Belchior foi “embora sorrindo, sem ligar para nada”

1 de maio de 2017 at 1:31 4 comentários

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POR XICO SÁ, no El País

O mais literário dos compositores brasileiros, o trovador do Ceará sabia tudo a respeito das nossas dores e inquietações

O primeiro grande porre, no balneário do Caldas, em Barbalha (CE), foi sob efeito do disco “Alucinação” (1976). O vômito inaugural tinha um motivo, além da garrafa de aguardente Kariri com K: a estranheza diante da primeira dor de amor. Muitos amores depois, na conquista ou na perdição, lá estava o bigode também na vitrola. Belchior foi o cara que sempre cantou os fracassos e os triunfos desses rapazes latino-americanos sem dinheiro no bolso e vindos do interior.

O trovador do Ceará também embalou os roqueiros da metrópole e os corações selvagens dos subúrbios. Não por acaso, o comentarista Walter Casagrande (TV Globo), em plena decisão do campeonato paulista, deixou Ponte Preta x Corinthians de lado para dizer o quanto Belchior foi importante para traduzir as inquietações iniciais da sua geração a partir dos anos 1970.

Em diálogo com Beatles, Cego Aderaldo, Godard, Baudelaire, Dante, os Dylan (Bob e Thomas), Torquato Neto, Mário Faustino, Jorge de Lima, Albert Camus, Drummond, Roberto Carlos, Luiz Gonzaga e com o avesso de Caetano Veloso – “nada é divino, nada é maravilhoso!” – , o cearense soube cantar as nossas dores naqueles momentos em que não sabemos direito diagnosticá-las. Só sabemos que deveras sentimos. Saca aquela melancolia do domingo à tarde?

Momentos em que só nos resta tomar um trago e levar a agulha para riscar de novo este angustiado “Coração Selvagem” no vinil: “Meu bem, talvez você possa compreender a minha solidão/ O meu som, e a minha fúria e essa pressa de viver/ E esse jeito de deixar sempre de lado a certeza…”

No primeiro exílio, viagem ao redor do meu quarto de pensão da esquina da rua das Ninfas com rua do Progresso, no Hellcife, lá de novo estava Belchior, no começo dos 1980. “Minha rede branca/ Meu cachorro ligeiro/ Sertão, olha o Concorde/ Que vem vindo do estrangeiro/ O fim do termo “saudade”/ Como o charme brasileiro/ De alguém sozinho a cismar…”

No primeiro punhal de amor traído, no destino das inevitáveis partidas e na sensação de estranheza ou estrangeirismo, sempre haverá uma balada de Belchior. Ninguém interpretou melhor no Brasil essa permanente canção do exílio. O cearense é antes de tudo um cigano. O gênio de Sobral foi antes de tudo um exilado.

No inferno com Roberto

Sempre errante, cantou assim, em uma desconhecida canção do disco “Paraíso” (1982): “Um dia você me falou, em Andaluzia e em Valladolid/ Granada fica além do mar, na Espanha/ Molhou em meu vinho seu pão/ E também me falou em coisas do Brasil/ O FMI, Tom, poeta tombado na guerra civil…”

Falamos da faixa “E que tudo mais vá para o céu”, um diálogo-ruído com o inferno do rei Roberto. Na mesma música, o cara trata de uma certa dor do poeta Drummond e da asa negra da graúna alencarina. Ninguém celebrou mais a literatura brasileira em uma vida & obra musical do que Belchior. Nem mesmo Caetano, outro chegado nas citações das coisas que aprendeu nos livros.

Ainda com a agulha na mesma faixa do vinil, escuto um coro grego que diz assim: “Vá embora poeta maldito!/ O teu tempo maldito também já terminou”.

No que o trovador do Ceará responde: “E eu fui embora sorrindo, sem ligar pra nada;/ como vou ligar para essas coisas/ quando eu tenho a alma apaixonada? (…) “E eu quero mandar para o alto/ O que eles pensam em mandar para o beleléu/ E que tudo mais vá para o céu”.

Xico Sá, escritor e jornalista, é um dos autores do livro coletivo “Para Belchior com amor” (ed. Miragem, 2016).

