Leão entrega o ouro em casa

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Por Gerson Nogueira

O Remo perdeu para ele mesmo. Com perdão do velho clichê boleiro, o fato é indesmentível: o time azulino deu dois presentes ao ataque do Brasiliense, que a rigor teve apenas três chances no jogo, mas foi objetivo e aproveitou duas que lhe foram gentilmente oferecidas. O comportamento errático da zaga paraense foi decisivo para o resultado final, fato agravado pelo desperdício de chances pelos atacantes – cinco, pelo menos.

Depois de um começo meio confuso, provocado pelo nervosismo e a afobação dos atacantes remistas, a partida ficou muito presa à batalha no meio de campo, onde o Brasiliense postava até cinco jogadores para conter as iniciativas do Remo. O expediente funcionou porque a escalação remista contemplava apenas três homens no setor – os volantes Dadá e Michel e o meia-armador Danilo Rios.

O problema é que, além do bloqueio forte que o visitante armou, o camisa 10 do Remo não conseguia criar nada. Ao contrário, errava passes seguidos, que proporcionavam contra-ataques, sobrecarregando a defesa. Apesar disso, foi remista a primeira grande oportunidade, com Levy, que disparou um chute rente ao travessão. Logo em seguida, Danilo desperdiçou um bom momento, errando arremate junto à pequena área.

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Quando a partida ainda estava no terreno da cautela e dos estudos, eis que surgiu a primeira bobeira. Em escanteio cobrado por Zé Roberto pela esquerda, a bola foi desviada de cabeça no canto da trave. O goleiro Fabiano fez excelente defesa, mas espalmou para frente. Felipe, livre, tocou para as redes. Pode-se atribuir falha do goleiro ao não segurar a bola, mas o pecado maior foi de cobertura. Obrigatoriamente, em lance de escanteio, alguém deveria estar vigiando aquele lado da área.

O Remo ainda tentou se organizar, a fim de buscar o empate, mas esbarrava na lentidão e na inoperância de Danilo. Quando passou a utilizar as laterais, a bola começou a chegar até a área do Brasiliense. Como em lance puxado por Leandro Cearense e finalizado por Roni, em disparo forte, à direita da trave.

Como não conseguia entrar na área, o Remo permitia que a marcação abafasse as tentativas de cruzamento. Apesar disso, detinha mais posse de bola. Mas o que está ruim sempre pode ficar pior. Aos 30 minutos, em outra jogada aérea, a zaga se atrapalhou no rebote, Max teve a chance de afastar a bola, mas demorou e perdeu na entrada da área. Claudecir tocou de calcanhar e Rodrigo bateu firme, sem defesa, ampliando o prejuízo azulino.

Daquele momento em diante, até os acréscimos, o Brasiliense se encolheu e o Remo ficou fustigando. Primeiro com Michel, que bateu da intermediária e quase acertou a gaveta. Em seguida, em cruzamento de Val Barreto, Leandro perdeu chance incrível, errando o chute junto à linha do gol. Roni ainda encaixou um voleio, que foi rechaçado pelos zagueiros.

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Para o segundo tempo, Ratinho substituiu Danilo. O Remo ganhou em movimentação e toque de bola no meio, fazendo com que Levy tivesse mais espaços pela direita. E foi através dele, em cruzamento perfeito, que Val Barreto diminuiu aos 22 minutos, em cabeceio fulminante.

A fim de aumentar a agressividade, Fernandes tirou Cearense e Roni e botou Potiguar e Marcinho. O segundo até foi bem, invadindo a área seguidas vezes em tentativas individuais, mas Potiguar limitou-se a conduzir a bola, sem maior aproveitamento.

Ainda assim, Levy desfrutou de duas chances claras, Ratinho acertou um chute alto que quase enganou o goleiro e Marcinho podia ter empatado aos 39. Foi agarrado por um beque quando armava o chute. O árbitro pernambucano estava a cerca de cinco metros e mandou o jogo seguir – já havia ignorado um lance de bola na mão, alegando que o zagueiro não tivera intenção faltosa.

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Para quem veio a Belém buscar um ponto, o Brasiliense saiu com um lucro fabuloso, encaminhando a classificação. Ao Remo, depois de mais uma atuação desastrosa de seus zagueiros, resta apostar na superação para reverter a diferença em Brasília. Precisará vencer por dois gols de diferença ou a partir de 3 a 2. Difícil, mas não impossível.

