Metro-nécessaire X capanga-jurubeba

Por Xico Sá

A semana pedagógica no blog continua. Projeto Educação Sentimental. Episódio de hoje: tipos de homens, parte XIII. Depois de citar ao infinitum a expressão macho-jurubeba, recebi uma nova balaiada de mensagens pedindo, encarecidamente, que eu tentasse explicar o que seria o tal homem. A expressão surgiu no Cariri, precisamente em Santana, onde os fracos não têm vez, eu disse Santana, a maior reserva de fósseis de pterossauros gigantes do planeta.

ws1-203x300Foi, porém, ao  me deparar em um banheiro de um moderno restaurante de SP, com dois homens, aparentemente héteros, discutindo sobre técnicas depilatórias e cremes básicos para uma nécessaire masculina, que me veio ao cocoruto, imediatamente, a velha imagem da capanga e o kit máximo permitido por um macho-jurubeba.

Como bem sabemos, amigo, o macho-jurubeba é o macho-roots, a criatura de raiz, o sujeito tradicional e quase em extinção nos tempos modernos.

david-beckham5Praticamente extinto, sejamos sinceros. Não há esperança, o velho Francisco, meu pai, lá no seu rancho nas bordas da chapada do Araripe, deve ser um dos derradeiros da legião de bravos. O macho-jurubeba é um personagem que nos parece nostálgico e, de algum modo, folclórico, mas perfeito para nos revelar o universo dos marmanjos até meados nos anos 1990 – quando Deus fez, de uma costela do David Beckham, o ser doravante conhecido como metrossexual.

Vasculhemos, pois, a capanga, usos, costumes higiênicos e os arredores antropológicos deste predador do nosso paleolítico. Era sim naturalmente vaidoso o macho popular brasileiro. Aqui encontramos os vestígios: um espelhinho oval com o escudo do seu time ou uma diva em trajes sumários, um pente nas marcas Flamengo ou Carioca, um corta-unhas Trim ou Unhex, um tubo de brilhantina, um frasco de leite de colônia…

Vemos também, no fundo do embornal, uma latinha de Minâncora e outra de banha de peixe-boi da Amazônia em caso de eventuais ferimentos, calos ou cabruncos. Em viagens mais longas, barbeador, gillette, pedra-hume –o seu pós-barba naturalíssimo, nada melhor para refrescar a pele e fechar os poros. Alguns pré-modernos e distintos se antecipavam aos novos tempos usando também Aqua Velva, a loção para o rosto utilizada pelos “homens de maior distinção em todo o mundo”.

Investigamos também, no kit do macho-jurubeba, emplasto poroso Sabiá, pedras de isqueiro com a marca Colibri e um item atual até nossos dias, o polvilho antisséptico Granado, afinal de contas a praga do chulé é atemporal e indisfarçável. O lenço de pano nem se comenta, não podia faltar nunca.

Ainda no capítulo do asseio corporal e dos bons tratos, façamos justiça às moças. Elas adoravam tirar nossos cravos e espinhas, atitude hoje cada vez mais rara –se alguma o fizer, amigo, a tenha na mais alta conta, a abençoada filha de Eva te ama mesmo.

O macho-jurubeba, mesmo à beira da extinção, resiste!

