Enciclopédias

POR LUIZ GUILHERME PIVA, no Blog do Juca

O Armando Nogueira é quem contou, já faz tempo.

Um senhor, passado bem dos sessenta, caminhava no Aterro do Flamengo e parou pra assistir a uma pelada. Sentou-se num degrau e ficou vendo a molecada jogar.

Com alguns minutos, um dos garotos se machucou e saiu. Pra não acabar a partida, alguns deles começaram a pedir ao senhor que entrasse. Ele negou, falou da idade, que só queria assistir. Mas insistiram, disseram que era só pra completar, ficar parado na defesa e o jogo prosseguir.

Ele foi. Mas houve uma discussão constrangedora em qual time o “velho” entraria – que ficaria mais fraco do que o outro, diziam. Tiraram no par ou ímpar. Ele aguardou e foi pro time que perdeu a aposta.

Aí o Armando Nogueira descreve deliciosamente a sequência de lances que o senhor exibiu. Domínio, passes, toques, enfiadas, matadas de peito, tudo com refinada elegância, para pasmo da molecada e para alegria do seu time, que deu um passeio e ganhou de goleada.

Acabado o jogo, a molecada o cercou, elogiou, perguntou quem ele era, pediu que ele voltasse sempre. Ele sorriu, passou a mão na cabeça de alguns e foi embora.

Nesta semana um bando de moleques cercou outro senhor e, ao contrário do caso acima, pediu que ele saísse do jogo. Ofendeu-o, disse que ele prejudicava o time (de quem? de quem?). Mais um pouco o agrediria.

O senhor sorriu, exalou tranquilidade, sabedoria, elegância, domínio, matadas de peito, dribles sutis, chutes suaves e certeiros como folhas secas – e, sem que os moleques percebessem, venceu-os de goleada, deu-lhes um passeio humilhante.

O senhor do primeiro caso era o Nilton Santos.

O do segundo, o Chico Buarque.

Ambos de igual estatura, de igual dignidade, de igual orgulho para os brasileiros.

E que saíram de situações parecidas ainda maiores do que sempre foram.

O que mudou diametralmente de uma situação para outra, com vertiginosa e lamentável piora em compostura e discernimento, foi a qualidade da molecada com que eles jogaram.

O que é muito, muito triste.
___________________________________________
Luiz Guilherme Piva publicou Eram todos camisa dez (Editora Iluminuras)

13 comentários em “Enciclopédias

  1. Só o Juca mesmo para fazer essa uma comparação descabida. Nilton Santos sempre jogou a favor do Brasil, já Chico é o Nestor, faz gol contra o Patrimônio.

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  2. O Brasil é um país que está envelhecendo e, mesmo assim, ainda não aprendeu a respeitar os mais velhos. No Brasil, os mais velhos têm que mostrar seu valor. O desrespeito é profundo e baseado no valor (liberal) do trabalho, e conta na aposentadoria. Mesmo alguém com a obra de um Chico, um Caetano, um Gilberto, um Caymmi, um Jorge Amado. O calibre da obra não importa, importa a vontade de impor a própria vontade e nada mais. Os meninos mimados, ou podres de mimados, como diria Theodore Dalrymple, são personagens atuais preocupantes. Ainda que Dalrymple seja um escritor notoriamente liberal e que baseie seu discurso basicamente na própria experiência de psicanalista e em mais nada, e que, por isso mesmo, está muito, mas muito distante mesmo de ter realizado um trabalho científico, a descrição do comportamento de um podre de mimado bate bem com a demonstração do comportamento sentimentalista desses garotos ricos. “Todo mundo era seu fã, Chico!” é um apelo sentimental do tipo “venha para cá e seja meu grupo” e “deixe esses caras aí de lado”. É um golpe baixo, infantil e não surtiu o efeito desejado. Então, tentaram eliminar Chico, mostrando outro sentimento, o ódio, ao falarem, que ele é um merda. Até que a descrição de Dalrymple tem alguma utilidade, e, liberal como é, sem historicidade e pouca humanidade, o autor até consegue finalmente uma explicação liberal para o comportamento dos mimados, de que o pensamento liberal desumaniza e que os mimos que ele alega existirem na pedagogia atual são a queixa que demonstra que ou os profissionais que ensinam os pedagogos não acreditam nas reflexões de autores como Piaget, Montessori, Ausebel, Freinet, entre muitos outros, ou os pedagogos estão entre os que dizem que a teoria é uma coisa e a prática é outra e desistem da cientificidade e aderem à tradição da tia raimundinha, do beabá. O episódio, para mim, apenas mostra que a educação para ricos e pobres é exatamente a mesma e que isso não significa nem qualidade e nem falta de qualidade, mas uma falta de rumo. No fim, a percepção de qualidade se dá sobre o aprendizado de liderança, quando a escola enfim ensina a mandar, esta é tida como boa escola, e quando ensina a obedecer, a não questionar, se diz que a escola fez um bom trabalho, a não atrapalhar a tradição de submissão que vem desde a escravidão. O respeito que se cobra no Brasil é a obediência. A moralidade que se cobra no Brasil é não atrapalhar os planos das elites, não se metendo entre eles e os objetivos deles, calando se necessário os contrários.

