Copa das Copas – diário de bordo

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unnamed (85)O Centro de Imprensa do Maracanã, o maior da Copa do Mundo, abriga hoje cerca de 4 mil jornalistas credenciados para cobrir a final entre Alemanha e Argentina, às 16h. A movimentação é intensa desde as primeiras horas da manhã e o acesso ao estádio é controlado por várias barreiras de policiais, a fim de garantir segurança aos torcedores e aos profissionais da imprensa. O DIÁRIO DO PARÁ, representado pelo blogueiro, está credenciado para cobrir a grande decisão do Mundial, pela terceira Copa consecutiva.

Nos bares em torno do estádio, porém, a algazarra é muito grande, principalmente por parte da torcida argentina, que é muito mais numerosa que a da Alemanha. Durante a noite, os argentinos lotaram as ruas do centro do Rio, cantando e dançando, homenageando Maradona e Messi e – claro – provocando os brasileiros o tempo inteiro.

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Briga de cachorro grande

Por Gerson Nogueira

São dois finalistas que estavam nas listas de todo mundo para levantar a taça na decisão da 20ª Copa das Copas. É natural que, como país-sede, o Brasil aparecia sempre como um dos mais cotados, mas sua eliminação nas semifinais não tira o brilho da festa, nem significa que Alemanha e Argentina não mereçam estar na posição privilegiada em que se encontram.

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Todo mundo sabia que os alemães vinham se preparando febrilmente para fazer boa figura na competição, como coroamento de um trabalho de renovação interna iniciado ainda em 2004. Quanto à Argentina, a confiança não era tão grande, mas havia sempre o fato especial de possuir um jogador acima de discussões: Lionel Messi, tricampeão de Bolas de Ouro da Fifa e reconhecidamente o melhor atacante do planeta.

Com essas credenciais, as duas seleções fizeram uma Copa dentro de suas possibilidades. A Alemanha foi tecnicamente melhor, com uma caminhada sem maiores percalços e atropelando impiedosamente os adversários mais temíveis que encontrou pela frente, Portugal e Brasil. Só isso já justificaria sua presença na final.
Joachim Low formatou um time que conta na verdade com pelo menos 16 titulares, que se revezam e permitem ao time contar sempre com fôlego renovado.
A preparação no interior da Bahia já é destacada como a mais adequada entre as seleções visitantes, pois garantiu aos alemães uma perfeita adaptação ao clima tropical. Em nenhum dos jogos que disputou – nem mesmo na prorrogação contra a surpreendente Argélia – a equipe acusou cansaço, o que é sempre um ponto decisivo em Copas do Mundo.
Outro aspecto a ajudar a seleção germânica é a juventude do elenco, que tem média de 27 anos, com jogadores que se conhecem desde as escolinhas de futebol. Além disso, a base é o Bayern de Munique, que tem sete atletas entre os titulares de Low. Entrosamento, portanto, não é problema para a equipe, que se dá ao luxo de ter um repertório excepcional de variação de jogadas.
Já a Argentina, que sofreu sobressaltos sem conta, atrapalhando-se com adversários pouco expressivos (Bósnia, Nigéria, Irã e Suíça), notabilizando-se por escores magros e lançando mão de recursos próprios de times limitadores: uma defesa forte e um contra-ataque afiado. Até o craque Messi se escondeu em muitos momentos, embora tenha sido decisivo nas jornadas contra bósnios, nigerianos e iranianos. Por essa razão, o médio Di María, que apoia as ações ofensivas, teve um papel mais reluzente na estrutura montada pelo técnico Alejandro Sabella. Sua ausência na semifinal contra a Holanda foi sentida por toda a equipe, que perdeu dinamismo na saída de bola e mobilidade no ataque.
Não se viu uma atuação espetacular da Argentina ao longo de toda a Copa e é inegável também que a seleção de Messi se beneficiou de um chaveamento mais tranquilo do que, por exemplo, o do Brasil e da própria Alemanha, mas salta aos olhos que o time foi adquirindo a cada jogo um nível de confiança que lhe permite desafiar o favoritismo alemão na tarde deste domingo.

