Kehl: crime de Lula foi abalar o conformismo frente à desigualdade

Maria Rita Kehl, escritora e psicanalista, foi uma das pessoas que assinaram o documento em defesa de Lula e da democracia. Sem conseguir comparecer ao evento que lançou a campanha, na noite de quinta-feira (10), ela enviou uma mensagem de solidariedade ao ex-presidente. Leia abaixo:
cvzp4yew8aa0drd“Os que condenam o presidente Lula sabem muito bem que ele não é corrupto. O crime imperdoável que ele cometeu foi abalar de uma vez por todas o conformismo da sociedade brasileira frente à miséria, à desigualdade, às injustiças sociais. Seus oito anos de governo não foram suficientes para erradicar essas três doenças sociais com as quais o povo brasileiro tinha se acostumado a conviver, quase conformado. Mas evidenciaram a falta de vontade política, a falta de coragem e de senso de justiça social características de todos os governos anteriores.”
“Os que condenam o presidente Lula não perdoam a maré de esperança e de engajamento, mobilizada durante seus dois mandatos. A condenação injusta do presidente Lula nos confronta com a mais grave forma de miséria que vitima a sociedade brasileira: a miséria da falta de sensibilidade, de solidariedade e de generosidade das nossas elites.” (Do Brasil247)

Relembranças de andanças pela Alemanha (2006)

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POR GERSON NOGUEIRA

Há sempre um lugar no mundo que mexe com a gente, que deixa raízes, que faz com que a breve passagem se eternize em nossos corações e mentes. Deve ser predestinação, algo assim. Nos últimos dez anos, estive numa porção de recantos e três deles são particularmente vivos em minha memória. (Como se sabe, a lembrança é seletiva, priorizando o que agradou aos nossos sentidos). Durante os 50 dias perambulando pela Alemanha, no trabalho assaz agradável de cobrir a Copa do Mundo, conheci cidades e lugarejos dos mais diferentes tamanhos e características.

Apesar da brutal distância imposta pela língua e pela cultura, fiquei bastante tocado pelo que vivenciei em Leverkusen, Munique e Colonia. Modernas e sedutoras cidades – limpas, arejadas, luminosas e verdes, muito verdes. Já me referi a elas em outros momentos aqui no blog, que pretende ser uma espécie de diário de bordo de minhas experiências profissionais e viagens pelo mundo.

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Em Leverkusen (foto acima), cidade aprazível e de pequeno porte (161 mil habitantes), ao lado de nosso hotelzinho de perfil familiar, onde até os vigias eram parentes do proprietário, havia um restaurante croata de cozinha impecável. Sabores, aromas, ambiência, serviço, astral. Enfim, tudo conspirando no sentido de fazer do lugar um espaço aconchegante, que exigia novas visitas.

Talvez por isso íamos lá todas as noites. Reinaldo Furlan, da Rádio Paiquerê (PR), Tommaso e eu. O prato, invariavelmente, era o mesmo: Cordon Bleu. Um filé suíno sem gordura e acumpliciado de um molho branco, com ervas e talharim. Manjar dos deuses. Se pudesse, embalava para trazer na viagem quando voltamos ao Brasil. Jurei que um dia volto lá só para matar a saudade do Cordon Bleu.

Bosques, sacadas, hortas, jardins e praças tornam a Alemanha absolutamente verde. É claro que o Partido Verde só podia ter nascido lá. Até as agências bancárias contam com áreas inteiras de descanso repletas de plantas e flores. Cenário inimaginável para um caboclo do Pará que julgava ser o Primeiro Mundo um lugar deserto, poluído e inóspito.

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De Colônia guardo a recordação de ter levado um susto em frente à Catedral gótica, símbolo da cidade e referência visual para quem chega. No portão principal há uma placa informando que a segunda reforma da igreja foi concluída em 1200 e lá vai poeira. Por instantes fiquei a matutar sobre a insustentável leveza do ser e outras filosofices, lembrando que o nosso Brasil ainda nem sonhava em ser descoberto quando os alemães já reformavam sua imponente igreja.

