A malhação do Temer

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POR XICO SÁ, no El País

Mais sujo e maltrapilho do que o boneco homônimo da malhação do Judas do Crato, no Cariri cearense, o presidente Michel Temer dificilmente remendará seus farrapos morais para seguir no cargo. As delações da Lava Jato o atingem de forma direta, sem meias palavras, como você lê no relato de Xosé Hermida.

Simbolicamente esfolado em praça pública, na brincadeira cristã e folclórica da Semana Santa, o que ainda pode salvar o mandato de M.T. – seu codinome na planilha da Odebrecht – é a obsessão dos empresários em malhar sem dó os Zés Ninguéns com o desmantelamento nas leis trabalhistas e a reforma da Previdência.

Quanto vale tudo isso na “feira do Paraguai” do Congresso? – a definição é do senador Romero Jucá, um dos principais comparsas do presidente malhado. A tomar pela compra de MPs (medidas provisórias) e projetos-de-lei, quanto está valendo cada congressista no momento? Não venham me dizer que agora é por amor ou credo neoliberal.

Como aceitar que alguém mude as regras da minha aposentadoria depois de saber o recurso do método no esquema dos parlamentares? Fiquei fissurado em apenas uma pergunta: quanto custa, por cabeça, a cada medida aprovada pelo governo? Quem banca agora, depois que sujou para o ramo das generosas empreiteiras? O setor financeiro, que ainda não apareceu nos escândalos da Lava Jato? As empresas estrangeiras, interessadas em assumir os contratos bilionários depois da falência dos enlameados nacionais? Alguém deve estar pagando a conta. Desculpa se volto a desconfiar do patriotismo ou da crença ideológica desses “homens do bem”.

A compostura do presidente e dos parlamentares, precisamos falar de novo sobre a festa cristã das ruas, é a mesma dos espantalhos atingidos pelo som e a fúria na malhação do Judas. Pelo menos na simbologia há uma revolta popular. Que sejam malhados políticos de todas as cores e correntes. Escolhi o Temer e seus aliados por uma medida preventiva óbvia: quem sabe o país ainda consiga evitar a bagaceira prevista para as próximas votações do Congresso.

Ode-brechitiano

No distanciamento brechtiano, técnica de teatro concebida pelo dramaturgo alemão Bertolt Brecht, o que interessa é deixar o mais evidente possível ao espectador que ele está assistindo a uma obra de arte, tudo aquilo é apenas uma ilusão etc. Calma, amigo, não sofra tanto, é apenas uma peça, por mais que seja dramática e sangrenta. As pessoas que gritaram “Jesus, gostoso!” ou “Jesus (o ator de tv Rômulo Arantes Filho), homão da porra”, durante a encenação da “Paixão de Cristo de Nova Jerusalém”, entenderam o espírito.

O distanciamento ode-brectiano, com ou sem Lava Jato, é o contrário. Algo tão do realismo-naturalista que assombra mesmo os conhecedores do submundo da política brasileira. Usei o termo ode-brechtiano pela primeira vez no início deste século, em uma crônica da revista Bravo! De lá para cá, segue uma técnica cada vez mais assustadora.

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