Boff aconselha esquerda a renovar as formas de se dirigir ao povo

28 de maio de 2017 at 13:20 Deixe um comentário

POR CARLA JIMÉNEZ, no El País

Nos anos 1980, o então sacerdote Leonardo Boff escrevia artigos para o EL PAÍS nos quais defendia a Teologia da Libertação, a corrente cristã que nasceu na América Latina, e que tinha como preceito a opção pelos pobres. “Indiscutivelmente, os primeiros destinatários da pregação de Jesus foram historicamente pobres, os cegos, os dominados, os oprimidos, leprosos… A partir deles, dirigiu-se aos demais. Se não temos a esses como ponto de partida, corremos o risco do reducionismo e do elitismo”. Seus textos incomodaram o Vaticano que o proibiu de continuar escrevendo no jornal espanhol. Sua voz estava ganhando cada vez mais alcance, e se tornava uma provocação para a própria Igreja enquanto instituição.

O planeta precisou girar 33 vezes ao redor do sol – e a Igreja perder milhões de fieis ao redor do mundo – até que a Santa Sé admitisse que a filosofia defendida pelo brasileiro tinha o propósito mais elementar para seus fieis. Em 2013, ao indicar seu representante máximo, Jorge Mário Bergoglio, o papa Francisco, da escola jesuíta, a Igreja assumiria o discurso com a opção pelos mais vulneráveis. Boff, no entanto, pagou um preço por pregar para além do discurso conservador da Igreja dos anos 80. Foi expulso do sacerdócio pelo que viria a tornar-se o papa Bento XVI. Como disse na época da sua expulsão, Boff “mudou de trincheira, mas não trocou a sua batalha”.

Hoje, o teólogo, doutor em Teologia pela Universidade de Munique, não deixa de ser uma voz dissonante da maioria e continua pagando a fatura dessa exposição, ainda que viva “no meio do mato num local de difícil acesso”, no Estado do Rio, como escreveu ele por email à reportagem. Em abril deste ano, viu-se implicado numa polêmica ao republicar um artigo do EL PAÍS em seu blogue. O texto discorria sobre o choque de realidade que a delação da Odebrecht trazia, e criticava as elites criminosas do Brasil. Em certo trecho, o artigo mencionava Lula como alguém que ajudou a criminalizar as bandeiras da esquerda (uma vez que seu partido estava envolvido em denúncias de corrupção). Por ter compartilhado o texto, houve a interpretação de que o teólogo endossava seu conteúdo e sinalizava assim um rompimento com Lula, a quem sempre apoiou politicamente. A notícia correu como rastilho de pólvora na imprensa. Boff chegou a ser acusado de traidor por alguns blogues e se viu achincalhado nas redes sociais. Rechaçou a ilação logo depois. Nesta entrevista, ele fala sobre Lula, a política, e sobre a dificuldade de entrosamento da sociedade. Respondeu a todas as perguntas por email, apesar da insistência da reportagem em fazer a entrevista ao vivo. O questionário foi respondido no dia 22 de maio, ou seja, antes dos protestos em Brasília.

Conheço Lula há mais de 30 anos. Para mim é impensável que tenha se beneficiado pessoalmente de dinheiros da Petrobras ou de qualquer outra fonte.

Pergunta. A sociedade brasileira vê-se fragmentada neste momento depois de um tsunami político que parece começar em 2013. Na sua avaliação, em que ponto nos perdemos como sociedade para expor nosso pior lado nas relações sociais? Era uma ilusão que o país já esteve mais unido?

Resposta. Nós nunca fomos uma sociedade no sentido moderno, pois nunca saímos da situação colonial e neocolonial a que fomos submetidos desde a chegada dos europeus em nossas terras. Somos sócios menores e agregados ao projeto das grandes potências que dominam o mundo. Nunca pudemos elaborar um projeto autônomo e soberano de país.

P. As denúncias feitas pelo dono da JBS, que implicam o presidente Michel Temer e o senador Aécio Neves, podem reunificar as pessoas depois da polarização que varreu o país?

