Torcida forte e intensa, time nem tanto

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Por Gerson Nogueira

O mais interessante do jogo de ontem à tarde, no Arena Itaquerão, foi a barulhenta cantoria dos torcedores argentinos, sacaneando com o Brasil e louvando o papa Francisco, prometendo que Messi vai ganhar a Copa aqui dentro e – como de hábito – apregoando que Maradona é melhor que Pelé.

Zoação típica de torcedor, os gritos de provocação dos hermanos são bem ensaiadas e têm rima gostosa, ao contrário dos cânticos de guerra das “organizadas” brasileiras, que a cada verso incluem palavrões e ameaças de morte.

Não que os barra-bravas de lá sejam mais bonzinhos que os daqui, mas o fato é que a galera que veio para a Copa tem dado um show dentro dos estádios, empurrando o time de Alejandro Sabella e esbanjando bom humor.

Em campo, a história não foi tão festiva assim. Favorita desde sempre para a Copa 2014, a Argentina sofreu um bocado para superar a limitada e disciplinada Suíça. Com cinco jogadores na linha de defesa, a seleção europeia se concentrou primeiro em impedir os avanços de Messi, Lavezzi e Hinguaín.

Só não encontrou jeito de neutralizar Di Maria, que jogou solto por todos os quadrantes do gramado. Organizando a saída, ainda teve fôlego para ir ao ataque e criar as melhores alternativas de finalização. O problema é que os atacantes estavam pouco inspirados, chegando sempre atrasado e raramente acertando o gol.

Messi fez duas tentativas, sem maior perigo, e Higuaín só foi notado por um forte cabeceio no final do tempo normal. Lavezzi era o mais ativo, buscando a extrema esquerda e levando a marcação na base de muitos dribles. Apesar de seu esforço, as jogadas não tinham continuidade, permitindo que a zaga suíça se recompusesse e afastasse os cruzamentos mais agudos.

Os 90 minutos foram consumidos em tentativas de pouca eficácia, de parte a parte, com os suíços se limitando a manobras com o hábil Shaquiri. Não fosse pela solidão do atacante, a Suíça talvez tivesse melhor sorte, pois os defensores argentinos permitiram contra-ataques seguidos.

Na prorrogação, duas estratégias bem claras. A Suíça claramente jogando para gastar o tempo e esperar a cobrança de penalidades. A Argentina começa já em desespero evidente, partindo com tudo para cima, mas sem lucidez ou criatividade. Até Messi andou se irritando com os próprios erros e chegou a cometer falta que merecia uma advertência. Di Maria tenta de fora da área, mas o goleiro põe a escanteio.

Veio então o 13º minuto do segundo tempo e a Suíça foi desarmada no meio-campo. Di Maria avançou, tocou a Messi e este segurou a pelota, atraindo a atenção de três zagueiros. Com a bola colada ao pé esquerdo, o craque vislumbrou Di Maria entrando pela direita, livre, pronto a receber. E assim foi feito. No instante seguinte, tocou rasteiro, fora do alcance do bom goleiro Benaglio, fazendo explodir a maioria dos torcedores presentes ao estádio corintiano.

Mas o jogo ainda reservaria um momento de suspense para os hermanos, com direito a bola na trave aos 16 minutos e uma falta perigosa cobrada por Shaquiri no finalzinho. Um milagre? Talvez “são” Diego tenha a ver com isso, ou até mesmo o papa, que também foi lembrado no hino de vitória dos argentinos.

O triunfo faz esquecer as agruras, mas é evidente que Sabella ainda não conseguiu que seu time jogue com sincronia e seja de fato visto como um favorito. Tem sido beneficiado pelos espasmos de gênio de Messi e obviamente bafejado pela sorte – mais ou menos como o Brasil.

Os dois velhos rivais estão mais parecidos do que nunca.

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Futebol não pode ter mistérios

Algo de esquisito está ocorrendo na Granja Comary. A crise existencial que ronda a Seleção Brasileira, explorada com exagero por alguns veículos da grande mídia, começa a ganhar mais importância do que questões realmente urgentes, como a substituição de Luiz Gustavo e os problemas de indefinição no ataque.

