1965

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Bob Dylan em visita à Inglaterra 

POR EDYR AUGUSTO PROENÇA, no TDB/Diário

Eu tinha onze anos de cidade e naquela época, era o mesmo que um garoto de hoje, com uns oito anos, talvez menos. Mas tinha irmãos mais velhos. E todos ligados em música. Eu lembro de uma festa no CCBEU, que funcionava em uma casa, na esquina da Nazaré com a Rui Barbosa. Tocava muito Johnny Rivers e “It’s too late”. O disco, “Whisky a Go Go”, hoje, é muito difícil de encontrar. E então começo a ler “1965, o ano mais revolucionário da música”, escrito por Andrew Grant Jackson, Editora Leya. Nesse ano, os babyboomers, gerados logo após a Segunda Guerra Mundial, tinham 20 anos de idade e vontade de revolucionar o mundo. Tudo aconteceu. Que fabulosa geração! Os Beatles lançaram dois discos, o primeiro, “Help” e o segundo, “Rubber Soul”, neste, George Harrison experimentando pela primeira vez a cítara indiana. Seus rivais, Rolling Stones, simplesmente lançaram “Satisfaction” e em seguida, “As Tears Go By”, para ir atrás dos caras de Liverpool. E os Beach Boys? Brian Wilson, com seu trabalho, enlouquecia Paul McCartney. Uma competição! Imaginem.

Ao mesmo tempo, Berry Gordy, através da Motown, lançava música pop com músicos negros como Temptations, Supremes e muitos outros. Se havia em Detroit músicos de estúdio que trabalhavam como em uma fábrica, havia outros, iguais, em Los Angeles. E um edifício em New York, o Brill, onde compositores também faziam música em ritmo industrial. Carole King era uma dessas compositoras. Mas Beatles e Rolling Stones, por exemplo, não precisavam de músicos de estúdio. Nem de autores. A coisa foi mudando. E Bob Dylan? O bardo lançou “Like a Rolling Stone” e abriu o Festival de Newport, tradicionalíssimo de folk music, com guitarras elétricas. Foi chamado de traidor. Enquanto isso, os Byrds faziam versão rock de “Mr. Tambourine Man”.

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O que aconteceria com os Beatles, se Bob Dylan não lhes tivesse apresentado à maconha? E ao LSD? E a Guerra do Vietnã, com Lyndon Johnson mandando para a morte milhares de jovens. Martin Luther King e Malcom X lutavam contra o racismo, vergonha daquela época, e de todas até agora. The Who lançou “My Generation” com a célebre frase “Hope I die before I get old”. Pois é, ainda tentam tocar, hoje. Os Mamas and the Papas tentavam cantar, enquanto Michelle, a mulher de John Philips, linda, dava para todos os homens que via. O auge do Flower Power, aquele de San Francisco onde Scott Mackenzie cantava “be sure to wear flowers in your head”. E as mulheres marcaram presença com Nancy Sinatra cantando “These boots are made for walking”. Quer jazz? John Coltrane lançou “A love supreme”. Quer funk? James Brown veio com sua dança e seu ritmo.

Nos Estados Unidos, febre britânica, inclusive na moda, com Mary Quant e a minissaia. Nas artes plásticas, Andy Warhol fotografou a lata da sopa Campbell’s, que a mãe adorava e virou um gênio. Simon and Garfunkel, após uns dois anos de ralação, gravaram “The Sound of the Silence. Que tal? Tudo isso não chegou logo por aqui em Belém do Pará. Demorava. Até ano. Notícias, somente as mais importantes, através de radiofoto da UPI. E nós, aqui, vibrando, procurando entender, tentando tocar, vestir, ser aquela coisa colorida, maravilhosa, jovem e revolucionária que era 1965. Ah, esqueci de contar da pílula anticoncepcional. Percebam quantas mudanças! O mundo nunca mais foi o mesmo. E eu, embora criança, assisti e gravei tudo na minha cabeça. O livro é uma delícia.

