Copa das Copas – diário de bordo

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Equipe do DIÁRIO e da Rádio Clube do Pará já se encontra no Rio de Janeiro para cobrir a grande final da Copa do Mundo, domingo, às 16h, entre Alemanha e Argentina. O clima na cidade é de relativa calma, apesar da forte presença dos torcedores argentinos, que se concentram mais em Copacabana e na área do Sambódromo, onde muitos acamparam.

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A expectativa é de que no domingo o Maracanã fique dividido entre os dois preliantes, pois a Argentina terá a maciça presença do seu torcedor e a Alemanha será apoiada por grande parte dos brasileiros. Na sala de imprensa do Maracanã, pouquíssimos jornalistas durante toda a quinta-feira, cenário que tem a ver com a ausência do Brasil na festa de encerramento.

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É preciso redescobrir o craque

Por Gerson Nogueira
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Pensei que 24 horas bastariam para racionalizar e olhar a tragédia do Mineirazo sob perspectiva menos dolorosa. Ledo engano. Vi e revi os lances capitais daquele jogo da Alemanha (sim, só eles jogaram) só para constatar que o massacre irá nos assombrar eternamente. Nunca, em tempo algum, uma seleção anfitriã de Copa do Mundo foi tão duramente surrada por um time do mesmo nível. Não aconteceu isso nem com o México quando sediou dois Mundiais, 1970 e 1986. Nem com os Bafana-Bafana da África do Sul em 2010. Nossos hermanos argentinos não chegaram nem perto disso quando receberam a Copa. Os próprios alemães também nas duas vezes (1974 e 2006) que sediaram o torneio. Até os americanos, que gostavam mais daquele futebol com bola oval, passaram por tal vexame em 1994.
Não há registro de humilhação tão cruel. Duvido muito também que isso volte ocorrer tão cedo, até mesmo com o obscuro Qatar daqui a oito anos. E não vai se repetir pelo simples fato de que o Brasil vai virar exemplo a não ser seguido. Quando os técnicos estiverem dando aquelas preleções a seus atletas nos vestiários irão sempre usar a Seleção de Felipão como referência. Algo mais ou menos na seguinte linha: “Cuidado com o ataque deles, pessoal. Lembrem do que aconteceu com o Brasil na Copa”. O alerta será ouvido até nas peladas mundo afora.
O que dói mais a essa altura é a solidão que a desgraça impõe. Quando caímos em desgraça ficamos imediatamente solitários. Não há solidariedade possível nessas horas. No futebol isto ocorre de maneira ainda mais explícita. Como nenhum outro time se permitiu ser arrasado tão categoricamente e em curtíssimo espaço de tempo, o Brasil se vê agora na posição constrangedora de ser o pior do planeta. De pentacampeão glorioso e respeitado ao longo de décadas virou um Íbis entre as seleções.
Caso fosse realmente sério, o tal ranking da Fifa deveria agora estar sendo postado em todas as grandes esquinas do mundo em luminosos imensos mostrando o Brasil na lanterninha entre as nações. Não há hoje nenhuma seleção mais desqualificada do que a nossa. Fato.
É atordoante também a constatação de que em menos de 30 minutos de bola rolando o Brasil destruiu, jogou no lixo uma reputação até então inatacável. De seleção admirada em todos os rincões se tornou alvo de pilhéria ou pena, não se sabendo o que é pior. Os jornais retrataram em manchetes garrafais a derrocada brasileira em Belo Horizonte.
Alguns conseguiram conter o riso, preferindo manter aquele tom civilizado e compreensivo que devotamos aos inferiores. Não há dúvida: a Seleção Brasileira retratou em cores nítidas aquela velha máxima de que construir é difícil, mas destruir requer pequeno esforço. Na verdade, o caso do time de Felipão é de auto-destruição.
Tudo o que foi feito por heróis do porte de Nilton Santos, Didi, Pelé, Garrincha, Amarildo, Tostão, Jairzinho, Gerson, Carlos Alberto, Rivelino, Romário, Ronaldo e Rivaldo foi enxovalhado pela omissão criminosa de alguns figurantes de meia pataca. No fundo, o infortúnio era até previsível, afinal não se concebe que um Hulk ou um Dante no panteão dos grandes ídolos do nosso futebol.
Como os que convocam e armam times são figuras sem referência histórica, qualquer bonde passou a ter direito de pleitear um lugar na Seleção. Antes, os pernas-de-pau eram contidos, tinham vergonha de se assanhar a serem convocados. Hoje, não. Eles se arvoram até a serem titulares, com o endosso de enganadores dos mais diversos matizes e origens.