R. Creio que o efeito negativo maior recai sobre a figura de Temer, claramente cúmplice de corrupção comprovadas por gravação, a ponto de lhe tirar qualquer legitimidade e autoridade moral para estar à frente do governo. Não creio que vai reunificar as pessoas, pois os que deram o golpe querem levar seu projeto neoliberal extremamente radical até o fim. E continuarão a apoiá-lo.

P. O senhor sempre foi bastante crítico ao Governo Temer, a quem chama “golpista”. Qual é sua concepção de golpe?

R. O impeachment está na lógica da dominação das oligarquias. Elas usaram não mais o Exército como em 1964 mas o parlamento para afastar um governo que poderia ameaçar seus privilégios. Armaram um golpe que juridicamente, segundo os melhores juristas do país, era insustentável. A decisão havia sido previamente tomada de modo que os fautores do golpe sequer iam às sessões para escutar os especialistas e argumentação dos defensores de Dilma. Foi um golpe de classe com base parlamentar, com o apoio da mídia mais conservadora e até reacionária e de setores da Justiça, até no mais alto escalão, que temem a ascensão dos milhões de pobres na vida social minimamente digna. A nossa democracia é de baixíssima intensidade. Se medirmos a democracia pelos critérios dos direitos humanos, da participação popular, da defesa das grandes maioria negras, da justiça social, essa democracia é antes uma farsa que uma realidade sustentável.

P. Não era hora de grandes lideranças, incluindo representantes da igreja, se coordenarem para garantir um mínimo de estabilidade até 2018?

R. Creio que está ocorrendo esse processo. Mas ele é inicial porque há um vazio de lideranças, com capacidade de convocação geral. Possivelmente a situação obrigará essa articulação, especialmente, se Temer insistir em permanecer no poder. Ele será tirado por uma dupla combinação: pressão popular e condenação pelo STF dos crimes a que é acusado. Aí perderá o mandato. O que vier depois é um enigma.

P. O Brasil viveu a era do PT por 13 anos que trouxe ganhos hoje bastante questionados. Do seu ponto de vista, o PT deixou mais desilusão do que um legado?

R. Os dois governos do PT foram os únicos na história do Brasil que deram centralidade aos pobres, fazendo políticas sociais que ao todo incluíram na cidadania cerca de 36 milhões de pessoas. E principalmente lhe deram dignidade, valor humano que funda a autoestima e o sentido da vida. A política de cotas e o PROUNI permitiu que os pobres tivessem acesso à universidade que antes lhes era negado. Hoje há favelados negros que são médicos, engenheiros e até diplomatas. Isso era impensável antes. Tal avanço daqueles do andar de baixo, assustou a oligarquia e também a classe média que viu seus lugares de privilégio serem ocupados por esses novos cidadãos. Essa ascensão está na base do ódio de classe que vem do andar de cima, não dos pobres beneficiados. Esse legado não pode ser perdido, pois significou uma diminuição da desigualdade, uma humanização nas relações sociais e um limite à voracidade selvagem de nosso tipo de capitalismo que nunca foi civilizado e mantém níveis de acumulação dos mais altos do mundo, sem qualquer sentido de solidariedade para com seus semelhantes.

P. O senhor republicou um artigo do EL PAÍS em seu blogue em que havia uma menção negativa a Lula, citando que ele feriu de morte a esquerda e ajudava a criminalizar bandeiras sociais. O fato foi explorado, e foi dito que o senhor havia rompido com Lula, algo que desmentiu na sequência. O senhor não está de acordo com a ideia de que ele feriu a esquerda e criminalizou as bandeiras sociais?