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  3. É, amigo Lopes, os planos da elite não podem ser atrapalhados.

    Por isso foi assinada a “Carta ao Povo Brasileiro” como um dos primeiros atos do governo que aí está, antes mesmo do governo começar.

    Quanto aos mais velhos e à aposentadoria também estou de pleno acordo: falta de consideração é o que há. Inclusive, da parte do governo. Da parte deste, é a aposentadoria minguada de todo o sempre. O anterior chamou os aposentados de vagabundos. O atual, inicialmente impôs que os aposentados recolhessem para a previdência, agora quer aumentar o limite de idade para a aposentadoria.

    Ah, e sobre o Caetano, Ele também experimentou dissabores por ter opinião política. A diferença é que hoje os que defendem o Chico, foram exatamente os que atacaram a Ele, o Caetano, e também por exemplo à Yoani, à Marina, ao Ministro Joaquim, ao Ney Matogrosso, à Marta Suplicy, à Heloisa Helena, e a tantos outros.

    A propósito, eu havia me prometido não comentar mais acerca deste episódio, e assim, deixar de contribuir com mais fumaça para esta deliberada cortina que se lança sobre os problemas brasileiros na saúde, na educação, na segurança e demais setores político-econômico-sociais. Todavia, mudei de ideia. Afinal, tudo isso tem sido muito útil para uma reflexão sobre a presente inércia do Chico, diante de tantos problemas enfrentados pelos brasileiros. A partir de suas sempre atualíssimas composições, é de se dizer:

    Chico, se hoje não precisas mais de senhas, palavras sutis, sussurros e ardis, por que te calas?

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  4. Assino embaixo Antônio.
    São tantas contradições nas narrativas do Lopes Júnior, que as vezes fico na dúvida de quem ele está falando.

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  5. Não há contradições nas minhas narrativas, caro Ferdinando, há alguma historicidade, e alguma materialidade, pois marxista. É preciso conhecer bem os brasileiros para (tentar) entender o que procede cá, na nossa terra. E, para além do comentário, caro Oliveira, a carta aos brasileiros, ainda que indicasse uma sinalização às elites plutocratas, se dirigiu mesmo ao povo, a este mesmo nosso povo que, de modo impressionante e incompreensível, defende a posse dos que tudo têm, e o nada dos que nada possuem. O proletário do Brasil é incrivelmente defensor do capitalista opressor, admirador dos (ex) colonizadores, alheio às ações de potências econômicas. O falso discurso moralista das elites, que não cobra a moral que impõe de si mesma, pois hipócrita, é a própria herança escravocrata. O Brasil tem um mal explicado conhecimento de teorias liberais, e grandes preconceitos com o socialismo, como vocês mesmos, caros Oliveira e Ferdinando.

    Mas, mais uma vez, vamos lá. O socialismo não é, nem de longe, o comunismo, ou uma ruptura com o capitalismo. É o redirecionamento dos esforços do governo para o fortalecimento do Estado e das instituições, agindo em busca de algum equilíbrio social e econômico. O Brasil não é um país comunista, e não o será tão cedo. Nem o PT, e nenhum partido de esquerda conseguirá modificar o Art. 1º da nossa constituição para transformar o país em comunista pelas próximas décadas e séculos, talvez. Dito isso, aos fatos: 1º) nos governos petistas, o salário mínimo teve valorização real. É certo que os preços aumentaram, mas há mais opções, mais serviços e um mercado mais dinâmico. E as pessoas têm acesso a mais serviços e bens que antes. 2º) A redução da pobreza, a migração massiva à classe média e a redução significativa da fome são conquistas sociais importantes e históricas. 3º) A retomada do crescimento, que permitiu que se visse políticas públicas voltadas à habitação, construção de novas unidades de saúde, mais vagas em universidades públicas e particulares são resultado, também, da iniciativa socialista. Há outros pontos que diferenciam e qualificam os governos petistas como os melhores desde a redemocratização. Não há incoerência nisso, pois tudo que aleguei são dados públicos e notórios.