Na medida em que os caneleiros começaram a ter notoriedade, os craques ficaram em desvantagem. Até porque craque que é craque não precisa ficar propagandeando seus feitos. Os medíocres gritam e cavam espaço na marra. Os bons são tímidos e calados. Nossa ruína passa por aí, pela incapacidade de separar os zé-ruelas dos realmente grandes. Perdemos o faro para saber quem é o verdadeiro craque. Todo mundo se acha no direito de jogar na Seleção. É preciso alguém dar um freio nessa avacalhação.
É bom lembrar que seleção, o nome já diz, é a reunião da excelência. Não é o caso da atual Seleção. Neymar era a única andorinha do elenco, cercado de gente mediana ou fraca. Talento mesmo só ele tem. David Luiz e Tiago Silva são bons jogadores, os goleiros também. Os demais são limitados, meros carregadores de piano que só funcionam como coadjuvantes, cumpridores de ordens. Não se ganha Copa só com operários.
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Aos trancos e barrancos, Argentina está na final
Aconteceu o que boa parte da torcida argentina não acreditava e que a imensa maioria dos brasileiros não queria. A Argentina chegou à final da Copa. Um de nossos piores pesadelos (o outro aconteceu na véspera) se materializou ontem, na Arena São Paulo. Depois de 120 penosos minutos, sem que Messi ou Robben tivessem mostrado um pingo de brilhantismo, argentinos e holandeses tiveram que decidir a vaga nas penalidades. Aí, como bem confessou o goleiro Romero, a sorte pesou. A Holanda, veterana na arte de bater na trave, perdeu dois penais (um dos quais cobrado pelo craque Sneijder) e viu o time de Sabella festejar um feito improvável.
Sim, com o futebol mostrado ao longo de toda a Copa, a Argentina não fez por merecer a condição de finalista. Dentre os favoritos, era a seleção com a melhor caminhada, a começar pelo grupo garapa onde caiu – Bósnia, Nigéria e Irã! Atrapalhou-se em quase todos os jogos, foi levando a coisa aos trancos e barrancos, safando-se nos minutos finais (Suíça) ou meio ao acaso (Bélgica) e chegou à decisão.
Terá a missão de suplantar a Alemanha, que desponta como grande candidata ao cetro máximo depois de escorraçar o anfitrião da Copa. Acontece que final tem características próprias, não cabendo muito a presunção de superioridade. Quase sempre o melhor time prevalece, mas há lugar para surpresas, principalmente quando um fora-de-série está em campo. A Alemanha tem um senhor time, mas a Argentina tem um grande craque.
Tudo isso está sendo dito com mal disfarçada inveja. Tudo o que queríamos era ver a camisa canarinho na decisão da Copa das Copas.
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Comissão perde a chance de sair de cena
Na entrevista que a comissão técnica do Brasil concedeu ontem, uma situação intrigante se repetiu. Como Felipão havia feito logo depois do jogo, todos foram enfáticos em dizer que a Seleção “sai de cabeça erguida” e foi responsável por momentos felizes do povo brasileiro. Ora, é claro que o torcedor enfeitou ruas e vibrou com as vitórias, mesmo aquelas bem esquálidas. Faz parte. Mas os comandantes do escrete esquecem que se espera de um torneio que produza felicidade plena, ainda mais quando realizado em nosso quintal.
Aparentemente para confirmar suas declarações quanto à satisfação do torcedor, Parreira leu a carta de uma senhora, parabenizando e elogiando o caráter de Felipão. Ninguém está julgando o caráter do treinador, apenas avaliando sua competência para montar um time.
Esperava que a comissão se comportasse de acordo com a gravidade da situação, assumindo os erros e anunciando sua demissão irrevogável. Esta seria a única atitude coerente e digna a essa altura.
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Alemães surpreendem e cativam
A Alemanha está infernal nesta Copa. Não apenas em campo. Como visitantes, comportam-se maravilhosamente. Construíram um centro de treinamento de primeiro mundo no interior da Bahia, ajudando ainda com obras na comunidade, que serão deixadas para a população depois da Copa. Simpáticos e comunicativos, interagem com os moradores e conquistam a todos. Poucas vezes se viu uma seleção alemã tão risonha e franca.
Só ficaram sérios na hora de festejar a estupenda vitória sobre o Brasil. Com dignidade, acenaram para os torcedores e comemoraram discretamente. Pareciam constrangidos pela surra aplicada nos donos da casa. Preocuparam-se em consolar os derrotados, agindo como os verdadeiros vencedores agem.
Horas depois, jogadores como Podolski e Schwarzteiger dispararam mensagens nas redes sociais pedindo desculpas ao povo brasileiro, defendendo de forma comovente seus colegas de profissão brasileiros. Foram sinceros e cativaram a todos. São campeões da civilidade.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta quinta-feira, 10)