relutam em botar fé. O fato é que o Botafogo tem sido resoluto e indomável nesta Libertadores, como apreciava João Saldanha, seu ilustre torcedor. A vitória sobre o Nacional em Montevidéu confirma essa condição. Não há destaques individuais, a estrela é o jogo coletivo. Que a receita não se altere e que a gana de vencer esteja sempre em primeiro lugar.

(Coluna publicada no Bola desta sexta-feira, 07)

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14 Comentários Add your own

  • 1. Jorge Paz Amorim  |  7 de julho de 2017 às 7:02

    Mais triste é saber que ficará por isso mesmo, sem que ao menos seja esboçada uma investigação que procure saber quem são os facínoras que perpetraram a iniquidade.
    Assim como ficou por não dada a sentença que mandou excluir essa bandidagem do convívio com a massa amante do futebol. No entanto, continuam por aí matando, roubando e espalhando delinquências impunemente

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  • 2. Antonio Valentim  |  7 de julho de 2017 às 8:01

    Lamentável. O ódio se manifestando de forma explícita e violenta, tudo sem sentido mesmo.

    Muito há que vem contribuindo para que esses bandidos se achem no direito de tirar a paz, agredir, matar… Redes sociais, onde cada um se acha o dono da verdade e senhor da vida e da morte, mídias que iludem…

    Quanto à renúncia do presidente do Psc, a sensação que passa a mim é que essa foi a gota d’água, mas bastaria esse único episódio para a atitude ser tomada. Há outras razões, é sabido, que vinham no íntimo do ser humano atormentado o espírito de um homem de bem.

    Sim, diante de circunstâncias extremas como essa, não restaria outra atitude ao homem de bem – eu digo “homem de bem” – que não essa: retirar-se e viver na paz junto com a sua família.
    Mas, devemos refletir se não há tantos outros fatores que venham a contribuir para o acirramento de ânimos desses seres, que vêm procurando razões para chegarem ao ponto em que chegaram.

    Este humilde comentarista, por exemplo, ontem mesmo fui insultado talvez por alguém que tenha idade para ser meu filho apenas porque ele discordava da minha opinião. E olha que sou apenas um torcedor comum.

    O próprio presidente do Remo, um senhor de seus oitenta anos (não sei ao certo) é objeto de ameaças e insinuações de morte nas redes sociais. Sendo por brincadeira de mau gostou ou não, o certo é na cabeça de muita gente de má índole, o caldeirão da violência e da insensatez vai tomando forma.

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  • 3. fernando pina  |  7 de julho de 2017 às 8:20

    Um belo texto,
    Parabéns cumpañero Gerson!
    Não fora os Dom Quixote da vida, como vc, a espetar moinhos monstros da maldade humana e nós com nossas vacas esquálidas já teríamos todos ido para o brejo.
    Triste nação onde o belo esporte bretão de tantas glórias nacionais há muito desapareceu da verde relva e cedeu espaço para a virulência urbano-mafiosa, diante da passividade cínica do “stablishment”.
    Nada surpreende, nem mesmo a assustadora agressão física & psicológica com que foram premiados o presidente (e família) do Papão da Curuzu. A selvagem e phoderosa rede social eletrônica já cuidou de dar ao grave ato um ar de mais um “fato policialesco”, sem maiores significâncias.
    Nada será apurado. Afinal, vivemos em um país que vai pra frente, ho..ho..ho..ho.., de uma gente inimiga e doente, ho.. ho..ho.. ho..
    xx
    BRAZIL: DESORDEM & REGRESSO

    Curtido por 1 pessoa

  • 4. marcio bentes  |  7 de julho de 2017 às 9:27

    belíssimo texto.
    Parabens

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  • 5. Nelio  |  7 de julho de 2017 às 9:30

    É , mesmo que o Bota não siga enfrente daqui em diante, já fez muito bem sua tarefa na Libertadores igual ao Paysandu em 2003 e talvez essa seja a melhor campanha do Botafogo numa primeira e segunda fase de Libertadores em todos os tempos e com time modesto, provando que quando se acerta nas contratações, se acerta nas competições porque isso é grandeza diretamente proporcional. Aí como o Bota é time rico e grande de elite pode ainda ir muito longe na competição .

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  • 6. Nelio  |  7 de julho de 2017 às 9:40

    Em relação a esse caos total e relâmpago no Paysandu porque há menos de 2 meses era tudo festa time, torcida e diretoria comemorando liderança , eu acrescento que perde o futebol no geral, mas perde principalmente o futebol do Paysandu como instituição porque vai ser difícil contornar a situação. Certamente não vai ser essa renúncia do Serra que vai ajeitar tudo por lá e acredito que pode até piorar mais porque o rebu foi muito grande, exceto se prenderem os ameaçadores ou marginais e a coisa ficar esclarecida. Por isso acho que mesmo diante do terror relatado a renúncia foi precipitada (na minha opinião) porque é evidente que aí ocorre aquele fato negativo que a sociedade já observa há muito tempo: Com certas atitudes estão dando muita força aos marginais de todos os tipos, cedendo a pressões e ameaças. Isto é ruim para a sociedade de bem e um filé minhon para a sociedade do mal. Vcs já pararam para imaginar se os magistrados, delegados e demais autoridades policiais e da justiça deixarem de existir se omitirem por conta de ameaças???? Seria um caos total na sociedade. Então acho que não se deve ceder às pressões de marginais . tem é de cortar o mal pela raiz. Foram assim que começaram a se formar há décadas atrás essas gangues de organizadas como bem citou o Gerson e muitas vezes com apoio de próprios dirigentes. Com isso naquele tempo houve o caso do azulino esfaqueado na Almirante nas primeiras guerras de torcidas e a tragédia do menino bicolor de 7 anos morto em redor do Mangueirão, atingido por rojão de gangues remistas, destruindo para sempre o menor e sua família. As autoridades não cortaram o mal pela raiz, inclusive contra dirigentes e políticos que apoiam essas torcidas , esta aí hoje as gangues de organizadas ditando as ordens e praticando guerras e agressões em todo o Brasil.