Chance de corrigir a rota

Por Gerson Nogueira
COLUNA GERSON_31-05-2013Ainda sem contar com a força plena, pois o técnico Lecheva prefere não alterar a composição da zaga, o Paissandu parte hoje para uma tentativa de correção de rumos na Série B. A competição mais aguardada no clube nos últimos seis anos foi iniciada de maneira errática, com um empate por incompetência em casa e uma derrota por excesso de cuidados como visitante.
Contra o América-RN, adversário do mesmo top, o Paissandu não pode mais tropeçar. Em 16º lugar na classificação, está a um passo da zona da morte, lugar que os clubes paraenses adoram frequentar em competições nacionais de grande porte.
Entendo que uma das chaves para a recuperação técnica do Paissandu encontra-se no meio-de-campo. Com jogadores que se entendiam por música, o time fez campanha relativamente tranquila no campeonato estadual. Capanema, Vanderson, Djalma e Eduardo Ramos. Este quarteto foi o grande responsável pela trajetória vitoriosa, por ditar o ritmo e a pulsação da equipe.
Curiosamente, a ausência de um deles desequilibrou por completo a equação. Djalma esteve fora nos dois confrontos iniciais, tornando o time menos rápido na saída e pouco combativo nas ações de meio-campo. De quebra, tirou de Ramos o guarda-chuva protetor para as jogadas mais criativas. Sem Djalma, a lentidão de Vanderson ficou mais exposta e Capanema passou a ter uma sobrecarga na tarefa de combate.
Mas a falta de Djalma não explica a queda de inspiração de Ramos como organizador do time. Contra alagoanos e cearenses, o chamado maestro bicolor ficou muito abaixo de seu rendimento habitual. Vozes dos bastidores dizem que as razões da letargia estariam na insatisfação do jogador com seus rendimentos no clube. Não se sabe, ao certo, mas é óbvio que o grande destaque do Parazão ainda não jogou nem 50% do que pode na Segundona.
Outro detalhe que ajuda a explicar a acanhada participação do Papão no Brasileiro é a vertiginosa queda de Pikachu. Melhor lateral-direito surgido no Pará em muito tempo, o jogador deixou a voracidade ofensiva de lado, passando a comportar-se como um lateral comum, que vai até às proximidades da área adversária e cruza. Os problemas já eram visíveis desde o certame estadual, mas se acentuaram agora, talvez porque os adversários são bem mais qualificados.
Lecheva tem condições de arrumar a casa da melhor maneira, a começar do crônico drama no gol. A partida desta noite é a ocasião ideal para iniciar a reviravolta. Em caso de triunfo, ganha tempo para encaixar os reforços contratados. Um novo revés, porém, pode conduzir a mudanças que passam inclusive pela comissão técnica.
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A longa espera azulina
Os remistas seguem treinando no estádio Evandro Almeida. O feriado não impediu que Charles Guerreiro movimentasse o elenco, cumprindo a agenda semanal de exercícios e treinos. A imagem dos atletas não esconde um certo desânimo depois que as chances de participação na Série D foram praticamente reduzidas a pó.
Em outra frente, os dirigentes continuam lutando pela vaga. O tempo conspira contra e as circunstâncias não são favoráveis, mas os esforços se mantêm de pé. Padrinhos atuam em outras frentes, ainda.
Tanta luta e aflição poderiam ter sido poupadas caso o time de Flávio Araújo tivesse competência para garantir dois empates nas decisões dos turnos. Isso também se a diretoria não tivesse metido os pés pelas mãos em contratações equivocadas – Ramon e Clébson.
Desgraçadamente, para os azulinos, o “se” é algo que não existe.
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Sobre democracia e exagero
O Ministério Público é um dos pilares da vida institucional brasileira, fiscal da lei e  – por isso mesmo – pedra no sapato de muita gente. Algumas vezes, porém, o rigor de sua conduta acaba dando razão aos críticos. A proibição do amistoso internacional Brasil x Inglaterra no novo estádio do Maracanã, solicitada (e prontamente atendida) à Justiça joga uma nuvem de desconfiança quanto ao caráter político da medida. Afinal, há duas semanas, um outro amistoso, aquele dos “amigos de Ronaldo” – com arquibancadas cheias de operários e suas famílias -, foi realizado sem que o MP tivesse a mais leve preocupação com questões de segurança.
O veto ao estádio lembra muito a suspeitíssima interdição do estádio Engenhão, a pedido da Prefeitura do Rio, torpedeando em pleno voo um vantajoso acordo que o Botafogo costurava com multinacional europeia. Interesses vários podem ter levado ao fechamento do estádio, que, mesmo interditado, continua a receber eventos programados pela prefeitura carioca.
Enfim, coisas do Brasil e de suas instâncias variadas de poder.
(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta sexta-feira, 31)