Em conversa com um grupo de jornalistas, na última segunda-feira, Felipão admitiu a existência de preocupações com o aspecto emocional do time, mas também avaliou que são atitudes normais, explicitadas de maneira mais forte em situações de pressão e cobrança.

Felipão deveria ter aproveitado para dizer que as manifestações públicas de tristeza ou apreensão de jogadores como Thiago Silva, Neymar e Julio César são acima de tudo humanas. É compreensível que a disputa de uma Copa dentro de casa, com obrigações tão claras, provoque tais reações nos jogadores.

Povo chorão por natureza, o brasileiro ficaria irreconhecível é se enfrentasse uma Copa do Mundo com aquele ar britânico de enfado. As lágrimas dos jogadores na execução do hino nacional não atrapalham e nem devem surpreender. Pelo contrário, são inteiramente previsíveis.

E já é hora de alguém atinar para o fato de que o Brasil não tem uma safra excepcional de jogadores, como no passado. Há um fora-de-série apenas no time. Neymar é tudo, arco e flecha, armador e finalizador. Às vezes, resolve. Outras vezes, não consegue. O sofrimento contra mexicanos e chilenos deve se repetir nas próximas jornadas, mas é parte do processo. Não há nenhuma seleção sobrando nesta Copa e este equilíbrio vai nos favorecer no fim das contas.

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Velocidade belga e bravura ianque

Estados Unidos e Bélgica fizeram um dos mais empolgantes confrontos deste Mundial. Nos 90 minutos, os belgas foram incisivos e abusaram de perder chances. A maioria dos disparos de Hazard e seus jovens companheiros parou nas mãos do excelente Howard, que defendeu 16 bolas – um recorde nesta Copa.

Se o torneio organizado pelo Brasil merece a denominação de Copa das Copas o jogo de ontem em Salvador faz jus à condição de melhor jogo das oitavas de final. Vibrante, não deixou ninguém quieto nas arquibancadas. Era emoção a todo instante, principalmente nos 30 minutos de prorrogação, quando aconteceram os três gols.

A Bélgica avança, mas os Estados Unidos jogaram com uma vontade comovente. Tipo da derrota que dignifica um time.

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Torneio confirma talento de jovens astros

James Rodriguez, artilheiro e melhor jogador da Copa na primeira fase, tem semelhanças interessantes com Neymar. Têm 22 anos, usam o número 10 na camisa e demonstram a mesma volúpia ofensiva.

Acontece que Rodriguez não era tão conhecido quanto o brasileiro antes da Copa, embora já tivesse sido protagonista de negociação milionária entre o FC Porto e o Monaco, seu clube atual. Depois dos gols marcados na Copa, ganha credenciais de novo astro do futebol mundial.

Outra diferença é que Rodriguez joga com a 10 e ocupa uma faixa de campo mais condizente com o número. É um meia-armador, que tem potencial ofensivo, mas que trabalha um pouco mais recuado que Neymar.

Algo que ninguém pode negar aos dois é a condição de craques indiscutíveis, que a Copa está se encarregando de confirmar.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta quarta-feira, 02)

14 comentários em “Torcida forte e intensa, time nem tanto

  1. Concordo, amigo Gerson, falava isso, inclusive a um amigo meu ontem… Brasil e Argentina estão quase iguais, que até o gol Argentino, desde a jogada do Messi, lembrou gol do Rivaldo, quando Ronaldinho puxou contra ataque e colocou para Rivaldo que bateu no mesmo estilo Di María, ontem… Mas vejo um detalhe na Argentina em relação ao selecionado brasileiro, e que vem fazendo a diferença: Argentina tem 2 armadores de qualidade(Messi e Di María) coisa que o Brasil, sequer tem 1.