(Publicado em O Diário do Pará, Caderno TDB, Coluna Cesta, em 27.05.16) 

STF: inferno de Lula e céu de Aécio, Jucá & Cia

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POR BAJONAS TEIXEIRA DE BRITO JUNIOR, em O Cafezinho

A cada dia fica mais claro que o tratamento que o STF dedica aos políticos da oligarquia cleptomaníaca, como Aécio Neves e Romero Jucá, é de complacência e compreensão, enquanto reserva para Lula, e para os políticos ligados ao PT, rompantes teatrais de ira e indignação espumante.  São narrativas opostas, como efeitos políticos divergentes em nada “impessoais e isentos”. No dia 12 desse mês, após suspender a coleta de provas contra Aécio, Gilmar disse que aquilo era “normal, absolutamente normal”. Claro que era. Tanto era que agora, no dia 25, ele bloqueou um segundo pedido da PGR para processar Aécio Neves.

Mas e quanto a Lula? Para quem não está lembrado da reação do STF quando, criminosamente, a gravação de uma conversa privada entre Lula e Dilma foi divulgada, vale reler as palavras do furibundo decano Celso Mello:

“Esse insulto ao Poder Judiciário, além de absolutamente inaceitável e passível da mais veemente repulsa por parte desta Corte Suprema, traduz, no presente contexto da profunda crise moral que envolve os altos escalões da República, reação torpe e indigna, típica de mentes autocráticas e arrogantes que não conseguem esconder, até mesmo em razão do primarismo de seu gesto leviano e irresponsável, o temor pela prevalência do império da lei e o receio pela atuação firme, justa, impessoal e isenta de Juízes livres e independentes”.

Essa indignação foi fabricada para amplificar os ataques da mídia e do PSDB contra Lula, sendo que todos sabiam que juridicamente não fazia sentido. Lula expressou sua percepção do acovardamento do STF em uma conversa privada, sem chances nem intenção de atingir o STF, sem esboçar ou maquinar nenhuma trama para influenciar ou cooptar o Judiciário. Ao contrário, o STF sim, valendo-se de um pretexto ignóbil, veio à público para atacar e malhar a figura de Lula.

E com Jucá? Romero Jucá traça em conversa com Sérgio Machado, político que esteve no PSDB por dez anos, uma estratégia para derrubar Dilma e substitui-la por Michel Temer. A finalidade desse golpe é liquidar as investigações da Lava Jato e estancar a sangria, isto é, impedir a prisão de políticos corruptos do PMDB e seus aliados. Na conversa, é revelado que o PMDB e o PSDB estão envolvidos nos mesmos crimes que a Lava-Jato atribui apenas ao PT. E que o impeachment é parte essencial da conspiração:

MACHADO – Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel [Temer].

JUCÁ – Só o Renan [Calheiros] que está contra essa porra. ‘Porque não gosta do Michel, porque o Michel é Eduardo Cunha’. Gente, esquece o Eduardo Cunha, o Eduardo Cunha está morto, porra.

MACHADO – É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional.

JUCÁ – Com o Supremo, com tudo.

MACHADO – Com tudo, aí parava tudo.

Não resta dúvida de que se trata de um golpe para brecar as investigações de corrupção e impedir que novas prisões venham a ocorrer. Não é um golpe menor, mas o maior golpe que se poderia dar num regime democrático presidencialista ─ derrubar um presidente eleito em nome dos interesses de uma camarilha de políticos corruptos. O nome do Supremo Tribunal Federal, STF, é mencionado como parte do esquema. Mas cadê a indignação dos ministros? Cadê a estupefação e a violência verbal de Celso de Mello contra a “profunda crise moral que envolve os altos escalões da República”? Mas a coisa vai além. O diálogo continua assim:

JUCÁ – [Em voz baixa] Conversei ontem com alguns ministros do Supremo. Os caras dizem ‘ó, só tem condições de [inaudível] sem ela [Dilma]. Enquanto ela estiver ali, a imprensa, os caras querem tirar ela, essa porra não vai parar nunca’. Entendeu? Então… Estou conversando com os generais, comandantes militares. Está tudo tranquilo, os caras dizem que vão garantir. Estão monitorando o MST, não sei o quê, para não perturbar.

