O golpe e o estranho silêncio das ruas

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POR LUIZ RUFFATO, no El País

Ainda há pouco, em nome do combate à corrupção, milhões de pessoas manifestavam-se pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff. Batiam panelas vazias, acampavam em parques, soltavam foguetes, desfilavam indignadas pelas vias públicas, cerravam fileiras, agressivas, nas mídias sociais. Após o afastamento de Dilma, no dia 12 de maio, um denso nevoeiro baixou sobre o país. O silêncio das ruas e avenidas espelha com clareza que os protestos nunca visaram o desmando que tomou conta da máquina do Estado, mas tão somente refletiam o inconformismo dos que perderam as eleições. Pura hipocrisia.

Se fosse uma reivindicação honesta, os manifestantes estariam novamente nas ruas e avenidas acompanhando os carros de som, ou nas varandas das residências munidos de panelas ou no Facebook, Instagram e blogues conclamando os cidadãos para continuar a luta pela decência e a dignidade na política. Afinal, em apenas um mês como presidente interino, Michel Temer teve de afastar três ministros – Romero Jucá, do Planejamento; Fabiano Silveira, da Transparência; e Henrique Eduardo Alves, do Turismo – por envolvimento com denúncias de corrupção, um recorde na história recente da República. Outros cinco ministros – Geddel Vieira Lima, da Secretaria de Governo; Mendonça Filho, da Educação; Raul Jungmann, da Defesa; Bruno Araújo, das Cidades; e Ricardo Barros, da Saúde – também são investigados pela Operação Lava-Jato.

Aliás, o próprio Temer viu seu nome envolvido em denúncias de corrupção. O ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, afirmou em depoimento que o presidente interino pediu R$ 1,5 milhão de propina para financiar a campanha de Gabriel Chalita à Prefeitura de São Paulo em 2012 – esse mesmo Chalita que agora é candidato a vice-prefeito na chapa liderada pelo petista Fernando Haddad. Temer torna-se assim apenas mais um ocupante do cargo máximo da política brasileira a ter seu nome ligado a falcatruas. Todos os presidentes do período da chamada Nova República (iniciado com o fim da ditadura militar) estão sendo investigados por suspeita de corrupção: do peemedebista José Sarney ao petista Luiz Inácio Lula da Silva, do livre-atirador Fernando Collor ao tucano Fernando Henrique Cardoso.

A única pessoa que não teve – até agora – seu nome envolvido em práticas ilegais é justo a presidente Dilma Rousseff, ironicamente a única punida até o momento. Seu afastamento se deu por uma irregularidade fiscal, manobra efetivada por pelo menos 16 dos atuais governadores, um crime menor diante do saque aos cofres públicos perpetrado por políticos de todos os partidos. É como se alguém que tivesse ultrapassado o sinal vermelho fosse condenado por um júri formado por ladrões, falsários e fraudadores. Dilma sem dúvida vinha fazendo um governo desastroso, inábil do ponto de vista político e incompetente no âmbito econômico, mas a maioria dos manifestantes saiu para as ruas para demonstrar sua revolta contra a perda de privilégios, não por se escandalizar com a roubalheira que grassa no país acima de todas as ideologias.

Os movimentos que lideraram manifestações pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff – dizendo-se apartidários e assentados em discursos pela ética e contra a corrupção – sempre se recusaram a prestar contas sobre a origem do dinheiro gasto na organização dos protestos. Hoje sabe-se, por exemplo, que o Movimento Brasil Livre (MBL), encabeçado pelo empresário Renan Santos (filiado ao PSDB até o ano passado), teve financiamento e apoio logístico dos partidos de oposição (DEM, PSDB, SD e PMDB). E que Renan Santos é réu em 16 ações cíveis e em mais de 45 processos trabalhistas – as acusações incluem fechamento fraudulento de empresas, dívidas fiscais, calote em pagamento de débitos trabalhistas e em ações por danos morais, em um total de R$ 4,9 milhões. O MBL anunciou que lançará candidatos, por vários partidos, às eleições deste ano.

