Áudios e delações escancaram ‘esquema’ de Aécio & cia e mostram como a política é feita na prática

30 de maio de 2017 at 21:00 Deixe um comentário

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POR MATHEUS PICHONELLI – The Intercept_Brasil

A profusão de áudios vazados por delatores, ex-amigos e investigadores no Brasil da Lava Jato tem ajudado a desnudar os processos de produção de estratégias políticas, notas e opiniões na imprensa, salsichas, financiamento de salsicheiros e compra de apoio político na bancada do boi.

Quem escuta com atenção os áudios dificilmente encontra conversas do tipo “Fomos pegos, descobriram nosso esquema”, mas uma certa surpresa, misturada com indignação, com o avanço de suspeitas sobre eles.

Nesta segunda (29), por exemplo, chegou ao público o áudio de uma conversa entre o senador afastado Aécio Neves (PSDB-MG) e o aliado Zezé Perrella (PMDB-MG). Aécio estava chateado porque o colega se gabava em uma entrevista por não constar da lista de investigados do procurador-geral da República, Rodrigo Janot – que tinha o aliado como um dos alvos. Perguntava se Perrella havia se esquecido de como sua campanha havia sido financiada. E argumentava que declarações como a dele nivelavam o seu grupo político ao dos adversários, estes sim, segundo ele, bandidos.

Perrella, ao pedir desculpas a quem lhe falava como chefe, justificava a declaração como resultado da tensão provocada pela “história do helicóptero” (em 2013, a aeronave de uma empresa de seu filho foi apreendida com 445 kg de cocaína). E, num surto de cinismo ou ironia macabra, concluiu: “Não faço nada de errado, só trafico”. A conversa é interrompida por risos nervosos.

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Em outro diálogo, desta vez com Joesley Batista, dono da JBS, Aécio defendeu a troca do delegado-geral da PF. Há um ano, o senador mineiro já havia sido citado em um diálogo gravado pelo ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, com Romero Jucá. “Quem não conhece o esquema do Aécio?”, questionou o delator.

Foi nesta conversa, sem saber da gravação, que o senador de Roraima definiu a estratégia para levar Michel Temer à Presidência: para conter a Lava Jato, era preciso botar o Michel num grande acordo nacional, “com Supremo, com tudo”. Ministro do Planejamento na época da divulgação, Jucá caiu pouco depois.

Antes mesmo da mudança de governo, alguns diálogos interceptados já causavam constrangimento às antigas lideranças políticas. Então prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PMDB-RJ), apontado como possível presidenciável por aliados, chegou a se queixar, em conversa com o ex-presidente Lula, da “alma de pobre” do petista. “Todo mundo que fala no meio, eu falo o seguinte: imagina se fosse aqui no Rio esse sítio dele (em Atibaia). Não é em Petrópolis, não é em Itaipava. É como se fosse em Maricá. É uma merda de lugar”.

Ex-governador da Bahia, Jaques Wagner também teve conversa interceptada com Lula na qual comemorava quando o ex-presidente contava que Marta Suplicy havia sido chamada de “puta” por manifestantes na Avenida Paulista. “É bom pra nega aprender”, disse Wagner. Em outra conversa, Lula se queixava com um advogado da “ingratidão” do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, ao decidir investigá-lo.

De todos, porém, o diálogo mais constrangedor foi entre Joesley Batista e Michel Temer, no qual o presidente ouve o dono da JBS narrar como comprou juízes e um procurador e reage de forma, digamos, pouco espantada. “Ótimo, ótimo”, respondeu o peemedebista.

A exposição de lideranças destituídas das máscaras do discurso treinado por marqueteiros, e da própria forma como marqueteiros eram pagos pelos clientes, deixou amedrontados os esperançosos e esperançosos os amedrontados.

Aqui a construção dos afetos políticos se esborracha. O que temos observado, nestes tempos, não é a desconstrução das lideranças políticas, mas dos mitos criados em torno delas; expostas a olho nu, sem a mediação dos discursos ensaiados, derretem. É uma ferida narcísica e tanto para quem confiava nos discursos oficiais e dormia tranquilo com a sensação de que, longe dali, alguém em Brasília saberia como lidar em caso de incêndio. Ninguém parece saber, e quem diz o contrário ou mente ou está iludido.

Talvez resida na sensação de desamparo, resultado da descoberta de que em política não há pai, mãe nem santo fora das planilhas da Odebrecht, a chave para compreender a desilusão de quem observa em um passado em linha reta (um outro mito) a solução para todos os problemas.

Em entrevista concedida há dois anos, o filósofo Vladimir Safatle definiu a mobilização em torno do Estado-nação como uma gestão social do medo, daí o apelo a soluções autoritárias observado aqui e mundo afora. A esperança, por sua vez, significa expectativa de que um bem ocorra no futuro – algo que, grifo meu, parece diluído a cada novo vazamento de conversa privada entre agentes públicos em um tempo em que até o santo protetor dos animais seria suspeito, em algum momento, de maus tratos ou zoofilia.

Qual, então, o caminho?

A resposta está em aberto, e não será encontrada pelos atalhos dos lugares-comum da internet. Uma pista, porém, pode estar no que Safatle chama de capacidade de lidar com a dimensão contingente dos acontecimentos. “Firmar seu desamparo quer dizer que você entra nas relações sabendo que não vai encontrar no outro aquilo que o ampara”, diz.

Levado para o campo político, é possível pensar numa outra relação entre representantes e representados quando esta relação deixa de ser mediada pela construção de mitos ou pela crença apaixonada em deuses ou demônios. O grau de exposição dessa fronteira ainda mal divisada entre a vida pública e privada, o legítimo e o legal, demandará uma outra ideia de transparência e participação política – uma participação que, ao destituir o sujeito político da aura que separa eleito e eleitores, os aproxima numa espécie de coautoria de projetos, acompanhamento e cobrança. Isso exigirá um salto de amadurecimento aos que se situam entre o imobilismo e o ativismo infantil costurado entre bonecos infláveis, panelas na janela e memes lacradores.

Além das consequências jurídicas em torno da validade das gravações como provas e da legalidade de sua divulgação, há um impacto político profundo na forma como seus agentes se organizam em uma época de intensa transformação tecnológica e expansão dos canais de compartilhamento. Se antes era possível filtrar ou barrar notícias desabonadoras pelo funil dos veículos tradicionais, hoje qualquer pensamento solto, expresso em voz alta ou à meia voz, pode cair nas redes e enfrentar seus tribunais.

Não tem marqueteiro político capaz de impedir a sentença de que o rei, gravado em conversas privadas, está nu. Por nu entenda-se não apenas com as mãos atoladas em dinheiro sujo (não são poucos, diga-se), mas com um inesperado despreparo e descolamento da realidade expostos a quem quiser ver ou ouvir.

Em uma cultura política baseada em mitos – o pai dos pobres, o homem do povo, o cidadão honesto e, mais recentemente, o gestor aplicado – fica difícil explicar ao eleitor como a outrora raposa política se deixa gravar em conversa imprópria com investigado em residências oficiais; ou como o deputado temente a Deus engordou as burras na Suíça; ou que o defensor dos oprimidos andava em companhia de empreiteiros graúdos; ou como o herdeiro incorruptível do príncipe civil defendia em voz alta (e aos palavrões, para desespero dos filhos das Senhoras de Santana) interferência na Polícia Federal para salvar a própria pele.

Mais do que tramoia, as conversas divulgadas lícita ou ilicitamente mostram articuladores políticos desconectados com a nova régua estabelecida, ainda que de forma confusa, pelos representados, sobretudo a partir de 2013.

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