Jucá envolveu os sagrados nomes dos ministros na trama conspiratória. E qual foi a reação? Um silêncio sepulcral como se o assunto não lhes dissesse respeito. O problema não é deles, não se falou deles, não se disse que estavam conspirando. Ou seja, não foi dito que estavam acovardados ou acocorados, mas apenas envolvidos ativamente em dois golpes: 1) derrubar Dilma passando por cima do estado democrático de direito, do qual são os guardiões, e 2) desmantelar a Lava-Jato e acabar com o risco de futuras prisões.

Isso sim era material explosivo, nitroglicerina pura, para ativar a mais vociferante ira do STF. Mas qual foi a reação da elevada corte? Coletivamente, nenhuma. Só Gilmar Mendesconversou com jornalistas:

“Não vi isso [tentativa de obstruir a Lava Jato]. A não ser, uma certa impropriedade em relação à referência ao Supremo. Sempre vem essa história: já falei com os juízes ou coisa do tipo. Mas é uma conversa entre pessoas que tem alguma convivência e estão fazendo análise sobre o cenário numa posição não muito confortável”.

Toda a conspiração para Gilmar Mendes não passou de “uma conversa entre pessoas que tem alguma convivência e estão fazendo análise sobre o cenário”. O que acontece aqui? A conversa de dois políticos conspirando, vira uma mera conversa particular entre “pessoas que tem alguma convivência”, isto é, como se fossem cidadãos comuns falando do aniversário do caçula de um deles. E a conspiração para o impeachment, se transforma em simples “análise sobre o cenário”.

Diferente das conversas de Lula, os membros do STF não julgaram necessário que seu decano, afetando indignação e escândalo, falasse em nome do tribunal e fosse duro com Jucá, que alegou ter conversado com ministros do tribunal. Não viram nenhum “insulto ao Poder Judiciário”, nada de “absolutamente inaceitável e passível da mais veemente repulsa”, nenhuma “profunda crise moral” e nem sombra de “reação torpe e indigna”. Após justificar carinhosamente as ações daqueles que envolveram a mais alta corte do país em arranjos para um golpe contra a Constituição, Gilmar Mendes ainda amenizou a situação e tratou tudo como normal e corriqueiro:

“Virou um mantra, um enredo que se repete, pode deixar que resolvo. Isso também aparece de vez em quando nas gravações com advogados. […] Não há o que suspeitar do Tribunal, o Tribunal tem agido com muita tranquilidade, com muita seriedade, muita imparcialidade, a mim me parece que não há nada para mudar o curso”.

Como se vê, são dois pesos e duas medidas, um + zoom gigantesco contra Lula e um – zoom igualmente imenso em favor de Jucá e seu comparsa. Além disso, a própria operação de dar ou retirar a ênfase, funciona construindo imaginariamente um escândalo (no caso de Lula) ou anulando descaradamente uma realidade (o golpe planejado por Jucá, ninguém menos que o presidente do PMDB, ou seja, do partido que ganhou a presidência com a queda de Dilma). A narrativa autoritária atua com muita violência sobre os dados da realidade, os distorcendo ou ignorando, conforme a conveniência do momento. Dá a eles uma amplitude que não possuem, ou os torna inteiramente inocentes, muda-os de natureza (o que é político é transformado em privado e pessoal, quando interessa) ao sabor do arbítrio.

Essa narrativa é, no fundo, o discurso de justificação típico das oligarquias e demonstra seu desprezo pela lógica. O discurso lógico, de obediência às proporções e ao lugar próprio das coisas, nasceu com a democracia grega e se fortaleceu na Ágora, a praça pública. Foram as discussões iniciadas aí por Sócrates, que deram origem à lógica. Hoje a Ágora são as redes sociais, os blogs e os sites dedicados ao trabalho da contrainformação e à luta pela democracia. Esse combate é uma guerra pela coerência, pelo sentido, pela isenção e imparcialidade porque, e sobretudo, é uma luta pela lei.