    Lamento por Chico, de quem sou fã. E lamento pelo Brasil, de quem sou filho. Mas não lamento pelos ignorantes, de quem quero distância.

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  6. Amigo Lopes, sobre o seu mais recente comentário, me permita algumas considerações. E o farei por partes, para não alongar muito o comentário.

    Preliminarmente, gostaria de dizer, que igualmente a você lamento pelo Chico. Mas, meu sentir decorre do fato de que ele anda desprestigiando a própria obra quando se cala, por exemplo, diante da ausência da reforma agrária e das mortes que continuam a ocorrer no campo. Quem interpretou tão magistralmente ‘funeral do lavrador’ e é por esta e outras engajadas interpretações e composições tão grandemente considerado pelos brasileiros não pode se tornar tão omisso.

    Sigo, ainda na etapa dos assentimentos preliminares, para sustentar que também lamento pelo Brasil de quem sou nacional. Aliás, vindo à luz num espaço onde vigorava uma dificuldade material das mais severas, numa época das mais difíceis na vida política nacional.

    Finalmente, gostaria de dizer que como você, também não lamento pelos ignorantes. Afinal, numa época onde as informações que levam ao conhecimento são tão mais fáceis de se obter, checar, contextualizar, refletir sobre sua procedência etc, a ignorância só pode ser uma consciente opção. Com efeito, não me cabe lamentar pelos ignorantes. Antes, eu os respeito.
    (…)

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  7. Sobre a Carta ao Povo Brasileiro, com todo o respeito, creio firme que você está enganado, bem enganado, essencialmente enganado. Ela se dirigia às oligarquias, à plutocracia, à elite, aos detentores do grande capital, aos beneficiários das políticas neoliberais, como a “privataria” por exemplo. Por isso, adotava uma expressão aparentemente inofensiva para a maioria, mas carregada de significados agradáveis para os beneficiários: “respeito aos contratos”.

    Sobre ao despossuído brasileiro ser passivo e partidário irrefletido daqueles que o expoliam etc, etc, etc, estou de pleno acordo. Tal decorre de uma gama de fatores que passando longe de qualquer índole desonesta, vão desde a necessidade material suprema até à ingenuidade idealista. Conheça algumas pessoas do mais elevado discernimento que acreditaram piamente que o Dirceu realmente precisava ter feito a coleta que fez para pagar a multa que lhe foi imposta pelo Supremo por causa do mensalão. Quando recentememente foi quebrado o sigilo bancário do autor da coleta e visto que na época passaram milhões pela conta dele, ficaram perplexos mas não se deram por vencidos, e sacaram uma verdade incontestável, mas que não justifica: antes dele muitos fizeram, deviam ser punidos também.

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  8. Sobre o socialismo fique certo que você se engana quando me atribui preconceito para com ele. Deveras, amigo Lopes, me agradam bastante as características do socialismo que você tão bem descreve nos seus muito bem concatenados comentários. Quer me parecer que só os detentores do poder econômico, os plutocratas, alto capitalistas e quejandos, que lucram com o arrocho alheio, deplorariam um sistema como o que voce descreve. De fato, simples mortais econômico-financeiros como a esmagadora maioria do povo brasileiro, onde me insiro, são e só podem ser afeiçoados ao socialismo com os traços que você o desenha.

    Ocorre, amigo Lopes, que o que há no Brasil é algo muitíssimo diferente daquilo que você tão entusiasticamente reporta. O que há no Brasil é um sistema muito distante daquilo que se pode chamar seriamente de socialismo, o qual, a contar do estágio atual e das ações e pretensões atualmente já descobertas vai levar, no mínimo, mais um milênio para ser alcançado.

    Quer dizer, o que eu rejeito, está longe de ser o socialismo, o socialismo que você prega. Muito ao contrário. O socialismo, o socialismo que você prega tem muita afinidade com as minhas ideias, com as minhas pretensões, com os meus projetos de vida, e certamente com a esmagadora maioria da população brasileira.

