Crianças brincando

Por Ruy Castro

Uma psicóloga da PM-SP defende que crianças de oito anos podem manusear armas de fogo, “desde que acompanhadas pelos pais”. É normal, diz ela, que o filho de um policial tenha curiosidade sobre o instrumento de trabalho de seu pai, “assim como o filho do médico tem sobre o estetoscópio”. A recente tragédia em São Paulo, envolvendo o menino Marcelo Pesseghini, 13, suspeito de matar seus pais (ambos, policiais militares), a avó e a tia-avó, e que se matou em seguida, tudo a tiros, não abalou sua convicção.

Vejamos. É normal que o filho de oito anos de um piloto de aviação tenha curiosidade sobre o instrumento de trabalho do pai -o avião. Isso autoriza o piloto a pôr o filho na cadeira do copiloto e “acompanhá-lo” enquanto ele pousa o aparelho levando 300 passageiros? O filho de um madeireiro, apenas por ser quem é, estará autorizado a brincar com uma motosserra? E o filho de um proctologista estará apto a manipular o instrumento de trabalho de seu pai?

O que dizer do filho de um funcionário de laboratório de análises encarregado de certos exames? E o filho de um carteiro, vai brincar com minha correspondência? E o de um bombeiro, vai brincar com fogo? E o de um motorista de ambulância? E os de quem trabalha com material tóxico, explosivo ou radiativo -como satisfazer sua curiosidade por aquelas coisas de que os pais falam com tanta naturalidade ao jantar?

A professora Maria de Lourdes Trassi, da Faculdade de Psicologia da PUC-SP, rebate o argumento da psicóloga da PM, dizendo: “O cirurgião pode até dar o estetoscópio ou a luva [para o filho brincar]. Mas não vai lhe apresentar o bisturi”.

Também acho. E há muitas coisas com que o filho de um PM pode brincar -gás de mostarda, bombas de gás lacrimogêneo, balas de borracha-, sem ter de apelar
para armas de fogo.

3 comentários em “Crianças brincando

  1. Meu tio policial militar aposentado, quando chegava em casa armado não deixava nem eu me aproximar dele para pedir benção, tinha um cuidado absurdo com qualquer arma de fogo em casa. Penso que arma de fogo não é brinquedo de criança.

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  2. Geralmente se comete um crime desses com a cabeça cheia de nóia, ou se há um disturbio, coisa que o resto da família nega veementemente, que o garotp não aparentava isso.

    Em Santarém estorou uma bomba, sujeito armado de terçado matou o pai e a irmã e ainda fugiu no carro. Detalhe, estaria drogado.

    Vamos ver qual será o final dessa história.

    Sinceramente, não acredito que o garoto tenha feito aquilo.

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  3. Edson, no caso de São Paulo não acho impossível que o menino tenha dado cabo da família… Mas, acredito que a situação ainda esteja muito nebulosa para que a polícia afirmasse tão categoricamente como vinha afirmando no início que o autor fora o menino.

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