Trajano, sem papas na língua

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TRECHOS DA MATÉRIA DE LUIZA OLIVEIRA E VANDERLEI LIMA

Falar o que pensa, sem filtro ou papas na língua. Esse é um dos pontos fortes de José Trajano. Foi assim que ele arrumou muitos problemas e alguns processos na vida, mas também construiu uma das carreiras mais respeitadas do jornalismo esportivo brasileiro.

E foi justamente para falar muito, por quase três horas, que ele atendeu a reportagem do UOL Esporte em um bar de São Paulo. Um lugar com alma carioca e origem tijucana como ele. Antes do horário combinado, no meio da tarde de uma terça-feira, ele já estava sentado em uma mesa de canto tomando sua cerveja.

Um luxo que ele só pode se dar por ter deixado a direção de jornalismo da ESPN quase cinco anos atrás, apesar de ainda atuar como comentarista do canal. Entre um gole e outro e um abraço no amigo Mino Carta que acabara de pegar uma mesa no bar, ele falou sobre o jeito explosivo, a gota d’água na ESPN, as brigas que colecionou e as mulheres que amou.

PERSEGUIDO E TAXADO DE PETRALHA

Engana-se quem pensa que Trajano é petista. Nunca foi. Na verdade, se assume como Brizolista (Leonel Brizola) e Darcyzista (Darcy Ribeiro). Mas é um homem de esquerda por convicção e contra o impeachment de Dilma Rousseff. Já criticou publicamente as vaias que a ex-presidente recebeu na Copa do Mundo e fez campanha para a população ir às ruas.

A militância custou caro. Acabou perseguido, ameaçado e impedido de entrar ao vivo em um jogo na Arena Corinthians durante a Copa por torcedores que tentaram agredi-lo. Na internet não foi diferente. “Fico indignado é com o seguinte: tem esse negócio de rede social, que qualquer coisa que eu falo nego começa a xingar. Agora é perseguição com ‘petralha’. Eu falo do Cristiano Ronaldo, nego me chama de petralha; vou falar do Messi, é petralha”.

O jornalista até precisou trocar o número de celular por conta das ofensas e fez questão de documentar os agressores. “Esse meu celular aqui é outro, eu troquei. Começaram a me ameaçar. Começaram a falar ‘vou te pegar na rua’, sua carreira acabou’, ‘petralha safado’. (…) Agora parou, mas se um dia acontecesse algo comigo, certamente partiria de algum débil mental desse aqui”.

Ele ainda protagonizou uma briga com o colunista da revista Veja Reinaldo Azevedo depois de ambos trocarem críticas em seus veículos. “Aí esse débil mental do Reinaldo Azevedo começou a me esculhambar na coluna dele. Eu disse na televisão que esse pessoal que vaiava era porque era estimulado por gente tipo ele, e ele começou, durante um mês, a escrever falando de mim, esse negócio todo”.

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CRÍTICAS A GENTILLI

Trajano se recusa a ser apenas um comentarista de futebol. Para ele, jornalista esportivo tem que se engajar na política e em tudo que interessa à sociedade. Por isso, não titubeia em usar seu espaço na ESPN para falar o que pensa. Muitas vezes cria saias justas. O episódio mais famoso recentemente foi a crítica à participação do humorista Danilo Gentili em um programa da casa.

“Alguns não gostaram do negócio que eu falei do Danilo Gentili, mas fora todo mundo gostou, de modo geral. Mas não gostaram porque eu esculhambei a produção do programa. Falei: ‘Pô, para convidar um cara como esse, só uma produção alienada que não acompanha o que acontece pelo mundo’. E foi naquela semana do estupro lá no Rio de Janeiro, a coisa estava quente. Chamaram para conversar, e eu sou assim. Talvez tenha sido deselegante com a produção, mas…”

E o que a TV acha disso? Não existe uma censura, mas já pediram para ele dar uma maneirada. “Já me chamaram algumas vezes. Na primeira vez foi essa briga com o Reinaldo Azevedo. Chama para dizer que é chato, que pegou mal, ‘se puder evitar, é melhor’. E eu respondo que sou assim, vou fazer o quê?”.

