No tributo de Bruce a Raul, jornalismo comeu mosca

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Por André Barcinski

Sábado, meu amigo Álvaro Pereira Jr., em sua coluna na “Folha”, revelou a história por trás das homenagens que Bruce Springsteen fez a Raul Seixas. Álvaro havia me contado o caso na terça, 17 de setembro, um dia antes do show de Bruce em São Paulo e cinco antes da apresentação do cantor no Rock in Rio.

Na ocasião, concordei que “Sociedade Alternativa” seria uma ótima opção de “cover” para Bruce, e dei minha sugestão: “Asa Branca”. Achei que Bruce e a E Street Band fariam uma versão matadora do clássico de Gonzagão e Humberto Teixeira.

Na quarta, dia 18, Bruce arrepiou quem foi ao Espaço das Américas com uma versão soul de “Sociedade Alternativa”.

No dia seguinte, Álvaro me disse que estava pensando em contar a história na “Folha”. Mas como a coluna dele é quinzenal e a seguinte só seria publicada no sábado, dia 28 – uma semana depois do show de Bruce no Rock in Rio – ofereci o espaço aqui do blog. Pensei: se Bruce cantar “Sociedade Alternativa” no Rock in Rio, todo mundo vai escrever sobre o fato, e não podemos levar um “furo”.

Veio o show do Rio e Bruce repetiu a homenagem. Para nossa surpresa, ninguém se preocupou em tentar descobrir por que Bruce Springsteen havia cantado Raul. Ninguém.

E olha que Bruce ficou dando sopa no Rio: foi à praia duas vezes, tomou banho de mar, almoçou em churrascarias, conversou com fãs e até tocou violão no calçadão de Copacabana.

Durante esse tempo todo, ninguém chegou perto dele e fez a pergunta óbvia: “Bruce, como você conheceu Raul Seixas?”

Porque isso não é pouca coisa. Um dos maiores nomes do rock homenagear o maior nome do rock brasileiro é, sim, uma grande história. Tanto que Paulo Coelho, co-autor da música, fez uma coisa raríssima: publicou comentários em um blog, falando da emoção que sentiu ao saber do tributo e contando detalhes da composição da música. Por sorte, ele escolheu fazer isso aqui no “Confraria de Tolos” (leia).

O caso só me deixou ainda mais decepcionado com o estado do jornalismo musical brasileiro. O que está acontecendo? Não temos mais repórteres de música? Quando o Google substitui a rua como fonte de informação, é porque tem algo muito errado com nossa imprensa musical.

Hoje, todo mundo sabe a cor da meia que Bruce usou quando gravou a demo de “Born to Run” – contanto que isso tenha sido publicado em algum blog obscuro. Mas quando é preciso ir à rua e apurar, bate aquela preguiça… Nossa cobertura musical está assim: opinião demais e jornalismo de menos. Claro que escrever críticas de shows é uma função importante do jornalista. Mas não é a única.

Eu não ia ao Rock in Rio desde 2001, mas fui a essa edição e fiquei espantado com a sala de imprensa, que mais parecia um hotel. Tinha bufê, geladeiras lotadas de guloseimas, funcionários prestativos trazendo macarrão para jornalistas e até – acreditem – um massagista full time, para aliviar as lombares cansadinhas dos repórteres.

Havia também um escritório da assessoria de imprensa oficial do evento, onde qualquer um podia pegar updates sobre os BBBs e pseudocelebridades que estavam na área VIP. Tudo para “facilitar” nossa cobertura.

A verdade é que esses grandes eventos se esforçam cada vez mais em controlar a cobertura e garantir matérias positivas (um exemplo: o Rock in Rio ofereceu uma entrevista com o Metallica, contanto que o assunto fosse só o recente filme da banda).

Isso faz parte de uma tendência mundial, que cresceu nos últimos 15 ou 20 anos, de ver a imprensa como parte da engrenagem de comunicação das corporações de entretenimento, e não como uma potência autônoma e independente.

É preciso combater essa visão. E a única maneira de fazer isso é ignorar a cobertura fácil e conveniente empurrada pelos eventos e voltar às ruas. Afinal, rapaziada, sol faz bem.

2 comentários em “No tributo de Bruce a Raul, jornalismo comeu mosca

  1. É isso mesmo. A imprensa musical (e cultural) no país também padece dos males do chapa-branquismo de análises e opiniões acríticas e bajuladoras, acompanhadas que são do apego fácil e descartável do enfoque dado às frivolidades. O elogio tornou-se um imperativo e os leitores, ouvintes e telespectadores mais atentos já perceberam que vive-se num mundo de faz de conta no qual o que importa não é informar, fustigar, pesquisar e esclarecer (ou confundir), mas vender e promover nomes e reputações, via de regra duvidosas pois geralmente desprovidas são do mínimo talento. É triste.

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