Sobre o ofício de ensinar

1 de julho de 2017 at 14:27 16 comentários

POR ANDRÉ FORASTIERI, no Linkedin

Eu nunca pensei em ser professor. Até porque nunca pensei que sabia alguma coisa tão profundamente a ponto de ensinar para os outros. Mas de uns tempos para cá, de vez em quando alguém me pergunta: você nunca pensou em dar aula? E de uns tempos para cá, me toquei que sim, eu sei algumas coisas a ponto de ensinar para os outros. E sim, eu poderia perfeitamente ensinar o que aprendi em quase 52 anos de vida, 30 anos de vida profissional e 24 de empreendedor. São muitos anos, alguns acertos sensacionais, e um monte de erros que a próxima geração poderia evitar… Só que eu jamais poderia dar aula. Porque para dar aula, é preciso formação de professor. E eu não tenho.

Aliás não tenho nem diploma universitário. Entrei em duas faculdades, Jornalismo e História, ambas na USP, e abandonei as duas.

É importante que professores tenham uma boa formação. Mas é importante que pessoas que não têm formação acadêmica, mas já acumularam uma boa experiência, possam passar para frente o que aprenderam. Não falo por mim – não só – mas por tantos profissionais sensacionais que conheço, e que por falta de formação acadêmica de professor, jamais poderão ensinar em uma universidade o que sabem. A Escola da Vida tem seu valor. E é hora desse valor ser reconhecido.

(*) André Forastieri é jornalista. 

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Precisa desenhar? Frustração e cobrança

16 Comentários Add your own

  • 1. anisioluiz2008  |  1 de julho de 2017 às 15:18

    Republicou isso em O LADO ESCURO DA LUA.

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  • 2. celira  |  1 de julho de 2017 às 17:56

    Eu sou contra a este movimento pedido pelo autor do texto por razões que explicarei mais abaixo. E, antes de ser “acusado” de coorparativista, digo que neste caso e momento histórico minha posição é corporativista mesmo. Vou pontuar dois aspectos rapidamente…

    1) Professor é uma classe subvalorizada financeiramente, ainda que historicamente importante. Situações como esta solicitado pelo autor enfraqueceu esta profissão por muitos anos. Eram médicos, enfermeiros, engenheiros, advogados assumindo a função de professor de forma bastante distorcida (transmitir conhecimento).

    2) A formação acadêmica para ser professor permitiu um crescimento na área de pesquisa em educação. Movimento ainda em expansão. Retornar ao modelo solicitado pelo autor é cair no tecnicismo.

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  • 3. José FERNANDO PINA Assis  |  1 de julho de 2017 às 18:26

    POIS É!
    O “notorius sapientiae” bem que poderia ajudar em horas de crise existencial, como essa do amigo André. Sua expertise acumulada nos anos de profissionalismo aflora e lhe impulsiona a refletir sobre “porque não passar adiante o que vc aprendeu?
    Para responder ao André, vou me apoiar em um caso concreto: sou professor universitário há exatos 37 anos e certamente acumulei e exportei saberes, bons e nem tanto. Pois bem!
    Um dia, quando era diretor de faculdade, recebi em minha sala um colega de carreira e de profissão, chegado na instituição há pouco mais de três anos, após muitos anos militando com sucesso na atividade profissional. Um jovem laureado com o “oscar” da área comum. Nossa conversa trafegava entre frivolidades cotidianas quando, do nada, ele começou lagrimar e chorar (disfarçadamente) mudando o rumo da prosa, para confessar sua insegurança, incapacidade, incerteza, incompetência, etc.., no trato dos assuntos da típicos e específicos da praxis docente.
    Revelou-me sua dificuldade para encarar as turmas e passar-lhes o que sabia. Ele, um laureado profissional, que resolvera ser professor, porque sentia-se cansado da rotina e dos elogios falsos do mercado, estava ali, entre lagrimas e balbucios, confessando a armadilha que criara e na qual caíra, sem saber como desvencilhar-se dela.
    Pediu-me então um conselho (eu que havia sido seu professor na faculdade e que estava anos adiante dele, nessa corrida de mão única chamada vida).
    E, entre surpresa e desalento, eu consegui dizer a ele o que me veio, naquele momento singular: “Meu irmão, a sala de aula é um templo e a docência é uma espécie de religião. Se não houver segurança (fé) no discurso, não haverá identidade (crença) entre o pastor e suas ovelhas”.
    Ele me olhou, surpreso, agradeceu e saiu silenciosamente. Nunca mais conversamos. Hoje ele é membro da alta cúpula da instituição e eu continuo quixotesco na sala de aula.

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  • 4. celira  |  1 de julho de 2017 às 18:42

    Pina,

    O notório saber é ótimo em uma palestra, uma grande conferência e mesmo num minicurso. Mas, não dá conta do universo da docência como bem falaste. Ainda que eu tenha severas restrições a ideia vocação, crença e fé na arte de ensinar. Tais ideias produziram a figura do docente sacerdote, aquele que abre mão da vida, para ensinar. No mais, é por aí mesmo. Quanto ao sucesso… bem, isto é relativo, muito alunos são melhores sucedidos do que eu, espero que sejam felizes como eu.

