Miram Dilma não por ser corrupta. Mas por não ser

“Todos estão contrariados com ela porque há tanta corrupção que nem ela pode fazer nada”.

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POR ALEX SOLNIK, do Brasil247

Uma das grandes contradições do nosso Brasil é a seguinte: a maioria da população rejeita a corrupção, mas também rejeita a presidente que rejeita a corrupção.

Falta a compreensão que o cineasta Joel Cohen (um dos irmãos Cohen), autor da frase acima, em matéria de Rodrigo Salem hoje na “Folha de S. Paulo” demonstrou ter a respeito da presidente Dilma.

A lucidez de Cohen talvez tenha a ver com seu relativo distanciamento do dia a dia do país (que costuma visitar), o que o preservou, portanto, da lavagem cerebral que os brasileiros recebem diuturnamente através da mídia, que insufla a deposição da presidente e mistura joio com trigo, sem o menor escrúpulo, mas com muito método.

Se o ambiente não estivesse tão enevoado como está, saturado de contrainformações, conturbado por noticiário sinistro, que mais confunde do que explica, impedindo a visão mais clara e sensata dos acontecimentos, os brasileiros poderiam ter percebido a seguinte coisa estranha: a pessoa que mais ardentemente deseja e age pela queda da presidente é uma das mais acusadas de atos de corrupção e as acusações são as mais robustas possíveis, para dizer o mínimo, suficientes para provocarem haraquiri em outras sociedades mundo afora.

Não é possível admitir por um segundo sequer que tal pessoa, que ocupa um dos postos de maior poder no país, queira derrubar a presidente para acabar com a corrupção. Por que, então, o sr. Eduardo Cunha se empenha dia e noite em destruir o governo? Não seria o caso de imaginar que ele quer Dilma fora porque ela é a pedra no sapato dele e dos seus aliados que têm problemas semelhantes aos seus, se bem que em muito menor grau?

Será apenas mera coincidência o movimento do impeachment ter sido deflagrado quando a Lava Jato começou a fazer estragos no mundo político de Brasília?

Combater a corrupção instalada nos governos brasileiros, provavelmente desde a chegada de Dom João VI e sua corte ao Brasil, não é fácil. Ter vontade política não é o bastante. Não se acaba com ela com uma ordem. Com um decreto. Com um passe de mágica. E não é tarefa isenta de perigos. Não o perigo de perder em votações do Congresso, apenas, mas a própria vida.

O mais claro sinal de que ela não tem nada a esconder e está disposta a tirar da toca os ratos que trabalham nos porões para afundar o navio é permitir investigação profunda do seu próprio governo.

Ela teria, é óbvio, instrumentos para brecar a Lava Jato, mas não os utiliza e faz questão de manter um ministro da Justiça que pensa como ela, contra tudo e contra todos.

Dilma é aliada dos que combatem a corrupção, e não inimiga. Só falta aos que combatem a corrupção perceber.

Querem derrubar Dilma não por ser corrupta. Mas por não ser.

Netflix lança série infantil com músicas dos Beatles

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DA ROLLING STONE

Nova série infantil inspirada nas músicas dos Beatles, Beat Bugs terá participação de músicos como Eddie Vedder, P!nk, James Bay, Sia, The Shins, Of Monsters and Men, Chris Cornell, Regina Spektor, James Corden e Birdy criando novas versões para os clássicos do Fab Four. A estreia está prevista para o próximo semestre.

Produção original da Netflix, dentre as músicas do quarteto interpretadas na série estão os clássicos “Help!”, “All You Need Is Love”, “Come Together”, “Penny Lane”, “Yellow Submarine”, “Lucy In the Sky with Diamonds”, “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” e “Magical Mystery Tour”. Além da trilha-sonora, o conteúdo das letras também ajuda a contar a história dos personagens Jay, Kumi, Crick, Buzz e Walter em cada episódio.

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De acordo com comunicado publicado pela plataforma de streaming nesta quarta, 10, as duas primeiras temporadas da série utilizam 53 músicas do catálogo Lennon / McCartney, mas o estúdio tem os direitos de 300 músicas. Beat Bugs conta com a direção de Josh Wakely, produção do estúdio Thunderbird e animação do Atomic Cartoons. “Estou muito feliz em participar deste projeto do Josh”, comentou Eddie Vedder. “É uma série infantil incrível, com uma animação linda e ótimas histórias. E, obviamente, algumas das melhores canções do mundo.”