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Sem pinta de decisão Recado em forma de canção

4 Comentários Add your own

  • 1. José FERNANDO PINA Assis  |  1 de maio de 2017 às 3:01

    Belíssimo depoimento!
    Enobrecedor, não fosse uma espécie de ODE ao compositor que brincava de amarelinha com a poesia. Era nítida a intimidade de Belchior com a literatura, tupiniquim e mundial e suas contra-citações, antonimizações das “verdades”, eram tão ferinas quanto dulces. Parabéns ao jornalista Xico Sá pelo brilhante texto.
    BELCHIOR o merece e seu “canto novo feito faca” certamente cortou a face de todos quantos o escutaram. Como eu!

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  • 2. Osvaldo Costa  |  1 de maio de 2017 às 7:04

    Por razões profissionais, passo muito tempo fora de casa, longe das pessoas e coisas que amo, e uma das músicas que mais escuto do genial Belchior, é “Tudo Outra Vez”. Uma obra prima !

    Há tempo, muito tempo
    Que eu estou
    Longe de casa
    E nessas ilhas
    Cheias de distância
    O meu blusão de couro
    Se estragou
    Oh! Oh! Oh!…

    Ouvi dizer num papo
    Da rapaziada
    Que aquele amigo
    Que embarcou comigo
    Cheio de esperança e fé
    Já se mandou
    Oh! Oh! Oh!…

    Sentado à beira do caminho
    Prá pedir carona
    Tenho falado
    À mulher companheira
    Quem sabe lá no trópico
    A vida esteja a mil…

    E um cara
    Que transava à noite
    No “Danúbio azul”
    Me disse que faz sol
    Na América do Sul
    E nossas irmãs nos esperam
    No coração do Brasil…

    Minha rede branca
    Meu cachorro ligeiro
    Sertão, olha o Concorde
    Que vem vindo do estrangeiro
    O fim do termo “saudade”
    Como o charme brasileiro
    De alguém sozinho a cismar…

    Gente de minha rua
    Como eu andei distante
    Quando eu desapareci
    Ela arranjou um amante
    Minha normalista linda
    Ainda sou estudante
    Da vida que eu quero dar…

    Até parece que foi ontem
    Minha mocidade
    Com diploma de sofrer
    De outra Universidade
    Minha fala nordestina
    Quero esquecer o francês…

    E vou viver as coisas novas
    Que também são boas
    O amor, humor das praças
    Cheias de pessoas
    Agora eu quero tudo
    Tudo outra vez…

    Minha rede branca
    Meu cachorro ligeiro
    Sertão, olha o Concorde
    Que vem vindo do estrangeiro
    O fim do termo “saudade”
    Como o charme brasileiro
    De alguém sozinho a cismar…

    Gente de minha rua
    Como eu andei distante
    Quando eu desapareci
    Ela arranjou um amante
    Minha normalista linda
    Ainda sou estudante
    Da vida que eu quero dar
    Hum! Huuum!…

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  • 3. celira  |  1 de maio de 2017 às 9:02

    É interessante perceber que Belchior conseguiu fazer de suas poéticas letras obras de alcance popular.

    Por que digo isso?

    Por que ele não era um cantor e compositor que eu ficava ouvindo diariamente. Para mim, ele sempre foi do esporádico, uma música na rádio. Com a morte dele, fui ouvi-lo como forma de homenagem particular e surpreendeu-me perceber que conheço muitas de suas canções.

    Para mim, ele foi o que sempre ele quis o conhecido desconhecido, o grande artista escondido.

    Infelizmente hoje, artistas com vies semelhantes a Belchior tornaram-se demasiadamente “cult” e distante do grande público, talvez por ignorância deste ou sabe-se lá por que razão.

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  • 4. blogdogersonnogueira  |  1 de maio de 2017 às 16:11

    Letra confessional e comovente, amigo Osvaldo. Acho que cada fã do bigodudo tem uma canção predileta. Gosto muito dessa, que está na vitrolinha do carro, mas a que mais bate fundo é “Apenas Um Rapaz Latino-Americano”. Os versos iniciais (“Eu sou apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior”) são basicamente o resumo da vida de muitos brasileiros como eu. Em momentos difíceis esta música esteve sempre presente, a me consolar.

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