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Além da queda, o coice

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Com grande público presente ao estádio Jornalista Edgar Proença, oficialmente 18.864 pagantes (renda de R$ 522.232,00), os riscos de novos incidentes eram imensos. O Remo se cercou de cuidados, contratando até segurança particular e proibindo a presença de sua facção organizada mais violenta. Não foi suficiente.

Ao final da partida, quando o trio de arbitragem deixava o campo, uma garrafa de plástico foi atirada em direção ao apitador. De imediato, os seguranças identificaram o autor do arremesso e conduziram à delegacia mais próxima, mas a possibilidade de nova punição volta a assombrar o clube, que já foi denunciado durante a semana pelos violentos incidentes no estádio Diogão, em Bragança.

Caso seja punido no primeiro julgamento, o Remo compromete sua caminhada (se houver) na Série D e até a participação em torneios no ano que vem. A bola de neve se estabelece: com jogos fora de Belém, as arrecadações caem e o time sofre no aspecto técnico. A receita cai e a crise financeira se agrava.

Já escrevi várias vezes sobre isso. Assiste-se a uma ação orquestrada para sabotar os dois grandes clubes de Belém – fato parecido ocorreu na reabertura da Curuzu. Em atos isolados, mas passíveis de punição nos tribunais, os inimigos do futebol inviabilizam aos poucos a vida financeira dos clubes, que dependem quase que inteiramente das rendas dos jogos.

Já passou a hora de medidas mais drásticas, que devem ser tomadas em conjunto pelos principais interessados. É como a história da saúva. Ou eles acabam com os vândalos ou os vândalos provocam a falência de ambos. (Fotos: MÁRIO QUADROS/Bola)

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Desafio do Papão é se manter vivo na disputa

O Papão entra em campo hoje à noite para conservar vivas as chances de classificação à próxima fase da Série C. Independentemente das dificuldades na tabela, o time tem a obrigação de passar pelo Treze-PB, que briga para não ser rebaixado. Os resultados de sábado e domingo tornaram ainda mais remotas as possibilidades para o Papão, pois o Salgueiro se classificou e o ASA ficou a um ponto de se garantir.

Ocorre que, seja no futebol ou na vida, a esperança deve ser mantida até o fim. É o que o torcedor bicolor espera de seu time, depois do tropeço diante do Cuiabá na rodada passada. A volta de Héverton e Augusto Recife serve para alimentar o otimismo quanto a uma recuperação do time.

Mas, além desses reforços, a equipe tem que funcionar bem em outros setores, explorar melhor o potencial de Pikachu e pelo menos ser mais vibrante diante de seu torcedor.

(Coluna a ser publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta segunda-feira, 29)