Será difícil fazer Trajano mudar de filosofia:. “A imprensa esportiva também tem que se posicionar politicamente, não tem que ser um bando de alienados. O grande erro do chamado jornalista esportivo é que a grande parte deles é alienada, sim, não tem nenhuma consciência política. Sou politizado. Tenho minha posição política e não vou esconder de ninguém. Como não escondo o time que eu torço. (…) Na hora que o jornalista esportivo deixar de ser bundão e tomar coragem, talvez esse jornalismo esportivo melhore, mas tá difícil”.

A GOTA D’ÁGUA NA ESPN

Foram 17 anos dedicados à ESPN como chefe. Dia e noite, noite e dia. De alma e de coração. Mas uma hora o ciclo tem um fim. Certo dia em uma reunião do canal, Trajano criticou a falta de comunicação da equipe. Foi interrompido por uma funcionária nova na casa que o questionou e disse que estava tudo ótimo.
“Aí eu não aguentei, mandei para aquele lugar. Você cria, depois de 17 anos vem alguém com três meses… Saí dali e não voltei mais. Fui para casa e no dia seguinte pedi demissão, aí fiz um acordo”.
Àquela altura, ele e todos os corredores da redação já sabiam que a saída da chefia era questão de tempo. E foi na hora certa porque tudo já pesava. O mercado, o desgaste, a pressão pela audiência, a intensidade do trabalho, as pessoas novas que começaram a ocupar cargos importantes.

“Defendo até a tese que já queriam me mandar embora havia muito tempo. Por muita gente lá dentro eu já teria ido, porque sempre fui uma pedra no sapato. Eu não admitia que o comercial se metesse muito na redação. Digo ‘aqui não, vocês estão lá, nós aqui’. O marketing… Todas essas coisas novas, dessa modernidade de hoje, eu questionava pesquisa, esses mecanismos de medição”, diz.

A ficha demorou a cair. Depois de tanta dedicação, Trajano passou ainda uns dois anos dando bronca na redação sem autoridade de chefe. “Fiquei um pouco perdido por ter que tirar o pé. Aquilo me tirou o chão, e eu fiquei insuportável”, diz ele que já se acostumou e tenta ver o canal como uma página virada. “O que eu fiz está feito, se foi bom ou ruim não tem conserto mais. Tem um grande valor que tenho, que é ser pioneiro e fazedor de uma série de coisas. E é a vez deles. Trajano agora é um retrato na parede, igual Getúlio Vargas”.

COMENTARISTAS ENGRAÇADINHOS

Trajano não pegou a fase da guerra pela audiência que já dominou a TV fechada. Ainda bem. Ele reclama do domínio do marketing sobre o jornalismo e mais ainda da mistura de jornalismo com entretenimento tão comum hoje em dia. É aí que surge um tipo que ele detesta: os comentaristas engraçadinhos.
“Tem quem tente virar personagem. Tem muita gente metido a engraçadinho, eles confundem, começa a ser piadista, falar um monte de asneira e achar que faz parte. Para mim não faz. Eu detesto isso. O cara não precisa ser sisudo, rancoroso, não é isso. Não é para todo mundo ser fechado. Mas não precisa ser palhaço também. (…) O humor é para quem sabe fazer humor, jornalista não sabe. Jornalista se mete a fazer humor e faz pessimamente, fica caquético, imbecil. Claro que, o que tem de imbecil dando sopa aí, eles gostam”, diz Trajano, que critica a falta de bagagem dos comentaristas atualmente.
“O grande problema é que tem gente que entra na profissão que nunca passou por uma redação, nem de jornal, nem de televisão, rádio, nada, e já vira comentarista. O cara vira comentarista da noite para o dia”.
Ele ainda lamenta a audiência ser vista como prioridade. “É a vitória do marketing, que só pensa nisso. Todo mundo sabe que audiência não é sinônimo de qualidade, não tem nada a ver com qualidade, mas esse pessoal de novas mídias, marketing, planejamento estratégico, só vem perturbar a vida do jornalismo. Vêm de empresas americanas que vendiam chiclete e entram dentro de um veículo cujo produto maior, final, é o jornalismo e começam a interferir com pesquisas, normas e tal. Isso está arrasando”.

