Romário: “Alemanha vai ganhar a Copa”

Por Carol Knoploch, do Estadão

Ex-artilheiro que virou deputado, Romário bate na administração do futebol brasileiro e se diz pessimista com a seleção. Por telefone, ele mostra o quanto anda decepcionado. Irônico, afirma que não vê jogos pela TV, algo que nunca gostou, e desdenha do Campeonato Carioca. Ele quer explicações sobre a destruição de instalações esportivas para as Olimpíadas e faz a sua aposta para o Mundial.

Você acha que conseguiremos organizar uma boa Copa do Mundo?

A Copa do Mundo vai ter. As classes A e B do Brasil e os estrangeiros sairão felizes da vida. E as classes C, D e E vão sofrer para ter o gostinho verdadeiro de ter uma Copa em seu país.

Por quê?

Porque será tudo caro! É proibido isso, proibido aquilo… Muita regra para brasileiros.

O que te preocupa sobre a organização?

Tudo me preocupa. A verdade é que o Brasil será entregue à Fifa. E tem várias coisas que ferem a Constituição. A Fifa vai levar mais de R$ 3 bilhões e não vai pagar nem R$ 1.

romarioO Brasil aceitou as regras, não?

Assinou erroneamente. Não era para assinar. O Brasil não pode se dar em troca de uma Copa.

E em relação às Olimpíadas de 2016?

Outro grande rombo nos cofres públicos que ficará para a história. Em uma audiência pública aqui na Câmara dos Deputados, Marcio Fortes, presidente da Autoridade Pública Olímpica, e o Fábio Dino, presidente da Embratur, disseram que o orçamento para as Olimpíadas é de R$ 27 bilhões (R$ 28,8 bilhões, segundo dossiê da candidatura do Rio). Vou repetir: R$ 27 bi! É justo com o povo brasileiro? E será mais caro.<SW>

Como deputado que representa o Estado, você não está atuante em questões das Olimpíadas, como a destruição de instalações esportivas. Por quê?

Vocês é que não noticiam! Acabo de convidar o governador Sérgio Cabral e o prefeito Eduardo Paes para esclarecerem para a nossa comissão (Comissão de Turismo e Desporto da Câmara), todos estes abusos. Inclusive as remoções ilegais. Não sei quando virão. E se virão.

Confia na seleção? Escale a sua.

Como assumi este ano a presidência desta comissão, estou por fora do que acontece no futebol. Não tenho tempo. Se escalar uma seleção, não serei justo. A gente tem de confiar sempre. Mas, se o Brasil continuar a jogar como está, infelizmente, com o crescimento dos rivais, nossas possibilidades não serão positivas para a Copa das Confederações e para a do Mundo.

Baseia-se em algum amistoso…

Nem os amistosos do Brasil eu tenho visto.

Assiste à Liga dos Campeões?

Para dizer que não vi nada, vi 20 minutos do segundo jogo entre Barcelona e Bayern.

E Campeonato Carioca? Vê futebol?

Qual Carioca? Existe? (risos).

O que achou da troca de Mano por Felipão?

Fui a favor. Hoje, a seleção dispõe dos dois últimos treinadores campeões do mundo. Há respeito por parte dos jogadores do Brasil e dos outros atletas e técnicos de outras seleções.

Qual seleção vencerá o Mundial?

A Alemanha vai ganhar a Copa.

Sinceramente, você tem mágoa de Felipão por causa do seu corte em 2002?

Não sou do tipo que fica magoadinho! Fiquei é puto! Mas já passou. Também fiquei com o Vanderlei (Luxemburgo, em 2000) que não me levou para as Olimpíadas. Com o Zagallo, que me cortou em 1998 (Copa da França). E fiquei mais com o Felipão porque ele me cortou e foi campeão assim mesmo.

O que acharia se tivesse jogado ao lado de Pelé? Como seria esta dupla?

Eu teria feito mais gols do que ele!

Há oito anos você disse que Pelé calado era um poeta, quando ele falou que você, com 39 anos, podia se aposentar. Recentemente, um ofendeu o outro. Não é ruim?

Se fica mal para ele, é problema dele. Para mim, não fica mal, não. Meu sentimento é este mesmo. E também se fica, problema para quem fica. Não estou preocupado. Falo o que tenho vontade de falar. Se o Pelé, a partir de agora não falar um “ai” de mim, eu não vou falar um “ai” dele.

Você chorou no anúncio do projeto para a entrada gratuita de 500 portadores de necessidades especiais em cada jogo do Mundial. Foi sua maior vitória como deputado?

Espero não chorar de novo se não acontecer. Porque o presidente da CBF e do COL (José Maria Marin) ainda não se pronunciou sobre isso. Foi feita uma promessa pública do presidente da época (Ricardo Teixeira) e do Ronaldo.

Por que Marin não sai da CBF e do COL?

(risos). Isso eu também queria saber. Não entendo por que a própria presidenta e o Ministério do Esporte ainda deixam este cidadão comandando estas entidades. Agora, na Copa das Confederações, Dilma Rousseff se sentará ao lado dele. E não será positivo para a cara do Brasil.

O ministro do Esporte, Aldo Rebelo, disse que o governo federal não pode intervir na CBF e que a Câmara dos Deputados pode…

(interrompendo) Poderia, sim. Na verdade, o que se alega é que a CBF é empresa privada. Mas ela deixa de pagar alguns tributos ao governo federal. Usa a bandeira nacional, o escudo, o hino nacional e o patrimônio nacional, que são os jogadores… É falta de coragem.

Acredita que o governo brasileiro e a Fifa se movimentam para tirá-lo do COL?

