Clubes querem acabar com “indústria da comissão”

Por Ricardo Perrone

A cena tornou-se comum em clubes brasileiros, mas quase sempre gera polêmica. O diretor chama o jogador que já tem alguns anos de casa para renovar contrato e no final das tratativas paga 10% do valor da negociação para o empresário contratado pelo atleta.

Casos assim, quando chegam aos ouvidos de conselheiros, geram protestos, acusações de desperdício de dinheiro e até pedidos de investigação interna. Pressionados, diretores de clubes alegam que se tornou normal os atletas passarem para as agremiações a conta que eles deveriam pagar referentes ao trabalho de seus agentes, e iniciam um movimento para tentar colocar fim à prática.

O Corinthians é um dos clubes em que o tema mais causa debates atualmlente. Em julho, o clube renovou com Cássio e Gil, pagando comissão ao empresário Carlos Leite, também remunerado na contratação de Mano Menezes, seu cliente.

Conselheiros da oposição e da situação entendem ser desnecessário pagar um intermediário para acertar com atletas que já estão no time ou para negociar com um técnico que é amigo de outros carnavais do presidente Mário Gobbi.

Há mais casos. Gilmar Veloz, empresário de Tite, velho conhecido do clube, também recebeu comissão na volta do treinador ao Parque São Jorge. Cartolas alvinegros afirmam que até na troca entre Pato e Jadson, que não envolveu dinheiro, precisaram botar a mão no bolso. Contam que pagaram R$ 780 mil de comissão. Essa operação também é alvo de críticas de conselheiros.

“Foi um excelente negócio para as duas partes, uma negociação muito difícil, em que trabalhei muito. Por todo envolvimento, toda repercussão, por todo assunto que gerou para a mídia, o mínimo que eu teria que ter era uma comissão. Acho que foi pouco perto de tudo que isso envolveu. E ainda nem recebi”, disse Bruno Paiva, empresário que intermediou a troca feita entre São Paulo e Corinthians. Ele não revelou quanto sua empresa recebeu pelo negócio.

O clube do Parque São Jorge, como os demais, também paga comissão quando compra o jogador, não apenas quando vende. Para trazer Lodeiro, ex-Botafogo, o alvinegro desembolsou cerca de R$ 1,4 milhão.

“No mundo ideal, não é o clube que deveria pagar comissão quando compra um jogador ou renova. Acho que tem que mudar, mas é assim há muito tempo. Com todos os empresários, a primeira condição numa negociação é pagar a comissão deles. O Roberto [de Andrade, ex-diretor de futebol do Corinthians], dizia que, se você não pagar, o agente leva o atleta para outro clube”, afirmou ao blog Ronaldo Ximenes, diretor de futebol do Corinthians.

Recentemente, o Corinthians  viu a exigência de comissões chegar ao extremo. Na venda do volante Guilherme, agenciado por Giuliano Bertolucci, a diretoria fez as contas e viu que teria prejuízo. Precisaria gastar cerca de 40 mil euros com comissão. A direção, então, bateu o pé para pagar apenas 30% da comissão, já que essa era sua participação nos direitos econômicos do atleta. Os parceiros eram empresários e o BMG. Assim, o alvinegro conseguiu ficar com uma quantia da venda, feita por cerca de 4 milhões de euros.

Os gastos com comissões, já viraram alvo de questionamentos feitos por escrito por conselheiros da oposição corintiana, caminho que o Palmeiras conhece bem, e de longa data. Depois de muito barulho, uma auditoria foi feita e entregue ao então presidente Arnaldo Tirone no final de 2011.

O trabalho da Torga Consultoria mostra que o Palmeiras se comprometeu a pagar R$ 11,7 milhões em comissões para empresários em 29 operações com atletas e na contratação do técnico Luiz Felipe Scolari. Média de R$ 390 mil por negócio. O alviverde remunerou agente até para fazer a troca entre Leo e Leandro Amaro com o Cruzeiro. Só nessa operação, a comissão para três empresas de agentes foi de R$ 850 mil.

“As negociações, chegaram a um nível intolerável. O empresário multiplica o salário do jogador por 13 e pede comissão de 10% sobre o valor total. Quer comissão até sobre o 13º salário. Você acerta, chama a imprensa, diz que o jogador renovou, daí o agente fala: ‘agora quero uma parte dos direitos econômicos’, disse Vilson Ribeiro de Andrade, presidente do Coritiba . O dirigente lidera os cartolas nas discussões da lei sobre refinanciamento das dívidas fiscais dos clubes.