O Liberal: ato inédito e grave

Por Lúcio Flávio Pinto – http://lucioflaviopinto.wordpress.com//

O Diário do Pará diz hoje: O Liberal antecipou a sua edição de domingo, que circulou ontem, junto com a de sábado, para não cumprir decisão do juiz eleitoral. Marco Antonio Lobo Castelo Branco determinou, na noite de sexta-feira, a suspensão da publicação de mais uma pesquisa do Ibope encomendada pela TV Liberal. A coligação partidária que apoia a candidatura de Helder Barbalho ao governo do Estado alegou que a pesquisa foi fraudada, como a anterior, divulgada no dia 14, que está pendente de deliberação final da justiça.
O juiz concedeu de imediato a liminar pedida. Reconheceu como caracterizada na petição “a relevância do direito invocado e a possibilidade de prejuízo de difícil reparação” pela divulgação da pesquisa. A coligação liderada pelo PMDB suscitou dúvidas consistentes de induzimento ao resultado, em favor do candidato oposto, o governador Simão Jatene, do PSDB. Pelos resultados apresentados pelo Ibope, ele venceria já no 1º turno, mas também seria o vencedor na simulação do 2º turno. Sua vantagem sobre Helder Barbalho foi ampliada. Agora seria de 6%.
Como nesta fase final da campanha eleitoral o plantão judicial permite decisões rápidas, a sentença provisória foi imediatamente publicada no site do Tribunal Regional Eleitoral e a TV Liberal, que encomendou o serviço ao Ibope, comunicada.
Nesse momento os Maiorana teriam decidido antecipar a circulação da edição dominical do jornal, que ainda estava sendo elaborada na madrugada de sexta-feira para sábado, e fazê-la circular incorporada à edição de sábado, segundo a versão apresentada hoje pelo Diário do Pará. Se a manobra for provada, o jornal pode ser multado em um milhão de reais, valor arbitrado pelo juiz para o descumprimento da sua decisão.
Castelo Branco decidiu suspender logo a divulgação da pesquisa, assim que recebeu o pedido da coligação pró-Helder. Considerou que, passível de reparação pela via civil e criminal, mas a posteriori, o dano jamais poderá ser ressarcido na esfera eleitoral, como fato já consumado, “o que traz prejuízos ao eleitor”.
Com os recursos normais do processo, mesmo que caracterizada a fraude na pesquisa, ela seria divulgada enquanto o juiz examinasse o mérito e, mesmo que suspensa, já teria exercido o poder de influir sobre a decisão do eleitor.
Segundo a petição, o Ibope não fez o detalhamento da pesquisa por bairros e municípios, “dados que fazem toda a diferença nos resultados finais”. O instituto admitiu a infração. A ponderação dos questionários não seguiu a importância demográfica dos municípios pesquisados. Em Salinas, com menos de 40 mil habitantes, foram aplicados 112 questionários, enquanto em Santarém, com quase 300 mil habitantes, foram ouvidas apenas 56 questionários. O primeiro município é reduto de Jatene. O segundo lhe é desfavorável. Já Marabá e Altamira, também contrários à reeleição do governador, embora relacionados entre os 44 municípios da pesquisa, dela foram excluídos, sem qualquer justificativa.
Se realmente O Liberal saiu antes para não cumprir a decisão judicial, o Diário tem razão em classificar a manobra como “inédita e desesperada”. Ela, de fato, representaria mais um golpe que o jornal aplica “na democracia, no eleitorado paraense e na justiça eleitoral”.
Reincidente na prática de publicar pesquisas eleitorais com indícios ou evidências de fraude, desta vez o jornal dos Maiorana cometeu “o maior crime de que se tem notícia no Pará em termos de estelionato eleitoral porque as circunstâncias desmoralizaram e a própria instituição do Poder Judiciário”, diz o Diário, acrescentando, em tom dramático: “Para que serve uma sentença judicial se a intenção condenatória vaza e o condenado se antecipa para escapar impunemente dos efeitos pretendidos pela Justiça?”.
Há fortes indícios em favor dessa hipótese. Ficou evidente que a decisão de colocar dois jornais sucessivos no mesmo dia foi tomada à última hora. Não houve condição de preparar os gráficos nas páginas internas, como de hábito. A ilustração se restringiu à primeira página.
Conforme assinalei no comentário de ontem, essa parada para “manutenção industrial”, conforme a explicação dada na capa da edição híbrida de O Liberal, é inusitada, inédita e estranha. Por que fazer a manutenção, que pode ser programada (e é em si mesma duvidosa) justamente no dia em que entrou em vigor a suspensão da divulgação da pesquisa?
Na nota “aos leitores”, o jornal dos Maiorana anuncia que a edição de ontem estava circulando “com duas datas”. Não é exatamente a verdade e a diferença não é apenas formal. A edição de domingo é que invadiu, como intrusa, o jornal que circulou normalmente no sábado. A segunda data é espúria. Nada semelhante foi registrado nos anais da imprensa mundial, exceto quando se trata de prática usual ou rotineira.
Antecipando a edição de domingo, O Liberal descaracterizou a desobediência a decisão judicial? Os Maiorana devem estar certos que sim. No entanto, se demonstrada a mentira divulgada pelo jornal, ele agiu com fraude. E nesse caso o seu desejo de não cumprir a ordem do juiz eleitoral o incriminará e sujeitará às penas da lei. Finalmente?

Diretoria remista mantém ingresso a R$ 30,00

A Diretoria do Remo, atendendo apelos da torcida, manteve o preço dos ingressos para arquibancada em R$ 30,00 (cadeira a R$ 60,00) para o jogo desta tarde contra o Brasiliense. A princípio, os ingressos sofreriam um reajuste para quem comprasse no domingo, passando a custar R$ 40,00. Mais de 10 mil ingressos já tinham sido vendidos até o final da tarde de sábado. A previsão dos dirigentes é de um público superior a 30 mil pagantes.

Enfim, um repórter vai comandar a ABI

IMG_2373A chapa Vladimir Herzog ganhou a eleição realizada ontem na Associação Brasileira de Imprensa (ABI) ao derrotar sua concorrente chapa Prudente de Moraes e obter 59,7% dos votos.