  2. Esse negócio de muito choro, Gerson e amigos, concordo com o Felipão.. Na verdade ele não está dizendo que jogador não pode chorar, tipo aquela coisa de homem não chora e tudo mais… mas quando por tudo você chora, mostra que você está num momento muito sensível, frágil, em sua vida e isso é prejudicial ao jogador de futebol, pois não consegue focar o objetivo, como deveria.. Mostra que ele está fora de foco… Por isso, um bom psicólogo, ajudaria muito… Antes que seja tarde… Sem contar, que não é só ele…

    É a minha opinião

  3. assisti a todos os jogos dessa Copa, praticamente e, ontem, a Bélgica era pra ter aplicado a maior goleada da Copa e quase se complica no final… Seria uma grande injustiça…
    Bélgica, Colômbia e Costa Rica, já deram o que tinham que dar… Agora, começa outro campeonato… Aí, Seleções que tem craques consagrados, crescem…. Aposto nas semis, em:

    Argentina x Holanda e Brasil x Alemanha ou França

    – Brasil, precisa usar 3 zagueiros e 2 volantes de saída, para, primeiro neutralizar a Colômbia e depois fazer seu jogo e passar às semi finais… Tiraria o Hulk, desse time.

    É a minha opinião.

  4. A seleção não é brilhante e a safra de jogadores não é das melhores. É só olharmos para o banco de reservas e ver que não há nenhum jogador com condição de mudar os rumos de uma partida. Podemos até conquistar o Hexa, mas vai ser com muito sofrimento.

  5. Ainda não firmei opinião sobre esta emotividade aflorada d’alguns jogadores brasileiros em certos momentos da copa. Por isso, dentre várias opiniões abalizadas na matéria futebol, mais exatamente na matéria disputa de copa dentro de campo, vou resumir aqui duas:

    Ouvido a respeito, em resumo, Dunga sustentou que cada grupo tem sua característica, cada jogador tem sua emoção, e um jeito individual de expressá-la, e que cada capitão tem seu jeito particular de exercer as funções do encargo, e que o mais importante é que na hora do jogo o time alcance o resultado pretendido.

    A seu turno, Carlos Alberto, o Capita, em síntese, estranhou deveras a postura emotivamente aflorada, principalmente o isolamento e choro do capitão na hora da reunião prévia a escolha de quem efetuaria as cobranças de penalti. Sustentou que sempre foi capitão na sua vida de jogador, tendo começado a usar a braçadeira ainda na categoria de base e encerrou capitaneando feras como Pelé, Gerson, Rivelino, de temperamentos os mais diversos, e que na hora do aperto é do capitão que se espera, e o que se espera é firmeza, é presença diante dos companheiros, inclusive para estimular os mais emotivos que existem em qualquer time.

    A opinião do Dunga é seguida por gente da mídia futebolística, como por exemplo o PVC, que sustenta, em síntese, que se for verificar quem são os emotivos, vai se notar que estes são os que estão tendo o melhor desempenho na copa: Neimar, David Luiz, Tiago Silva.

    Já a opinião do Capita é seguida dentre outros pelo Neto da Band, que, em resumo, diz que é inconcebível que o capitão do time não compareça diante dos companheiros para lhes estimular, que não use positivamente a liderança que o cargo exige.

    Por último, de anotar que na midia há muitos que sustentam que esta exploração deste aspecto da emotividade, da psicologia dos jogadores, constitui uma conveniente moleta, uma cortina de fumaça para esconder a péssima campanha que o time está fazendo na copa. Seria uma saída pela esquerda que estaria sendo preparada pela Comissão Técnica e diretoria da cbf para justificar o tropeço.

    São muitas tendência, muitas opiniões, quem sabe a verdade não agregue um pouquinho de todas elas.

  6. Assim como o gol do Di Maria foi parecido com o do Rivaldo em 2002, o gol do Snejder também foi muito parecido com o do Oliseh na vitória da Nigéria sobre a Espanha em 98, ano que a Fúria também caiu na primeira fase.

  7. A seleção americana teria tido melhor sorte se o Altidore não tivesse se machucado, faltou um homem de área no time do Klismann.