ROTINA PESADA E INFARTO

O ritmo puxado de trabalho, pressão do cargo, vida boêmia sem hora para dormir, cuidado zero com a saúde. Uma hora o corpo cobra a conta. E a fatura chegou um mês depois de deixar a diretoria da ESPN. Trajano sofreu um infarto. Por sorte, há males que vêm para o bem.
“Tive uma pressãozinha aqui, mas não passei mal. Aquele negócio do cara vomitar, ficar com febre, nada, nada. Eu sentava meio de lado, pensei que poderia ser algo muscular, gases. Aí quando você vê é um infarto. Às vezes infarto é assim, não tem esse negócio de subir que nego fala. Não vou dizer que gostaria de ter outro, mas este que tive me impressionou. ‘E aí, acabou?’, ‘acabou’, ‘ah, não brinca’. E acabou, é coisa de maluco”.
A vida mudou muito, e aquela rotina maluca ele jura não querer nunca mais. Depois do enfarte, parou de fumar, melhorou a alimentação, emagreceu, foi para a academia. Agora se dedica aos seus livros – está escrevendo o terceiro chamado Os Beneditinos -, comenta na ESPN e tem projetos em parceria com o Sesc.

Os passatempos de uma pessoa normal, antes impensáveis, também passaram a fazer sentido: ouvir discos de vinil, sair para jantar, ir ao cinema, namorar, ver os filhos. E ainda cultivar o sonho de um dia morar em Portugal. “Aquela loucura que era, de ficar vendo televisão, isso acabou. Sou muito mais tranquilo hoje do que fui anos atrás. Senão eu já teria morrido”.

CIÚMES DE BIAL E A DISTÂNCIA DOS FILHOS

Separações nunca são fáceis. Trajano sabe disso. Quando acabou seu primeiro casamento com a também jornalista Renée Castelo Branco, ele encarou a dor de ficar distante não só dela, mas também dos filhos. Marina e João se mudaram para a Inglaterra pouco depois por causa do novo casamento da mãe com Pedro Bial, que na época foi para Londres ser correspondente da TV Globo.
Bial vestiu o papel de pai e sempre tratou os enteados como seus próprios filhos, mas o ciúme de Trajano era da mulher. “Quando a gente separou, eu gostava dela, então isso aí demorou um pouco para mim. Então me deu mais ciúmes no sentido de eu com ela, do que ele com os filhos. Mas na hora também que senti que não queria mais nada com ela, passou, e que ele tratava muito bem dos filhos, falei ‘que bom, eles têm dois pais’. Queria eu ter dois, três pais. Quem não queria ter? Melhor que não ter nenhum, ou meio”, disse.
Mas hoje é tudo muito bem resolvido. “É uma relação muito boa, porque como ele trata meus filhos como se fosse um segundo pai, sempre fez muito bem a eles, eu só tenho a agradecer. Posso ter minhas diferenças com ele, ideológicas, mas isso nunca colocamos na mesa. A gente se encontra, se respeita”.
A distância dói até hoje e sempre vai doer, mas ele celebra a boa relação e, principalmente, a vida estruturada que hoje os filhos têm na Europa. João Castelo Branco é correspondente da ESPN na Inglaterra e Marina é professora e mãe da pequena Cora. “Na verdade a distância é uma merda, principalmente com as netas. (…) Nós tentamos adaptar, não tenho jeito de mudar isso. A não ser que eles me abriguem por lá, eu fico só no pub tomando uma cervejinha, e eles bancando tudo, arranjando cidadania e tal”, brinca.

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A SEPARAÇÃO TRAUMÁTICA

Um dos momentos mais difíceis da vida de Trajano foi ver a esposa definhar vítima de um câncer no cérebro e tomar a dura decisão de se separar. Não havia mais relação de homem e mulher com a também jornalista Célia Chaim, a doença havia assumido o controle. Trajano foi forte para tomar a decisão, mas a culpa veio na mesma medida do sofrimento.

Todo mundo dizia: separa. Ela mesmo pressionava, porque dizia que era injusto a gente conviver com expectativas de vida tão diferentes. O caso dela não tinha mais jeito. E eu me achava uma espécie de um traidor, de o cara sair fora na hora que ela precisava. Então fui adiando, adiando. Mas aquilo ali me deixava muito transtornado e ela, incomodada também porque via que ela não era mais aquela pessoa

Célia Chaim, com quem Trajano teve o filho caçula Pedro e ganhou o enteado Bruno, morreu em janeiro deste ano depois de uma batalha de mais de 15 anos contra a doença. Mesmo separados, a amizade se manteve e ele continuou dando assistência até os últimos dias.
“Nos últimos tempos não (tinha relação de casados), porque ela ficou muito doente. E eu tentando ali, até uma hora que foi melhor para todo mundo. Todo mundo entendeu: meus filhos, e tal, que foi a melhor situação. E eu continuei aquele cara que, de vez em quando, ia lá, dava assistência, até o final da vida”, disse.