Já o movimento Vem pra Rua foi criado em 2014 por um grupo de empresários para apoiar a candidatura do senador tucano Aécio Neves à Presidência da República. Seu principal articulador, Colin Butterfield, é presidente da Radar SA, do grupo Cosan, uma das maiores empresas privadas do Brasil, com negócios nas áreas de lubrificantes e produção de etanol, dona da Comgás e da Rumo, líder mundial de logística de açúcar para exportação. A Radar administra 270.000 hectares espalhados em oito estados, dedicados ao plantio de cana, soja, algodão e milho. O Revoltados On-Line, gerenciado pelo empresário Marcello Reis, que não esconde sua simpatia pela ideia de intervenção militar como solução para o Brasil, tem ligações com o deputado fascista Jair Bolsonaro (PSC-RJ), pré-candidato à Presidência da República. Marcello Reis, que foi recebido pelo ministro Mendonça Filho, junto com o ator pornô Alexandre Frota, para discutir os rumos da educação brasileira, vende em seu site camisetas, bonés e adesivos sem nota fiscal.

PEC 241/2016 pode acabar com o SUS, alerta CNS

Em tramitação no Congresso Nacional, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 241/2016 institui um novo regime fiscal. Isso significa, em linhas gerais, estabelecer um teto a ser gasto com os recursos, principalmente, para a saúde e a educação. A proposta terá validade por 20 anos, com possibilidade de revisão em 10 anos. O Conselho Nacional de Saúde (CNS) repudia com veemência a limitação dos gastos com a saúde que irá implicar diretamente no SUS.

De acordo com o consultor da Comissão Intersetorial de Orçamento e Financiamento (Cofin) do CNS, Francisco Funcia, a PEC 241 é um atendado à saúde pública brasileira, que implicará na limitação dos gastos com o setor que mais necessita de aplicação de recursos. “Com essa proposta o teto para as despesas primárias passa a vigorar estabelecendo o limite de gastos baseados pela inflação do ano anterior e não mais pela sua receita. Isso significa que Estados e Municípios não poderão ultrapassar os valores já estipulados”, diz.

Para André Luiz, conselheiro nacional de saúde, a PEC 241 representa um risco eminente à saúde pública brasileira. “Temos a sensação de estarmos numa escada rolante que só nos leva para baixo. Quando a gente pensa que com a PEC 01 a situação da saúde iria melhorar, essa proposta nos joga um balde de água fria. É necessário mais do que nunca investirmos em novas formas de financiamento para a sustentação do SUS”, afirma.

Sobre a PEC 241/2016

Apresentada pelo governo interino por meio do Ministério da Fazenda, a PEC 241 limitará os gastos públicos federais. Pela proposta, o aumento das despesas da União, incluídos os Poderes Legislativo e Judiciário, não poderá ser maior que a inflação do ano anterior. Se for aprovado pelos parlamentares, o novo regime fiscal já entra em vigor no próximo ano.

No o texto apresentado, valores mínimos dos gastos com saúde e educação da União passarão a ser corrigidos pela inflação do ano anterior, e não mais pela receita. O Congresso Nacional, no entanto, poderá decidir onde alocar os recursos, respeitando tais valores mínimos, que serão um piso.

Tramitação

A PEC será analisada, em primeiro lugar, pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara quanto à admissibilidade. Se aprovada, será examinada por uma comissão especial e, depois, pelo Plenário, para votação em dois turnos. Caso seja aprovada pelos deputados, a proposta seguirá para apreciação do Senado.

Outro vacilo em casa

POR GERSON NOGUEIRA

Um gol aos 5 minutos esfria qualquer entusiasmo. Foi assim com a torcida azulina, sábado à noite, no Mangueirão. Jones Carioca, um atacante baixinho, balançou as redes azulinas depois de apagão da dupla de zaga Brinner e Max. A bola veio baixa e o jogador do ABC se esticou para cabecear no canto esquerdo da trave de Fernando Henrique.

O Remo mergulhou então num período de barafunda, errando passes e buscando sair a todo custo para o ataque. Desorganizado, o time não conseguia encaixar boas jogadas, o que redobrava o nervosismo.

Boa parte da desarrumação teve a ver com a formação surpreendente que o técnico Marcelo Veiga mandou a campo, com Fabiano na lateral esquerda e Wellington Saci como falso atacante. Só funcionou nos três primeiros minutos, quando o time foi à frente e engatou dois ataques fortes.

Em desvantagem no placar, os antigos problemas vieram logo à tona. Além da insegurança crônica no miolo de zaga, a participação de Eduardo Ramos na meia-cancha voltou a ser obscurecida pela falta de um jogador que o auxiliasse nas movimentações. Allan Dias, sumido, não fazia o necessário acompanhamento, permitindo que marcadores ágeis do time potiguar anulassem Ramos.