Pela primeira vez na história de 106 da ABI a votação não se limitou ao Rio de Janeiro, onde fica a sede da entidade.

As representações de Alagoas, Distrito Federal, Maranhão, Minas Gerais, Pernambuco e São Paulo também receberam os votos de seus jornalistas filiados à ABI.

Pela primeira vez também, um repórter, Domingos Meirelles, assumirá a presidência da ABI e com a enorme responsabilidade de revitalizá-la, devolver a entidade a importância que já desfrutou no Brasil como trincheira da liberdade de Imprensa. (Do Blog do Juca Kfouri)

Feia, grossa e errada

Por Janio de Freitas

Vê-se que o fracasso da agressividade de José Serra, na disputa com Lula, não serviu de ensinamento

Aí estão os dias finais de uma campanha feia. Antecipada por Eduardo Campos e Aécio Neves, que em maio já tinham atitudes eleitoreiras, nos cinco meses até agora não deixou nem um só instante de brilho pessoal ou de criatividade política. Não é menos notável que, em se tratando de candidaturas à Presidência, também não aparecesse nem uma só proposta capaz de distinguir-se do que tem composto o palavrório trocado entre oposições e governos.

Em compensação, não faltou grossura. Desde sua queda na pesquisa anterior à de agora, Marina Silva consumiu muito das oportunidades de atração eleitoral com o discurso de vítima na campanha baseada em ataques. É claro que algum efeito o tiroteio político sempre produz, em quem é alvo e no atirador. Mas ninguém sai desta campanha na condição de devedor de ataques aos adversários diretos. E daí vem uma ameaça às eleições futuras.

Vê-se que o fracasso da agressividade de José Serra, na disputa com Lula, não serviu de ensinamento aos políticos que os sucedem em confrontos iguais. E com os mais afortunados marqueteiros parece ter ocorrido o mesmo, sendo que, no seu caso, também nada aprenderam com o mestre marqueteiro, Duda Mendonça, e o seu Lula cativante e proponente.

A grossura foi até institucionalizada agora, como técnica marqueteira, sob o nome enganoso e enganado de “desconstrução” do adversário. Agressão e desconstrução são coisas diferentes. Mas como ao final da batalha verbal haverá, necessariamente, vencedor que praticou a “desconstrução”, é grande o risco de que a nova “técnica” fique consagrada como chave do sucesso eleitoral.

O ataque como campanha não fará a vitória nem as derrotas nesta eleição. Explicar as suas quedas nas pesquisas pelos ataques recebidos, como fazem Marina e seus correligionários, equivale a dizer que os ataques eram fundados, porque ela decaiu, em apenas um mês, dos 50 pontos que tinha no fim de agosto para os 27 do fim de setembro.

Da mesma maneira, se “desconstruir” por ataques levasse ao êxito, Aécio Neves teria hoje outra situação. E Dilma Rousseff não poderia estar na liderança, porque durante os cinco meses foi o alvo principal de Aécio, inaugurador da campanha baseada na “desconstrução” e divulgador desse nome.

Aécio tem motivos para lamentar sua campanha. As perspectivas que o levaram à candidatura caíram com o avião de Eduardo Campos, mas as últimas pesquisas mostram que errou duplamente. Primeiro, ao relaxar por causa da entrada impetuosa de Marina na disputa e nas pesquisas. Segundo, por se limitar aos ataques. Quando viu o movimento descendente de Marina, há duas semanas, Aécio reanimou a campanha e, para isso, afinal fez um pouco mais do que atacar. A resposta veio nos dois últimos Datafolha: subida equivalente a 20% do total anterior.

A campanha de Marina não foi capaz de demonstrar ser ela o tal novo, que lhe fora atribuído pela mistura de aversão ao PT, rescaldo de votações passadas, escassa identificação de Aécio e morte de Eduardo Campos. Marina preferiu aderir aos ataques, e leva o troféu do mais violento deles, na acusação aos governantes do PT de “nomear diretores para assaltar a Petrobras”. A expectativa do novo refluiu, à falta de sua exibição, e várias contradições tornaram Marina mais vulnerável. Na queda, à sua fixação no ataque juntou apenas a lamentação de vítima. Será pouco para explorar os próximos e últimos dias.

