A frase do dia

“Nós aceitamos todas as famílias. E aí, vou parodiar o Papa: quem é a presidente da República, para definir que família existe no mundo. Não temos esse poder e nem queremos”.

De Dilma Rousseff, presidente e candidata à reeleição, ao fazer a defesa ontem (16) de todas as formas de família.

Selvagens cães de guerra

Por Gerson Nogueira

Há uma guerra aberta e a primeira coisa a fazer é parar com essa conversa maneirosa de “torcida organizada”. Isso simplesmente não existe mais. O termo correto é “gangue uniformizada”. São delinquentes vestidos com camisas de suas respetivas facções, que trazem ligeira referência às cores do clube pelo qual dizem torcer. No mais, ostentam simbologia própria, carregada de pinturas ameaçadoras, próprias para confronto. Não há bola, rosto de jogador ou chuteira desenhada. Enfim, nada que lembre futebol.

unnamed (5)Antigamente, as torcidas uniformizadas mereciam essa denominação. Era comum ver em Belém grupos de amigos que se juntavam para torcer, desenhando escudos de Remo, Papão e Tuna (sim, a Águia Guerreira também tinha seus adeptos organizados) em faixas, bandeiras, balões, camisas e bonés. Havia alegria e companheirismo a alimentar um sentimento comum: o amor por um clube.

Na época, pontificavam a Sangue Azul e a Payxãonossa, representando as torcidas de Leão e Papão. Conviviam harmoniosamente, sem brigas ou ameaças. A rivalidade se restringia a mostrar o melhor espetáculo visual nos estádios. No Remo, os baluartes desse período foram José Miranda, Edilson Dantas e José Alencar, todos já falecidos. No Papão, a incansável Doutora Elza coordenava a Payxãonossa.

Bons tempos aqueles. O que aquelas torcidas faziam nas décadas de 60, 70 e 80 não tem a menor ligação com a barbárie que os grupos violentos de hoje promovem nos estádios, brigando entre si e contra qualquer um que julguem inimigo. Marcam duelos através das redes sociais, desafiam e debocham impunemente das forças de segurança.

Amanhã, em consequência de outra ação das gangues, o STJD julgará o Papão. Como reincidente, o clube pode ser penalizado com novo gancho. É bom lembrar que na atual Série C os bicolores só fizeram dois jogos em Belém, perante sua torcida. Por ironia, nas duas partidas (contra Fortaleza e Salgueiro) ocorreram cenas envolvendo as facções de delinquentes. O episódio que vai a julgamento ocorreu na reinauguração da Curuzu, quando um menor atirou garrafa PET no gramado.

Como a confirmar a velha máxima de que os dois rivais repetem sempre as próprias mazelas, o Remo também deve ir a julgamento nas próximas semanas pelo gravíssimo tumulto verificado em Bragança, domingo. Baderneiros promoveram desordens nas arquibancadas, soltando rojões e atirando pedras e tijolos. O jogo foi interrompido por dez minutos e o caso foi relatado com rigor pelo árbitro. Dificilmente o clube, também reincidente, escapará de um gancho.

Os remistas não conseguiram ainda não conseguiram disputar um jogo da Série D diante de seus verdadeiros torcedores. Mandam suas partidas em Bragança, cumprindo punição decorrente das brigas e confusões promovidas pelas gangues uniformizadas na temporada passada.

Nada disso vai acabar sem a ação enérgica e conjunta dos dois clubes. O problema se agrava enquanto ambos continuarem a agir isoladamente, achando que podem sozinhos resolver a situação. Historicamente, os dirigentes receiam enfrentar os bárbaros. Temem perder apoio político e, muitas vezes, até cultivam parcerias com as gangues. É o pior dos erros, pois a ação violenta dessas facções afasta a torcida e inviabiliza campanhas nas divisões nacionais.

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Guerra aos inimigos do futebol

Não é a primeira tentativa de conter a violência nos estádios, mas tem jeito de que pode finalmente dar certo. Nilton Gurjão, promotor responsável pela extinção das organizadas no Pará em 2007, está de volta ao combate. Pretende reunir com representantes da dupla Re-Pa para discutir o que fazer depois da pancadaria ocorrida no jogo Remo x River em Bragança.

Algumas das ideias que as duas diretorias planejam botar em prática chegam com atraso em relação a outras praças, mas são válidas. Extinguir as gangues; controlar através de cadastramento rigoroso os torcedores violentos; responsabilizar criminalmente os líderes das facções e impedir o acesso dos delinquentes a locais de jogos, em Belém ou mesmo fora.

Além da extinção por via judicial, é preciso fazer cumprir na prática as determinações legais. Até para evitar que as decisões sejam desmoralizadas por manobras das gangues. Um exemplo é a Terror Bicolor, que virou Fiel Bicolor para driblar a proibição legal. O mesmo ocorre com sua similar azulina, Remoçada.

Gurjão entende que a baderna ultrapassou todos os limites e as providências devem ser radicais e sumárias. Citou a imagem de um pai protegendo o filho e de uma mãe correndo com o filho no colo em meio à batalha entre os selvagens no estádio Diogão.