A existência de uma lei, publicamente constituída, que é válida para todos e que não pode ser distorcida pelos interesses de A ou B, é o que dá coerência e sentido de proporção às narrativas e impõe o respeito pela lógica. E é ela que nos permite, por exemplo, dizer que o comportamento do STF é inteiramente parcial e que confere dois pesos e duas medidas, conforme mire Lula e o PT ou se refira aos políticos das oligarquias e seus partidos. Mas que isso aconteça, que a instituição a quem se destina ser a garantia máxima da Constituição, e, portanto, das leis, não se indigne de ser mencionada num complô contra a democracia e as leis, é o melhor indício da tragédia que vivemos hoje.

Bajonas Teixeira de Brito Júnior – doutor em filosofia, UFRJ, autor dos livros “Lógica do disparate”, “Método e delírio” e “Lógica dos fantasmas”. É professor do departamento de comunicação social da UFES

Frota é a cara escarrada do Brasil de Temer

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POR KIKO NOGUEIRA, no DCM

Você pode achar tudo, menos estranha a reunião de Alexandre Frota e do dono dos Revoltados Online, Marcello Reis, com o ministro da Educação, Mendonça Filho.

Levaram “ideias para ajudar o país”, uma baboseira para combater a “doutrinação” política, religiosa e sexual. Querem agora uma reunião no ministério da Cultura e outra  com o interino Michel Temer. Vão falar de suas propostas de ensino sem “imposição ideológica, seja marxista ou de gênero”.

Devem conseguir e é justo que o façam.

Depois da avalanche de críticas, Mendonça explicou que não discrimina ninguém. “Respeito a liberdade de cada pessoa fazer suas escolhas de vida. Conheci Frota no movimento pró-impeachment”, disse.

Você está rindo. Você acha que Frota é uma aberração, um desqualificado sem chance de ser levado a sério. Bem, olhe para o governo Temer.

Frota é a gestão Temer personificada. Ele é o imbecil que repete clichês de direita, um ex-ator pornô convertido em evangélico, ele é o Jucá fazendo negócios escusos, um coxinha com anabolizantes estuprando ideias enquanto vomita Olavo de Carvalho.

Frota é o Temer por outros meios. A versão GG, semianalfabeta, entupida de drogas e lesada de um anão golpista decorativo.

Os idiotas que foram para a rua pedir o fim da roubalheira e o impeachment o criaram. Eles o admiram. Ele é um cara sincero. Ele veio do nada e hoje é recebido nos gabinetes do poder. Ele é um herói.

Quanto mais ódio, burrice e intolerância saem de sua boca, mais gostam dele. Frota é o golpe escarrado, um corrupto que gritava contra a corrupção, um pulha que responde a processos por estupro, dano material, porte de tóxicos, receptação etc e dá lição de moral.

Frota é a Veja, é o Bolsonaro, é a Fiesp de saias.

Não tem surpresa. Ou você esperava ver Chico Buarque, Marieta Severo e Fernanda Montenegro dando conselhos a um picareta como Mendoncinha?

Trata-se de um escárnio a mais em duas semanas de desastres de Michel Temer e seus capangas. Frota é brasileiro como você. Só não vive no mesmo país, como apontou o professor Vladimir Safatle. Apenas ocupa o mesmo território.

Descemos para o nível mais baixo da república. Alexandre Frota é a fotografia do golpe. A coxinhada foi a primeira a ser comida por ele. Agora é o jantar. E, com o mesmo barulho com que saiu do esgoto, vai voltar ao buraco de onde o tiraram juntamente com o Mendoncinha e o Temer.

STF, a última trincheira institucional, arrastado de vez para o olho do furacão

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POR GIL ALESSI, no EL País – SP

O Supremo Tribunal Federal (STF), mais alta corte de Justiça do país, voltou aos holofotes esta semana após a divulgação de áudios gravados pelo ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado. Nos diálogos, com o senador Romero Jucá (PMDB-RR), ex-ministro do Governo interino de Michel Temer, e Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente do Senado, e o ex-presidente José Sarney falam sobre  tratativas com ministros do STF ou planos de fazê-las envolvendo a saída da presidenta Dilma Rousseff do cargo, freios na Operação Lava Jato e a crise.