    Enfim, o que eu rejeito é o sistema que vem sendo imposto ao Brasil, onde, conforme se dizia há mais de 12 anos oassados, só se socializa o arrocho, a dificuldade, o ônus; sendo que o bônus, o mel, o melhor, segue distribuídos com os contemplados de sempre, ou com noveis, os súbitos, os meteóricos contemplados.

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  9. Finalmente, amigo Lopes, se é verdade que não se pode cometer a injustiça de dizer que o governo petista é pior do que os que lhe antecederam, também é absolutamente verdadeiro que o governo por muito tempo se amparou numa muito bem sucedida propaganda enganosa que superestimava índices e maquiava números, além de fazer uso de fantasiosa criatividade para aplicar recursos públicos com exclusiva finalidade eleitoreira. Fantasia criativa que tem como um dos seus pontos altos a mobilidade social para a nova classe média.
    Valendo lembrar, só para ilustrar, expoentes desta maquiagem, o tamanho do patrimônio da Petrobras, em tempo mais remoto. Recentemente, há indícios de que tratamento semelhante (neste caso teria sido por incompetência), também ocorreu com o patrimonio do Bnds, da Caixa, do Banco do Brasil e do Basa.

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  10. Nelson Rodríguez Chartrand é um advogado cubano, libertário do Club Anarcocapitalista de Cuba

    Nelson Rodriguez Chartrand alerta: Como cubano é meu dever avisá-los: tomem cuidado com os estímulos morais do socialismo.

    O socialismo, ou como queira chamar o modelo social que o povo cubano vive há mais de meio século, não é digno de ser imitado por qualquer outro povo. Basta olhar para a realidade cubana atual e observar nossa penúria para perceber isso. Mas o mínimo que podemos fazer quando sofremos uma experiência trágica de vida, seja ela qual for, é alertar os demais – caso contrário, nos tornaríamos culpados pelo sofrimento alheio e, assim, assassinos tácitos e criminosos de nossa própria espécie.

    É por esta razão que me disponho, como uma necessidade impiedosa de minha própria consciência, para alertá-los, tomando como referência a experiência cubana, sobre os sutis métodos psicológicos que podem ser utilizados por aqueles que pretendem fazer do socialismo o modelo de esperança e de bem-estar das comunidades – e sobre todas as coisas, para que não caiam no erro fatal de serem cativados por um modelo social muito astuto, que emana da natureza bárbara do homem.

    O socialismo, ou como queira chamar o modelo social que o povo cubano vive há mais de meio século, não é digno de ser imitado por qualquer outro povo. Basta olhar para a realidade cubana atual e observar nossa penúria para perceber isso. Mas o mínimo que podemos fazer quando sofremos uma experiência trágica de vida, seja ela qual for, é alertar os demais – caso contrário, nos tornaríamos culpados pelo sofrimento alheio e, assim, assassinos tácitos e criminosos de nossa própria espécie.

    É por esta razão que me disponho, como uma necessidade impiedosa de minha própria consciência, para alertá-los, tomando como referência a experiência cubana, sobre os sutis métodos psicológicos que podem ser utilizados por aqueles que pretendem fazer do socialismo o modelo de esperança e de bem-estar das comunidades – e sobre todas as coisas, para que não caiam no erro fatal de serem cativados por um modelo social muito astuto, que emana da natureza bárbara do homem.

    Bem, sem mais delongas, deixo um recado: tomem cuidado com os estímulos morais do socialismo.

    globalization-poverty-in-cuba-modernisation

    Desde os primeiros anos de poder, o governo revolucionário cubano se dispôs com prioridade à criação de um novo homem, qualitativamente superior.

    Neste sentido, iniciou-se em Cuba a ideia de conscientizar a população sobre a convicção de que os estímulos morais deveriam estar irreparavelmente acima dos estímulos materiais.

    Assim, um diploma, uma medalha, uma carta de agradecimento para os vizinhos, o reconhecimento público ao coletivo de trabalho, ou apenas um aperto de mão forte de um chefe, constituía uma honra irreparável. Dar uma gratificação a um garçom que nos oferecesse um excelente serviço num restaurante era imoral, e se você se dispusesse a fazê-lo de todas as formas, isso poderia constituir uma grave ofensa.