  8. Eu aposto na Holanda como favorita para conquistar essa copa. A Laranja nem vêm jogando um futebol bonito, porém, tem sido um time frio e calculista, que se resguarda do calor na primeira etapa e utiliza seus reservas para massacrar os adversários, já cansados, no segundo tempo. Por outro lado, a Alemanha tem o melhor elenco dessa copa, porém o técnico alemão vem se revelando um verdadeiro Professor Pardal, deslocando jogadores de suas verdadeiras posições e jogando sem centroavante. Por enquanto, tem conseguido passar as duras penas por adversários mais fracos, mas não acredito que suas invenções funcionarão contra seleções tradicionais. A Argentina vai cair no primeiro grande time que enfrentar, ou seja, a Holanda. O Brasil depende das mudanças que o Felipão promete fazer, mas se continuar com esse esquema com três atacantes e um meio de campo inoperante, cairá para a Colômbia. Esta por sua vez, é a seleção que melhor jogou até agora, porém, além de ser inexperiente em mundiais, ainda não foi devidamente testada. A França tem um bom conjunto, mas apenas um grande jogador, Benzema, portanto, insuficiente para levantar um caneco. Costa Rica e Bélgica são intrusas nas quartas de final e não passarão do próximo jogo.

  9. Concordo com você Edson…

    Na Argentina Tevez foi barrado por Messi. Eles não se bicam rs.

    Nos USA não sei a razão do bom Donovan não ter vindo a copa.

    Ja no Brasil..

    Ganso foi barrado pela irregularidade do Ganso. Mas Felipão teve chance de testa-lo e não fez.

    Ronaldinho, segundo Kajuru, foi barrado pela Cachaça no jogo amistoso em Belo Horizonte.

    Kaka, só Deus sabe…

    Ps. Levat Kardec é muita falta de opção… Fabiano idem… Cadê o Felipe Coutinho?

  10. Mas, Edson, o Felipão tem (ou tinha) crédito para fazer o que fez para esta copa de 2014.

    Lembra que para a copa de 2002 ele barrou o Romário que na época ainda estava jogando um excelente futebol, muitos pontos acima do futebol que hoje estão jogando Ganso, Kaká, Fabiano, Kardec e outros. E nenhum destes que você cita estava num grande momento quando foram preteridos de modo que se possa considerar autoritarismo do Felipão.

    De minha parte eu só discordei da convocação do Júlio Cesar. E, mesmo não tendo motivos para achar que estava errado na ocasião que eu discordei, devo reconhecer que até aqui o Júlio Cesar é um dos melhores do grupo e que foi decisivo para que o time brasileiro se mantivesse na competição.

    O maior problema do Brasil é a qualidade dos jogadores que a cada ano que passa vem despencando drasticamente. Eu já digo isso desde antes do Dunga convocar a Seleção dele para 2010.

  11. Incrível como hoje em dia o que mais decide jogos difíceis são as bolas entregues ou roubadas em condições de contra-ataque e defesa desarrumada. Exemplos, o gol do Chile contra o Brasil, o primeiro da Alemanha contra a Argélia, que nasceu de uma recuperada na lateral próximo do meio-campo quando o africano não quis “quebrar a bola” e deu um corte no alemão mas perdendo logo em seguida, quando o homem da cobertura ou sobra, ligou direto no Muller que serviu o Schurlle; e o da Argentina numa bobeada que o Palácios não perdoou e deu no que deu. Os ataques não estão encontrando espaços que só surgem mesmo nesses vacilos. Tem que treinar marcação na saída de bola e ao mesmo tempo criar alternativas para que se evitem os chutões como forma de não entregar a bola. Uma alternativa é treinar os goleiros para desenvolverem qualidades de um R. Ceni com os pés e de um Neuer na cobertura e saída da área. Outro aspecto: O jogo tá muito rápido, o campo “diminuiu”. Penso que poderiam criar alternativas para “aumentar” o campo, reduzindo os times para 10 jogadores ou mexendo no impedimento, como por exemplo só marcá-lo a partir da intermediária e não do meio-campo. Também penso em medidas para diminuir a importância da força física e privilegiar a técnica, como número ilimitado de substituções e retorno ao gramado. Já pensou, aquele cara que entra pra bater uma falta ou o craque de certa idade pra dar uma cadenciada no jogo durante o tempo que agüentar e depois descansa um pouco e volta, tipo pelada mesmo? O futebol está nivelado mais pela marcação e força do que pela tecnica e talento. Se posse de bola contasse para desempate com numa luta por pontos, o jogo seria mais técnico e bonito, as retrancas não teriam vez.

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