Os aúdios, em sua maior parte obtidos pelo jornal Folha de S.Paulo, arrastam de vez o Supremo para a crise e o escrutínio da opinião pública ao levantar o debate de quão blindada está a Corte ante os assédio dos políticos envolvendo investigados na Lava Jato e o impeachment da petista. Em alguns casos, eles são citados no contexto de que, caso Dilma saia do poder, seria possível “abafar” a operação e, consequentemente, livrar congressistas envolvidos no caso.

No diálogo travado entre Renan e Machado, o senador fala em “negociar a transição com eles [ministros do STF]”. O peemedebista diz ainda que os integrantes da Corte “não negociam [com Dilma] porque todos estão putos com ela”. Em nota, a assessoria do STF afirma que o presidente do tribunal, Ricardo Lewandowski, citado por Renan, “jamais manteve conversas sobre suposta ‘transição’ com as pessoas citadas”. Já a conversa de Machado com Jucá é ainda mais explícita quanto ao suposto tráfico de influência do parlamentar com os membros do tribunal. “Conversei ontem com alguns ministros do Supremo. Os caras dizem ‘ó, só tem condições de [inaudível] sem ela [Dilma]. Enquanto ela estiver ali, a imprensa, os caras querem tirar ela, essa porra não vai parar nunca’. Entendeu?”, diz o senador. Mais à frente Machado e Jucá falam sobre arquitetar um “grande acordo nacional”, “com o Supremo, com tudo”.

“É preocupante que fiquemos sabendo que com frequência políticos ventilam essa possibilidade de conversar com juízes do Supremo”, afirma Ivar Hartmann, Coordenador do projeto Supremo em Números e professor de Direito da Faculdade Getúlio Vargas do Rio. Ele lembra que não se trata de um áudio isolado: “Parece que todas as gravações que vazaram nos últimos meses em algum momento as pessoas falam sobre conversar, dizem que conversaram ou tentarão acionar ministros do STF”. Na terça-feira o ministro Luís Roberto Barroso saiu em defesa da Corte, e afirmou que ninguém tem poder de influenciar o STF. “É impensável que qualquer pessoa, individualmente, tenha acesso ao Supremo”, afirmou. “Para pedir audiência, todos têm acesso. Recebo todos que me pedem. Mas, acesso para intervir? Eu duvido muito que isso aconteça. E não me refiro a uma só pessoa. Essa é a regra geral”, afirmou Barroso.

Outro foco que mobiliza os debates do tema é o posicionamento público dos ministros. Os mais midiáticos, como Gilmar Mendes e Marco Aurélio Mello, estão frequentemente envolvidos em controvérsias e são alvo de acusações de partidarização.  Indicado durante o Governo de Fernando Henrique Cardoso, Mendes, tido como bastião conservador no tribunal, já se manifestou publicamente contra o PT, Lula, Dilma e vários de seus correligionários. Tudo isso em momentos nos quais julgava casos envolvendo a legenda. Mendes nunca se considerou impedido de participar dos casos sobre os quais opinou. Recentemente, ele ganhou as manchetes quando, no dia seguinte à votação do afastamento de Dilma no Senado, devolveu para a Procuradoria-Geral da República o pedido de abertura de inquérito contra o senador Aécio Neves (PSDB-MG). Nesta quarta-feira, em uma semana na qual o tucano foi citado duas vezes nas conversas gravadas por Machado de forma pouco republicana – Jucá diz que “todo mundo conhece o esquema do Aécio” -, o ministro devolveu para a PGR um segundo pedido de abertura de investigação contra o senador. Os processos contra ele têm relação com a maquiagem de dados do Banco Rural, de onde teria saído o dinheiro do mensalão tucano, e com o esquema de corrupção em Furnas. Já Marco Aurélio também levantou críticas de alguns advogados ao obrigar a Câmara, por liminar, a analisar pedido de impeachment contra Michel Temer.

