Bandas de rock fazem crítica da imprensa

POR MARCOS FABRÍCIO LOPES DA SILVA, no Observatório da Imprensa

Os jornalistas acreditam que “a atualidade” deve ser divulgada imediatamente. Só que certas “atualidades” que empanturram as folhas são discutíveis. Às vezes não valem dez linhas e acabam enchendo uma página. O tema é antigo e Thomas Jefferson dele fez uma profissão de fé: “É tão difícil traçar uma linha clara de separação entre o ‘abuso’ e o uso ‘sadio’ da imprensa que eu a protegerei em seu direito de mentir e caluniar.” A ideia de que a missão dos jornalistas e da mídia seja tão alta que ninguém possa questioná-la é ilógica. É aí que entra a questão da ética profissional. A grande crise da imprensa não é nem tanto econômica ou ideológica, mas de caráter – e isso vale tanto para os dirigentes das empresas de comunicação como para os jornalistas. Portanto, o jornalismo de qualidade só pode ser atingido com responsabilidade de expressão.

Como doutrina o professor da UFMG Anís José Leão, “para ser jornalista sem ferir os princípios éticos, é preciso ter em mente que seremos julgados não apenas pela lei dos homens, mas pela lei que está escrita no coração”. E, como sentenciou Platão, “a alma refletiva e disciplinada é a alma boa” – a palavra “bom”, no entanto, não tem apenas o sentido ético que hoje se dá a ela, mas é adjetivo correspondente ao substantivo grego aretê e, portanto, quer dizer “toda a classe de virtude ou excelência”. A mencionada categoria ética em tela deve ser o grande ideal dos profissionais de comunicação midiática. Entretanto, a respeito do tema em destaque, convém destacar a existência de um triste paradoxo: as empresas jornalísticas vão muito bem, mas a profissão de jornalista vai mal. Verdade: as empresas se modernizaram, a informatização tornou o jornalismo um exercício de extrema velocidade, o faturamento subiu, mas o “produto final” – a informação – tem merecido cerrada crítica da sociedade.

No seio da queda da credibilidade jornalística, encontra-se a transformação do interesse público em mero apêndice dos anseios exclusivamente mercadológicos. Em inteligente crítica direcionada à inescrupulosa relação entre os conglomerados econômicos e midiáticos, que vêm favorecendo as ideologias hegemônicas e silenciando as vozes alternativas, o roqueiro inglês Billy Bragg ressaltou, em “It Says Here” (1985), que: “It says here that the unions will never learn/It says here that the economy is on the upturn/And it says here, we should be proud that we are free/And our free press reflects our democracy/[…]/If this does not reflect your view, you should understand/That those who own the papers also own this land” (Aqui diz que os sindicatos nunca vão aprender/Diz aqui que a economia está em recuperação/E diz aqui, devemos estar orgulhosos de que somos livres/E nossa imprensa livre reflete nossa democracia/[…] Se isso não reflete sua visão, você deve compreender que aqueles que possuem os jornais também possuem esta terra”). Riqueza e poderio figuram entre os objetivos de todas as sociedades humanas, mas não deveriam ser os objetivos prioritários de uma sociedade democrática: para ela, o essencial habita a liberdade, a igualdade, a justiça, a fraternidade –, que não serão jamais simples subprodutos da expansão econômica.

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O sistema imperante e a busca de privilégios

É possível detectar outras razões para a falência da crítica balizada no noticiário corrente. Quando agem de forma severa e destemperada, jornalistas perdem a compostura informativa e opinativa e passam a imprimir juízos de valor precipitados e arrogantes. De defensores da justiça, acabam se tornando justiceiros e, assim, promovem perigosamente o sensacionalismo midiático. Neste sentido, continua sendo oportuno o alerta dado pela banda britânica The Jam, na canção “News of the World” (1977):

“Look at the pictures taken by the cameras they cannot lie/The truth is in what you see, not what you read/Little men tapping things out, points of view/Remember their views are not the gospel truth/Don’t believe it all/Find out for yourself/Check before you spread/News of the world/[…]/Read between the lines and you’ll find the truth” (“Olhe para as fotos tiradas pelas câmeras que não podem mentir/A verdade está no que você vê, não no que você lê/Homens pequenos tocando as coisas, pontos de vista/Lembre-se de que seus pontos de vista não são a verdade do evangelho/Não acredite nisso tudo/Descubra por si mesmo/Confira antes de espalhar/As notícias do mundo/[…]/Leia as entrelinhas e você vai encontrar a verdade”).

