O amor

Por Gilda Mattoso

1379654_10200460835515270_2005040614_nParece mentira que Vinicius faria 100 anos nesse 2013 já que era um espírito de extrema jovialidade. Quando nos casamos em Paris, 1978, todas as pessoas se assustavam com nossa diferença de idade de quase 40 anos, menos eu, que o achava muito sem juízo mas também reconhecia que seu charme estava justamente aí. Vinicius se jogava na vida, corria riscos imensos, sempre destemido e em busca do amor perfeito!
Largava tudo pra trás e se atirava em um novo amor. Eu sempre mais ponderada apesar da tenra idade que tinha até mesmo quando ele morreu e me deixou viúva aos 28 anos! Desde muito menina, eu era admiradora dele, de sua poesia, de suas canções, e chegava a dizer, quando ele aparecia em jornais, revistas ou TV: “Quando me casar quero que seja com um homem como este”, provocando espanto em minha mãe, que retrucava: “Vira essa boca pra outro lado, este homem, embora excelente poeta (ela própria era poeta amadora) é um beberrão, destruidor de lares!!”
Minha mãe também terminou sucumbindo ao charme dele (ela fazia até docinhos com adoçante para ele, que era diabético). Para surpresa geral, e até minha, esse homem se apaixonou por mim e eu por ele e vivemos felizes e intensamente os poucos anos que o destino nos reservara.
Fico pensando em como Vinicius estaria hoje com 100 anos e pensando nele nesse Brasil devastado pela corrupção e pelos políticos medíocres. Ele, pouco antes de morrer, fazia seu quadro de políticos de sonhos: Presidente da República: Jaime Lerner; Ministro da Cultura: Sergio Buarque de Hollanda; Ministro das Relações Exteriores: Otto Lara Resende; Ministro da Saúde: Clementino Fraga Filho ou Paulo Niemeyer… e por aí ia. Todos esses grandes nomes eram amigos dele mas, acima de tudo, grandes brasileiros.
Ele ficava horas na banheira onde, aliás, veio a falecer, pensando nisso e em outros sonhos, como a cura da diabetes (enfermidade que acabou por matá-lo por outras vias), a justiça entre os homens, o fim da desigualdade social brasileira… enfim, foi um grande brasileiro que levou o nome do Brasil para todos os lugares do mundo por onde passou, com sua música e sua poesia inesquecíveis.
Às vezes, quando via meus amigos Enrica e Michelangelo Antonioni, que tinham quase a mesma diferença de idade que a nossa, ficava com inveja e pensava em como você teria ficado, já mais velho, e achava que teríamos uma relação parecida com a do casal italiano.
Tem 2 traços na personalidade de Vinicius que me fascinavam: primeiro, a generosidade. Ele foi o ser mais generoso que conheci e dizia que a coisa pior do mundo era a avareza, que perdia só para a grosseria que ele abominava. Dizia que quem era mesquinho com coisas materiais também o era com os sentimentos. O segundo traço era o senso de humor. Ele também dizia que, em certas situações, ele preferia uma pessoa sem caráter a uma pessoa sem senso de humor! Por vezes, estou nas minhas caminhadas na Lagoa e me vem a canção que ele e Toquinho fizeram e que cantavam nas infinitas turnês que fizeram pelo Brasil e que dizia:
¨Nós vamos pelas rotas do Brasil / nós somos os quatro mosqueteiros musicais / cantamos com empenho varonil / prás meninas, coroas e mocinhas virginais / nós somos Athos, Portos, Aramis e D’Artagnan / vivemos uma vida bem feliz e folgazã / os quatro mosqueteiros musicais / Azeitona*, Mutinho* Toquinho / e o Vinicius…. e o Vinicius…. e o Vinicius de Moraes!”
*Azeitona era baixista e Mutinho baterista da banda que acompanhava eles.

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