O verdadeiro legado da Copa das Copas

Por Gerson Nogueira

O futebol nunca mais será o mesmo no país do futebol. A Copa das Copas, entre inúmeras outras benfeitorias que vai trazer ao país, demarcará um novo tempo até na forma de torcer. Foi assim por onde ela passou antes e no Brasil certamente não será diferente.

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Já há quem levante a tese da Copa permanente, conceito que deve ser abraçado por todos os agentes esportivos do país no sentido de perseguir níveis de qualidade crescentes. De dirigentes a treinadores, de jogadores a técnicos, passando naturalmente pela participação direta do torcedor.
Não se concebe mais a adoção de práticas amadoras no país que tem hoje as arenas mais imponentes e modernas do planeta. Isso significa que torneios deverão ser melhor organizados, com segurança e respeito aos direitos do torcedor. Quer dizer, também, que o futebol precisará de dirigentes que o administrem com mais seriedade e zelo.
O que já é preconizado no Estatuto do Torcedor deve virar lei de verdade, obedecida por todos que amam esse negócio chamado futebol. Os clubes também deverão passar a ter uma postura mais transparente na prestação de contas e na convivência com seu cliente maior, o sócio-torcedor.
Vejo ainda uma imensa vantagem neste processo de mudanças para clubes que saem da Copa com seus estádios testados e plenamente aprovados. São os casos de Corinthians, Atlético Paranaense e Internacional. Donos, respectivamente, da Arena Itaquerão, Arena da Baixada e Beira-Rio, os três tendem a liderar essa nova era do futebol brasileiro, não só dentro de campo.
São clubes que passam a dispor da capacidade de se organizar para captar recursos que hoje não são direcionados ao futebol. Largam na frente num território em que os clubes europeus já são dominantes, com expertise suficiente para transformar toda e qualquer ação em dinheiro vivo.
Apesar da diferença que passa a existir entre os três clubes citados e as demais agremiações brasileiras de primeira linha, os benefícios gerais decorrentes da organização da Copa irão se estender sobre toda a estrutura do futebol nacional.
Marketing, faturamento paralelo (uso de arenas para grandes eventos musicais e de negócios), inserção na agenda internacional e parceria com grandes marcas são os itens mais visíveis do arsenal de boas notícias para o futebol do Brasil.
Em consequência disso, o cliente final será o grande beneficiário destes novos tempos. Até mesmo o torcedor de poder aquisitivo menor poderá ter acesso aos programas de associação com os clubes, pois as modalidades serão amplas e buscarão atingir todos os públicos. Em Portugal, o Benfica disponibiliza programas de custo mensal baixo a fim de agregar todas as camadas sócio-econômicas. Não por acaso é o clube com maior quantidade de sócios-torcedores – cerca de 240 mil.
Para os pessimistas de plantão e eternos porta-vozes da vira-latice crônica lamento informar que a atual Copa das Copas, êxito absoluto no presente, será também um grande sucesso no futuro.
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Um mundial dominado pelos goleiros
Os goleiros merecem um capítulo à parte nesta Copa. Apesar da marca recorde de gols na competição, com goleadas generosas e média em torno de 3 gols por partida, eles estão fazendo muito sucesso. Poucas vezes se viu uma geração tão competente de goleiros. E alguns até então desconhecidos do grande público estão aproveitando a visibilidade para mostrar suas qualidades.
Já conhecíamos Buffon, Neuer, Julio César, Romero e Mondragón, mas pouca gente havia se dado conta da existência de Enyeama (Nigéria), Dominguez (Equador), Ospina (Colômbia), Navas (Costa Rica), Benaglio (Suíça) e Bravo (Chile). Além deles, brilham nomes que já estavam na estrada, embora ainda não ocupantes da ribalta. Courtois (Bélgica), Ochoa (México) e Howard (EUA) estão nesta última galeria.
E o norte-americano faz por merecer um espaço único, apenas pelo que realizou na partida das oitavas diante da Bélgica. Agarrou 16 bolas de média e alta dificuldade, salvou seu país de uma goleada nos 90 minutos. Continuou a pegar muito nos 30 minutos da prorrogação, sendo vencida apenas em disparos indefensáveis.
De história pessoal muito bonita, Howard é um desses heróis que o futebol é pródigo em revelar. Saiu de campo derrotado, na Arena Salvador, mas com a aura de vencedor. Emocionou-se ao admitir que seu time havia perdido para uma equipe melhor, revelou grandeza e ao mesmo a tristeza dos bravos. Sua atuação espetacular no jogo ganhou manchetes e homenagens nos Estados Unidos e pode ser a ponta de lança para o avanço definitivo do soccer no país mais rico do mundo.
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Fiscalizar é a melhor prevenção
A invasão de campo, anteontem, em Salvador, por um italiano acostumado a pular das cadeiras para os gramados deixa algumas lições para organizadores de grandes jogos e também para o torcedor comum. Depois de correr em círculos envergando uma camiseta do Super Homem, o sujeito foi agarrado pela segurança e entregue à polícia. Havia saído da ala do estádio destinada a cadeirantes. Foi autuado por falsidade ideológica e invasão de campo, devendo ser deportado para a Itália.
Aos organizadores, a lição que deve ser incutida é de que cabe aumentar os mecanismos de fiscalização aos torcedores, como forma de proteger os demais clientes do espetáculo. E aos torcedores resta colaborar denunciando as práticas da picaretagem nos estádios, que às vezes termina sem maiores consequências (como desta vez, em Salvador), mas que pode muito bem servir aos interesses de invasores mais perigosos e até letais.
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Crise de abstinência assola o país
Há muita gente se queixando de crise de abstinência por dois dias sem futebol na Copa. De fato, a super dosagem de bola rolando vicia e escraviza, no bom sentido. Ainda mais quando são oferecidos jogos de alta qualidade técnica e emoção contagiante. Até times menos qualificados, como Nigéria e Argélia, realizaram atuações dignas do maior torneio de futebol do planeta. A quantidade recorde de cinco jogos das oitavas terminados em prorrogação exemplifica bem o grau de excelência e equilíbrio reinante na competição.
Além do número de torcedores que tem se valido de atendimento cardiológico, como nas disputas por penalidades, poderemos ter muita gente recorrendo a cuidados médicos sob sintomas de abstinência. A sorte é que, se a bola faz sofrer, ela também cura. A partir de amanhã, começa a fase mais nobre da Copa, com os jogos que definirão os semifinalistas. Basta esperar mais um pouquinho.
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Direto do blog
“Penso que o próximo governador do estado deveria nos dar uma Arena estilo Fifa..Poderia transformar o Mangueirão em uma Arena. Precisaríamos de um governante com responsabilidade e a coragem de Lula/Dilma e não com a inércia e blá blá blá de Figueiredo, FHC e cia. Lula/Dilma mostrando como os outros presidentes eram incompetentes e medroso. Com eles, iríamos morrer e não ver uma Copa no Brasil. Lula e Dilma trocaram o blá blá blá pela competência e coragem. E ainda por cima, fazem a melhor Copa de todos os tempos. O mundo fala isso e o brasileiro, se orgulha. Nota 10”.
De Cláudio Santos, aplaudindo a Copa das Copas.
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta quinta-feira, 03)