Pelo direito de reagir à massa

Tite provocou a torcida da Ponte Preta após o empate corintiano

POR MAURICIO BARROS

No livro “Entre os Vândalos”, publicado no Brasil em 2010 pela Companhia das Letras, o jornalista americano Bill Buford faz uma imersão no universo dos hooligans ingleses. Passou alguns anos, em fins da década de 80 e início dos anos 90, ápice das confusões causadas por esses grupos, tentando entender o modelo mental daqueles tipos medievais – se Bill tivesse me ligado antes, eu lhe teria dito que tratava-se de um modelo “débil” mental e encerrava o assunto. Mas, por sorte, Bill estava sem meu número.

Pois ele estabeleceu relações, participou de reuniões, entrevistou líderes, se meteu em confusões e até foi surrado pela polícia. Apanhou muito. O interesse principal do autor era olhar para os hooligans como um coletivo de pessoas, um fenômeno de multidão.

Quando se está em bando, sinapses esquisitas rolam no cérebro humano que transformam indivíduos em peças de um grande lego, que encontram sentido por estarem conectadas a dezenas de outras. O futebol, pela sua permanente capacidade de mobilização sem paralelo em nenhuma outra atividade humana, mexe com o fenômeno da multidão de maneiras extremas – alegria soberba, violência desenfreada. As torcidas organizadas brasileiras, os barrabravas argentinos e os hooligans europeus se transformaram no lado mais nefasto dessas multidões futebolísticas.

Posto isso, nós damos um pulo em Campinas. Quando Rodriguinho marcou o gol de empate do Corinthians contra a Ponte, 2 x 2, no fim do jogo de domingo, Tite mexeu com a multidão. Ele vinha sendo hostilizado desde o começo por ter sua trajetória de atleta ligada ao Guarani – em Campinas, ou você é Deus ou o Diabo, dependendo do lado em que está (e aqui eu me lembro de uma ocasião em que vi um sujeito, um desses “gênios” dos negócios, numa mesa de bar, dizendo a jornalistas esportivos que a solução para o futebol campineiro era juntar Ponte e Guarani num time só, “potencializando a capacidade da dupla de levantar recursos na rica cidade do interior de São Paulo”. Seria o dito cujo apenas uma besta ou guru do mesmo modelo mental dos hooligans?).

Tite botou a mão no ouvido como quem diz “fala agora, vai!”. Tirou um sarrinho. Desabafou. Depois, na entrevista ao final do jogo, disse singelamente que é humano. “Deixa eu curtir um pouco”. Achei que foi perfeito. Reagiu em seu direito, mas não desrespeitou aquela multidão. Saiu logo de cena.

A relação entre torcidas e profissionais do futebol, no estádio, é um pouco desleal por natureza. Como há paixão gigante envolvida, tudo é permitido aos torcedores, menos violência, claro. Pode-se proferir as piores ofensas a jogadores, técnicos e juízes que não há nenhuma consequência. O torcedor está protegido de levar o troco pela distância, pela relação de “cliente” que pagou a entrada e, principalmente, pela sua condição de parte da multidão. Há algo de covarde nisso, não? Experimente o hooligan xingar o centroavante de “grosso safado” cara a cara e verás o que acontece.

Jogadores, técnicos e juízes aprenderam a não reagir à massa. “Eles têm o direito”, costuma-se dizer. Mas às vezes o sujeito não aguenta. O difícil é saber a medida dessa reação. O limite é tênue. Sair comemorando no estádio adversário colocando o indicador na frente da boca e pedindo silêncio à torcida local me parece um pouco demais. Dar bananas, então, pior ainda – desrespeitoso, grosseiro, mal educado. A multidão está sempre com os nervos à flor da pele. Convém não cutucar.

Um comentário em “Pelo direito de reagir à massa

  1. Eu que assistia o jogo, pensei que o Tite estivesse se dirigindo à torcida corintiana por esta desaprovar a substituição do Jadson pelo Rodriguinho. Mas, se aquele aquele gesto inusual no treinador corintiano fez reviver uma velha e saudável rivalidade, que bom.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s