R. Considerei o artigo, em grande parte objetivo. Mas como prezo a democracia e a diversidade de opiniões publiquei junto a crítica feita a Lula. Não concordo com esta crítica porque ela não é verdadeira. Lula sempre defendeu as bandeiras sociais e jamais criminalizou os movimentos sociais. Dizer que feriu de morte a esquerda não faz sentido, pois a esquerda estava no seu governo e a esquerda na sociedade fazia críticas à certas políticas de Lula mas sempre preservando o acerto de seu projeto social. Isso fica claro com a posição do MST: criticava duramente o governo Lula por não fazer a reforma agrária, mas jamais entregaram Lula à direita. Ele sempre foi visto como o representante legítimo dos marginalizados, sem terra e sem teto.

P. Qual é a sua posição sobre o Lula hoje?

R. Conheço Lula há mais de 30 anos. Para mim é impensável que tenha se beneficiado pessoalmente de dinheiros da Petrobras ou de qualquer outra fonte. O caixa dois, convenhamos, era o hábito político de todos os partidos com a exceção de alguns pequenos que se orientam por uma ética transparente (PSOL e outros menores). Lula não teve contas fora, os dados e testemunhos todos apontam que o famoso apartamento triplex no Guarujá não é dele e as reformas de um sítio, cujo dono é outra pessoa, são irrisórias em termos financeiros, quando comparamos os milhões e milhões que foram desviados e foram parar nas mãos da grande maioria dos políticos que eram corruptos ou se deixaram corromper. Estou convencido da retidão de Lula e considero perversa a perseguição que a justiça parcial move contra ele.

P. O senhor acredita que ele é vítima e que o partido dele, que segundo as investigações recebeu dinheiro desviado por executivos da Petrobras, é inocente?

R. A estratégia das oligarquias e seus aliados, com o apoio hoje reconhecido dos organismos de segurança norte-americano é desestabilizar, a nível mundial e também no Brasil, todos os governos progressistas que tenham uma orientação social e destruir a figura de Lula – e se, possível, tornar inviável o PT. Todos devem alinhar-se às estratégias estabelecidas pelo Império (um só mundo e um só império; full spectrum dominance: cobrir todos os espaços; desestabilizar governos que não se alinham a estas estratégias centrais). O espaço no Atlântico Sul estava descoberto e dominado pelo Brasil com imensas reservas de petróleo e gás. Há ainda o momento da nova guerra fria entre USA e a China que está penetrando poderosamente na América Latina. Atacar as políticas brasileiras implica também atacar os BRICS do qual o Brasil faz parte e indiretamente seu rival maior, a China.

P. O juiz Sergio Moro, durante o depoimento de Lula, perguntou a ele por que não mandou investigar o PT quando soube de desvios. Não faria sentido?

R. Esse pergunta estava fora do objeto do julgamento que era o apartamento triplex. Lula foi correto ao dizer que quem cometeu malfeitos e desvios deviam ser julgados e punidos.

P. Como avaliou o depoimento dele ao juiz Moro?

R. Sincero e verdadeiro. Foi hábil ao trazer o juiz Moro para o seu campo, deixando-o quase como um aprendiz que se sentia humilhado, pois muitas vezes, fugia do campo estritamente técnico da acusação do apartamento, para o campo político, o que não era objeto de indagação. Mas percebia-se a má vontade do juiz.

P. O senhor já escreveu críticas à Lava Jato. Qual a sua avaliação? Não vê idealismo nos procuradores por uma justiça que chegue aos poderosos, uma deficiência nossa?

R. Sempre defendi a Lava Jato como combate à corrupção. Minha crítica era sobre a parcialidade dos julgamentos. Praticamente se restringia ao PT poupando especialmente o PSDB. Vejo os procuradores tomados pela vaidade dos holofotes dando a impressão de serem os verdadeiros mandatários do país e os únicos a proporem combate à corrupção. Esta está entranhada nas estruturas do Estado e de toda a sociedade. Não temos corrupção pontual. Estamos assentados sobre um modo de ser, de viver, de realizar o jogo político no qual a corrupção é um dado naturalizado. Enquanto não houver uma profunda reforma política, realmente democrática, persistirá a lógica da corrupção.

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