O lado direito remista seguia sendo o melhor caminho para chegar ao gol, mais pela insistência e determinação de Levy do que por eventuais facilidades permitidas pela zaga. Foi dele o chute mais perigoso do Remo contra a meta potiguar. Invadiu a área e bateu cruzado, acertando o poste esquerdo do goleiro.

Mas foi em jogada pelo meio que surgiu o gol azulino. Depois de falta sofrida por Edno, Eduardo Ramos cruzou na área e o próprio Edno raspou de cabeça, empatando a partida, aos 23 minutos.

42a810bb-ed74-4a34-9808-4a54efb2d169Apesar do entusiasmo gerado pelo gol, o Remo seguiu tropeçando nos próprios erros e não soube aproveitar os momentos de desatenção concedidos pelo ABC. Mesmo sem alguns titulares, o time de Geninho era visivelmente melhor distribuído em campo, tocando a bola no tempo certo e aproveitando as mínimas chances para chegar ao ataque.

O ex-azulino Alex Ruan na ala esquerda mostrou-se agressivo e disparando chutes perigosos em direção ao gol. No ataque, Jones se movimentava bastante, inquietando os zagueiros do Remo.

Depois do intervalo, com o incentivo permanente da torcida, o Remo pressionou muito e esteve perto de marcar. Edno perdeu duas belas oportunidades errando no toque final, Ciro tocou por cima do gol e até Allan Dias e Patrick desperdiçaram bolas dentro da área.

Ocorre que nenhum desses ataques tinha sequência normal ou trabalhada. As jogadas surgiam por acaso, na base apenas do entusiasmo. Apesar da boa atuação de Levy e Yuri, o Remo continua a depender muito de lampejos individuais. Não há esquema definido e, com isso, qualquer adversário se torna difícil de superar.

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A caça ao novo comandante

Logo depois do novo empate no Mangueirão, o técnico Marcelo Veiga pediu demissão. Dirigentes acreditam que ele iria se demitir com qualquer resultado – já teria acertado retorno ao Bragantino-SP.

Para o torcedor, a notícia significa alívio diante das más jornadas do Remo sob seu comando. Para a diretoria representa uma batalha inglória em busca de um nome que se adapte ao clube e seja capaz de conduzir ao tão sonhado acesso.

Não será fácil encontrar um bom nome, com rodagem suficiente e sem vinculação com esquema de jogadores e empresários, item mais preocupante no atual estágio do futebol brasileiro.

Ricardinho, Claudinei, Lisca e até Dado Cavalcanti foram mencionados durante todo o dia de ontem, mas a diretoria mantém sob sigilo o nome já escolhido para assumir o time.

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Rodada de empates e perdas em casa

Curiosa a rodada deste fim de semana para os clubes paraenses. Quatro empates e apenas uma vitória. Apesar da invencibilidade nos cinco jogos, alguns resultados foram negativos. A dupla Re-Pa perdeu pontos em casa. O São Francisco, idem, diante do Baré-RR.

Longe de seus domínios, o São Raimundo faturou um ponto contra o Náutico, em Boa Vista. E, por fim, o Águia foi a honrosa exceção, derrotando o Santos em Macapá por 3 a 2 e se recuperando na chave.

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Papão demite executivo de futebol

O homem do Rolex de ouro está deixando o Papão. Depois de sete meses, Alex Brasil, gerente que substituiu Sérgio Papelin no clube, teve sua demissão anunciada nas redes sociais pelo presidente Alberto Maia. Ao que tudo indica, pode estar indo assumir função no Coritiba.

Brasil se notabilizou na curta passagem pela afirmação, em vídeo postado na internet, de que sonhava em comprar um relógio da famosa marca. Sua declaração, feita durante preleção nos vestiários, era uma tentativa de motivar os jogadores durante a Copa Verde.

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Fogão dá o ar da graça nos Pampas

Com grandes atuações de Neilton, Camilo e Sidão, o Botafogo derrotou o Internacional dentro da Arena Beira-Rio e deu sinais de que pode se levantar no Brasileiro, mesmo com o elenco operário que tem. Apesar de escorregadelas na marcação, o time parece mais encorpado com a entrada do novato Camilo, autor do belíssimo terceiro gol.

(Coluna publicada no Bola desta segunda-feira, 27)