Uma história de fuga, desespero e espera

DO OPERA MUNDI

Na orla da ilha grega de Kos, porta de entrada da Europa para quem vem da Turquia, o sentimento entre as centenas de refugiados acampados em situação precária pelas ruas é de euforia. A parte mais perigosa do trajeto até a Alemanha já ficou para trás, e, dificilmente, algum outro obstáculo vai impedi-los de chegar lá.

A imagem dos acampados, no entanto, contrasta com a da síria Sondos Abo Shanab, que, aos 20 anos, vê o peso do mundo desmoronar nas suas costas. Até aqui, ela representa o lado que não deu certo na loteria que se tornaram as viagens de barco pelo mar Egeu.

Dona de casa, Sondos vivia com o marido, o mecânico de automóveis Hasan Hag Kasem, 27, na cidade de Latakia, principal porto sírio e reduto alauíta. O casal estava disposto a construir a vida no país, tentando resistir à guerra civil que já matou mais de 240 mil pessoas e obrigou metade da população a fugir de casa.

A história de Sondos e Hasan dá sinais de que a guerra síria está avançando até para áreas antes consideradas seguras, o que pode explicar o aumento no número de refugiados sírios neste ano. Os dois desistiram de permanecer na Síria depois que Hasan, que já cumprira serviço militar obrigatório, fora convocado pelo Exército para lutar contra os jihadistas. Em agosto e setembro, Latakia foi alvo de ao menos três ataques terroristas, sempre com carros-bomba.

rota de fuga usada pelo casal foi a mesma de todos os sírios: cruzar toda a Turquia e embarcar em direção à Grécia a partir de algum ponto avançado no litoral turco. Os dois embarcaram em Bodrum, na madrugada de 13 de setembro, num barco de dois andares, com mais 150 refugiados. Já na embarcação, vestindo coletes laranjas, tiraram uma foto para enviar aos familiares e mostrar que estava tudo bem. Otimistas, os dois sorriam, como se estivessem numa viagem de férias.

No meio da travessia, o capitão desligou o motor do barco para despistar a polícia grega, conforme relatos de três passageiros. Pouco tempo depois, a embarcação começou a afundar, aos poucos.

Muitos ocupantes caíram no mar depois de serem atingidos por uma onda. Sondos e Hasan, que sabiam nadar, ajudaram a salvar os demais, levando-os até o que sobrou do barco. O mecânico decidiu dar o colete a uma mulher em apuros e ficou desprotegido. Com o mar agitado, os náufragos foram se dispersando e se afastando do barco.

O casal começou a nadar em direção à terra firme. Exausto e com dor nas costas, Hasan decidiu fazer uma pausa e boiar. Sondos, ainda com o colete, continuou a nadar. “Foi a última vez que o vi. Logo em seguida veio uma onda e nos afastou. Ainda consegui ouvir ele gritando o meu nome.”

Mesmo com dor no ombro direito, Sondos nadou por quatro horas seguidas até chegar na ilha de Farmakonisi. Hasan nunca mais foi visto. Ele é um dos 18 desaparecidos do naufrágio, um dos maiores já registrados ali, com 34 mortos, entre eles quatro bebês e 11 crianças.

A última postagem de Hasan no Facebook, em 4 de setembro, foi a famosa foto do conterrâneo curdo Aylan Kurdi, 3 anos, morto na travessia Kos-Bodrum, seguida da mensagem “Deus fique com o povo da Síria”. Antes de ser levada a Kos, onde os refugiados são registrados, Sondos percorreu duas ilhas atrás do marido – ou do corpo dele – e nada encontrou.

Desde então, a jovem passa os dias inteiros em algum ponto da orla, sempre com os olhos fixos no mar, com um ar que alterna tristeza, apreensão e um fio de esperança de que o marido irá aparecer.

Toda a família da jovem vive na Síria. Em Kos, ela está sendo amparada por outros sobreviventes do naufrágio, como Alaa Aladib, 22, que também deixou a Síria junto com o marido após ele ser convocado pelo Exército. “Perdemos todo o nosso dinheiro. Agora me sinto mal em qualquer contato com a água. Não sei como vou fazer para entrar em um barco de novo e ir à Atenas”, diz Alaa, que na Síria era voluntária do Crescente Vermelho (nome da Cruz Vermelha nos países islâmicos) e pretende chegar à Suécia, onde moram alguns familiares.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s