Quem são os responsáveis pelo ódio que avança no Brasil: um 1964 em câmera lenta

POR RODRIGO VIANNA, em seu blog Escrevinhador

Não é exagero afirmar que estamos em meio à maior ofensiva conservadora no Brasil, desde 1964.

A violência verbal de blogueiros como Reinaldo Azevedo transbordou para as ruas. Isso desde 2013, quando brucutus de academia e falanges de direita tentaram impedir militantes de movimentos sociais de marchar na avenida Paulista.

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Em 2015, o tom subiu: pregou-se abertamente o golpe e a volta da ditadura, atacou-se gente ligada ao PT em restaurantes, hospitais e até na rua. Panelas batem nas varandas da classe média – que está à beira de um ataque de nervos.

O adversário não deve ser ouvido, nem levado em conta. Deve ser esmagado, preso, proscrito. É nesse pé em que estamos.

O músico Tico Santa Cruz recebe ameaças pelo telefone. Alinhado com as políticas sociais de Lula, ele virou alvo de gente que (em chamadas covardes, pelo telefone) fala em atacar os filhos adolescentes de Tico. Ouvi o aúdio de uma das ligações: o homem que ameaça sabe os nomes dos filhos do músico, e diz falar em nome de Eduardo Cunha. Tico pede que o áudio não seja divulgado, por enquanto, já que está buscando apoio da polícia contra as ameaças.

Miriam Dutra, que denunciou os esquemas da Globo com FHC, também recebe uma ameaça nada velada: a ex-amante de FHC, que a família Marinho escondeu na Europa para não gerar um escândalo, está internada num hospital espanhol – com grave crise emocional. Enquanto isso, invadem a conta dela no Facebook “anunciando” que Miriam está morta. Sim, são esses os métodos.

A Globo também ameaça blogueiros. Vai citar extra-judicialmente todos aqueles que fizeram referência à emissora. É o poder da Casa Grande que, diante da tibieza do governo, percebe a avenida aberta para uma restauração completa.

Os que se resistem contra o avanço conservador recebem uma dupla mensagem: da direita, vem o aviso de que não estamos mais no terreno dos debates, mas da guerra total; do governo eleito com os votos da esquerda e da centro-esquerda, por outro lado, chegam sinais de rendição e derrota.

A tabelinha mídia/Judiciário avança e aperta o torniquete. Estamos diante de um 1964 em câmera lenta. E não há outro caminho, a não ser enfrentar as ameaças.

Passei os últimos anos estudando a Colômbia, numa pesquisa de Mestrado. Desde o século XIX, o país tem eleições regulares, mas a característica básica do regime colombiano é ser uma democracia restrita: a esquerda e os movimentos sociais foram sempre excluídos do jogo político.Conservadores e Liberais se revezam no poder, enquanto setores populares sofrem com assassinatos, exclusão, perseguição.

Enquanto Brasil e Argentina incorporaram as massas ao jogo político, com o peronismo e o varguismo, a Colômbia viu ser assassinado o líder popular que se apresentava para liderar os trabalhadores: no dia 9 de abril de 1948, Jorge Gaitán foi morto no centro de Bogotá; era favorito para virar presidente nas eleições seguintes.

A morte de Gaitán mostrou a amplos setores que o caminho institucional estava fechado. Por todo o país, pipocaram guerrilhas que nem eram de esquerda, mas “liberais”. De uma dessas guerrilhas, surgiria alguns anos depois, no início da década de 1960, as FARC.

Não adianta dizer que as FARC são apenas uma “narco-guerrilha”. Claro, na Colômbia quase todos os entes têm relação com os interesses do tráfico. Mas as FARC não são filhas da droga. São filhas da exclusão social e do ambiente político excludente.

A democracia restrita jogou parte da população para fora do jogo político. Nunca houve na Colômbia um partido trabalhista. Nunca. O caminho foi o das armas.  

Hora dessas falo um pouco mais sobre a Colômbia. Mas o que me assusta é ver que o Brasil pode, muito tempo depois, seguir caminho parecido.

Tudo leva a crer que setores do Judiciário e da elite política e midiática tomaram a decisão de expurgar a esquerda (e mesmo a centro-esquerda) do jogo político.

Se isso ocorrer, estará aberto o caminho para que a política seja feita por outras vias.