DIVIDINDO A CASA COM SÓCRATES

Na década de 80, Trajano deu um tempo no jornalismo e decidiu se mudar para a Itália. A separação de Renée ainda estava latente, e a Itália era o lugar ideal para dar uma espairecida com a nova namorada. Lá morou em uma pensão e começou a frequentar a casa de Sócrates. Foram muitas noites entre vinhos e cervejas até que o jogador, que atuava na Fiorentina, o convidou para morar com ele.
Não demorou a arranjarem um barril de chope, que já começava a ser exigido nas primeiras horas da manhã. “Ele comprava um punhado de cervejinha pequena e, às vezes, deixava até do lado de fora, gelando. Tinha vez até que estourava, esquecia lá, porque fazia muito frio. Falei ‘pô, será que aqui não tem chope? Era melhor comprar um barril, deixava aqui na cozinha’. E ele comprou um barril. De manhã a gente já começava com o barril já”.
“O Sócrates era um cara muito peculiar, diferente, muito próprio. Ele não era para jogar bola: fumava, bebia, não fazia preparação física e ainda queria ficar acordado a noite toda. Pensava em outras coisas e ainda jogava pra burro. O Raí foi um atleta, o Sócrates não”.

VACILO E DEMISSÃO

“A Cultura comprou o Campeonato Alemão e eu fui comentar. Começou o jogo, bola para cá e para lá, essa coisa, e com 15 minutos de jogo entra um cara correndo no estúdio: ‘olha, estão ligando aqui, diz que está tudo errado. Vocês estão narrando os times trocados’. E eu digo: ‘Pelo amor de Deus, não diz uma coisa dessas. E agora?’. E o narrador: ‘O que eu faço?’. Aí fiz uma cascata. ‘Telespectador da Cultura, a Cultura está inovando no futebol trazendo um campeonato completamente diferente para nós. Erros a gente vai cometer durante essa trajetória, como por exemplo estamos cometendo agora. Esse time aí é o outro, o outro é o um’. Bom que estava 0 a 0.”

“Padilha (o major Sylvio de Magalhães, 1º da esq) era o Nuzman da época, presidente do COB. Quando acabou a Olimpíada, em 84, o Brasil para variar foi uma vergonha. Aí nós botamos uma capa com foto de página inteira. Botamos uma foto dele encostado em um muro e só um título em cima: ‘Vai pra casa, Padilha’. Porque era um bordão do Jô Soares na época e eu gostava, estava louco para usar. Fui três vezes editor de esportes da Folha, mas desta vez eu fui demitido. Fui demitido pelo Otavinho Frias, porque ele se sentiu traído porque estava de plantão e foi para casa. Ele perguntou: ‘Tudo normal para amanhã na editoria?’. Eu disse: ‘Tudo normal’. Para mim era normal, mas para ele não era.” (UOL SP)

O Papão está em toda parte

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O amigo e baluarte do blog José Maria Eiró Alves, em viagem a Montevidéu, fotografou há alguns minutos a placa da rua Paysandú, na capital uruguaia. Prova de que a marca histórica do clube de Suíço está espalhada pelo mundo. “O hotel onde estou fica a poucas quadras da Calle Paysandu. Não teve jeito… Ahahahahahaha”, comentou o alviceleste Eiró há poucos minutos em bate-papo no Facebook. Feito o registro.

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Associação de correspondentes estrangeiros protesta contra polícia de Alckmin

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As agressões feitas pela Polícia Militar (PM) aos jornalistas que estavam trabalhando nos protestos do último domingo, 4, gerou apoio da Associação dos Correspondentes Estrangeiros (ACE) às entidades que defendem a classe. A ACE pede que uma investigação seja feita.

Ao falar sobre as agressões verbais e físicas registradas pelo repórter da BBC Brasil, Felipe Souza, a associação explica que a violência repete um padrão de abusos contra a imprensa. “Um padrão que vem se repetindo desde os protestos de 2013, especialmente quando os manifestantes são de oposição ao governo de São Paulo, o que fere não apenas aos jornalistas, mas a liberdade de expressão, e o direito de protestar garantido pelas instituições democráticas do Brasil e do exterior”.