O promotor, na entrevista ao DIÁRIO, avalia que os torcedores comuns já não aguentam a repetição de tantas ocorrências violentas nos jogos. Este, aliás, deveria ser o mote das diretorias dos clubes. Atrair o apoio das torcidas para combater e excluir os malfeitores. Quem for visto iniciando brigas ou ameaçando pessoas deve ser imediatamente denunciado.

Em resumo, as propostas são bem claras e já funcionam satisfatoriamente em outros Estados brasileiros. E, ao organizar a reação às gangues, os clubes e as autoridades estão caminhando para o ponto hoje defendido pela Fifa: criminalizar a violência dentro e em torno dos estádios.

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Segundinha reabre novela dos estádios

O início do Campeonato Paraense da 2ª Divisão, a popular Segundinha, corre risco de adiamento. Não há estádios disponíveis, com a impossibilidade de uso de Mangueirão, Baenão, Curuzu e até do campinho do Seju. No momento, só o velho Souza pode ser utilizado.

A medida óbvia seria programar os jogos para Bragança ou Castanhal, como fez a dupla Re-Pa quando precisou mandar jogos fora de Belém. Afinal, são partidas de baixíssimo interesse para o torcedor, normalmente disputadas com arquibancadas vazias.

O impasse deve ser resolvido pela FPF em reunião marcada para amanhã, mas desde já reabre a discussão sobre a precária situação dos nossos estádios. Uma terra que gosta tanto de futebol não pode depender de tão poucas praças esportivas.

Algo de muito errado ocorre no Pará com o negócio chamado futebol.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta quarta-feira, 17)

A enquadrada de Luciana em Aécio

Por Paulo Nogueira, no DCM

O melhor momento até aqui em todos os debates presidenciais de 2014 foi a espetacular enquadrada que Luciana Genro aplicou em Aécio Neves quando ele dava uma patética lição de moral sobre ética na política.

A intervenção preciosa de Luciana Genro salvou o debate promovido pela CNBB. A má organização foi tamanha que não havia um cronômetro que ajudasse os debatedores a medir sua fala, engessadíssima como de hábito.

Por isso o tempo todo o moderador Rodolfo Gamberini abateu as respostas em pleno vôo. São vitais, em campanhas eleitorais, pessoas como Luciana Genro, que falam o que ninguém ousa dizer.

Aécio pediu para apanhar, esta é a verdade. O Pastor Everaldo – triste figura – acabara de se fazer de servo de Aécio. Conseguiu perguntar a ele o que achava do escândalo da Petrobras. Aécio fez aquele surrado discurso moralista que remonta à UDN de Carlos Lacerda.

Por acaso, logo depois o sorteio de nomes juntou Aécio e Luciana. Ele fez uma pergunta a ela sobre educação. Pela primeira vez na campanha ela fugiu da questão. Não resistiu a dizer umas verdades a Aécio.

Como ele ousa falar em corrupção pertencendo a um partido que comprou os votos para a reeleição de FHC?, perguntou ela. Como o moralismo das colocações de Aécio se combina com o dinheiro público empregado para a construção de um aeroporto numa fazenda de sua família?, continuou ela.

Uma das razões pelas quais a juventude foi às ruas em junho de 2013 foi a camada espessa e abjeta de hipocrisia que domina o mundo da política. A essa hipocrisia aparentemente invencível Luciana Genro contrapõe uma sinceridade à qual ninguém está acostumado.

Ali, naquele embate, se contrapunha a velha política e a nova política. Aécio parecia um museu diante de Luciana Genro. O atraso quando confrontado com a novidade vira uma coisa espectral.

Luciana Genro não ocupa o lugar folclórico de Plínio de Arruda Sampaio nos debates. Essa posição cabe a Eduardo Jorge, do PV. Faz as pessoas rirem, mas ninguém leva a sério. Luciana Genro, não. Ela não está nos debates para gerar gargalhadas, mas para dizer as coisas que devem ser ditas – e para fazer a sociedade pensar.

Neste sentido, ela é um enorme avanço em relação a Plínio de Arruda Sampaio – e a rigor a tudo, ou quase tudo, que está aí. E sabe debater como poucos. Tem o dom da palavra. Improvisa como se estivesse lendo. Não erra concordâncias, não se perde em raciocínios. E à forma acrescenta conteúdo.

Sabe atacar e sabe se defender.

Aécio, numa brutal mistificação, disse que ela estava se comportando como “linha auxiliar” do PT, isso depois das contundentes críticas dela ao petismo pós-poder. “Linha auxiliar uma ova”, devolveu ela imediatamente.

Clap, clap, clap. De pé.

Luciana Genro provavelmente ficará com 2%, 3% dos votos. Mas isso não refletirá o tamanho de seu impacto formidável na campanha de 2014. No mundo corporativo, as empresas precisam desesperadamente das pessoas que vão contra a corrente e falam o que ninguém ousa dizer, por medo ou conveniência.

Essas pessoas dificilmente chegam ao poder, mas quebram barreiras para que outros possam fazer o que tem que ser feito. No mundo político, também.

Luciana Genro, em 2014, desempenha exatamente este papel – e toda a sociedade deveria ser-lhe grata por isso, concordando ou não com suas ideias.