Para quem sentia falta de Silverchair, o ex-vocalista e músico australiano Daniel Johns é o responsável pela direção musical da produção. Johns e Wakely estão trabalhando juntos desde 2011, quando apresentaram um TED Talk sobre processo criativo na música, o que mostra um pouco das ideias dos dois para compor a trilha da série.

Como se manipula a informação

Não é de hoje que vários pensadores sérios estudam o mecanismo da manipulação da informação na mídia de mercado. Um deles, o linguista Noam Chomsky, relacionou dez estratégias sobre o tema.

POR MÁRIO AUGUSTO JAKOBSKIND

Na verdade, Chomsky elaborou um verdadeiro tratado que deve ser analisado por todos (jornalistas ou não) os interessados no tema tão em voga nos dias de hoje em função da importância adquirida pelos meios de comunicação na batalha diária de “fazer cabeças”. Vale a pena transcrever o quinto tópico elaborado e que remete tranquilamente a um telejornal brasileiro de grande audiência e em especial ao apresentador.

O tópico assinala que o apresentador deve “dirigir-se ao público como criaturas de pouca idade ou deficientes mentais. A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discursos, argumentos, personagens e entonação particularmente infantil, muitas vezes próxima da debilidade, como se o espectador fosse uma pessoa de pouca idade ou um deficiente mental. Quanto mais se tenta enganar o espectador, mais se tende a adotar um tom infantil”.

E prossegue Chomsky indagando o motivo da estratégia. Ele mesmo responde: “se alguém se dirige a uma pessoa como se ela tivesse 12 anos ou menos, então, por razão da sugestão, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de um sentido crítico como a de uma pessoa de 12 anos ou menos”.

Alguém pode estar imaginando que Chomsky se inspirou em William Bonner, o apresentador do Jornal Nacional que utiliza exatamente a mesma estratégia assinalada pelo linguista.

Mas não necessariamente, até porque em outros países existem figuras como Bonner, que são colocados na função para fazerem exatamente o que fazem, ajudando a aprofundar o esquema do pensamento único e da infantilização do telespectador.

De qualquer forma, o que diz Chomsky remete a artigo escrito há tempos pelo professor Laurindo Leal Filho depois de ter participado de uma visita, juntamente com outros professores universitários, a uma reunião de pauta do Jornal Nacional comandada por Bonner.

Laurindo informava então que na ocasião Bonner dissera que em pesquisa realizada pela TV Globo foi identificado o perfil do telespectador médio do Jornal Nacional. Constatou-se, segundo Bonner, que “ele tem muita dificuldade para entender notícias complexas e pouca familiaridade com siglas como o BNDES, por exemplo. Na redação, o personagem foi apelidado de Homer Simpson, um simpático mas obtuso personagem dos Simpsons, uma das séries estadunidenses de maior sucesso na televisão do mundo”.

E prossegue o artigo observando que Homer Simpson “é pai de família, adora ficar no sofá, comendo rosquinhas e bebendo cerveja, é preguiçoso e tem o raciocínio lento”.

Para perplexidade dos professores que visitavam a redação de jornalismo da TV Globo, Bonner passou então a se referir da seguinte forma ao vetar esta ou aquela reportagem: “essa o Homer não vai entender” e assim sucessivamente.

A tal reunião de pauta do Jornal Nacional aconteceu no final do ano de 2005. O comentário de Noam Chomsky é talvez mais recente. É possível que o linguista estadunidense não conheça o informe elaborado por Laurindo Leal Filho, até porque depois de sete anos caiu no esquecimento. Mas como se trata de um artigo histórico, que marcou época, é pertinente relembrá-lo.

De lá para cá, o Jornal Nacional praticamente não mudou de estratégia e nem de editor-chefe. Continua manipulando a informação, como aconteceu recentemente em matéria sobre o desmatamento na Amazônia, elaborada exatamente para indispor a opinião pública contra os assentados.