Além do perfume – a célebre Água de Colônia 4711, criada há dois séculos – que faz sua fama mundo afora, Colônia é a maior cidade do estado de Renânia do Norte-Vestfália, no oeste da Alemanha. Com 157 metros de altura, a catedral tem torres que podem ser avistadas. A área interna tem 6.900 metros quadrados abrigando cinco naves e sete capelas, adornadas por 10 mil metros de vitrais deslumbrantes. Banhada pelo rio Reno, a cidade é grande, tem mais de 1 milhão de habitantes, ruas festivamente arborizadas e recebe visitantes do mundo todo.

Enquanto os jogos se desenrolavam e o Brasil ia enganando com aquele falso time dos sonhos (Ronaldo, Ronaldinho, Roberto Carlos, Cacá e Adriano), mal ajambrado pelo Parreira, a gente aproveitava para conhecer alguns dos segredos da terra de Beethoven. Procurei valorizar a parte não badalada pelos folhetos turísticos e guardei distância dos museus dos campos de concentração, conservados como história a não ser repetida.

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Nessas andanças, quase ao final da Copa, com o Brasil já nocauteado pela França de Zidane, fomos visitar uma das maiores cervejarias de Munique, a Hofbräuhaus, ou simplesmente HB, que é a mais popular e conhecida da cidade. Abre todos os dias e está sempre apinhada de gente. Em 1920, aconteceu na HB o primeiro evento da patota do futuro ditador, que fez então seu discurso de apresentação do “programa de 25 pontos”, com as diretrizes do partido nazi. Na II Guerra, ela foi totalmente destruída, sendo reconstruída em 1958.

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Após o impacto causado pelo suntuoso salão interno da cervejaria, com seus lustres e arabescos, os garçons apresentam a carta de cervejas. Tem de tudo, desde a tradicional clara (chamada Original ou Helles, a de trigo (Weißbier) e até a escura (de malte, Dunkel). Há também cerveja sem álcool e cerveja light (a Weiße leicht). Para jantar, joelho de porco, salsichas diversas e saladas de batata. Aliás, através deste link, pode-se ver o menu em inglês com os preços e, neste outro link, o cardápio em alemão.

Ainda sobre a história da HB, os quadros na parede contam que ela foi fundada em 1589 pelo duque William V da Baviera, para usufruto apenas da realeza. Apenas em 1828 a cervejaria foi aberta à plebe, por ordem do rei Luís I (o Ludwig I, cujo casamento originou a hoje famosa Oktoberfest). Generoso, ele mandou reduzir os preços a fim de que todos tivessem acesso à HB. Sábia providência. 

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Guerreiro, Castilho, Cláudio Guimarães, Carlos Estácio e eu nos esbaldamos no chope alemão servido em canecas de um litro. Sempre meticuloso, o bragantino Cláudio deu um jeito de comprar uma das canecas e trazer na mala para o Brasil. O programa teve como trilha sonora música alemã e a algazarra da babel de torcedores (ingleses, argentinos e franceses, principalmente). Tudo sob a consultoria permanente de um garçom português, que havia morado no Rio de Janeiro, que nos atendeu com fidalguia, informando pacientemente os segredos do inexpugnável cardápio da cervejaria.

Tudo isso aconteceu há dez anos, mas parece ainda que foi ontem. Não posso deixar de registrar o comentário de Ivo Amaral, que também estava hospedado em Munique e de vez em quando saía com a gente. Segundo o nosso Camisa 10, a Copa do Mundo é sempre um evento maravilhoso, o que atrapalha são os jogos. Quanto àquele mundial, especificamente, tenho que concordar com ele.

Trabalhadores e estudantes participam de atos em defesa dos direitos e contra a PEC 55

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A sexta-feira (11) foi marcada por manifestações em pelo menos 16 Estados e no Distrito Federal contra a proposta de emenda constitucional (PEC) que limita os gastos públicos, a PEC 241/55. As principais mobilizações ocorreram na Bahia, Espírito Santos, Pará, Rondônia, Amazonas, Mato Grosso do Sul, Pernambuco, Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte, Alagoas, Sergipe, Maranhão, Piauí, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Paraná e São Paulo. Motoristas de empresas de ônibus também paralisaram suas atividades, e manifestantes fecharam avenidas e estradas. Na Bahia, bancários e professores também aderiram.

