Copa das Copas – diário de bordo

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unnamed (90)Depois de uma viagem que durou quase 7h, este escriba baionense já se encontra no Media Center do Mineirão, aguardando a hora do jogo e enviando material para o Copa 2D do DOL e caderno Bola do DIÁRIO, além de participações na programação normal da Rádio Clube do Pará. O voo de Belém até Belo Horizonte teve conexão em Carajás, onde a espera chegou a 2h30.

Em BH, o clima é de total entusiasmo pelo confronto desta tarde. Nas ruas, muitos torcedores passaram a noite em claro e desde o começo da manhã já há movimentação às portas do Mineirão. Jornais e emissoras de rádio informam que as torcidas de Cruzeiro e Atlético-MG deverão fazer muitas homenagens a Neymar como forma de incentivar a Seleção de Felipão contra a Alemanha.

Fé cega, faca amolada

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Por Gerson Nogueira
Depois de três Copas, o Brasil chega outra vez entre os quatro melhores do mundo. Não é tanto tempo assim, mas a façanha é expressiva e elogiável, principalmente se levarmos em conta o crescente equilíbrio entre as seleções que integram o chamado primeiro mundo do futebol. E a amparar o otimismo da torcida há o fato de que o Brasil costuma chegar e levar. A Alemanha, rival de hoje, já chegou mais (13 vezes), mas também saiu derrotada em maior quantidade, merecendo até observação o fato de que a Holanda é muito citada como “eterna vice”, mas os alemães também têm um retrospecto que faz pensar. Conquistaram três títulos mundiais, o que não deixa de ser pouco se comparado ao fato de serem recordistas de chegadas à reta final tantas vezes.
Analisar de véspera confrontos decisivos é sempre um convite ao lugar-comum das previsões de pé quebrado ou em cima do muro. Por isso mesmo, costumo apostar avaliar com base mais no próprio sentimento que o jogo desperta. Muitas vezes as qualificações de um time não significam que a vantagem sorrirá para o seu lado, até porque o futebol não é ciência exata.
Os cartesianos vão buscar detalhes, valências e coincidências a fim de estabelecer a análise comparativa. Respeito quem se embrenha pelo cipoal de números, mas ainda fico com o lado que é pautado pela emoção e pelos caprichos do destino. Quem, por exemplo, iria acreditar que aquele Brasil sem criação no meio-campo conseguiria chegar à finalíssima e levantar a taça na Copa dos Estados Unidos, em 1994? Ou que a inconstante e criticadíssima Itália levaria a cabo aquela campanha de superação em 1982?
Os arquivos estão abarrotados de situações que fazem crer que a Copa do Mundo é um torneio especial pela capacidade de subverter a lógica das coisas. Brasileiros e alemães se enfrentam sob o peso dessa tradição histórica. Se levado em conta o aspecto puramente racional, a Alemanha estaria mais credenciada a ir em frente, pois superou adversários tão ou mais difíceis que os que atravessaram o caminho do Brasil. Além disso, tem sido sempre um time organizado, com poucas oscilações de comportamento ao longo das partidas. Conta com o trunfo de duelar com uma Seleção Brasileira golpeada pela perda de Neymar e Thiago Silva (suspenso).
Há, ainda, uma vantagem adicional a ser contabilizada: a esquadra germânica colhe os frutos de um renovação iniciada para a Copa de 2006. O bem-sucedido trabalho está dando seus frutos agora, com o amadurecimento de Muller, Lahm, Kroos, Neuer, Podolski e Schwarzenteiger.
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Ocorre que um clássico da magnitude de Brasil x Alemanha envolve muitas outras condicionantes, dentre as quais destaco o sentido de alma. Um time, mesmo desfalcado, é sempre perigoso na medida em que abraça uma causa e passa a acreditar piamente nela. A Seleção parece estar vivendo esse momento especial, transformando em união e fé o que até três dias atrás era apenas tragédia.
Felipão, useiro e vezeiro em capitalizar momentos psicológicos importantes, abraçou-se às súbitas dificuldades advindas do jogo com a Colômbia como um náufrago se agarra ao bote salva-vidas. A Seleção, que ainda não tinha conseguido jogar como um conjunto afinado até as quartas-de-final, de repente achou um motivo para tocar na essência do heroísmo, ganhando forças para superar suas deficiências.