No domingo, o jornalista Souza foi vítima da violência quando estava cobrindo o protesto. Na ocasião, os policiais feriram o jornalista com cassetetes. Golpeado, o comunicador ainda foi chamado de “lixo’ por um dos oficiais responsáveis pela ação. “Eles me agrediram sem nenhum motivo aparente”, disse o jornalista. No site da BBC Brasil, o mesmo repórter detalhou o ocorrido em texto publicado em primeira pessoa. “‘Sai da frente! Vaza, vaza!’, diziam ao menos quatro policiais pouco antes de me atingir com golpes de cassetete no antebraço direito, na mão esquerda, no ombro direito, no peito e na perna direita. Um deles ainda me chamou de lixo”, relatou o comunicador agredido.

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Para a entidade, o caso precisa ser investigado. “A ACE apoia também o apelo de entidades nacionais e internacionais que defendem o exercício da atividade jornalística, pedindo ao Governo de São Paulo que investigue e puna os abusos registrados contra jornalistas e cidadãos desarmados”, escreveu em nota. (Via Comunique-se)

“Aquarius” incomoda e provoca chilique público de um porta-voz da direita

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POR PAULO NOGUEIRA, no DCM

O grave transtorno psiquiátrico de Reinaldo Azevedo se revelou no caso do cartaz de Aquarius que usou uma frase negativa sua para promover o filme. Um homem equilibrado e sensato teria fingido não ter visto. Sabe quando você é criança e percebe que tentam colocar em você um apelido que você detesta?

Finja que não liga.

Azevedo fez o contrário. Saiu berrando não uma, mas duas vezes. Primeiro contra o diretor do filme, e depois contra um repórter da Ilustrada que escreveu sobre o episódio.

A resposta contra o diretor do filme é o retrato perfeito das perturbações mentais de Azevedo. Ele é extraordinariamente inseguro, frágil. Precisa de auto-reafirmações ininterruptamente.

Às 55 000 pessoas que já teriam visto o filme ele contrapõe o número de leitores que frequentam seu blog, como se houvesse qualquer lógica na comparação. Primeiro, e acima de tudo, você paga por um bilhete de cinema. E acessa o blog de Azevedo, e qualquer outro, de graça.

Para ir ao cinema, você tem que se deslocar. Enfrentar trânsito e outros inconvenientes da vida urbana moderna. Em comparação, você pode ler a coluna de Azevedo, ou qualquer outra, pela manhã no banheiro, se quiser.

É uma relação descabida, portanto, fruto de uma mente tumultuada. O que ele queria era um pretexto para dizer: “Vejam como sou lido, vejam como sou lido!” Isso pela milésima vez, sem jamais apresentar uma única prova disso.

O site da Veja é um conhecido fracasso. A Veja jamais conseguiu fazer a travessia do mundo impresso para o digital, e esta é uma das razões pelas quais a Abril enfrenta colossais dificuldades de sobrevivência.

Por que, dentro deste mar morto que é o site da Veja, Azevedo seria diferente? Se fosse mesmo, ele seria um fator para que o site da Veja não fosse o que é.

Essencialmente, são os mesmos leitores — os clássicos midiotas — que entram várias vezes no blog de Azevedo para ver suas constantes atualizações e palpitar com sua pobreza desumana de espírito. “Na cascuda, Reinaldo!”

É a chamada audiência de mentirinha. O que realmente num site são os leitores únicos. Você entra dez, vinte vezes por dia no blog de Azevedo? Conta uma só vez.

O DCM, a quem interessar possa, tem 2 milhões de leitores únicos mensais, e 10 milhões de acessos por mês, o que nos faz um dos maiores sites de notícias do Brasil.

Outro traço da profunda falta de segurança psicológica de Azevedo, na polêmica do Aquarius, apareceu no constante uso da palavra petralhas.

Ele não perde uma chance de dizer que criou petralha, e que o vocábulo foi dicionarizado.

Tolstoi repudiava o personagem Ana Karenina. E jamais se gabou de haver escrito uma das maiores obras da literatura mundial. Balzac nunca disse: “Criei 3 000 personagens na Comédia Humana. Vejam como sou bom!”

Mas Azevedo parece acreditar que deva fazer jus ao Nobel da Literatura com petralha. (Fora tudo, é uma palavra que vai passar para a história como símbolo de um tempo em que os brasileiros odiavam uns aos outros). De concreto, Azevedo é o decano dos jornalistas fâmulos. Dedicou os últimos dez anos a escrever tudo que a plutocracia quer que seja escrito.