Dizia a matéria que os assentamentos são responsáveis pelo desmatamento na região Amazônica, mas simplesmente omitiu o fato segundo o qual o desmatamento não é produzido pelos assentados e sim por grupos de madeireiros com atuação ilegal.

Bonner certamente orientou a matéria com o visível objetivo de levar o telespectador a se colocar contra a reforma agrária, já que, na concepção manipulada da TV Globo, os assentados violentam o meio ambiente.

Em suma: assim caminha o jornalismo da TV Globo. Quando questionado, a resposta dos editores é acusar os críticos de defenderem a censura. Um argumento que não se sustenta.

A propósito, o jornal O Globo está de marcação cerrada contra o governo de Rafael Correa, do Equador, acusando-o de restringir a liberdade de imprensa. A matéria mais recente, em tom crítico, citava como exemplo a não renovação da concessão de algumas emissoras de rádio que não teriam cumprido determinações do contrato.

As Organizações Globo e demais mídias filiadas à Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) raciocinam como se os canais de rádio e de televisão fossem propriedade particular e não concessões públicas com normas e procedimentos a serem respeitados.

Em outros termos: para o patronato associado à SIP quem manda são os proprietários, que podem fazer o que quiserem e bem entenderem sem obrigações contratuais.

No momento em que o Estado fiscaliza e cobra procedimentos, os proprietários de veículos eletrônicos de comunicação entram em campo para denunciar o que consideram restrição à liberdade de imprensa.

Os governos do Equador, Venezuela, Bolívia e Argentina estão no índex do baronato midiático exatamente porque cobram obrigações contratuais. Quando emissoras irregulares não têm as concessões renovadas, a chiadeira do patronato é ampla, geral e irrestrita.

Da mesma forma que O Globo no Rio de Janeiro, Clarin na Argentina, El Mercurio no Chile e outros editam matérias com o mesmo teor, como se fossem extraídas de uma mesma matriz midiática.

Crise de credibilidade

POR GERSON NOGUEIRA

Os jornais destacaram nos últimos dias a queda generalizada dos investimentos em futebol no Brasil, a começar pela parte que diz respeito aos grandes patrocinadores. A situação afeta os clubes, grande parte deles vulnerável ao ataque da China sobre seus jogadores, mas golpeou ainda mais os arraiais da CBF, que só nos últimos quatro meses perdeu três parceiros masters.

8c09fa11-84b3-467f-a372-f0c4e84b5640De imediato, analistas que costumam pensar pela cartilha dos neoliberais da The Economist, aquela revista que vive de rebaixar o Brasil e esquecer os muitos problemas dos EUA e da velha Europa, se contentou com a explicação que liga a escassez de patrocínio à tal crise brasileira.

Com um mínimo de atenção e análise é possível ver um pouco além do argumento predileto da midiazona brasileira para todos os problemas surgidos de 2015 para cá.

Na verdade, a crise é do futebol como negócio. O problema é antigo, mas explodiu de vez com a devassa que levou de roldão a Fifa, com as labaredas do escândalo atingindo em cheio dezenas de dirigentes mantidos a peso de ouro e chegando aos limites da bandalheira orquestrada no Brasil via CBF.

A gigantesca crise de confiança que assola o esporte mais popular do mundo só não abala as grandes instituições, como os clubes da Liga Inglesa, uma meia dúzia de times da Espanha e uns dois ou três da Itália.

No que diz respeito ao Brasil, o buraco é bem mais embaixo.

Além das vicissitudes naturais que atropelam a vida dos clubes por aqui, o escândalo apurado pela Justiça norte-americana atingiu em cheio os pilares que sustentavam a trôpega estrutura de negócios do futebol no Brasil.

A tal estrutura sempre se baseou nos contratos de transmissão de jogos pela televisão, na exploração das placas de publicidade nos estádios e nos patrocínios envolvendo grandes fabricantes de material esportivo e artigos de algum modo relacionados ao esporte.

Nada haveria de errado se essa ciranda beneficiasse a todos indistintamente, respeitando o princípio secular de que um negócio só é bom quando todos estão satisfeitos. Ocorre que no Brasil sempre há alguém ganhando um pouco mais que outros, nem sempre por méritos ou competência, mas por pura esperteza ou pilantragem.