Andrade defende que, em conjunto, os clubes deixem de pagar os empresários, repassando a conta aos jogadores. “É um absurdo, o cara é empresário do jogador, então, que receba do jogador. Em média, o gasto com comissões representa 10% das receitas dos clubes. Os dirigentes estão conversando, caindo na real sobre as distorções do mercado. Se todos começarem a deixar de pagar, os empresários vão ficar preocupados”, afirmou Andrade.

Ataíde Gil Guerreiro, vice-presidente de futebol do São Paulo, apoia um movimento contra o pagamento de comissões. “No meio empresarial não tem isso. Se eu quero contratar um advogado, contrato um ‘headhunter’ [especialista em encontrar profissionais para empresas], combino um preço e pago pelo serviço dele. Se eu quiser renovar o contrato com o mesmo advogado, não preciso pagar mais para o headhunter”, declarou o dirigente são-paulino.

Guerreiro afirmou que desde que assumiu o cargo, em abril, só renovou o contrato de Rafael Toloi, sem precisar pagar comissão e que vai estudar casos futuros. “Não posso ir sozinho contra a maré. Mas, se o Vilson já levantou essa bandeira [contra as comissões], ele conta com a minha vontade”, completou o cartola tricolor.

Os empresários se defendem. “Se o dirigente chega pra mim e pede ajuda pra renovar o contrato de um jogador que eu represento, então tenho que receber do clube. Já teve casos em que recebi 5% do atleta e 5% do clube porque trabalhei para os dois. O importante é não cobrar porcentagens absurdas” disse ao blog Pepe Dioguardi, agente de Kléber e Ganso, entre outros.

“Existem várias formas de comissão. O jogador pode até pedir 10% a mais e ele mesmo pagar o clube. Depende de como você trabalha. Se você tem uma filosofia de como agregar um produto ao jogador, se trabalha para o atleta dar entrevista melhor,  para se posicionar melhor, isso contribui para o clube. Nesse caso não tem como dizer que não estou prestando serviço para o clube. Claro que tem caras que trabalham só com um celular, como se fazia no passado. Então, tudo depende. A única é regra é que os clubes não estão pagando ninguém. Assinam o contrato, mas no dia combinado não pagam a comissão”, afirmou Bruno Paiva, agente que tem Jadson em sua lista de clientes.

Gaúcho pode ir parar na 6ª divisão inglesa

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Segundo o jornal Basingstoke Gazette, o pequeno Basingstoke Town, da 6ª divisão da Inglaterra, fez uma proposta para contar com o astro Ronaldinho Gaúcho, sem contrato desde o fim de sua passagem pelo Atlético-MG, em julho. Os representantes do clube já teriam até entrado em contato com o agente (e irmão) do jogador, Assis, para oficializar a proposta.

“Já discutimos esse assunto internamente, e agora colocamos uma oferta na mesa. Agora, fica a cargo do Ronaldinho decidir se quer jogar aqui ou não”, disse Simon Hood, diretor de marketing da agremiação. “Ele está sem contrato e gostaria de jogar no futebol inglês. Não consigo pensar em uma maneira melhor de fazer isso do que assinar com o Basingstoke Town”, completou.

No futebol europeu, Ronaldinho atuou no PSG, da França, no Barcelona, da Espanha, e no Milan, da Itália. No mês passado, ele chegou até a acertar com o Palmeiras para ser o “presente de aniversário” no centenário do clube, mas a negociação desandou e o contrato não foi assinado. (Da ESPN)

A tentação de inventar

Por Gerson Nogueira

Futebol, já se disse mil vezes, é um esporte simples. Nós – torcedores, técnicos, jogadores e cronistas esportivos – costumamos complicar as coisas. Um dos primados da modalidade é o entrosamento dos times, que nasce da repetição e da adaptação dos jogadores ao esquema tático.

No caso dos dois grandes clubes de Belém, situações diversas obrigam os técnicos a mexerem o tempo todo na escalação. O Papão, ainda com chances de acesso na Série C, sofre com a perda de peças importantes por lesões e suspensões.

Para o confronto decisivo de segunda-feira com o Botafogo da Paraíba, fora de casa, o técnico Mazola Jr. não contará com o zagueiro Charles, uma das referências defensivas da equipe, e com o polivalente Djalma. Arrisco dizer que a ausência de Djalma é a mais prejudicial ao esquema usado pelo treinador.

unnamed (35)Djalma é rápido e sabe como ninguém acompanhar o ritmo de Pikachu, principal destaque técnico do time. Sem o parceiro, Pikachu normalmente arrefece as tentativas ofensivas e tem rendimento prejudicado.         Quem sofre com isso – e como sofre – é o Papão.