Praticou e pratica a famulagem, e não o jornalismo. Era um jornalista de segunda linha, sem nenhuma posição de destaque nas redações pelas quais passou. (Somos da mesma geração, e eu conhecia todos os jornalistas de destaque dos meus dias em redações, até porque era chefe e recrutava talentos. Jamais ouvi falar de Azevedo.) Falta-lhe curiosidade, sagacidade jornalística. Em seus seus vários ataques contra mim jamais se deu ao trabalho, por exemplo,  de pedir informações sobre mim a seu colega de Veja JR Guzzo, que me conhece muito bem e poderia ajudá-lo a entender melhor o objeto de suas agressões.

Sobreviveu, num certo momento já de ostracismo, do dinheiro público outorgado por Alckmin para uma revista fundada por um líder tucano, Luís Carlos Mendonça de Barros, e que defendia o ideário conservador tucano. Nem o dinheiro público salvou a revista.

As coisas mudaram para ele quando os barões da mídia começar a buscar não gente brilhante, capaz de fazer peças jornalísticas incríveis — mas fâmulos cuja missão é atacar todos os dias Lula, Dilma e o PT. Azevedo é exatamente um fâmulo.

Não é algo que faça você se sentir exatamente um mestre do jornalismo. Servir cegamente aos patrões, e à plutocracia, não é sequer jornalismo. É dentro deste quadro que se deve entender a louca reação de Reinaldo Azevedo ao cartaz de Aquarius.

Playboy demite jornalistas e pode mudar conteúdo

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DO COMUNIQUE-SE

Playboy voltou ao mercado reformulada e com nova proposta em abril deste ano. Com menos de um semestre de vida, a publicação precisou enxugar a redação, o que resultou em demissão dos únicos quatro jornalistas contratados em regime CLT. Agora, a equipe segue com mudanças e apenas dois estagiários e três PJs.

A reportagem do Portal Comunique-se apurou que problemas financeiros fizeram com que a Editora PBB, que detém a marca atualmente, mudasse o rumo da revista. As demissões acabaram atingindo os profissionais que estavam desde o início do projeto, são eles: o editor-chefe Roberto Saraiva, o editor de moda Gregório Souza e os repórteres Natalia Horita e Felipe Seffrin.

O cenário pode resultar, ainda, em outras mudanças. A reportagem apurou que a Playboy pode deixar de produzir reportagens próprias. O conteúdo da publicação ficaria, então, apenas com matérias traduzidas da versão americana. O encerramento da revista impressa não está descartado, mas antes disso, a PBB pode tentar terceirizar a revista para outra editora.

A reportagem do Portal Comunique-se entrou em contato com a Playboy, que falou sobre a situação e explicou que algumas demissões foram feitas para readequação da estrutura da publicação, mas que uma equipe de 20 pessoas ainda segue como responsável pela revista. “A revista não será terceirizada para outra editora e o conteúdo continua sendo próprio. Aliás, a PBB preza por conteúdo de qualidade em sua publicação. Esse é um dos nossos pilares”. A editora ainda afirma que o encerramento está totalmente descartado.

“A PBB reitera que também sofre com a atual conjuntura econômica do país, como acontece com todo o mercado editorial brasileiro. No entanto, nossa publicação vem se consolidando no mercado (até o momento foram quatro edições: Luana Piovani, Vivi Orth, Marina Dias e Pathy Dejesus) e a empresa vem evoluindo em outras frentes: como a digital e de eventos. Cabe ainda esclarecer que a PBB não tem medo de mudanças e acredita que elas são necessárias para levar ao leitor o melhor produto possível”, escreveu a empresa em nota enviada à reportagem.

Posição reforçada

POR GERSON NOGUEIRA

Em consequência direta da bronca pública desferida pelo presidente do clube, após a fraca atuação do time contra o Luverdense, o grupo de jogadores do Papão resolveu se posicionar perante a torcida e a diretoria prometendo empenho máximo a partir de agora.

unnamed-37A entrevista que oficializou os propósitos do elenco serviu também para desmentir qualquer animosidade ou oposição ao trabalho do técnico Dado Cavalcanti, que, para muitos, sofreu boicote no começo da Série B e teria voltado a ser vítima do mesmo problema ao reassumir o comando da equipe.