Os mais pragmáticos irão dizer que não dá para vencer apenas com base na motivação. Eu digo que dá. Se fosse um outro torneio qualquer talvez não fosse possível levar a cabo uma estratégia centrada no lado motivacional, mas a Copa do Mundo é tão rica em conflitos e aspirações que tudo pode ser resolvido pela força da entrega. Não estou falando de patriotismo, mas de compromisso com uma nação que se vê representada a cada quatro anos num campo de futebol.
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Incerteza até uma hora antes da decisão
Willian foi o suplente que mais mereceu atenção por parte de Felipão nos dois treinos finais da Seleção. Isso indica que suas chances de substituir Neymar são maiores que as de Bernard e até mesmo de um terceiro volante (Paulinho?). Apesar desses indícios, continua sob completa incerteza o desenho tático que o técnico vai armar para encarar o time de Low.
Com Willian, a bola vai chegar com mais facilidade a Fred e Hulk, mas o time tende a ter mais parcimônia para sair da defesa para o ataque, o que pode ser ruim diante de um adversário que concentra seu poder de fogo no entrosamento do meio-campo.
Na hipótese de lançar Bernard, Felipão estará partindo para a alternativa mais técnica e dinâmica. Essa mudança obrigará Hulk a ficar mais preso à marcação, provavelmente dando escolta a Marcelo na lateral esquerda.
Continuo, porém, desconfiando que a saída será a mais convencional possível: três volantes à frente da linha de zagueiros, com Paulinho (ou Hernanes) com liberdade para sair e apoiar as jogadas ofensivas e os laterais mais livres para ir à frente.
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Duelo das torcidas mineiras
Os mineiros são parcimoniosos por natureza, costumam olhar de forma enviesada e ouvir muito. Sempre foi assim nas arengas políticas e no futebol também. Nas rádios de Belo Horizonte torcedores de Atlético-MG e Cruzeiro se revezam nas queixas ao que consideram injustiças na convocação da Seleção. Cruzeirenses acham que Fábio, Everton Ribeiro e Ricardo Goulart mereciam estar no grupo. Os atleticanos acham que Jô deve ser titular, barrando Fred, e que Ronaldinho Gaúcho também seria útil na ausência de Neymar.
Quanto aos lamentos cruzeirenses, concordo quanto a Fábio e Everton, que inegavelmente têm futebol para integrar o escrete. Quanto aos protestos atleticanos, não vejo razão. Jô entrou em dois jogos sem mostrar a que veio e Gaúcho deixou definitivamente cravada a imagem de indolência no confronto contra os marroquinos no Mundial de Clubes.
Mesmo com as reclamações, a Seleção dependerá muito da união de esforços de adeptos de Galo e Raposa para superar os frios e determinados alemães.
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A despedida de Don Alfredo
Alfredo Di Stéfano, personalidade maior do futebol argentino em todos os tempos, era uma espécie de embaixador itinerante do Real Madri. Sua morte aos 88 anos, ocorrida ontem, desperta homenagens de todos os desportistas do planeta e permite que se analise seu legado para o nobre esporte bretão. Mesmo tendo defendido as camisas nacionais de Argentina, Espanha e Colômbia, Di Stéfano não teve a honra de disputar uma Copa do Mundo. Viola jogou a sua, Roque Júnior também, Anderson Polga idem, mas o melhor dianteiro argentino das décadas de 50 e 60 foi privado de desfilar seu vistoso futebol perante plateias do maior torneio do mundo. Azar da Copa do Mundo, que não teve o privilégio de ver em ação um dos grandes de todos os tempos.
O curioso é que Di Stéfano, muito antes do acirramento da rivalidade boleira entre Argentina e Brasil, já tinha lá suas prevenções contra craques brazucas. Hostilizou publicamente mestre Didi no Real Madri e também não simpatizava muito com o Rei Pelé.
Contemporâneo de Puskas e Gento, Di Stéfano era um andarilho do futebol e antecipou-se em décadas à globalização do esporte, emprestando seu talento à célebre liga pirata de Cartagena, a troco de uma fortuna para a época. Foi um dos primeiros craques bem pagos da história da bola.
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(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta terça-feira, 08)