Perdedores maravilhosos

21 de abril de 2017 at 18:48 3 comentários

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POR GERSON NOGUEIRA

Durou apenas três discos, mas marcou a cena musical para sempre, influenciando muita gente boa. Venderam pouco, não alcançaram sucesso comercial, nem lotavam shows. Essa aura de derrotados, porém, não combina com a consistência artística e a longevidade do trabalho. Big Star, banda criada por Chris Bell e Alex Chilton na Memphis dos anos 70, nadou sempre contra a correnteza. Apesar do nome pretensioso, teve dificuldades imensas em fazer chegar sua música ao mercado. Contou com a admiração de críticos e músicos, mas passou à história como a aposta que não vingou.

Uma parceria desastrada entre a pequena gravadora da banda, a Ardent Records, e a então poderosa Stax acabou por detonar toda e qualquer possibilidade de conquistar fama e dinheiro. A Stax faliu justamente quando era lançado o álbum Radio City, considerado o mais apurado trabalho dos artesãos Chilton e Bell, que tinham talento para serem reverenciados como Lennon & McCartney ou Jagger & Richards, mas que acabaram se perdendo em alguma curva da estrada.

A história do Big Star revela uma linha invisível a ensinar que nem tudo leva ao sucesso na indústria da música, por mais que todos os elementos estejam presentes. Alex Chilton havia aparecido como vocalista e compositor do grupo Box Tops, estourando nas paradas com o sucesso “The Letter” em 1967. Largou Box Tops e, aconselhado pelos pais, guardou a grana. Matava o tempo curtindo a vida mansa em Memphis, cidade sempre cultuada como berço do rock e morada do blues.

Em 1972, durante ensaios nos estúdios da Ardent, alguém soprou a Chris Bell que Chilton estava livre e que talvez topasse se juntar a ele. O convite foi feito e prontamente aceito, reunindo dois grandes músicos em torno de um projeto ainda sem nome. Enquanto analisavam sugestões, alguém apontou para a fachada de uma revendedora de carros que ficava em frente à gravadora. Big Star. Estava batizado o grupo.

Amigos e parentes da dupla falam sobre os dois, ajudando a personalidades complexas e parecidas. Como era previsível, a relação deteriorou com o tempo muito em função da introspecção de ambos, que erguia uma barreira na comunicação, embora deva-se dizer que se completavam no aspecto criativo.

“#1 Record” foi o título do primeiro LP, que chegou cercado de expectativas e resenhas favoráveis, mas teve vendas muito fracas. Bell passou a desenvolver uma certa mágoa porque Chilton era sempre reconhecido pela mídia. Rolling Stone e NME viviam incensando-o, até mesmo quando a presença de Bell era mais preponderante em determinada composição.

O segundo disco, “Radio City” (1974), foi saudado com redobrado entusiasmo pelas revistas especializadas, mas o insucesso comercial trazia crescente desânimo. Críticos musicais influentes, Lester Bangs à frente, admiravam e reverenciavam o Big Star, mas não foram capazes de fazer com que o grande público se interessasse pelas canções de construção delicada e inventiva, como “Kangoroo” e “In the Street”.

Depois do terceiro álbum, “Third/Sisters Lovers”, em 1978, que já não contou com a presença de Chris Bell, o Big Star simplesmente desapareceu em meio a uma nuvem de frustração nos que aprenderam a cultuar a banda.

Depois de várias tentativas infrutíferas de mostrar suas criações, Bell morreria tragicamente aos 27 anos – membro obscuro do chamado “clube dos 27”, como Brian Jones, Janis Joplin, Jim Morrison e Jimi Hendrix -, vítima de acidente de carro.

Ouvir hoje as músicas de Chilton e Bell confirma a impressão de que eram realmente músicos de primeira linha que escolheram hora e lugar errados. Em carreira solo, Chilton chegou a abraçar a causa punk, juntando-se aos Replacements e angariando a devoção de nomes respeitáveis, como o R.E.M., Pixies e Wilco, mas nunca mais repetiu o êxito de “The Letter”.

Antes de sua morte, em 2010, ainda teve tempo de promover um revival do Big Star, tendo o baterista Jody Stephens como único parceiro da formação original. Foram apresentações memoráveis nos Estados Unidos e Inglaterra matando a saudade de fãs ilustres e anônimos. Apesar de toda a urucubaca que certou sua história, a banda ocupa hoje um lugar de honra entre as referências do rock alternativo.

Resolvi escrever esta resenha tardia depois de ver o documentário dirigido por Drew DeNicola e Olivia Mori intitulado “Big Star: Nothing Can Hurt Me”. O filme estampa, com crueza e dignidade, a dor e a melancolia vistas nas músicas e nas vidas dos músicos do Big Star.

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3 Comentários Add your own

  • 1. Nelson Albuquerque  |  21 de abril de 2017 às 20:25

    Boa noite Gerson e demais amantes da boa música. Eu não conhecia esta banda, mas gostei de “In the Street”… Uma banda que eu aprecio e que parece ter uma história similar a da Big Star é a Badfinger, que foi capitaneada pelo Pete Ham (também do clube dos 27…) e chegou a lançar alguns singles de muito sucesso (sugiro escutar, caso não conheça, a canção “No matter what”).

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  • 2. celira  |  22 de abril de 2017 às 1:18

    Grande texto Gerson, não conheço a banda, mas a curiosidade foi enorme por conta do texto.

    Sobre o sucesso, bem, de fato é algo da ordem do inexplicável. É aquela mãozinha divina que torna grandes músicos e músicos famosos.

    Sim, há muitos músicos bons, e muitos músicos famosos ruins… É a vida.

    Enfim, como costumo dizer, referindo-me ao cinema, o crítico diz se é arte, o público diz se é sucesso e o tempo dirá se trata-se de um clássico.

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  • 3. blogdogersonnogueira  |  22 de abril de 2017 às 10:10

    Foi justamente esse aspecto das incertezas do sucesso que mais me fascinou na história do Big Star, amigo Carlos. O documentário está no Netflix e é muito bom. Recomendo.

    Curtido por 1 pessoa

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