Dilma entrou na campanha com um patrimônio único. Se bem trabalhadas, muitas das ações do seu governo traziam um potencial grande de atração do eleitorado. Mas sua campanha pendeu, de início, para um populismo barato, levado a extremos no horário eleitoral. Depois, entrou e ficou no jogo dos ataques, escolhido pelos adversários.

Só nas duas últimas semanas Dilma adotou o papel de candidata diante dos eleitores. E recebeu, como resposta, o aumento de sua vantagem no primeiro turno e a liderança no eventual segundo, perdida por Marina. E, a depender dos próximos dias, até a hipótese de encerrar a eleição no primeiro turno.

Cabra bom…

O pênalti na marca do pênalti

Por Gerson Nogueira

Por obra e graça de dona CBF e sua cambaleante comissão de arbitragem, o Brasil mergulhou nesta semana num debate chato, improdutivo e confuso sobre os critérios para marcação de pênaltis. Na semana passada, analisei aqui sobre o nível da arbitragem nacional, seguramente um dos piores do planeta. Agora, depois de um verdadeiro festival de pênaltis esquisitos marcados a rodo, a comissão adotou um critério único baseado num certo princípio “da intenção deliberada”.

O conceito já é meio hermético por natureza e a comissão não conseguiu explicá-lo direito nem aos árbitros, que continuaram interpretando livremente, cada um à sua maneira. Diante da bagunça instaurada, o presidente da comissão de arbitragem da Fifa deu entrevista criticando os métodos usados no Brasil. Condenou os critérios e deixou os responsáveis pelo setor ainda mais expostos.

A penalidade máxima, o nome já diz, divide opiniões desde que o futebol existe. Em lances de difícil análise a polêmica substitui a visão isenta e a confusão só aumenta. A repetição das jogadas na TV, longe de esclarecer, amplia ainda mais a balbúrdia.

unnamed (2)Quem joga ou jogou futebol, mesmo nas peladas de fim de semana, aprendeu que mão na bola é que vale como pênalti incontestável. O critério de que a bola na mão ou braço também é ilegal foi adotado recentemente e até hoje carece de aceitação plena.

Com medo de causar penalidades, jogadores tentam evitar que a bola esbarre em suas mãos encostando os braços no corpo. É um troço esquisito porque mãos e braços são essenciais para manter o equilíbrio, principalmente quando o jogador está em movimento. Apesar de todo o malabarismo dos defensores, até o braço colado ao corpo não tem evitado a marcação de penais.

Como é próprio da cena brasileira pós-Copa, a onda de queixumes contra os árbitros deu origem a uma nota oficial da Associação Nacional dos Árbitros, divulgada na sexta-feira. Os árbitros denunciam “a falta de respeito” com a categoria e ameaçam paralisar o Campeonato Brasileiro.

A direção da entidade avalia a possibilidade de uma greve por entender que os ataques derivam da má fase técnica do futebol. Os apitadores estariam pagando o pato pela decadência do esporte no Brasil. Em sua defesa, repete aquela lorota cunhada por João Havelange, de que os erros de árbitros fazem parte dos jogos e até dão um tempero emocional à disputa.

Não é bem assim. Só quem vence se beneficiando de erros de arbitragem consegue ter esse olhar generoso e romântico. Os prejudicados amaldiçoam os sopradores de apito. Experimente perguntar a um torcedor do Santos ou do Internacional sobre Márcio Rezende de Freitas, que prejudicou a ambos, contra Botafogo e Corinthians. Ou indague a um botafoguense o que acha de José Marçal Filho ou Ana Paula, a faceira bandeirinha que operou o time na Copa do Brasil.

É claro que o futebol está longe de seus melhores dias, mas é fato também que a arbitragem foi um problema no Brasil. As causas são bem conhecidas, embora nunca atacadas: falta de profissionalização, fragilidade política da Comissão de Arbitragem e desinteresse da CBF e clubes pela qualificação dos árbitros.

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Enfim, um domingo de futebol

Depois de meses sem futebol em Belém, o torcedor tem a oportunidade hoje de matar a saudade. Refiro-me, obviamente ao torcedor do Remo, que vai encarar o Brasiliense na primeira partida do mata-mata da Série D.

Parada duríssima, como é natural em fases eliminatórias, o desafio é mais espinhoso pela qualidade do time visitante, ainda invicto na competição e dono de um elenco forte e experiente.