São Paulo
Na Grande São Paulo, foram bloqueadas as rodovias Anchieta, Dutra, Régis Bittencourt e a Avenida João Dias. A Anchieta foi totalmente bloqueada no km 23, em São Bernardo do Campo, no sentido capital, por volta das 6h30. O mesmo aconteceu na Avenida João Dias, na Zona Sul de São Paulo, no mesmo horário. O bloqueio ocorreu perto do terminal de ônibus João Dias.

Cerca de 30 unidades da Sabesp paralisaram suas atividades. As ações foram lideradas pelo Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente (Sintaema), um dos maiores sindicatos da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil – CTB. O presidente nacional da CTB, Adilson Araújo, destacou que os atos de hoje, pelo Brasil, inauguram uma ampla jornada de luta em defesa dos direitos. “A classe trabalhadora já sente os efeitos da receita nociva aplicada por Michel Temer em sua gestão”.

Belém

Estudantes universitários e secundaristas participaram da manifestação em Belém, que percorreu as ruas do centro da cidade (foto acima). Professores e sindicalistas também aderiram à caminhada, que reuniu cerca de 12 mil pessoas, segundo os organizadores.

Relator da MP do Ensino Médio é empresário milionário da educação privada

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POR TATIANA FARAH, do BuzzFeed Brasil

Relator da Medida Provisória (MP) da reforma do ensino médio, o senador Pedro Chaves (PSC-MS) construiu um império de educação privada do Mato Grosso do Sul.

Chaves, que gosta de ser chamado de professor, fundou a Uniderp (Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal), vendida para o grupo Anhanguera. Ele é dono da Mace, um dos colégios mais tradicionais de Campo Grande, com mais de dois mil alunos.

Em 2010, quando concorreu como suplente do senador cassado Delcídio Amaral (ex-PT-MS), Chaves declarou à Justiça Eleitoral um patrimônio de R$ 69 milhões.

Em entrevista ao BuzzFeed Brasil, o senador Pedro Chaves disse não ver conflito de interesses entre sua atividade empresarial e o posto de relator da reforma do ensino médio no Brasil: “Sou uma gota no oceano”.

O senador começou seu império nos anos 1970 e criou uma faculdade privada que mais tarde daria origem à Uniderp. Quando vendeu a universidade para o grupo Anhanguera em 2006, em um negócio que teria girado em torno de R$ 200 milhões, a instituição tinha cerca de 30 mil alunos.

Próximo de José Carlos Bumlai, empresário condenado a 9 anos e 10 meses de prisão na Lava Jato, Pedro Chaves foi citado pelo site O Antagonista por ter recebido um empréstimo de R$ 4,6 milhões para a Uniderp em 1998. Nada nas investigações trata dele.

“É óbvio que, para ter uma universidade dessas, eu que sou de família muito humilde, a luz da minha casa era de lampião. Eu comecei como professor, eu precisava de recursos para construir prédios, recorri ao banco Santander, que era agente do BNDES e tomei empréstimos. Pagava religiosamente. Nunca recebi nada de governo do estado, município, de governo nenhum”, disse o senador.

“Não vi conflito porque minha escola é uma escola de dois mil alunos. No Brasil temos no ensino médio 9 milhões de alunos. Sou uma gotinha no oceano. Minha escola é quase de tempo integral. É uma escola conceituada. De classe média, média alta. Quero que as escolas estaduais tenham o mesmo tratamento”, disse.

O senador deve concluir a relatoria da MP até o final deste mês. Deputados e senadores já entregaram 566 emendas à medida provisória, que prevê, entre outras mudança, a não obrigatoriedade do ensino de Sociologia e Filosofia.

Ao contrário do presidente Michel Temer, que disse que os estudantes não sabem o que é uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional), Pedro Chaves falou ao BuzzFeed que os jovens “estão bem conscientizados”. “Eles amadureceram muito neste episódio. É provável que o presidente tenha dito antes de conversar com eles”, disse o senador.

No entanto, Pedro Chaves, que disse ter feito movimento estudantil em sua juventude, quer que os alunos troquem as ocupações por passeatas: “Que forma é essa de manifestar, que você ocupa a sala sem pedir licença, comprometendo os colegas? A melhor forma é fazer passeata. Manifestar em praça pública.”