Quando a futilidade ocupa, com demasia, o espaço jornalístico, nulidades se tornam prioridades, prejudicando assim o bom andamento da mídia. Cresce a passos largos o jornalismo bisbilhoteiro. Com isso, o jornalismo investigativo vem perdendo força. O vale-tudo pela audiência contribui pesadamente para essa grave distorção de valores. Tais acontecimentos já haviam servido de mote para a fabulosa música “Sunday Papers” (1978), cantada pelo britânico Joe Jackson. Ironicamente, ao listar todas as coisas úteis que se pode aprender ao ler um jornal, o eu-lírico destaca: “If you want to know about the bishop and the actress/If you want to know about the stains on the mattress/If you want to know about the gay politician/If you want to know about the new sex position,/you can read it in the Sunday papers” (“Se você quer saber sobre o bispo e a atriz/Se você quer saber sobre as manchas no colchão/Se você quer saber sobre o político gay/Se você quer saber sobre a nova posição sexual,/você pode ler nos jornais de domingo”).

Sabemos muito bem do papel e da importância do jornalismo na sociedade moderna. Chamada de “quarto poder”, a imprensa precisa ser marcada pela responsabilidade, pela seriedade, pela serenidade, pelo equilíbrio e pelo compromisso com a verdade. Caso contrário, a mídia perde seu sentido esclarecedor e pluralista na orientação da opinião pública para compor cinicamente o mandonismo do sistema imperante e a busca constante de privilégios.

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Marcos Fabrício Lopes da Silva é professor universitário, jornalista, poeta e doutor em Estudos Literários

Os melhores das primeiras rodadas do Parazão

Seleção dos melhores das duas primeiras rodadas do Parazão 2016:

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Goleiro – Emerson (PSC, foto acima)

Lateral-direito – Christian (PSC)

Zagueiro – Perema (S. Francisco)

Zagueiro – Max (CR)

Lateral-esquerdo – Jackinha (Independente)

Volante – Chicão (CR)

Volante – Augusto Recife (PSC) 

Meia-armador – Jefferson (S. Raimundo)

Meia-armador – Eduardo Ramos (CR)

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Atacante – Ciro (CR, foto acima)

Atacante – Joãozinho (Águia)

Técnico – Samuel Cândido (S. Raimundo)

Decifrando Alessandra Negrini

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POR XICO SÁ, no El País

Tio Nelson Rodrigues bateu palmas e disse, com o seu vozeirão de tarado católico: “Não tem para ninguém, barbada, meu filho, ninguém representa a ideia de pecado e liberdade ao mesmo tempo como essa minha Engraçadinha”.

Tio Nelson falou e está falado. Musa decarnaval se elege de véspera. E ela vem, pasme, do túmulo do samba —como o poeta Vinícius de Moraes, carioca, em uma discussão bêbada de boate, batizou a cidade de São Paulo.

Pode acontecer de tudo até a quarta de Cinzas, pode, mas dificilmente alguém tomará o posto de Alessandra Negrini como a danada-mor da folia. Musa engajada, política e insuperável safadeza.

Vestida de noiva, nada mais ao agrado do tio Nelson, ela desfilou domingo como rainha de bateria do bloco Acadêmicos do Baixo Augusta. Sim, era um protesto contra o Estatuto da Família, o projeto careta de lei que tramita no Congresso e tenta, bobamente, ave!, definir como casal apenas marido e esposa. Que preguiça, amigo Macunaíma!