Observadas lado a lado, as campanhas se equivalem. Embora o Brasiliense tenha encerrado a primeira fase na liderança do grupo A5 com 16 pontos ganhos, dois a mais que o Remo, ambos tiveram a mesma quantidade de vitórias, 4, com o mesmo potencial ofensivo (o Remo fez 15 e o Brasiliense, 14).

A coisa se complica na comparação dos números defensivos. Enquanto o Brasiliense sofreu somente cinco gols na competição, a defesa remista deixou passar 10 bolas. Reconhecido ponto vulnerável do time, a zaga terá um teste de fogo hoje à tarde, enfrentando um dos melhores ataques do torneio.

Sob a desconfiança depois de falhas seguidas nos jogos contra Moto Clube, River e Guarani de Sobral, o setor terá uma estreia importante: a entrada de Jadilson na lateral esquerda. O veterano substituirá a Alex Ruan, buscando dar mais consistência na marcação.

O técnico Roberto Fernandes mantém inalterada a formação do meio-de-campo e do ataque. Mas, se acerta ao repetir a escalação, a insistência com Reis no papel de armador (ao lado de Danilo Rios) ainda gera discussão. Jonathan, esquecido ao longo de toda a primeira parte da Série D, é a novidade no banco de reservas, apesar das poucas chances de aproveitamento.

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Bola na Torre

Guilherme Guerreiro apresenta. João Cunha, Tomazão e este escriba de Baião participam dos debates do programa, que vai analisar a participação dos clubes paraenses nas séries C e D. Na RBATV, depois do Pânico, ali por volta de 00h15.

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Comenda da Câmara de Belém

Por iniciativa do vereador Paulo Queiroz, presidente da Casa, este escriba foi agraciado com o diploma e a medalha “Isaac Soares” da Câmara Municipal de Belém, por relevantes serviços em benefício do desenvolvimento na área jornalística no município de Belém.

Honrado, agradeço a generosidade que oportunizou a comenda e estarei presente à solenidade de entrega, prevista para amanhã, às 9h, no plenário do Legislativo municipal.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste domingo, 28)

Dilma, Lula e o PT crescem na reta final

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Por Paulo Moreira Leite

O crescimento de Dilma nos últimos dias reflete um momento particular da campanha. Quando falta uma semana para a votação em primeiro turno, a eleição deixou de ser um espetáculo político midiático, comandado pelos meios de comunicação, suas apostas e preferências, para se transformar numa disputa soberana entre partidos, candidatos e cidadãos.
A corrida aos comícios, o crescimento de caminhadas pelos centros urbanos e, como um reflexo de tudo, as mudanças dramáticas nas pesquisas, mostram que a plateia abandonou o papel de simples espectadora e foi a luta numa eleição que pode ser decisiva para o futuro do país e de cada um dos brasileiros. Nessa situação, a experiência real ganha importância sobre a propaganda.
Diante das pesquisas, o manchetômetro — absurdamente desfavorável a Dilma — diz menos sobre a eleição e os candidatos do que sobre a influência dos meios de comunicação. A presidente cresce apoiada em seu desempenho, na liderança de Lula e também na história de um partido que, muito maior do que seus defeitos, os reais e os imaginários, continua sendo a expressão dos assalariados e da população pobre.

Sentada na cabeceira de uma mesa no Alvorada, na tarde de sexta-feira passada a presidente Dilma Rousseff exercitou o legítimo direito de contemplar o futuro do país numa entrevista coletiva para oito blogueiros — eu estava entre eles.