    Não era difícil ver pessoas nas ruas ostentando orgulhosamente medalhas e prêmios pendurados em suas camisas, sofrendo com suas famílias as necessidades básicas de subsistência.

    E o ponto culminante de incentivos morais poderia ser traduzido numa única expressão: trabalhos voluntários não remunerados, que se realizavam geralmente nos dias de descanso do povo e que nada tinham de voluntários, visto que a não participação excluía você de ser um homem novo e lhe excomungava para os confins do inferno do socialismo.

    Agora, em um estágio superior dessa forma moral de exploração, os “trabalhos voluntários” evoluíram. Atualmente se conta as horas de trabalho não remunerados realizadas por cada trabalhador para, ao final do ano, os mais aguerridos terem a oportunidade de optar por um televisor, um ferro elétrico, ou uma bicicleta, para citar apenas três exemplos. Mas não se engane, caro leitor, com um porém: nada é de graça, todos somos obrigados a pagar por essas coisas.

    E assim, imagine a cena: 2, 3, 4 ou 5 destes itens para 500 funcionários de uma mesma empresa. Imagine um povo mergulhado na pobreza – qualquer item destes era um sonho e talvez a única oportunidade de muitos de obtê-los. Quantas discussões, quantas brigas, para determinar qual trabalhador havia sido designado destes dispositivos! Quantas amizades destruídas através do ódio e da divisão semeada entre os cubanos!

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  11. Distribuição de renda defendida pelos socialistas é real no Brasil e contrário ao pregoado favorece uma minoria captada através do mensalão, operação lava jato e demais escândalos.

    Salário mínimo em 2016 será de R$ 880,00. Bela fatia.

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  12. Não digo que o socialismo brasileiro é o ápice da história do socialismo no mundo e, tal como se organiza por uma coalizão (que entendo desnecessária), também me deixa insatisfeito. No entanto, mesmo assim, vejo progresso e ganhos sociais históricos, como a melhora de vida da população mais sofrida, e mesmo que não seja a melhora dos sonhos é significativa. Acho mesmo que o governo deve romper com essa coalizão que o torna refém e ponha em prática projetos mais à esquerda e assumir, assim, o papel de governo mais à esquerda porque, desse modo, pode escapar às garras dos políticos representantes de si mesmos e de interesses oligárquicos e internacionais inconfessáveis. A coalizão tem tornado o governo algo parlamentarista, grosso modo, e por isso mesmo esse muito à vontade pelo impeachment. Admito, por certo, que o PT errou ao definir a estratégia de poder como por concessões, afinal, os “aliados” tenderão, sempre, a inflacionar o valor do apoio político, e a corromper os princípios do partido eleito ao governo, o que observo há muito tempo. A coalizão tem descaracterizado as propostas petistas históricas, que hoje tende a defender políticas de centro e centro-direita à economia e a projetos de fomento à economia, mas que mantém características socialistas em programas como o minha casa, minha vida, o luz para todos (um sucesso, do qual pude ter uma pequeníssima participação como pesquisador), o fome zero e o Prouni. É necessário destacar que uma chapa petista puro sangue, presidente e vice, sem coligações e coalizões, inviabilizaria qualquer governo petista, porque os interesses partidários, ou de grupos partidários, são insofismáveis e pesam na conta, já que tantos partidos participam das eleições e que não há tanta clareza de programas políticos e afinidades, por isso colaborando para a sopa de letrinhas e para a confusão parlamentar que observamos e que, por mais que haja tantas ideologias assim a serem defendidas, todas acabam numa situação ou numa oposição, ao gosto do político descompromissado com a população e importando-se consigo mesmo e investidores da carreira política. A prática socialista, caro Oliveira, é sim um desejo da população que não vê como essa prática se tornaria possível num país onde jazem os “coronéis” e os “dotores”. Sinto mesmo a angústia de saber que distantes do socialismo mais ideal e benéfico a todos, estamos sujeitos a ações de gatunos, os quais, devem mesmo ir para na cadeia, sem importar o que defendem frente às câmeras. E, por isso mesmo, não arredo o pé de apoiar esse governo, porque o fim do ciclo petista, hoje, significaria o fim de qualquer possibilidade de retorno ao governo de um partido minimamente socialista em curto ou médio prazo porque a retórica conservadora se fortaleceria porque seria largamente difundida e inculcada, como na ditadura, com a censura sobre ideais socialistas novamente impostas, como dantes.

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