Será uma das decisões mais interessantes de todas as Copas, apesar de não ser inédita (em 1986, deu Argentina; em 1990, a Alemanha venceu). O simples fato de colocar em disputa a hegemonia Europa-América do Sul já torna o confronto especialíssimo, visto que nas últimas duas Copas as finais foram protagonizadas exclusivamente por europeus. Ainda não foi desta vez que foi possível ver a chamada mãe de todas as batalhas, o clássico Brasil x Argentina, mas é indiscutível que as duas seleções mereceram chegar ao topo.
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História não registra surpresas em finais
Desde que Dodô sambava no Andaraí que as Copas são quase sempre vencidas pelos times considerados favoritos. Uma exceção notável a confirmar a regra é o desfecho do mundial de 54, quando a fulgurante Hungria de Puskas e Kocsis caiu diante da briosa Alemanha do capitão Fritz Walter. Quatro anos antes, na primeira Copa brasileira, já havia acontecido uma quase zebra. O Uruguai de Máspoli e Obdúlio não era um timinho qualquer, mas era reconhecidamente inferior ao seleto grupo de craques do escrete canarinho, onde pontificavam Zizinho, Ademir e Danilo.
Depois disso, somente em 1974 o mundo voltaria a ver uma surpresa em decisão de Copa. Naquele ano, na Alemanha, a revolucionária Laranja Mecânica de Rinus Michels acabou torpedeada pela disciplina tática de uma seleção apenas regular, embora também formada por craques do nível de Beckenbauer, Sepp Mayer e Breitner. Acontece que o Carrossel Holandês de Cruyff, Neeskens e Kroll tinha um sistema inovador, que propunha ao mundo a filosofia do futebol-total. O primeiro time a atacar e defender com a mesma volúpia e habilidade. Massacrou muitos times pelo caminho, inclusive o Brasil, mas desmoronou justo na final em Berlim.
Caso vença hoje, a Argentina será a feliz protagonista da quarta zebra na história das finais de Copa.
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Kroos na pole para levar Bola de Ouro
Outra disputa paralela envolve a escolha da seleção da Copa e do craque da competição. Na última Copa, para espanto geral, a Fifa deu a Bola de Ouro ao uruguaio Forlán, que marcou gols importantes, mas não se destacou a ponto de merecer o troféu máximo. Antes, em 2002, a escolha foi ainda mais desastrosa. O goleiro Oliver Khan, da Alemanha, foi premiado um dia antes da final e horas depois falhou terrivelmente no primeiro gol brasileiro, marcado por Ronaldo.
Essa infeliz premiação de Khan forçou a Fifa a mudar seus procedimentos. Passou a fazer escolhas provisórias, com base em notas por rendimento técnico. Na pré-lista de 10 jogadores selecionados para levar a Bola de Ouro estão nomes como Neymar; Messi, Di María e Mascherano (Argentina); Robben (Holanda), James Rodriguez (Colômbia); Toni Kroos, Lahm, Muller e Hummels (Alemanha).
A forte presença de alemães faz justiça à excelente campanha da seleção. Apesar da excelente Copa de Robben e James Rodriguez, considero que o médio Kroos foi o mais brilhante da Alemanha e tem grandes chances de ficar com o troféu. A não ser que ao longo da partida final alguém se destaque mais que ele. Rodriguez já é a maior revelação da Copa, superando a jovens promissores, como Pogba (França) e Schuerrle (Alemanha).
A seleção do mundial deve contar com a presença de pelo menos um dos zagueiros brasileiros, com boas perspectivas para David Luiz, pois Tiago Silva ficou de fora da semifinal. Prova de que, cada vez mais, o Brasil se torna o país dos zagueiros.
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Apesar dos vira-latas, a Copa das Copas
Já que ninguém ligado à gestão do futebol no Brasil se preocupou com mudanças depois da trágica semifinal em Belo Horizonte, a presidenta Dilma Rousseff fez uma manifestação importante para o momento vivido pelo principal esporte praticado no país. Afirmou na sexta-feira que a derrota deve ensinar a aprender, projetando profunda reforma de todas as instituições que regem o futebol brasileiro. No começo do ano, Dilma já havia prometido isso aos jogadores que lideram o grupo Bom Senso F.C. em reunião no Palácio do Planalto.
A goleada de 7 a 1, na opinião da presidenta, aponta para a necessidade de uma mudança ampla, que visaria entre outras coisas reter talentos no país. Dilma observou que o Brasil é a sexta economia do mundo, o que lhe daria condições para evitar a exportação em massa de seus jogadores. Infelizmente, apesar de a ideia soar interessante no discurso, a realidade do futebol mundial não encoraja a crença na possibilidade de manter craques nos combalidos clubes nacionais.
É importante ressaltar, porém, que Dilma acerta em cheio quanto à necessidade de se tomar como exemplo a reforma levada a cabo na Alemanha, depois que a seleção fracassou na Eurocopa-2000. Por fim, no balanço da Copa realizada no Brasil, ela foi certeira: apesar do exército de oportunistas e vira-latas que marchou contra o evento, com o apoio da grande mídia, o mundial foi um sucesso de organização, fazendo jus ao título de Copa das Copas.
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Catastrofistas perderam, Brasil ganhou  
Um dos golaços da Copa das Copas foi a maciça presença da torcida nos estádios. Todos os jogos, inclusive aqueles mais chinfrins, tiveram lotação quase completa das arenas. O público prestigiou a competição como nunca havia acontecido antes na história. E o mais interessante é que esse êxito popular se concretizou mesmo depois das mais funestas previsões feitas por especialistas e que boa parte da mídia brasileira abraçou, justificando a definição de “vira-lata” por parte do escritor Ruy Castro, que observou uma tremenda má vontade com a Copa.
Em função desse clima hostil no Brasil, a imprensa internacional repercutiu as mazelas e problemas nas obras da Copa, dando a isso importância quase sempre exagerada. Ainda assim, milhares de torcedores do mundo inteiro vieram ao país acompanhar os jogos e puderam constatar que a alegria brasileira não é apenas um estado de espírito folclorizado pelo carnaval. Viram que há um povo que adora receber bem as pessoas e que tem orgulho de seu país, apesar dos muitos problemas decorrentes de séculos de incompetência e desprezo pelas instituições.
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste domingo, 13)

Carta da presidenta Dilma para a Seleção

Queridos jogadores e querida Comissão Técnica,

Vocês – e o futebol brasileiro – são maiores do que quaisquer resultados passageiros.

O que permanecerá mais forte no coração do nosso povo serão os momentos de alegria que vocês nos proporcionaram nesta Copa e que, seguramente, irão nos garantir em Copas futuras. Principalmente porque todos nós, sem exceção, saberemos aproveitar as lições de agora para melhorar ainda mais o nosso futebol, dentro e fora dos estádios.

É assim que vamos ampliar a história de sucesso da nossa seleção. Nós, brasileiros, não levamos a Taça, mas fizemos a Copa das Copas.

Sem vocês, isso jamais seria possível.
Recebam nosso carinho e nosso sincero agradecimento, 
Dilma Rousseff
Presidenta da República Federativa do Brasil