Ao rufar dos tambores

Por Gerson Nogueira

bol_dom_201013_23.psJogadores extenuados têm rendimento medíocre em campo. Não há lugar para o espetáculo se os artistas estão combalidos. O futebol brasileiro vive situação dramática quanto ao condicionamento dos atletas. A maratona a que são submetidos, com até quatro competições anuais e dois jogos semanais, impede que possam se apresentar tecnicamente em alto nível.

O problema é antigo, atravessa décadas já, mas pela primeira vez é enfrentado pelos operários da bola. Nos anos 50 e 60, quando o profissionalismo ainda engatinhava no país, o futebol brasileiro conquistou suas primeiras grandes glórias. Em 1970, veio o tricampeonato mundial. Ironicamente, a glória ajudou a perpetuar injustiças e semeou acomodação.

O fato auspicioso de agora, já comentado aqui há duas semanas, é a criação do movimento Bom Senso FC. Jogadores dos grandes clubes se mobilizam para combater decisões equivocadas tomadas pela cartolagem, preocupados com a qualidade do jogo. Por enquanto, o grupo se organiza de maneira pacífica, enumerando suas reivindicações e encaminhando à CBF. Não há confronto, por ora. Mas logo vai haver.

Tudo o que os atletas querem vai de encontro a interesses maiores. CBF, Globo, federações, investidores, patrocinadores e dirigentes de clubes não se importam em matar aos poucos a galinha dos ovos de ouro. Impõem calendário sufocante, horários absurdos da programação de jogos para a televisão e clubes administrados como feudos.

O manifesto elaborado pelos atletas serve para abrir o debate, mas as mudanças só serão alcançadas com atitudes firmes, com o fortalecimento da classe e a adesão da torcida e de outras instituições. O Bom Senso FC foi fundado em setembro em torno de uma reivindicação unânime: a reorganização do calendário de jogos. A rigor, ninguém é contra isso. O torcedor, acima de tudo e todos, deveria ser o principal interessado.

Talvez por isso mesmo, na rodada deste domingo do Brasileiro os líderes do movimento pretendem fazer uma manifestação para expressar publicamente a legitimidade e representatividade do Bom Senso. É algo bem simples, mas significativo. É um sinal que será dado aos torcedores e à opinião pública.

Sob a liderança de Rogério Ceni, Juninho Pernambucano, Seedorf, Alex, Paulo André e outros, o grupo já teria conquistado a adesão de 860 jogadores profissionais. Além de ajustar a programação de jogos, evitando que as datas da Copa estrangulem os campeonatos no próximo ano, o Bom Senso pretende instituir o fair play financeiro, com punição pesada para clubes e dirigentes caloteiros. Os tambores estão rufando, e isso é um bom sinal.

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Os humores de dona CBF

Pode não ser ilegal, mas é certamente injusta (e esquisita) a mudança arbitrária do critério de escolha de árbitros na Copa do Brasil Sub-20. Castigado por erros de arbitragem no primeiro jogo das quartas-de-final, realizado em Criciúma, o Remo foi surpreendido com a escalação de um apitador piauiense para a partida de volta, em Belém.

Até então, os trios de arbitragem eram sempre caseiros. Segundo a CBF, por medida de economia. De repente, no meio de uma decisão de fase, a entidade altera o esquema. Dirigentes do Remo espernearam, com razão, cobrando explicações para a medida. Até sexta-feira à noite, a entidade não explicou a mudança.

Na competição do ano passado, a CBF alterou o critério apenas uma vez. Foi no semifinal entre Santos e Bahia, que teve arbitragem do Rio Grande do Norte. Os outros casos de arbitragens de fora só aconteceram na decisão da Copa 2012, entre Atlético-MG e Vitória. Árbitros alagoanos e capixabas apitaram os dois jogos finais.

Do jeito como a coisa se desenha fica de novo exposta a debilidade política do Pará junto à CBF, cujos humores quase sempre estão em descompasso com os interesses dos clubes locais. Não foi a primeira vez e, infelizmente, não será a última.

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Além da queda, o coice

Depois do vergonhoso show das gangues arruaceiras na sexta-feira à noite, na sequência da derrota para o Avaí, o Paissandu deve ir se preparando para sanções draconianas. O STJD tem sido rigoroso até com clubes medalhados da Série A, como Corinthians e Vasco. Além disso, as imagens foram transmitidas para todo o país, com ampla veiculação nos programas esportivos de sábado.

A quase certa perda de mando terá pelo menos uma utilidade prática: vai servir para que o clube repense a utilização da Curuzu para partidas de grande porte. Ficou mais uma vez evidenciada a completa falta de segurança no estádio para torcedores, atletas, profissionais de imprensa e até para os militares, que não escondiam o receio de um enfrentamento com os baderneiros.

 (Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste domingo, 20)

Relembrando Vinícius

Por Gerson Nogueira

Como tantos outros dinossauros da minha geração, passei o sábado homenageando o poetinha Vinícius de Moraes. Por sinal, há quem julgue cafona, demodê, usar o diminutivo em relação ao grande poeta, mas gosto desse tom carinhoso, como aliás ele tratava os mais chegados. Tomzinho (Tom Jobim), Carlinhos (Lyra), Joãozinho (João Gilberto), Eduzinho (Edu Lobo), Doninha (João Donato). Não ligo a mínima, trato o cara como imagino que ele gostava de ser chamado. Vinícius das sentenças definitivas, das muitas mulheres, do uisquinho e das construções inesperadamente brilhantes, como aquela sobre a tristeza ter esperança de um dia ficar menos triste. E ainda há quem não conheça o genial melodista, capaz de fraseados harmônicos brilhantes, como nos afro-sambas, costurados em parceria com outro gênio da raça, Baden Powell.