Por enquanto, é a direita que toma a iniciativa de usar a violência. Mas, ao fechar as portas do sistema político para um partido com quase 2 milhões de filiados, e com pelo menos 30 ou 40 milhões de simpatizantes, a direita abre as portas para a guerra política.

Desde já é possível apontar 3 personagens e 2 famílias com responsabilidade pelo clima de ódio que avança:

Reinaldo Azevedo, que cunhou o termo “petralha”, e há anos é pioneiro em espalhar o ódio pelas redes sociais, sempre com patrocínio do tucanato;

José Serra, que na eleição de 2010 trouxe esse ódio das redes para as ruas, com uma campanha feita na base do preconceito e da pregação conservadora;

Ali Kamel, que colocou a máquina da Globo, de forma discreta mas persistente, numa campanha de criminalização da esquerda;

e as famílias Marinho e Civita, pela permanente semeadura do ódio.

Quando o caldo entornar de vez, cada um pagará sua cota por levar o país para um clima de confrontação e ódio. Por enquanto, eles comemoram, porque só um lado bate.

Em breve, talvez, essa gente vai perceber que quem apanha sem parar não esquece jamais os nomes de seus algozes.

A história vai dar o troco. Não tenham dúvidas.

Tribunal contratou empresa de limpeza para fazer trabalho jornalístico durante as eleições

Fachada do TSE. Brasília-DF, 01/12/2015 Foto: Roberto Jayme/ASICS/TSE
Fachada do TSE. Brasília-DF, 01/12/2015 Foto: Roberto Jayme/ASICS/TSE

DO COMUNIQUE-SE

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) realizou licitação, no fim de 2014, para a contratação de serviços jornalísticos para cobertura das eleições. O resultado do pregão está causando polêmica com entidades ligadas ao setor. Em contrato, a instituição destina R$ 2 milhões, por um ano, pelos serviços da empresa Liderança Limpeza e Conservação que – como o próprio nome diz – tem a “limpeza em prédios e domicílios” como sua principal atividade econômica. As informações são de O Globo.

Com a divulgação do contrato, a Associação Brasileira das Agências de Comunicação (Abracom) anunciou que pretende questionar judicialmente o resultado da licitação. Presidente-executivo da entidade, Carlos Henrique Carvalho explicou que alguns órgãos federais utilizam o pregão eletrônico para a contratação de serviços de comunicação. Porém, este tipo de licitação acaba levando em conta apenas o melhor preço, sem a questão técnica.

“Isso abre espaço para que empresas de terceirização, sem experiência no setor, ganhem as licitações oferecendo apenas os postos de trabalho. É uma forma disfarçada de contratar sem concurso público”, comentou Carvalho. Segundo o edital do pregão, devem ser contratados oito jornalistas e dois fotógrafos, com salários que variam entre R$ 6,3 mil e R$ 6,7 mil, fora encargos. Há, ainda, previsão de outras quatro vagas temporárias, para trabalho de 90 dias.

Sediada na cidade de São José (SC), a Liderança Limpeza e Conservação atua em diversas frentes e tem crescido no Governo Federal. De acordo com o Portal da Transparência, em 2010 a empresa recebeu R$ 42,6 milhões. Em 2015, foram R$ 69,9 milhões, arrecadados principalmente com serviços de conservação. Em seu registro na Receita Federal, a firma possui 46 atividades, além da principal, de limpeza. Infraestrutura portuária, nutrição, restauração de prédios históricos e serviços de agronomia são alguns exemplos. A “prestação de serviços de informação” também aparece na lista.

No site da empresa também é difícil encontrar referências aos serviços jornalísticos. Em filme institucional, a companhia fala apenas em “limpeza e conservação; copa e café; portaria; jardinagem; recepção; telefonia; apoio administrativo e segurança patrimonial”. O link “serviços” também não cita os trabalhos na área de comunicação. O jornalismo é citado apenas em texto no link “apresentação”.

Tanto a Liderança quanto o TSE foram procurados, mas não se manifestaram sobre o caso. O Ministério do Meio Ambiente, que gastou em 2015 quase R$ 3,7 milhões com a firma para a prestação de serviços de comunicação social, se manifestou afirmando que a firma “comprovou as capacidades técnica e operacional exigidas por meio de atestados de capacidade inerentes ao objeto licitado”.

O Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal também comentou o caso. Coordenador-geral da entidade, Jonas Valente afirma que o ideal seria a realização de concurso público para eleger a empresa que prestaria os serviços de comunicação. “Defendemos o concurso em primeiro lugar, mas, quando não é possível, que sejam ao menos contratadas empresas que têm atuação no setor de comunicação. É algo que nos preocupa já faz tempo, temos conseguido interlocução com alguns órgãos, mas infelizmente ainda não existe uma diretriz única no governo”, declarou o executivo.

Ambev convoca o Remo para virar jogo contra o Zika

O final de semana será emocionante nos gramados. Não só por conta dos jogos de futebol, mas porque os times de diversos estados brasileiros deixarão a rivalidade de lado e estarão unidos na luta contra o Zika vírus, a exemplo do Remo (PA), que entrará em campo neste sábado (27), contra o Independente pela semifinal do primeiro turno do Parazão.

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Além da equipe paraense, também no sábado, pelos campeonatos estaduais, São Paulo FC (SP), Cruzeiro (MG), Botafogo (RJ) e Náutico (PE) entrarão em campo carregando faixas com mensagens de combate ao mosquito Aedes Aegypti, que transmite os vírus da Zika, Dengue e Chikungunya. Já no domingo, é a vez de Flamengo (RJ), Internacional (RS), Vasco (RJ) e Vitória (BA) se engajarem na campanha.

A ação faz parte de uma ampla mobilização contra o Zika promovida pela cervejaria Ambev, que tem como mote a hashtag #naoficoparado. O objetivo é chamar a atenção da população para que todos façam a diferença. Afinal, quanto mais gente participar, mais rápido é possível virar o jogo contra o mosquito. (Da Assessoria/Ambev) 

Novo reforço do Leão pode estrear contra o Galo

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Ainda sem ter presença confirmada no jogo – dependia de seu registro no BID -, o atacante Potita foi incluído na lista de relacionados pelo técnico Leston Junior para o jogo deste sábado, às 18h, contra o Independente, valendo pela semifinal do primeiro turno. Potita chegou na quarta-feira e já treinou com seus companheiros.

Segundo Leston, o jogador foi contratado porque é um atacante de velocidade, apesar dos 31 anos de idade. O técnico fez questão de explicar que Potita não é um artilheiro, pois atua mais pelos lados do campo preparando jogadas para os demais homens de frente.

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Jogadores relacionados para o jogo:

Goleiros – Fernando Henrique (foto acima) e Douglas Borges

Laterais – Levy, Murilo e João Victor

Zagueiros – Henrique, Igor João, Ítalo e Max

Volantes – Alisson, Arthur, Michel e Yuri

Meias – Edicleber, Eduardo Ramos e Marco Goiano.

Atacantes – Ciro (foto superior), João Victor Cunha, Léo Paraíba, Potita e Whelton. 

(Fotos: MÁRIO QUADROS)

Aliado de Platini, suíço é o novo presidente da Fifa

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Depois de 18 anos, a Fifa tem um novo presidente. Nesta sexta-feira, o Congresso Extraordinário da entidade, em Zurique, na Suíça, elegeu o europeu Gianni Infantino, 45 anos, para o posto que foi de Joseph Blatter desde 1998, em mandato válido pelos próximos três anos, até 2019.

Infantino, secretário-geral da Uefa desde 2009, superou o até então favorito xeique Salman Bin Ebrahim Al-Khalifa, em votação no segundo turno. No pleito decisivo, o suíço-italiano contou com 115 votos dos 207 possíveis, enquanto o bareinita teve 88 – na primeira rodada, ele venceu por 88 a 85.

Também concorriam ao mais alto cargo do futebol mundial o príncipe jordaniano Ali Bin Al-Hussein e o francês Jérôme Champagne, que tiveram, respectivamente, 27 e 7 votos no primeiro turno e 4 e 0 votos no segundo. O sul-africano Tokyo Sexwale chegou a discursar como candidato, mas tirou o nome da disputa.

“A Fifa passou por tempos tristes, tempos de crise. Esse tempo acabou. Vamos recuperar a imagem da Fifa, e todo mundo vai nos aplaudir pelo que faremos pela Fifa no futuro”, disse Infantino logo após ser eleito. “Quero ser o presidente de todos vocês, de todas as 209 federações”, acrescentou.