Eis que, aberta a caixa de Pandora do futebol, a podridão se revelou e alguns dos sultões da bola no Brasil foram imediatamente engaiolados pelo FBI, começando pelo notório José Maria Marin e o outro não menos conhecido J. Háwilla, sócio da CBF desde os primórdios da gestão Ricardo Teixeira.

Háwilla abriu caminho no rico filão do futebol comercializando placas nos estádios e cresceu tanto que se tornou parceiro inseparável de reluzentes nomes, incluindo a poderosa emissora que detém os direitos de transmissão dos principais torneios e o poder absoluto de mandar prender e soltar no pobre esporte bretão que ainda praticamos.

É justo dizer também que os dramas da CBF, pelos quais o atual presidente (e sucessor de Marin) viu-se obrigado a se licenciar do cargo para escapar das garras aduncas da polícia federal americana, não respondem por todos os males financeiros do nosso futebol.

Até o principal craque do país está enrolado em denúncias de sonegação fiscal, respondendo aqui e na Espanha, o que não ajuda em nada a melhorar a imagem de uma atividade já suficientemente marcada por suspeitas e bandalheiras em série.

Neymar, apesar da excelente fase vivida em campo, desponta como um garoto-propaganda às avessas, sangrando ainda mais a tisnada imagem do esporte no Brasil. Ontem, a Justiça Federal rejeitou recurso dos advogados do jogador e manteve as multas determinadas pela Receita, no valor de R$ 460 mil.

Não é mera coincidência que quase todos os grandes anunciantes estejam pulando fora da brincadeira. Se pode eventualmente enfraquecer o futebol, pode também ajudar a moralizar a coisa toda, mesmo que por vias transversas.

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Clubes paraenses se adaptam à realidade

Como as dificuldades se estendem por todos os clubes, a dupla Re-Pa não fica imune a isso. O Papão decidiu que não irá mais contratar ninguém, além dos 18 atletas que trouxe para o começo da temporada. Mesmo a lateral-esquerda, onde Raí está sem suplente, ficou de ser atendida eventualmente por Pablo, que sempre quebra galhos por ali. A ideia é não aumentar despesas a essa altura da temporada.

A medida deve ser aplaudida por todos, inclusive pelos torcedores, cuja ânsia por grandes times acaba funcionando como fator de pressão sobre os dirigentes. Como a campanha no turno até agora é satisfatória, com desempenho 100% em duas rodadas, a decisão foi aceita sem que ninguém se opusesse.

Do lado azulino, há também a preocupação em conter gastos. A nova diretoria refez cálculos e definiu que apenas um atacante e um ala esquerdo serão contratados para completar o elenco. A pretensão anterior era adquirir mais quatro atletas. Em caso de necessidade, o elenco será suprido pelos garotos da base, como fazem todos os times do planeta.

O posicionamento dos dois maiores clubes do Estado dá bem a medida dos problemas que rondam o futebol e deve ser aplaudido. Há uma necessidade imperiosa de cortar despesas e evitar desperdício de recursos com contratações que nem sempre resolvem os problemas.

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Robinho e a síndrome de Peter Pan

Quando surgiu no Santos, ao lado de Diego e vários outros moleques bons de bola, Robinho parecia destinado a um futuro glorioso no futebol. Logo foi fisgado pelo dinheiro europeu e deixou o Brasil para jogar nos timaços do Real Madri e do Milan. Na Seleção, jamais justificou o cartaz e as chances que teve.

O sonho de se tornar melhor do mundo se perdeu em algum lugar das muitas transferências e do foco em garantir a chamada independência financeira. Alguns bons jogadores não conseguem manter o alto nível das atuações com a preocupação em acumular grana.

Robinho é um exemplo acabado desse tipo de atleta moderno. Mesmo já na descendente, embora ainda jovem, ainda teve chance no Manchester City, mas logo estava de volta ao Brasil naquele tipo de retorno que carimba a condição de ex-astro. Voltou ao Santos, saiu novamente e tomou o rumo da China.

Agora, ainda povoando as ilusões de grandes clubes brasileiros, faz charme e leilão entre Atlético-MG, Santos e Grêmio como se fosse um Peter Pan do futebol. Não é. Se os dirigentes forem espertos, despacham o ex-malabarista.

(Coluna publicada no Bola desta quinta-feira, 11)