Vinicius+de+Moraes+vm1Gente muito mais brilhante do que eu se dedica a analisar e redescobrir a obra de Vinícius, que foi quase sempre perfeito nos poemas, letras, melodias e musas, além de frasista inspiradíssimo, como naquela célebre saudação cravada no Samba da Bênção, quando ele se auto-descreve como capitão do mato e branco mais preto do Brasil. No rastro das comemorações pelo centenário do homem, o Canal Brasil passou na madrugada um documentário dirigido por Miguel Faria Jr., em co-produção Brasil-Espanha. Pontuado por poemas, canções, comentários e textos de Vinícius, o charme do filme está na torrente de depoimentos dos muitos amigos do poetinha.

Edu Lobo descreve uma faceta definidora do coração generoso de Vinícius. Telefonava às vezes só para perguntar se o amigo estava bem, conta Edu. Outro traço da alma livre do poeta citado pelo autor de Ponteio era a vocação para receber pessoas. Foi ele o responsável pelas famosas “casas abertas”, que marcaram e alicerçaram a Bossa Nova no Rio. A casa vivia sempre de porta escancarada e as pessoas iam chegando, cantando, lendo poesias e se divertindo. Suas filhas contribuem com informações menos líricas, mas igualmente reveladoras. Contam que ele, apesar de ganhar bem – era diplomata de carreira -, vivia aperreado. Faltava dinheiro desde sempre, até porque Vinícius acreditava em bonança e gastava tudo que ganhava. Não retinha, nem poupava, como lembra Chico Buarque.

É de Chico também a menção aos amuos (e inveja mal dissimulada) da intelectualidade nacional com o poeta que de repente virou artista popular. Seus pares de saraus acadêmicos não entendiam a transmutação e, como é comum nesses casos, afastavam-se. Não sem antes criticá-lo pela popularização. Vinícius, para nossa felicidade, deu uma banana aos empolados escritores de sua antiga turma e abraçou de vez a música como veículo de sua poesia.

Sobre suas muitas (e lindas) mulheres, o documentário revela pouco mais do que já sabíamos. Era um viajante da paixão, dizem Tônia Carrero e Toquinho. Precisava se realimentar de novos amores, e para isso era capaz de qualquer maluquice. Conciliador por excelência, jamais ficou de mal com as ex-companheiras.

A história pessoal de Vinícius se confunde com um Rio (um Brasil também) que sumiu do mapa. Tudo é passado. O astral, a elegância, a alegria de viver, a esperança nas pessoas, tudo isso traduzido em letras de canções majestosas. O Rio do funk sacana e da violência sem peias não reservaria espaço para um poeta boa-praça e boêmio. À certa altura, Gilberto Gil ressalta a importância fundamental de Chega de Saudade, que mudou a métrica e o jeito de fazer/cantar canções. De quebra, enriquece o filme com leitura vigorosa de “Formosa”, afro-samba clássico de Vinícius e Baden.

O Vinícius apaixonado se revela em carta endereçada ao Itamaraty quando era embaixador em Buenos Aires, Melancólico, lavrou apelo pungente para que fosse transferido para o seu Rio de Janeiro. Explicou que não era nenhum problema financeiro ou de saúde, quase sempre recuperáveis. Era uma necessidade amorosa. E, fez questão de sublinhar, o tempo do amor é irrecuperável. Sabia tudo de amor o nosso poetinha. Grande cara.

Brasileiro da Série B: Classificação geral

PG J V E D GP GC SG
Palmeiras 68 31 21 5 5 60 24 36 73.1
Chapecoense 58 30 17 7 6 54 28 26 64.4
Sport 50 31 16 2 13 50 46 4 53.8
Avaí 50 30 14 8 8 43 35 8 55.6
Paraná 49 30 14 7 9 45 27 18 54.4
América-MG 48 31 12 12 7 43 36 7 51.6
Icasa 47 31 14 5 12 43 47 -4 50.5
Ceará 47 31 12 11 8 49 39 10 50.5
Joinville 46 31 13 7 11 45 34 11 49.5
10º Figueirense 45 30 14 3 13 49 46 3 50.0
11º Boa Esporte 43 31 11 10 10 27 36 -9 46.2
12º Bragantino 39 31 11 6 14 31 34 -3 41.9
13º Guaratinguetá 39 31 11 6 14 37 43 -6 41.9
14º América-RN 36 31 9 9 13 37 47 -10 38.7
15º Oeste 36 31 9 9 13 30 45 -15 38.7
16º ABC 35 30 10 5 15 35 49 -14 38.9
17º Atlético-GO 30 29 8 6 15 30 38 -8 34.5
18º São Caetano 30 31 8 6 17 39 49 -10 32.3
19º Paissandu 29 30 7 8 15 31 46 -15 32.2
20º ASA 26 31 8 2 21 34 63 -29 28.8