Sobre professores de futebol

Por Gerson Nogueira

Houve um tempo, bem lá atrás, que treinador de futebol era um misto de pai e professor. Essa condição era tão importante, e valorizada por todos, que muitas vezes nem importava tanto que fosse realmente versado em táticas e estratégias. Vem daí seguramente a definição de “professor” que até hoje se aplica aos orientadores, embora já não faça lá muito sentido.

Lá em Baião, em plenos anos 60, havia um técnico assim. Seu Osvaldo da Paixão. Sisudo, parecia o tempo todo zangado. Assustava a garotada com seus resmungos. Custei a entender a razão do fascínio e admiração que havia em torno dele. À medida que crescia e ouvia melhor os comentários de meu pai sobre o velho Osvaldo fui atinando para o grande papel que teve na formação de jovens boleiros baionenses.

Nos anos 80, vendo Mestre Telê trabalhar, lembrava sempre da imagem do rabugento Osvaldo. A rotina desgastante, a implacável busca de resultados, empurra naturalmente esses homens para os recônditos do mau humor. Desenvolvem um jeito tão macambúzio de lidar com certos problemas que às vezes são julgados injustamente.

Certa noite, no estádio Mangueirão, acompanhei da cabine de imprensa o passeio de Telê pelas margens do gramado, cerca de uma hora antes de uma apresentação do grande São Paulo daquela época. Mais do que relaxar, ele queria observar as condições do campo, algo pelo qual zelava com obsessão. Em poucos minutos, o mestre estava cercado de garotos, que entrariam depois como mascotes. Parecia sinceramente feliz, mascando o tradicional palitinho e conversando com a molecada, como um educador na hora do recreio. 

Mais ou menos nesse mesmo período, o Barcelona tinha também seu professor de futebol. Johan Cruyff, grande ídolo e locomotiva do Carrossel Holandê de 1974, era o construtor de um time afinadíssimo (com Romário & cia.), cujo esmero pelo bom passe remete ao esquadrão azul-grená de hoje.   

O craque holandês já havia escrito um livro sobre suas teorias e crenças, quase todas oriundas de ensinamentos adquiridos com outro mestre, o quase bruxo Rinus Michels, pai e mentor do “futebol total”. Dessa influência Cruyff extraiu a base para comandar e ensinar também. Nenhum de seus ex-atletas, nem mesmo o Baixinho indomável, renega o papel crucial que desempenhou sobre suas carreiras.     

No futebol do Pará, Aloísio Brasil e Miguel Cecim desempenharam bem essa nobre missão, encaminhando muita gente enquanto lutavam contra o descrédito histórico em torno de treinadores locais. Alguns importados também deixaram marcas na filosofia de fazer do futebol como complemento dos deveres escolares.

Paulo Amaral, que muitas vezes lembrava mais um bedel, tinha como ponto forte a capacidade de impor disciplina com dureza, mas sem deixar de lado a ternura. Liderou um elenco luminoso do Remo nos anos 70, que juntava cobras criadas como o gigante Alcino, o bad-boy Roberto Diabo Louro e garotos como Rosemiro. Logo em seguida, Joubert Meira imporia um estilo diametralmente oposto, centrado na voz mansa e no diálogo com os boleiros. Ensinava sem fazer força.

Nessa linhagem muito especial de orientadores só nos resta hoje Walter Lima, que ora dirige o sub-20 do Remo. Saudei sua escolha para comandar o time na Copa do Brasil justamente por reunir embasamento técnico com a capacidade de educar. Nada mais apropriado para um elenco de garotos, quase todos ainda em plena atividade escolar. 

Não tenho dúvida de que grande parte do sucesso desse Leãozinho na competição se deve à paciência e ao talento didático de Waltinho, que às vezes parece um monge zen-budista perdido solto no mundo do futebol. A mistura inusitada está frutificando e dando ótimos resultados. Os garotos jogam melhor à medida que aprendem mais sobre posicionamento, aproximação e iniciativa, conceitos que um mero instrutor de campo pode passar, mas dificilmente irá transmitir com profundidade. 

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Um desafio e tanto para o Águia

Com um jeito diferente de comandar, que prioriza mais a conversa franca e a divisão de responsabilidades, o técnico João Galvão vai conduzindo o Águia há pelo menos cinco temporadas com segurança e autoridade. Dublê de gerente, não balança diante das derrotas mais traumáticas, o que dá tranquilidade ao elenco.

Neste domingo, sob sua direção, o Águia terá outro desafio portentoso pela frente. Recebe o surpreendente Treze no estádio Zinho Oliveira, precisando desesperadamente vencer para afastar o risco da degola. No ano passado, a equipe viveu situação parecida diante do Santa Cruz. Acabou se saindo bem, permanecendo na Série C.

É bem provável que isso ocorra outra vez. Galvão precisará como nunca do entrosamento do trio Flamel, Danilo e Kenon para furar o bloqueio defensivo paraibano. Mais que isso: o Azulão terá que se virar sozinho na luta contra um time que saiu das últimas colocações para brigar pelo acesso. A torcida marabaense tradicionalmente passa ao largo dos acontecimentos futebolísticos na cidade.

Por sorte, Galvão e seus jogadores já se acostumaram a essa condição, aprendendo a não depender muito de aplausos para vencer.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO deste domingo, 06)

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