Em duas horas e três minutos de entrevista — a combinação original era de 60 minutos, quem sabe um pouco mais — a presidente permitiu-se falar de de um possível segundo governo, o que não poderia ter sido feito nos momentos anteriores, quando isso poderia parecer presunção ou leviandade. Comparando os dois mandatos de Lula, Dilma lembrou que no primeiro ele fez o governo que era possível — e no segundo fez o que gostaria. Dizendo que faz um governo na “defensiva,” sugeriu que, caso venha a ser reeleita, fará um segundo mandato a seu gosto.
Já na primeira pergunta, Dilma anunciou que seu segundo governo irá iniciar o debate para a regulamentação econômica dos meios de comunicação. A presidente lembrou o Papa Francisco, que chegou a falar no pecado da desinformação. Disse que a Constituição proíbe, nos artigos 220 a 224, o monopólio e o oligopólio dos meios de comunicação e antecipou as dificuldades para um debate real. “No Brasil, tenta-se confundir regulação econômica com o controle de conteúdo e uma coisa não tem nada a ver com a outra. Controle de conteúdo é típico de ditaduras A regulação do ponto de vista econômico visa apenas impedir que relações de oligopólio se instalem,” disse ela.
A regulamentação econômica dos meios de comunicação foi uma meia vitória dos constituintes progressistas de 1988. Eles tiveram força para incluir a luta contra o monopólio e o oligopólio no texto, mas a bancada conservadora, aliada das empresas de comunicação, conseguiu incluir uma ressalva, de que isso se faria “na forma da lei” — e de lá para cá, passados 26 anos, essa regulamentação nunca foi debatida nem sequer votada. “Onde há concentração de poder econômico dificilmente haverá relações democráticas,” disse a presidente. Dilma está convencida de que o país vive um momento em que o debate sobre a concentração da propriedade da mídia deixou de ser uma preocupação de estudiosos e ativistas, para se tornar “uma demanda atual da sociedade.” Ao falar sobre saúde pública, Dilma deixou claro que o fortalecimento do SUS será sua prioridade — mas disse também que acredita na necessidade de convivência entre o sistema público e o privado. Quando perguntei sobre a reforma política, lembrando que a proibição de contribuições financeiras de empresas privadas envolve uma batalha histórica para garantir o cumprimento da regra democrática 1 homem = 1 voto, Dilma sublinhou que, com base num plebiscito, a maioria teria condições de impor sua vontade. Um bom argumento. (Pegue o link para ouvir a entrevista da presidente, na íntegra aqui).

Na quinta-feira, uma caminhada de Dilma em Feira Santana parou a cidade e, à noite, um comício em Ceilândia, reuniu 15 000 pessoas. A presidente não compareceu para poupar a voz. Mas a presença de Lula em noite inspiradíssima garantiu grandes momentos a uma massa que saiu de casa, enfrentou congestionamento e alimentou-se de pipoca, milho cozido e salada de frutas para ouvir Lula falar. Com rouquidão profunda, a ponto de gerar comentários preocupados entre militantes que lembram do câncer na faringe, Lula fez as honras da casa. Com uma garrafinha de plástico na mão, informou aos presentes que iria tomar água varias vezes, esclarecendo, com a naturalidade dos pacientes que não perdem a chance de celebrar a cura de uma doença gravíssima, que “agora minha garganta fica seca. Quando eu estava no sindicato, era só tomar um gole de conhaque e tudo ficava resolvido.”
Em seguida Lula apresentou à massa reunida em torno do palanque um personagem frequente dos comícios do PT na Capital Federal e em Goiás — o médico Cicero Pereira Batista, negro e calvo, de jaleco branco e estetoscópio no pescoço. Filho de uma empregada doméstica, sem recursos sequer para comprar livros necessários ao estudo — chegava a buscar material didático no lixo — Cicero conseguiu o diploma no ProUni, transformando-se, na campanha de 2014, num símbolo em carne e osso dos feitos e realizações do PT desde sua chegada ao Planalto, em 2003.
Encantando a plateia que acompanha seu desempenho com uma admiração que poucos políticos tiveram direito em qualquer momento da história do país, Lula disse “Nunca aceitaram que alguém ousasse tornar um negro médico. Nós ousamos!”. Lula também lembrou, com emoção na voz, a vitória de Tamires Gomes Sampaio, uma estudante do Pro-Uni, negra, que tornou-se presidente do Centro Acadêmico da Faculdade de Direito do Instituto Mackenzie, em São Paulo, instituição notável pelo espírito conservador.
Numa demonstração de seu pleno domínio da oratória, Lula também tratou de Marina Silva. Como ele mesmo havia previsto, alertando os dirigentes da campanha a respeito, toda tentativa de ataque agressivo pode ser usada por ela — não só por causa de sua figura frágil, mas porque a própria Marina aprendeu a tirar proveito dessa situação.
“Quando escolhi a Dilma, eu sabia o tamanho do problema que o Brasil tinha pela frente. De todas as pessoas que eu tinha, a Dilma era a mais competente. Por isso, ela não permitiu que este país entrasse numa crise como entrou a Espanha, Itália e Estados Unidos”, disse. Com o cuidado de eliminar qualquer tonalidade agressiva na voz, Lula concluiu. “Eu gosto da Marina. Mas se fosse escolher uma presidente por amor, eu teria de escolher dona Marisa.”