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Para o advogado Marcelo Figueiredo Santos, algumas críticas envolvendo o Supremo tem como base o fato de que muitos dos ministros expõem “publicamente uma preferência por partido A, B ou C”, o que, segundo ele, “não é uma prática saudável e deveria ser policiada”. De acordo com o professor de direito constitucional, se por um lado é vedada aos juízes pela Lei Geral da Magistratura que se envolvam em qualquer atividade político-partidária, por outro “eles têm uma visão política da realidade, e isso fica evidente também na leitura de seus votos”. Santos também destaca que existem ministros “mais sociáveis e menos sociáveis”. “Alguns eu diria que são mais permeáveis a diálogo e outros menos, mas de qualquer forma não acredito que os congressistas tenham essa influência sobre os ministros que dizem ter nos áudios”, afirma.

Para Santos, o que ocorre na Corte é que “nem sempre o timing político e o timing jurídico coincidem: infelizmente existem ações antigas, de Governos anteriores que não foram pautadas”, o que daria a impressão de que determinado partido é perseguido pelo tribunal. Ele aponta que essa morosidade no STF ocorre por várias razões, que vão de “preguiça do relator do processo até pedido político”. “Enfim, é preciso apurar porque processos prontos não são pautados, é preciso que o presidente do STF seja cobrado com relação a isso”, diz.

Outro momento crítico envolvendo a corte aconteceu em 5 de maio, quando o ministro Teori Zavascki acatou o pedido da PGR feito em dezembro do ano passado e determinou o afastamento do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Em sua justificativa, Zavascki disse que “está claro, pelos elementos trazidos, que há indícios de que o requerido, na sua condição de parlamentar e, mais ainda, de Presidente da Câmara dos Deputados, tem meios e é capaz de efetivamente obstruir a investigação”.

Cunha, que foi o maior artífice do impeachment de Dilma, questionou, em entrevista coletiva, se a questão era “excepcional e urgente”, por que o relator do caso “demorou cinco meses para decidir?”. Em um raro momento de concordância com o maior algoz da presidenta, petistas também levantaram esta questão, alegando que, se o ministro tivesse decidido em dezembro, quando foi acionado pela PGR, o processo de impeachment de Dilma não teria tido o andamento célere que teve sob a batuta do peemedebista. A decisão de afastamento de Cunha também causou surpresa em alguns círculos jurídicos, que consideram a medida não prevista na Carta espécie de “cassação branca” por deixar sem efeito a barreira de imunidade parlamentar, espécie de radicalização do que já havia acontecido na prisão do então senador Delcídio do Amaral.

Hartmann, do Supremo em Números, diz que “é muita ingenuidade acreditar que o Supremo decide apenas em função de critério jurídico”. O professor afirma, no entanto, que não existem indícios de “favorecimento de um lado ou outro na questão o impeachment” nas decisões da Corte. “A demora em decidir sobre o Cunha foi para que o tribunal pudesse se proteger: eles não sabiam quais seriam as reações da sociedade e do meio jurídico”. Ele acredita que “sempre que houve uma consideração mais política nas ações do STF, foi no sentido dos ministros tentarem garantir a sua situação”.

Margarida Lacombe Camargo, professora de Direito da UFRJ e coordenadora do Observatório da Justiça Brasileira da mesma instituição, tem visão mais sombria.”Os Poderes Executivo e Legislativo encontram-se sob suspeita podendo os seus integrantes serem afastados dos seus cargos a qualquer momento e de formas imprevisíveis”, disse ao EL PAÍS no começo do mês. “Desde a prisão de Delcídio do Amaral, o STF vem adotando a tese do ‘estado de flagrância permanente’,  que vem servindo de justificativa para medidas de exceção (…) Nos tornamos refénsdo Judiciário, que tem a exata noção do terreno movediço em que está se metendo”, completou Lacombe Camargo.