Do outro lado da avenida Almirante Barroso os dramas são bem diferentes. A escalação muda sempre por vontade do técnico, que já mandou a campo pelo menos seis formações diferentes ao longo da Série D.

Por insegurança quanto à confiabilidade técnica de seus jogadores ou por pura inquietação, o técnico Roberto Fernandes não conseguiu até hoje encontrar a chamada formação ideal. São mudanças constantes em todos os setores, desde o gol até o ataque.

Está nos manuais do nobre esporte bretão. Nenhum time adquire entrosamento com tantas e sucessivas alterações. No meio-de-campo, ponto nevrálgico de qualquer equipe, o Remo já mudou de cara incontáveis vezes. Nos últimos jogos, Reis se tornou uma espécie de coringa no setor, cobrindo a ausência de um meia-armador, embora seja atacante de ofício.

Antes dele, Tiago Potiguar já foi testado por ali, sem sucesso. E jamais irá dar certo naquele setor, pois é também um homem de frente. O mesmo aconteceu com Ratinho, outro atacante improvisado na meia.

O certo é que enquanto Danilo Rios não podia ser escalado, o Remo viveu de improvisações no compartimento mais importante do time. Com seu retorno anunciado para domingo, a criação deve finalmente ser entregue a um legítimo camisa 10.

Experimentações são até válidas, mas em excesso contribuem apenas para a balbúrdia tática. No caso do Remo, este é o problema que está na origem da instável performance em casa. Mais até do que o gramado ruim do Diogão.

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Show solo de Di Maria sobre a Alemanha

Existirá mesmo a tal depressão pós-Copa? A tese foi levantada novamente ontem depois da chinelada que a Argentina aplicou sobre a seleção tetracampeã do mundo, em Dusseldörf, com requintes de malvadeza.

Os times estavam bastante modificados, é bom que se diga. Messi, que a Fifa elegeu como melhor do Mundial, invento uma desculpa qualquer e não viajou à Alemanha. A seleção de Joachin Low entrou ainda mais desfalcada, com apenas três dos titulares da conquista no Brasil.

Chamou atenção, por sinal, o aparente desinteresse do técnico alemão pelo jogo, evitando recorrer a todas as suas forças para o jogo contra os vice-campeões do mundo. É claro que alguns atletas estão contundidos, mas boa parte deles podia ter sido relacionada para o jogo.

Na Argentina, Angel Di Maria resolveu aproveitar a ocasião para mostrar o futebol que o acaso não permitiu que exibisse na grande final realizada no Maracanã. Grande desfalque argentino na decisão, o meia desfilou em campo, dando passes primorosos, lançamentos precisos e até fazendo gol. Na ausência do astro Messi, ficou à vontade para dar um show solo e provar o quanto podia ter sido decisivo na finalíssima da Copa.

O futebol tem pressa e não se pode brincar de amistoso quando a história é construída a cada jogo. Lição para Low.

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A Estrela continua a brilhar

André Bahia, no apagar das luzes, crava a vitória que pode redimir o ano do Botafogo. Ano de pindaíba total, ameaça de rebaixamento, dívidas e humilhações sem fim, mas a Estrela Solitária segue a reluzir. Até em noite de apagão. Melhor ainda é que a vitória veio na bola, dentro do Castelão, sem necessidade de truques ou pênaltis roubados. Uma noite feliz.

Já no Maracanã o outro jogo angustiante da quarta-feira deixou muito a desejar. Nem tanto quanto ao empenho dos jogadores de Flamengo e Coritiba, que lutaram incansavelmente por seus objetivos.

O problema estava na arbitragem, velho calo em jogos que envolvem clubes de massa no Brasil. Principalmente quando esses clubes precisam de algum tipo de ajuda para seguir em frente. Ontem, o Flamengo talvez nem precisasse desse socorro, mas acabou premiado com um penal inventado no segundo tempo.

A bola foi chutada em direção ao zagueiro do Coritiba, que visivelmente tentou evitar o toque, mas o apitador foi implacável e assinalou a infração. Logo depois, ele ignorou um penal claro sobre Alex. Na sequência, em contra-ataque, saiu o terceiro gol rubro-negro, que levou à vitória na decisão em penalidades.

Coisas do futebol brazuca.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta quinta-feira, 04)