Os jogadores afiançaram também que não há rachaduras no ambiente dos jogadores, contradizendo a convicção de muitos que acompanham a rotina diária do clube.

Posicionamentos dessa natureza são comuns em clubes que enfrentam crises disciplinares e cujos jogadores despertam desconfiança entre torcedores e dirigentes.

As derrotas para o Tupi e o Luverdense desencadearam reações irritadas da torcida por terem evidenciado o mau desempenho técnico e certo descompromisso em relação aos objetivos do clube na competição.

Apesar de aceitar bem o compromisso assumido pelos jogadores, a insatisfação do torcedor só será aplacada de fato com vitórias. E o confronto de amanhã contra o Brasil é o ideal para marcar o começo dessa nova era.

Diante da importância que a partida tem para o Papão, a diretoria decidiu recuar de sua política de mandar jogos somente no estádio da Curuzu. É notória a preferência que os atletas têm pelo Mangueirão, levando em conta o lado técnico e também o aspecto emocional.

No estádio estadual, a cobrança não é tão intensa quanto no caldeirão bicolor. Ali, qualquer falha se transforma em pressão intensa sobre o jogador, que sente de perto a ira da torcida.

Com isso, o time deve entrar com mais tranquilidade para tentar reeditar seus melhores momentos no campeonato – vitórias contra o Vasco e o Criciúma. Aliás, os jogadores continuam a dever a Dado uma atuação tão empenhada e consistente quanto nessas duas partidas, quando os técnicos eram Gilmar Dal Pozzo e Rogerinho Gameleira, respectivamente.

O técnico, por sinal, sai com sua posição reforçada após a tomada de posição do elenco. Ganhou mais algum tempo para tentar fazer do Papão um time competitivo e capaz de alcançar o bloco dos 10 primeiros classificados da Série B.

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Dois jogos bastaram para Tite virar xodó da galera

As cenas de tietagem em Manaus já indicavam o surgimento de um fenômeno de popularidade. A história se confirmou com a segunda vitória do técnico no comando da Seleção Brasileira, fazendo surgir uma relação de forte empatia com a torcida.

Aliás, fazia tempo que um treinador não era alvo de tanto carinho, mesmo estando apenas há poucos meses na função. O último a merecer isso foi Felipão, na Copa de 2002.

Todo mundo sabe da importância que o cargo de técnico da Seleção tem no Brasil. Em grau de interesse e exposição pública, fica abaixo somente do de presidente da República. Em determinados momentos, dependendo do técnico (e do presidente) consegue ficar até acima.

Ao assumir o escrete, Tite sabia estar abraçando um tremendo desafio: reabilitar a Seleção depois de seu pior vexame (a goleada para os alemães em 2014) e infortúnios decorrentes disso. Tarefa dificultada pelo momento de entressafra no futebol brasileiro.

Além dos riscos naturais que a situação impõe, Tite teria ainda que manter convivência com a política nem sempre republicana que norteia os passos e ações da CBF. No ano passado, o técnico chegou a assinar um manifesto exigindo mudanças na gestão de Del Nero na confederação.

Ao menos por enquanto, o técnico vem se saindo muito bem. Conduz seu trabalho de maneira eficiente e produtiva. Sabe que a relação com os dirigentes da CBF dependerá sempre do comportamento da Seleção em campo. Será forte para exigir autonomia e liberdade se os resultados forem bons. Caso contrário, será irremediavelmente fritado.

No triunfo sobre o Equador, na semana passada, a nova Seleção foi exibida ao mundo e evidenciou uma renovação consistente. Saíram de cena pernas-de-pau, como Hulk, e superestimados, como David Luiz, abrindo espaço para Gabriel Jesus, Philipe Coutinho, Renato Augusto e Casemiro.

As expectativas se confirmaram plenamente, anteontem, na Arena da Amazônia. O time mostrou evolução e venceu. Contra um dos melhores times do continente, turbinado pela mania de provocar Neymar (vítima de criminosa entrada de Zuñiga na Copa), a Seleção de Tite soube superar as dificuldades utilizando suas melhores armas: a técnica e a velocidade.

Pode ser apenas empolgação inicial, mas é inegável que o Brasil aos poucos vai voltando a jogar com alegria, sem os medos de antes.

(Coluna publicada no Bola desta quinta-feira, 08)