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  • 5. José FERNANDO PINA Assis  |  1 de julho de 2017 às 19:57

    oi minina Celira,
    saudações!
    Que bom “dialogar” em tempus bicudus de constrangimento das ideias. Assino abaixo de suas palavras.
    Usei da linguagem figurada para dar mais dramaticidade ao texto (real). Infelizmente sou sim um sacerdote (ateu graças a Deus) e devoto minha vida ao templo da academia, meio que entre Platão e Epicuro, entre Ptolomeu e Kepller, entre Darwin e Wegener.
    Fico muito feliz quando revejo antigos aprendizes, que passaram pelos meus conselhos, e hoje se equilibram no difícil pódium do sucesso. Sou quixote mesmo, feliz & convicto e continuarei assim, o canto do cisne já aconteceu.

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  • 6. lopesjunior  |  2 de julho de 2017 às 0:24

    Talvez mais que a experiência a ser ensinada, deveria ser discutido profundamente o currículo, não acham? Essa tal de escola sem partido tem-me incomodado bastante porque isso é um discurso vazio que pretende expulsar a esquerda da sociedade, começando pela escola. Que me dizem?

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  • 7. celira  |  2 de julho de 2017 às 0:57

    Amigos Lopes,

    Há uma forte discussão sobre o currículo nos dias de hoje por pessoas como Thomáz Tadeu, Fisher, Goodson, Hall entre outros.

    Não por acaso, a última década foi marcada pela mudança curricular no curso de formação de professores, visando que estes tivessem maior conhecimento sobre a sala de aula.

    Em outras palavras, a literatura modificava o currículo buscando produzir um professor reflexivo é capaz de ver a sala de aula como local de experimentação.

    Agora, voltando nossos olhos para o currículo escolar básico, penso que há muito de se refletir e discutir sobre ele, pois, a tentativa de ver o mundo holisticamente (currículo unificado) tem se mostrado um fracasso, seja pela compartimentalização do conhecimento, seja pela superficialidade do currículo unificado aplicado, seja pelo tamanho do currículo escolar que parece-me desnecessariamente grande.

    Eu, meu ponto de vista, defendendo o retorno as grandes áreas como Biológicas, Humanas, Exatas e a inserção das artes, pois entendo que o estudante pode ter uma formação política crítica e reflexiva dentro das suas áreas.

    Por exemplo, na educação em ciências, área que pesquiso e milito, é possível discutir a bioética, o controle dos corpos, a indústria científica, eugenismo, gênero, as revoluções tecnocientificas na biologia e muitas outras coisas mais dentro da área de biológicas, ou seja, o fato de ser uma área do conhecimento não significa um aluno acrítico, como pensam alguns.

    Bem penso por aí… Boa noite.

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  • 8. Antonio Oliveira  |  2 de julho de 2017 às 0:59

    Ser professor é difícil mesmo. Pode até ser impossível para alguns.

    Mas, dar aula é muito simples. É muito fácil. Basta você ter conhecimento do assunto, da disciplina, da “matéria”.

    Ah, também é preciso gostar de estar diante dos alunos.

    Eu admiro quem é sacerdote. Mas, eu prefiro a contrapartida justa, firme e forte. Caso contrário, só para minhas filhas.

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  • 9. celira  |  2 de julho de 2017 às 0:59

    Eu não me preocuparia com a escola sem partido. O ato de educar por si só já é político.

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  • 10. celira  |  2 de julho de 2017 às 1:06

    Amigo Antônio Oliveira,

    Dar aula já foi fácil, bastava saber a matéria… Isto foi há tempos e não vale nos tempos de hoje, pelo menos não com a escola que sonho e leio nas teorias.

    Explico…

    Hoje a informação está espalhada em tantos cantos e recantos que muitos alunos têm até mais acesso a elas do que o professor.

    Partindo desse princípio, o ofício docente não está apenas em saber a matéria, mas principalmente em conduzir o debate em sala de aula.

    O docente tem que ser um aguilhão, como fala Sócrates no Banquete, capaz de mobilizar o estudante a pensar sobre o mundo e sobre si.

    Por isso, amigo, não basta saber a matéria, o docente tem que ser capaz de ver a sala de aula como local de experiências.

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  • 11. Antonio Oliveira  |  2 de julho de 2017 às 8:25

    Bom dia, amigo Celira, após refletir acerca de sua excelente explicação, com todo o respeito, noto que ela não infirma meus assertos sobre o milenar mister do qual tratamos.

    Aliás, num certo sentido, seu muito bem concatenado raciocínio até abona o que eu sustento.

    Aliás, prova de que a minha afirmativa não é incompatível com sua explanação sobre as contemporâneas demandas do ofício, ou de que minha sentença é de todo consentânea com a Escola dos seus sonhos (e certamente de sua prática) e com as fontes teóricas onde você se abebera, é que você foi buscar arrimo para sua explicação no velho e sempre atual amante do saber: Sócrates.