Antes do pleito, Infantino também falou ao Congresso e apostou em diferentes idiomas para convencer as federações, falando em italiano, alemão, francês, espanhol, inglês… Teve atenção especial com os países africanos e da Oceania, que poderiam pesar em favor de Salman – que é presidente da Confederação Asiática.

Ainda como candidato, o novo presidente foi muito aplaudido quando falou sobre a ideia de repassar 1,2 bilhões de dólares (R$ 4,6 bi na cotação atual) da Fifa às federações associadas. Outra opinião que defendeu durante sua campanha foi a de aumentar de 32 para 40 os países da Copa do Mundo.

Rosto conhecido

Para muitos, a imagem de Infantino é familiar por seu papel de regente dos sorteios da Champions League e das grandes competições da Uefa. Inicialmente, sua candidatura foi vista apenas como “espaço reservado” para Michel Platini, que acabou suspenso de qualquer atividade ligada ao futebol.

A Uefa apostava todas as fichas em Platini, seu presidente, mas essa opção foi excluída com a decisão do Comitê de Ética da Fifa de banir o francês, acusado de ter recebido um pagamento de 1,8 milhão de euros em 2011 de Joseph Blatter, presidente da Fifa, por oito anos – depois, a pena caiu para seis.

Braço direito de Platini na entidade europeia, Infantino foi o “plano B” da entidade e acabou incluído na lista de candidatos de última hora, em outubro. Desde então, ele intensificou a campanha eleitoral, multiplicando viagens e contatos para arrebatar o maior número de votos possíveis. Deu certo.

Um “vizinho” de Blatter

Escolhido nas últimas cinco eleições presidenciais da Fifa, Joseph Blatter tem, ao menos, uma semelhança com seu sucessor: Infantino também é nascido na Suíça, em Brigue, curiosamente a cerca de apenas 10 km de Viège, cidade natal do ex-mandatário – que também está banido por seis anos do futebol.

Os primeiros trabalhos de Infantino, torcedor da Internazionale de Milão, no mundo do esporte, foram como secretário-geral do Centro Internacional de Estudos do Esporte (CIES) da Universidade de Neuchâtel, antes de se tornar assessor de entidades como as Ligas de futebol de Espanha, Itália e Suíça.

Infantino entrou na Uefa em 2000, como encarregado de questões jurídicas e comerciais. Em janeiro de 2004, foi nomeado diretor da divisão jurídica. Durante esta etapa, segundo seu currículo oficial, teve “estreitos contatos com a União Europeia, o Conselho da Europa e autoridades governamentais”.

Foi nomeado secretário-geral adjunto da Uefa e, pouco depois, secretário-geral, em 2009. Desde então, é o número 2 do futebol do continente, tendo dado impulso a projetos como o do ‘fair play financeiro’ dos clubes (não gastar mais do que se arrecada), um dos grandes focos de Platini nos últimos anos.

Na Fifa, Infantino foi integrante da Comissão de Reformas criada pela entidade em julho de 2015 que sugeriu o pacote de mudanças aprovado também nesta sexta pelo Congresso – entre elas, estão a publicação dos salários de dirigentes de alto escalão, limite de mandatos e maior participação feminina.

Infantino contou com o apoio oficial da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e dos demais países da Conmebol, que concordaram em votar em bloco no pleito. (Da ESPN)

Rolling Stones são super-heróis e homens normais ao mesmo tempo

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POR FELIPE MACHADO (*)

Antes do início do show dos Rolling Stones, quarta-feira, no estádio do Morumbi, me peguei pensando: “o que escrever sobre os Rolling Stones? Será que existe algo que ainda não foi escrito sobre uma banda que está na ativa há 54 anos? É possível ser relevante sem cair em algum tipo de clichê sobre monstros sagrados do rock, etc?”

“Ladies and gentlemen… the Rolling Stones!”

A clássica introdução deixa arrepiada até a tiazinha que vende cerveja ‘uma por dez duas por vinte real’.

Durante o show, no entanto, percebi que há sempre algo a escrever sobre os Rolling Stones – mas não aquele tipo de informação que todo mundo já sabe. Ninguém mais precisa escrever sobre “a carreira mais longa do rock”, “Mick Jagger é carismático” ou “nunca descobriremos como Keith Richards ainda está vivo”.

