É o Círio que chegou

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POR EDYR AUGUSTO PROENÇA

Sei que me repito, mas não há o que fazer. Desejo um bom Círio a todos. Meu pai, que adorava, escreveu uma música “Belém está tão bonita, é o Círio que chegou, vejo carros, vejo gente, gente que não sei quem é”. O centro fica cheio. A “santinha” já passou na casa da minha mãe e também na Casa Cuíra. As arquibancadas já estão instaladas na Praça da República. Há comitê de recepção no aeroporto. Apesar dos esforços de Fafá de Belém, a maioria dos turistas é de paraenses que voltam à terrinha para matar as saudades. A programação é extensa. Há a procissão que leva Nossa Senhora em longo percurso a Icoaraci de onde sai na manhã de sábado até a escadinha do cais do porto. E então o ronco insuportável de milhares de motocicletas até a Basílica. Enquanto isso, uma turma sai no Cordão do Peixe Boi até a Praça do Carmo. A cidade finalmente mergulha em um frenesi. Há quem acompanhe a Trasladação. Outros visitam casas de amigos. O Roxy Bar fecha somente pela manhã de domingo. A Festa da Chiquita começa enquanto os foguetes dos estivadores iluminam o céu. Até que ela chegue à Sé, dando a volta na Praça, já temos quase meia noite. Nova espera. Romeiros chegam cedo para pegar lugar na corda. Lá vem ela. Aqui em Belém ou é a chuva, ou é Nazica. Moro no percurso do Círio. Nunca perdi um. Os foguetes voltam a explodir no Boulevard Castilhos França e todos acordamos mal dormidos, às pressas, visitas tocando na campainha e surgimos assim, meio assustados ao sol da manhã. A rua já está apinhada. Já passaram quantos carros? Procura na app pra saber onde Ela está. Experimentam salgados. Quando meu pai era vivo, bebida somente após a passagem Dela. Vem a corda. Gostava mais antes com dois lados. Paciência. É um chicote elétrico que vem sinuoso, como se cada movimento dependesse de muitos cálculos. Jovens e velhos. Homens e mulheres. Não acredito em promessas pagas com sofrimento. Não penso que Deus deseje nosso sofrimento. Enfim. Antigamente, autoridades desfilavam dentro da corda, acenando. Recebiam vaias, também. Os padres, derretendo no calor de seus paramentos vistosos. Lá está, finalmente. Pára em frente ao prédio. Olho em volta e não há espaço para ninguém. Mar de gente. A berlinda brilha como uma pilha, recebendo e devolvendo energia. É tão intenso que fico zonzo. Abraço os meus. Peço. Agradeço. O tempo literalmente para naquele instante. Sol a pino. Penso às vezes se os terraços, lotados, não correm risco de desabar. Ela não deixaria. Há um silêncio ensurdecedor, diria. Energia contra energia. E enfim ela se vai. Acompanhamos até sumir na cobertura das mangueiras. E então vem o grosso do povo. Vários minutos e minutos passando gente. Equipes da Cruz Vermelha, formadas por rapazes e moças abrem caminho na multidão. Um repórter de rádio, ao invés de transmitir a passagem da Santa, chora copiosamente, de emoção. Nos entreolhamos. Estamos todos com rostos inchados de choro e emoção. Voltamos a nos abraçar. Batemos palmas. Alguns, liberados, correm para as bebidas. Antigamente, meu pai trazia o violão. Convidados, artistas, todos cantávamos até a fome apertar. Vem o almoço do Círio, uma pequena sesta e lá se ia meu pai trabalhar no campo de futebol que tinha Remo e Paysandu. Hoje ele não está conosco, embora em pensamento. Sim, ele está lá. Um beijo, meu pai. Feliz Círio.

(Coluna publicada no caderno TDB, do DIÁRIO – foto: Adriano Chedieck/Matheus Freire, da Agência Eko)

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