    A propósito, vale registrar que em Sócrates já era sabida e experimentada a circunstância de que alguns alunos poderiam dispor de mais ilustração do que aqueles que estão na posição de ministro da aula. Aliás, tal realidade cabe perfeitamente na humilde e abrangente máxima do ‘tudo que sei é que nada sei’ atribuída a Sócrates.

    Deveras, não pode haver aguilhão mais agudo (inclusive para os alunos que tenham mais informação), do que o conhecimento da substância do ofício por parte de quem está diante deles, que na verdade não tem a obrigação de saber tudo sobre tudo, mas a quem também não se defere que não saiba o conteúdo daquilo que se propõe a multiplicar. E se este multiplicador sabe o conteúdo e gosta de estar diante dos multiplicandos (outro requisito que reputo essencial ao qual eu já me referira no comentário anterior), a aguilhada ocorre naturalmente.

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  • 12. celira  |  2 de julho de 2017 às 9:46

    Bom dia Antônio,
    De fato tens razão. Depois de enviada a resposta, prestei mais atenção nas tuas primeiras linhas.

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  • 13. Antonio Valentim  |  2 de julho de 2017 às 10:31

    A arte de ensinar não é tão simples, como pode parecer aos leigos.
    Quanto aos discentes, apesar de a informação (que é diferente de conhecimento) estar em todos os lugares e disponível em facílimo acesso (ao alcance dos dedos = digital), de nada adianta a estes se eles não dela nada extraírem, ou seja, se a informação não é transmudada em conhecimento.

    Cabe ao bom docente (e só os bons) conduzir, mediar, de forma que o aluno possa tirar algum proveito desse mundão de coisas que ele tem acesso hoje em dia.

    Aliás, em vez de ajudar, muitas vezes a informação amplamente disponível acaba por atrapalhar, deixando o sujeito acomodado, preguiçoso…

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  • 14. Antonio Oliveira  |  2 de julho de 2017 às 13:35

    De fato, ensinar não é tão simples. Afinal, há outros fatores que influem no êxito do ensino além do domínio do conteúdo e do gostar de estar diante dos destinatários. Mas, se a aula for qualificada a chance do destinatário aprender aumenta bastante.

    Curtido por 1 pessoa

  • 15. lopesjunior  |  2 de julho de 2017 às 14:14

    Caro celira, vejo a escola sem partido como um eufemismo para o afastamento dos pensadores que a esquerda valoriza.

    A escola não é, ou não deveria ser, apenas mais uma etapa no caminho da universidade ou da profissionalização. É oportunamente um meio para formar o cidadão crítico e capaz de compreender a realidade a sua volta. A universidade sim é uma etapa para a profissionalização altamente especializada. Mas, para ser um cidadão é necessário mais que especialização profissional.

    Para mim, a grande falha da escola é não ensinar as matérias começando detida e filosoficamente pela epistemologia. Por exemplo, tomemos a Física. Para a Física todo fenômeno pode ser compreendido a partir da ideia de movimento e repouso. Para tanto, é necessário demonstrar que o movimento ou o repouso são dependentes do estado do observador, este mesmo também em dúvida se em movimento ou em repouso, e que essa é uma teoria de relatividade, pronunciada por Galileu. Para resolver o problema dessa relatividade não é preciso tomar uma atitude arbitrária, mas perceber como se desenvolve uma convenção tácita e eficiente, a de que o observador pode tomar-se a si mesmo como um referencial em repouso. Na maior parte do tempo eu mesmo sou o observador, o referencial do meu mundo e decido arbitrariamente, por mim mesmo, como um autorreferencial, pelo que está em movimento ou em repouso a minha volta (e nem recorro a Galileu para isso). Se um objeto estava bem aqui há pouco e agora está depois desse linha aqui ________________, então esse objeto se deslocou para cá, para depois da linha, mas se esteve antes da linha há pouco e lá permanece até agora, então está em repouso. Essa noção/percepção de movimento fundamenta todos os campos da Física Clássica. É a epistemologia da Física. O movimento das ondas (ondulatória), o movimento dos elétrons (eletricidade), o movimento do calor e o trabalho (termodinâmica) e dos gases (teoria cinética dos gases e mecânica estatística). Todos os campos da Física Clássica são norteados pela noção básica de que um fenômeno físico, para ocorrer, precisa estar associado a uma ideia de movimento/repouso. É preciso frequentemente recorrer, retornar a essa ideia, ou a essa epistemologia para ensinar Física, para que, mais que uma aplicação prática dela se aprenda a lidar com ela como fruto do pensamento e da experiência humana. A epistemologia da Química é a de que nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Mas tratamos de ciências até aqui, e nem tudo é ciência. E quanto à História?

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  • 16. Antonio Valentim  |  2 de julho de 2017 às 16:04

    Este é mais um assunto ao qual se apresentam grandes debatedores.
    Parabéns ao nobre Gerson por trazer à baila temas como este.

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