A característica mais interessante dos Stones – e aquela sobre a qual nunca cansaremos de falar – é o poder que a banda emana sobre o público. E isso tem muito a ver com a música, claro, mas tem mais ainda a ver com os músicos. Que não são músicos, mas personagens. Mick, Keith, Ron e Charlie são super-heróis assumidamente decadentes, mas que continuam salvando o mundo do rock graças a super-poderes que independem da idade. São super-heróis do rock e homens normais ao mesmo tempo.

Quando os Rolling Stones entram no palco e tocam o riff de ‘Start me up’, ficamos magnetizados não apenas pelo som que sai das caixas, mas por celebrar, inconscientemente, que estamos diante de personagens únicos na história da cultura pop. Os Rolling Stones não são infalíveis, e é por isso que nos identificamos tanto com eles. São deuses do rock, mas têm rugas como qualquer homem de 70 e poucos anos. São milionários, mas não conseguem comprar a juventude. São provas vivas de que a vida passa, mesmo quando o tempo está do seu lado – eles já cantavam ‘Time is on my side’ quando ainda eram jovens.

Não sei se faz sentido para as outras pessoas, mas o que me emociona é saber que estou no mesmo ambiente que eles, que durante duas horas participarei como testemunha da experiência que eles vivem há 54 anos. Como se eu pegasse emprestado a energia emanada do palco, a vitalidade desses sobreviventes, e até mesmo suas histórias trágicas. Talvez eu esteja sendo muito metafísico; mas estar no mesmo local, fisicamente, que Mick Jagger ‘em pessoa’ me permite roubar um pouco de sua mágica. Naquele momento, Mick não está em uma ilha particular no sul da França; nem Keith não está em uma cobertura triplex fumando charuto; Ron não está em um pub de Londres trocando uma ideia com Rod Stewart; Charlie não está em um estúdio de Dublin tocando jazz e tomando whisky com seus velhos companheiros.

Não. Mick, Keith, Ron e Charlie estão ali, no Estádio do Morumbi, na Praça Roberto Gomes Pedrosa, número 1, CEP 05653-070. Eles estão lá, da mesma maneira que eu, mortal, também estou. Respiro o mesmo ar e sinto no corpo os mesmos pingos da chuva que eles, gotas invisíveis que insistem em cair e parar, cair e parar, como notas de uma melodia levemente dissonante que incomodam até o momento em que esqueço que elas existem.

Uma apresentação dos Rolling Stones não é um show, mas uma experiência que vivemos e que deixa marcas em quem somos. Lembraremos desse show da mesma maneira que lembramos do 11 de setembro, ou da morte de Ayrton Senna. É único demais para ser comparado a outros shows. É um capítulo da história do rock compartilhado por 60 mil pessoas.

Reforço esse lado místico e lúdico (para usar uma palavra que está na moda) porque acho tudo isso mais importante do que o próprio som dos Rolling Stones. O quê? Sacrilégio? Nada disso. É que a música é apenas uma parte do que é os Rolling Stones. Claro que há músicas maravilhosas como ‘Gimme Shelter’ (a melhor do show), ‘Sympathy for the Devil’ (com seu telão incrível de vodu pós-psicodélico) e ‘Paint it Black’. Outras bandas podem ter um repertório tão bom quanto os Stones, mas nunca terão o peso institucional que eles têm.

Acho que isso tem cada vez mais a ver com a personalidade dos músicos. Ironicamente, acho que os Stones estão virando cada vez mais… os Beatles. Não em termos artísticos, volto a dizer. Os Beatles sempre foram mais sofisticados musicalmente, enquanto os Stones sempre tiveram mais atitude e espírito rock ‘n roll. Mas os personagens Mick, Keith, Charlie e Ron estão cada vez mais parecidos com Paul, John, George e Ringo. Digo isso em termos de arquétipos, teoria sobre a qual já escrevi aqui.

Mick é Paul, o business man, o profissional, o mais bonito, o vocalista para quem o tempo não passa; Keith é John, o rebelde, o subversivo, o cara sincero sem papas na língua; Charlie é George, o homem sério, o cara quieto e introspectivo, o guardião da credibilidade; Ron é Ringo, o divertido, o amigo de todos, o cara que sorri mais vezes do que o necessário.

