Jornalismo em estado de coma

POR JOSÉ NILTON DALCIM, do Blog do Tênis

Boa parte de vocês, assim como eu, deve ter lido em algum site – e dos grandes – a incrível história do rapaz espanhol que acordou de um coma 11 anos depois de sofrer um acidente e ficou surpreso por ver que Roger Federer ainda fazia sucesso no tênis.

Sim, porque a ‘notícia’ saiu em todo lugar, até mesmo na home do UOL, o maior portal do país e parceiro estratégico de TenisBrasil. O UOL certamente foi munido por outros tantos portais que se sensibilizaram com o tema, afinal estava também no EuroSport, no Sports Illustrated até no Rolling Stone.

Mas será que isso é mesmo um fato? A jornalista Steph Myles, que escreve para o Open Court, foi atrás da origem do relato e escreveu um belíssimo artigo entitulado “A Anatomia de uma história viral na Internet”. E vejam como todo mundo pode ter sido enganado.

Vou tentar resumir a narrativa dela, ao checar de onde e como surgiu a notícia.

A primeira citação que chegou ao Open Court foi através de tweeters do tabloide The Mirror, que creditava a fonte como sendo um site chamado TennisWorldUSA (acho que algum de vocês conhecem), que faz traduções por vezes sofríveis de notícias que caça na Internet. Antes disso, havia saído no TennisWorldItaly (obviamente do mesmo proprietário), que por sua vez credita a versão original a outro site chamado Punto de Break, este enfim espanhol.

Myles então enviou um email ao autor da nota, chamado José Morón, editor em chefe do site, que explicou que a história foi lhe dado por um amigo, que tinha parentesco com o suposto paciente de coma. Morón não se deu ao trabalho de tentar conversar com o rapaz – curiosamente chamado de Jesus Aparicio -, nem com o hospital ou a equipe médica. Uma foto, nada. Simplesmente acreditou no que o amigo contara e publicou.

Virou um fato. repetido à exaustão por vários sites e por toda a rede social. Foi parar na ESPN americana, no Le Figaro, no Blick da Suíça. Saiu na Índia, na Alemanha, na Suécia. É aquela sequência tão conhecida, um órgão de imprensa citando outro, que credita outro, que diz ter saído em outro.

Na contagem de Myles, havia 24 mil citações no prazo de 24 horas no item de notícias do Google. E ele brinca, dizendo: “Tomara que a história seja verdadeira, senão veremos 24 mil pedidos de retratação”.

Daí porque o trabalho do jornalismo pós-Internet e ainda mais pós-Facebook e Twitter precisa ser levado muito mais a sério.

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