“Vai pra Cuba!”, o mantra dos reacionários

image287-600x398

Por Leandro Fortes

Foi o Facebook, como nenhuma outra rede social da internet, que iniciou um processo inédito e ainda não dimensionado de histeria ideológica que, ao menos no Brasil, foi cristalizado sob um complexo manto de silêncio.

Digo complexo porque, até surgir uma plataforma tecnológica capaz de lhe dar cor, forma e conteúdo, esse manto foi sendo lentamente consolidado por diferentes processos de acomodação moral, política e social, sobretudo a partir das gerações subsequentes ao golpe militar de 1964.

Até então, ninguém sabia ao certo quais eram as consequências de cinco décadas de construção conservadora dentro de uma sociedade naturalmente autoritária como a brasileira, nascida e moldada na cultura do escravagismo, do fisiologismo, da separação de classe e da carteirada.

Com a internet e, especificamente, com o Facebook, tornou-se possível entender como a overdose de doutrina anticomunista rasteira, aliada a uma visão de mundo ditada por interesses ligeiros, acabou por gerar essa multidão de idiotas que se aglomeram no espectro ideológico da direita nacional.

Essas pessoas que travestiram de piquenique cívico as manifestações de rua nas quais, em plena democracia, foram pedir intervenção militar. Uma multidão raivosa, mentecapta, de faixas na mão, cevada por uma mídia mais irresponsável do que, propriamente, conservadora.

Essa mistura explosiva de ressentimento político com déficit educacional fez explodir nas redes sociais jovens comentaristas com discurso roubado de velhas apostilas da Escola Superior de Guerra dos tempos dos generais.

“Vai pra Cuba!”

Ir para Cuba.

Onde, exatamente, erramos ao ponto de ter permitido o surgimento de mais de uma geração cujo insulto essencial é mandar alguém ir morar em Cuba?

Desconfio, que no centro dessa questão habita, feroz, a tese de que é preciso viver em pobreza franciscana para ser de esquerda. Essa visão macarthista do socialismo impregnada no imaginário da classe média brasileira e absorvida, provavelmente por falta de leitura, de forma acrítica por grande parte da sociedade.

“Vai pra Cuba!”, aliás, na boca torta da direita brasileira, não é apenas um insulto, mas uma praga horrenda, um desejo de morte lenta, um pelourinho necessário e elogiável, como bem cabe a traidores de classe.

“Vai pra Cuba!” é um grito que escorre como bílis negra pelo canto dos lábios do neorreacionários brasileiro.

De minha parte, não vou a lugar nenhum, enquanto esse tipo de gente ainda estiver por aqui.

Um comentário em ““Vai pra Cuba!”, o mantra dos reacionários

  1. Às vezes parece que a elegância da retórica foi-se com Platão. Atualmente, vivemos a repetição de clichês, não há retórica, não há dialética, é uma época em que discursos mortos e enterrados são ressuscitados como novidade. Esses são tempos de pouca expressão e produção intelectual política. Quero dizer, não há debate objetivo sobre o que se deseja para o país entre as pessoas. A confusão dos protestos de 2013, em que os desejos difusos dos manifestantes deixam claro uma divisão na sociedade, mais que um desejo de mudança, mostram a dificuldade de articulação dos setores da sociedade brasileira para debater e para propor soluções. Assim, isolados, como reunir as reivindicações comuns num discurso claro e conciso? Não dá. Esse início de século XXI repete o início do Sec. XX. Começa mal. Nesse contexto é que reside o aspecto mais estranho da nova-velha direita brasileira. Repetir um discurso batido e ultrapassado numa época de oportunidades, num tempo em que é cada dia mais necessário refletir a política como ação do cidadão e não como política partidária é um claro desejo de retorno às origens. Digo, de uma origem da velha oligarquia armada, branca, machista e escravocrata.

    Na época atual, em que o discurso tem a disposição mais um suporte como a internet, porque o desinteresse pela política? Por quê essa recusa ao debate? Ao mesmo tempo em que escrevo esse comentário, sei perfeitamente o que estou fazendo: política. Veja, não sou filiado a qualquer partido político, embora assuma que me alinho ao pensamento de esquerda… Note, sempre que deixo minha opinião expressa aqui espero lograr uma resposta, abrir um debate. Só o Oliveira responde. É incrível como o desinteresse pela política toma conta do cidadão. É isso o que se chama de cidadão alienado. O alienado não é alguém que é tolo, mas alguém que não decide por si mesmo. No entanto, o mesmo alienado expressa uma indignação com o socialismo (sim, socialismo, no Brasil não há comunismo) como se a experiência brasileira se assemelhasse ou se aproximasse daquela vivida pelo bloco comunista do tempo da guerra fria. Logo agora que a vida melhorou um pouco para o pobre, a indignação tomaria conta do povo? É claro que não, e por isso Dilma venceu as eleições. Independentemente das medidas econômicas, Dilma sabe que não terá apoio da oligarquia brasileira pelo seu alinhamento político, contrário ao desejo econômico da nossa elite, de subordinação. É mais ou menos assim: que é que tem uma subordinaçãozinha que nem ameaçaria a democracia brasileira se é para ganhar um mercado aos produtos brasileiros? Que é que tem elogiar a bunda brasileira se a bunda é a preferência nacional, que tem isso demais? E por aí vai. A nossa elite não se importa com a imagem do país, e nem com o futuro da população, se estiver lucrando alto.

    Os otários que se danem.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s