Os Rolling Stones já tiveram outras formações no passado, mas não dá para imaginar os Stones hoje em dia sem um dos quatro personagens atuais. Eles se completam. Em termos musicais, o show dos Stones não traz a parede sonora que estamos acostumados a ver em outros megashows atuais: como não há guitarristas de apoio, o som depende totalmente de Keith e Ron, e o estilo de tocar deles “não ocupa os espaços”; tem uma sonoridade mais próxima de uma canja do que de um som coeso. Tocam de maneira despojada, informal, ‘sloppy’, para usar um termo mais técnico. Parece que estão tocando em um pub, com a diferença de que esse pub cabe 50 mil pessoas. E Charlie é um baterista razoável, preciso apenas em sua simplicidade. O trabalho sobra mesmo para o baixista Darryl Jones, excelente, o cara que segura a banda para que Keith e Ron possam tocar… bem, do jeito deles.

Mick Jagger é especial e basta um segundo no palco para sentir isso. Seu corpo se movimenta como um ímã de carne e osso, magnético, atraindo os olhares como se não tivéssemos outra opção a não ser prestar atenção em quem ele é. Simpático, profissa, arrancou risos da plateia falando em português (“Que cidade fantástica, São Paulo”) e pronunciando uma expressão que nunca imaginei ouvir da boca de um Rolling Stone: “Beijinho no ombro!” Será que Mick sabe quem (ou o quê) é Valeska Popozuda?

Mick ainda canta muito bem e sua voz nos leva a um lugar confortável, seguro, diferente do que acontecia nos anos 1970, época em que ele era um porta-voz da rebeldia. É um senhor de 72 anos, sim, e não há nada de errado com isso. Só achei que sua performance às vezes é um pouco exagerada, como se ele sentisse a necessidade de provar para todos que está bem fisicamente. Não, precisa, Mick. Está na cara que você está bem melhor que a maioria de nós.

Quando o final do show se aproxima, a gente percebe que participou de um evento histórico. E fica a dúvida: será que eles voltarão? Talvez sim, talvez não. Mas a sensação de fazer parte de algo que ficará para sempre gravado na memória já traz uma satisfação enorme. Os Rolling Stones não serão eternos, mas serão infinitos enquanto durarem.

Setlist Rolling Stones
Estádio do Morumbi – 24 de fevereiro de 2016

1. Start Me Up
2. It’s Only Rock ‘n’ Roll (But I Like It)
3. Tumbling Dice
4. Out of Control
5. Bitch (escolhida pelo público)
6. Beast of Burden
7. Worried About You
8. Paint It Black
9. Honky Tonk Women
10. You Got the Silver (Keith Richards no vocal)
11. Happy (Keith Richards no vocal)
12. Midnight Rambler
13. Miss You
14. Gimme Shelter
15. Brown Sugar
16. Sympathy for the Devil
17. Jumpin’ Jack Flash

BIS

19. You Can’t Always Get What You Want (com Coral Sampa)
20. (I Can’t Get No) Satisfaction

Post originalmente publicado no site Palavra de Homem

(*) Consultor na área de Conteúdo, Comunicação e Mídias Digitais

A frase do dia

“Quando o PT deixar o poder, não haverá nem mídia, nem procuradores, nem Polícia Federal interessados em descobrir como as campanhas dos vitoriosos foram financiadas, nem como foram pagos seus marqueteiros. Quando o PT deixar o poder, todos estes agentes da turbulência atual vão descansar. A mídia voltará a plantar abobrinhas, a Polícia Federal a perseguir traficantes e outros meliantes, os procuradores a defender os direitos difusos da sociedade.”

Tereza Cruvinel, jornalista

Torcedor vascaíno recomenda ter calma com Pikachu

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POR BRUNO GUEDES, do Caldeirão Vascaíno

Yago Pikachu chegou com status de principal reforço do Vasco para 2016 – é bem verdade que foi um dos poucos que chegou -, mas, até agora, apesar de bastante utilizado por Jorginho no Campeonato Carioca, ainda não emplacou boa atuação e parece perdido no time, como ficou claro no empate desta quinta-feira com a Friburguense, em 2 a 2, em São Januário. É hora de resetar a contratação e voltarmos à estaca zero.