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  • 7. celira  |  7 de julho de 2017 às 10:22

    Nem Serra e nem ninguém merece passar por isso. É preciso que as autoridades elucidem o ocorrido quanto antes para mostrar para sociedade e para os delinquentes que situações como essa não passarão impune.

    Confesso que fiquei “alegre” num primeiro momento com a renúncia de Serra, pois vi nela a oportunidade de realinhamento dos setores do PSC que visivelmente se dividiram com a chegada de Serra (não me cabe apontar culpados, pois aproximação é um problema que cabe a ambos os lados).

    Mas, esta “alegria” ruiu por completo ao saber da razão de sua renúncia.

    Ruiu por que já fui vítima da violência nessa cidade e entendo perfeitamente o medo por que Serra passou.

    Ruiu por que futebol é algo banal.

    Ruiu por que nada é mais importante do que a vida de outro ser humano.

    Solidariedade à família Serra.

    Curtido por 1 pessoa

  • 8. Édson do Amaral. Torcedor do Paysandu.  |  7 de julho de 2017 às 10:39

    Gerson como sempre matando a pau em suas colocações
    A violência tirando famílias dos estádios

    Porém, Gerson e amigos, me reservo no direito de achar que esta história tá mal contada.

    Seria importante que houvesse em um caso desse investigação policial
    Até agora não se ouviu nenhum rumor disso.
    Afinal de contas além de ser um caso de extrema violência, se deu contra uma pessoa pública, em local público
    Se calar é incentivar que isso venha ocorrer com quaisquer novos dirigentes que venham ter insucessos a frente do clube.

    Sem falar que toda esta seleuma arranha a imagem do clube.
    Inclusive sem levar em consideração que a jornalista global talvez por está emocionada foi indelicada com o clube.

    No mais, agora é bola pra frente, o Tony Couceiro carrega no sangue e traz nos olhos a vontade de reerguer o clube, que nestes 6 meses, mesmo sendo campeão local, nas mãos do Serra estava sendo um desastre.

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  • 9. Antonio Valentim  |  7 de julho de 2017 às 16:00

    Estranho…

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  • 10. Comentarista  |  7 de julho de 2017 às 16:46

    A violência contra Sérgio Serra é lamentável sob todos os aspectos !!

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  • 11. blogdogersonnogueira  |  8 de julho de 2017 às 0:39

    Amigo, respeito o seu ponto de vista, mas discordo dessa tese que alguns torcedores do Papão andam defendendo, a título de desmerecer a atitude do Serra. Olhe, só quem já esteve sob a mira de uma arma sabe o que realmente ocorre nesses momentos. Imagino isso ao lado da mulher e do filho especial. Não queria estar na pele do Serra naquela hora. Por isso, respeito sua decisão. Além disso, quem conhece sua história de dedicação ao PSC não pode botar em dúvida a veracidade de seus sentimentos.

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  • 12. blogdogersonnogueira  |  8 de julho de 2017 às 0:40

    Penso da mesma forma, amigo Carlos. Também já vivi uma situação parecida e sei o que se passa em nossa cabeça nesses momentos.

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  • 13. Antonio Valentim  |  8 de julho de 2017 às 9:16

    Tem gente com pouca noção mesmo.
    Qualquer um, na condição do Serra, com uma arma apontada para a sua cabeça, na frente da esposa, e ainda por cima da violência contra um filho especial, com os jagunços dizendo que sabe onde mora, faria o mesmo na mesma hora.

    Nenhum clima para continuar num cargo que dá muita dor de cabeça.

    E digo mais: esses jagunços (dois numa moto) não são torcedores de nada, são bandidos mesmo. Nenhum torcedor comum, por mais fanático e exaltado que seja, vai assim – de forma individual – frente a frente com a vítima e agir assim. Isso é coisa de máfia, coisa organizada.

    O torcedor “organizado”, como o próprio vocábulo diz, quando protesta e usa de violência nesse protesto, vai em grupo, jamais vai sozinho, pois não é louco. Esses também são bandidos, mas não bandidos profissionais.

    É um crime grave que nunca será esclarecido. Pois, como bem disse a Cristina Serra, estamos no Brasil. Ela própria fez um paralelo – e isso tem gente que não quer ver, ou finge não ver – do time com o Brasil, dizendo “Pobre Paysandú, pobre Brasil”.

    Não é só no Paysandú, no Remo e em outros há esse problema.

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  • 14. Antonio Oliveira  |  10 de julho de 2017 às 22:38

    Nem no auge dos Rabelos da vida listrada tal se verificou. Quando se pensa que a invasão dos treinos azulinos era coisa muito ruim, eis que a aquela máxima muito antiga se mostra de todo atualizada: o que é ruim sempre pode piorar.

    Minha solidariedade a quem quase contraditoriamente passei a admirar no dia em que ganhou o seu único título como presidente listrado.

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