Engraçadinha!

O que tem essa mulher? Posso arriscar? Jura?

Ela tem maldade, ela tem perversão, ela tem safadeza nas pupilas… Taí, safadeza nas pupilas talvez seja o grande segredo de ser ou não ser sexy. Magnética, diria um Jorge Ben Jor. Ela dá uma olhadinha de tímida para as câmeras, mesmo sendo tão íntima da televisão. Tem aí algo de moça do interior. Há nisso, de certa forma, uma beleza mineira, mesmo em uma paulista com família de Santos.

O riso suspenso

Tem uma coisa linda em conseguir abrir o riso e suspendê-lo, em segundos, como se lembrasse da existência, para depois rir de novo de tudo. Quantos segredos para se descobrir numa mulher! Eis a minha prosa do observatório.

Há nisso tanto mistério… No que recordo o que escrevi sobre ela, em um delírio chamado O Livro das Mulheres Extraordinárias (editora Três Estrelas). Repare se eu não tenho razão, amigo:

A prova de que Alessandra Negrini talvez seja a maistesuda, em todos os sentidos do termo, é que é sempre citada por homens e mulheres como a mais rodriguiana das fêmeas brasileiras.

Óbvio que, até por não ser científica, a minha pesquisa Databotequim é a que mais vale. Ando pelo país inteiro e escuto, respeito as falas, os juízos, e quando se fala em Nelson Rodrigues… só se fala em Negrini. Sinto muito não poder fazer aqui, na prosódia, aquele vexame onomatopeico dos homens diante da gostosa-mor dessa porra.

Estou proibido, quero dizer, me sinto eticamente proibido. Ela é mulher de um grande amigo. Ela é ex de outro nobre camarada quase irmão. Ela viveu sempre na proibição minimamente ética. Um dia chegará a minha vez (risos), eu espero.

A melhor Playboy

Por favor, não insista, não lançarei mão daquele ensaio clássico de Playboy, a melhor edição desde Gutenberg. Vamos testar a memória deste velho cronista. Escrever na contramão do Alzheimer erótico que já toma conta da massa cinzenta. Tentarei lembrar daquelas fotos, é preferível.

A Engraçadinha rodriguiana naquele mundo da Lapa carioca. Nunca mais esquecerei aquele momento, diante daquele espetáculo. Ela encarnou o melhor de uma dama da calçada. Em um corredor, talvez de um hotel de alta rotatividade, de botas, arrisco, a foto mais bonita do artista Bob Wolfenson.

Não, não cairei na tentação primária de reabrir a revista. Pacto é pacto. Prefiro suar o quengo para trazê-la de volta à memória, quadro a quadro.

Aqui, do Nova Capela, restaurante próximo ao cenário das tais fotografias, sinto o cheiro da passagem de tal dama. Até parece que ela adentra no ambiente e encara um cabrito, batatas coradas, brócolis, vinho do Alentejo, fome de viver fora do script.

Alessandra Vidal de Negreiros Negrini. Sim, parente do homem dos livros de história, o bravo da Insurreição Pernambucana (1645-1654).

Ela devora o cabrito como a Cleópatra que fez genialmente no filme do diretor Júlio Bressane. Tem a sutil maldade capaz, meu rapaz, de levar ao desatino um mosteiro inteiro com os mais religiosos dos homens. Basta aquela sua ameaça de sorriso, uma das suas mais belas expressões, para que o nosso mundo desabe.

Uma mulher capaz de sair do palco de Tchékhov em A gaivota e, nas ruas, engrossar o coro da massa: “Vai, Corinthians”. Sim, amigo torcedor, ela ama o seu time. E, óbvio, há um tesão sem fim nas garotas que se devotam ao futebol.

Xico Sá, escritor e jornalista, é comentarista dos programas Amor & Sexo (Globo) e Papo de Segunda (canal GNT) e autor de Os Machões Dançaram –crônicas de amor e sexo em tempo de homens vacilões (Record), entre outros livros.