O que quero dizer é que a torcida não tem que estigmatizar e perseguir o jogador, como começou a fazer no primeiro tropeço do ano, com vaias, e o técnico precisa reavaliar a forma de utilizar o destaque do Paysandu na temporada passada, quase sempre atuando como um lateral-direito super avançado.

Pikachu é bom jogador e isso é indiscutível. É peça mais ofensiva do que defensiva, isso também ficou claro para quem acompanha sua trajetória. Em que pese o gigantismo regional do Papão da Curuzu, está deixando Belém rumo a um dos grandes do cenário nacional pela primeira vez na carreira – também vestiu a camisa da Tuna Luso, outra tradicional equipe da capital paraense. Sentir um frio na barriga extra, então, é normal.

 

Além de toda a tensão de estar tendo uma oportunidade profissional bastante relevante, em uma cidade distante da qual foi criado, o jovem de 23 anos tem atuado em diversas posições. Já entrou pelo meio, à frente do volante, foi opção para o lado direito do setor ofensivo, tentou ajudar na ponta oposta, mas nunca foi lateral, já que Mádson é o titular do setor.

Na reta final da primeira fase do Carioca, com o Vasco classificado, talvez fosse interessante Jorginho começar do zero, escalar Pikachu na lateral-direita no decorrer do clássico com o Botafogo e em toda partida contra o Bonsucesso na sequência. Antes de transformar o novato em “coringa”, que é uma ótima pedida, é preciso firmá-lo técnica e psicologicamente. A chance que ele arrebente na Colina pode ser maior assim, no passo a passo.

Saída para a Petrobras é a verticalização e o mercado interno. Não a venda a preço de banana

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POR MAURO SANTAYANA

Uma das principais frentes da campanha atual contra a Petrobras está no discurso de entrega aos gringos de várias porções da empresa, tanto por meio da venda de ativos como de mudanças nas regras que garantem a continuidade de seu papel de operadora nos poços da camada pré-sal, a maior descoberta da indústria do petróleo do último meio século. Embalados pelas acusações de desvios e prejuízos na empresa – já passou da hora de os petroleiros interpelarem a diretoria e eventualmente, a PricewaterhouseCoopers, para que provem os “desvios” de R$ 6 bilhões incorporados ao balanço do início do ano passado –, os entreguistas de sempre continuam a dizer que os estrangeiros não investem no setor do petróleo no Brasil por causa das regras do pré-sal, da lei de conteúdo nacional, do Marco Regulatório do Petróleo e da excessiva intervenção do governo. Esse discurso não passa de grosseira manipulação e de uma tentativa rasteira de se enganar desinformados e de se alimentar os trolls antinacionais em seus raivosos ataques na internet.
Com os preços atuais, as grandes empresas multinacionais de petróleo não entrariam no mercado brasileiro nem na exploração, nem na operação, mesmo que as reservas que ainda não estão em fase de exploração lhes fossem entregues de graça. Em primeiro lugar, porque não dominam, a exemplo da Petrobras, o conhecimento que permite extrair o petróleo do pré-sal a preço competitivo, mesmo com um preço internacional de US$ 30 o barril. E, depois, porque com o preço lá em baixo a ordem é enxugar a oferta para ver se a cotação volta a subir no futuro.
Essa é a tese do diretor da Agência Internacional de Energia, Fatih Birol, entrevistado por um jornal brasileiro, no mês passado, no Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça. Birol afirmou que, embora haja expectativas “muito positivas” com relação ao aumento da produção do Campo de Lula pela Petrobras, não há espaço para a entrada de empresas estrangeiras no Brasil, em projetos futuros, até que haja uma eventual recuperação dos preços.
Levantamento feito pela consultoria britânica especializada em petróleo Wood Mackenzie, reproduzido pelo Wall Street Journal, também no início do ano, mostra que as multinacionais ocidentais estão tão propensas a investir que estão cortando 68 grandes projetos no mundo. Isso em lugares onde já estavam instaladas, contando, ao contrário do Brasil, com ampla liberdade de ação.
Em 2015, a redução de custos do setor, que inclui investimentos, foi de US$ 380 bilhões. Apenas na segunda metade do ano passado, 22 projetos foram interrompidos, relativos à produção futura de 7 bilhões de barris de petróleo e gás equivalente. A grande maioria deles fica em águas profundas – como o pré-sal – e localizada nos Estados Unidos, Canadá, Moçambique, Angola, Cazaquistão e outros países.
Do poço à bomba.
Em um cenário como esse como alguém pode falar, em sã consciência, em “abrir” o setor aos estrangeiros? O maior ativo da Petrobras não é o pré-sal. O seu principal diferencial estratégico – o que ela tem que suas concorrentes estrangeiras não têm – é o mercado brasileiro. Nenhuma outra grande empresa de petróleo possui, com o país de origem, a ligação e as possibilidades que a Petrobras tem com a quinta maior nação do planeta em população, e a oitava maior economia do mundo.
Essa é uma situação que lhe permitiria ampliar, com a adoção de um amplo cronograma coordenado, articulado, sua margem de ganho, sem aumentar o preço para o consumidor. Mas como fazê-lo? Com certeza, não vai ser com a venda atabalhoada de ativos a preço de banana, como querem alguns, principalmente o filé do negócio, situado na ponta da comercialização, como a Gaspetro.
Nem, muito menos, com o seu esquartejamento (já vimos esse filme com a Telebras), como já começam a sugerir alguns espertinhos, omitindo, como se imbecis fôssemos, que esse é, na verdade, o primeiro e quase que imprescindível passo para a total privatização da empresa.
A Petrobras já está cortando 30% de seus cargos gerenciais e extinguindo diretorias, como a de gás, mas não basta trabalhar com cortes de custos – que devem ser feitos com cuidado para não afetar o desenvolvimento de tecnologia e a sua capacidade operacional. O momento também não aconselha a venda de ativos na área petroquímica, como a participação na Braskem, que produz em mercados como o México, que só agora está se estruturando nessa área e que era atendido basicamente por importações.
A venda da participação na BR Distribuidora também pode ser um tiro no pé, principalmente se for feita em um momento como este. Depois da queda no preço de suas ações, em janeiro, o valor da Petrobras tende a se recuperar, já que está extraordinariamente baixo com relação aos seus ativos.
Para a maior empresa brasileira, o melhor caminho para enfrentar com sucesso a crise internacional que o setor de petróleo está vivendo neste momento pode ser, invertendo o raciocínio, investir na verticalização, aprofundando-a do “poço ao posto”, eliminando o que puder ser eliminado em custos e em intermediários, na cadeia que leva da produção à venda de combustíveis e lubrificantes para o consumidor final, para maximizar – sem aumentar o preço na bomba – seus ganhos.
No Brasil, a margem de lucro dos donos de postos de gasolina é absurda, embora todo mundo – muitos por razões que não têm nada a ver com o interesse dos consumidores – ponha a culpa na Petrobras e no governo. Em Brasília, segundo recente levantamento, postos cartelizados ganham R$ 0,64 por litro de gasolina ou de etanol comercializado.
Quantos clientes param para calcular quantos litros de combustível são vendidos por hora no posto em que abastecem? De quantas horas de funcionamento um desses postos de gasolina precisa, para pagar, com folga, com uma margem de lucro dessas, os salários de seus funcionários? O descaramento dos cartéis é tão grande – e eles se repetem em várias metrópoles brasileiras – que depois de reiteradas denúncias o Conselho Administrativo de Defesa Econômica interveio no setor, no Distrito Federal.
Com as reservas do pré-sal consolidadas e a produção em franco crescimento, a Petrobras deve se voltar agora para o seu objetivo final, o consumidor interno, investindo na compra de distribuidoras e postos próprios de gasolina. A Petrobras aumentou em 5% a sua produção no ano passado. Os preços do petróleo tendem a se recuperar com o recuo da produção, em países onde é mais caro extraí-lo, como os Estados Unidos, um dos principais mercados consumidores do mundo.
Os petroleiros – e os setores mais importantes da sociedade civil – têm de se organizar para evitar o desmonte, o esquartejamento e a entrega da Petrobras a qualquer preço. O governo precisa voltar a analisar a possibilidade de capitalização da empresa, com a ampliação da participação pública, aproveitando o atual preço das ações.
É preciso aproveitar que os gigantes do petróleo não podem investir em produção neste momento e nem querem dar ouvidos aos entreguistas – deixando-os latindo ao vento – para consolidar, e não diminuir, o fortalecimento da Petrobras no mercado nacional, em benefício do país e da população brasileira.