Não posso dizer que não acredito. Mas posso afirmar que, se estão se movimentando, só se for em passo de tartaruga. Nada acontece.

É a favor de participação estatal nas decisões da CBF?

Se houver realmente atitude, sou a favor. Mas o governo federal não tem atitude alguma num momento delicado como esse. Vai ter em outros? O problema do futebol brasileiro está muito feio. Está em 19º no ranking da Fifa. Vários países sem histórico estão à frente.

Como sede da Copa de 2014, a seleção não disputa as eliminatórias…

Não é isso. Se for pegar os países-sede das últimas Copas, tirando a África do Sul, claro, nunca uma seleção da sede chegou nesta posição.

É a favor de Andrés Sanchez na CBF?

Sou a favor do Sanchez, Raí ou Maurício Assumpção. O Raí nunca teve experiência de administração de clube, de gestão. Mas é um cara esclarecido e respeitado. O Sanchez, pelo que fez pelo Corinthians. E o Assumpção porque profissionalizou o Botafogo!

Tanto Sanchez quanto Assumpção não seriam mais do mesmo?

Estou dizendo quem eu acreditaria que não se envolveria em troca de favores.

E o Ronaldo à frente do COL?

O Ronaldo dá um peso ao COL. Mas não sei se teria experiência administrativa. Se bem que hoje, qualquer um dirige o COL.

Em 2010, você estava na África do Sul com Teixeira, promovendo a logomarca da Copa de 2014. Tempos depois, passou a criticar a organização do Mundial. Críticos dizem que ficou insatisfeito por não ser indicado ao Conselho de Administração do COL…

Primeiro, nunca passou pela minha cabeça participar de nenhuma comissão do COL. E nunca foi ventilado pela CBF nem por lugar nenhum. Segundo, naquele momento, ainda não tinha sido eleito deputado (foi eleito depois, em outubro). E a partir do momento que entrei aqui, vi o quão podre é a CBF. Vou além: quando o Marin assumiu, veio aqui em Brasília, chorou, me abraçou, pediu ajuda, e fui enganado de novo.

Além de tudo isso que falou, está sendo enganado por algum outro motivo?

Eu estou sendo enganado, você está sendo enganada, o povo brasileiro está sendo enganado. Meu pai sempre me ensinou a estar ao lado de pessoas corretas. E não é o caso de estar ao lado da CBF.

O que acha da conta de mais de R$ 1,2 bilhão para o novo Maracanã?

O nome disso é assalto sem arma!

O custo da Copa é uma caixa preta?

A população não tem ideia nem vai ter do custo desta Copa. Só vai ter este sentimento de perda, de dinheiro jogado fora, bem depois. Se o país já passou por dificuldades, passaremos de novo por causa de gastos desnecessários e vergonhosos com o dinheiro público. Isso tem outro nome.

O que acha do caso Engenhão? Afeta a percepção dos estrangeiros sobre a capacidade do Brasil para organizar grandes eventos?

Este caso é típico. Falta de competência e boa administração da prefeitura, a anterior, diga-se. Afeta percepção? Afeta o povo brasileiro, principalmente o carioca que pagará a conta.

 

Ramires e Gaúcho, os motivos da barração

Por Julio Gomes

Foi em uma segunda-feira, 18 de março de 2013, que a Seleção Brasileira chegou a Genebra, debaixo de neve, para fazer seu segundo amistoso internacional sob Luiz Felipe Scolari. Lucas e Paulinho já estavam cortados por lesão. Diego Costa, novidade da lista, sofrera uma pancada no jogo pelo Atlético de Madrid, no fim de semana. Mas apareceu e treinou, em Genebra e Londres, mesmo com dores. Só que teve um que não apareceu: Ramires. 

ramires-fora-selecao-londresRamires foi titular de Felipão em seu jogo de estreia, contra a Inglaterra. Ou seja, estava nos planos. Sentiu em um jogo do Chelsea, logo antes dos amistosos contra Itália e Rússia. Se sentiu muito, pouco, qual era o tamanho da lesão… isso, só Ramires sabe. O fato é que Felipão não gostou de o jogador não ter aparecido em Genebra. Acendeu a luz amarela.

O Brasil jogou (mal) contra a Itália, empatou e partiu para Londres. Na capital inglesa, uma surpresa. De muletas, aparecia Lucas no hotel da seleção. Machucadíssimo, sem a menor condição de jogo, pegou o trem (ou o avião, sei lá), “perdeu” dois ou três dias de sua vida e foi de Paris a Londres para estar com os outros jogadores. Lucas perdeu alguns dias e ganhou muita coisa. Mostrou comprometimento, ganhou a confiança do treinador e a convocação de hoje.

E Ramires? Ramires mora em Londres. Atenção, ele mora na mesma cidade em que a Seleção estava. Foi ao hotel apenas para que fosse comprovada por José Luiz Runco a tal lesão. Não sei nem se ele chegou a conversar com Felipão pessoalmente, acho até que não. Não ficou no hotel, não ficou com o grupo, sei lá o que ele fez da vida naqueles dois dias, em Londres. Videogame? Novelas? Filmes? Tratamento? Algum problema de saúde com a família? Não sei. Mas, ali, a luz amarela virou vermelha.

Ao não comparecer, ao não dar satisfações, ao não se fazer parte do grupo, Ramires se queimou. Ele decretou sua ausência da Seleção. (este blog já adiantava tudo isso 18 dias atrás, após o jogo com o Chile)

Em Londres, no dia anterior à prévia contra a Rússia, Felipão deu uma entrevista coletiva e dei a seguinte tuitada: “Lucas veio a Londres, mesmo machucado. Felipão elogiou muito a atitude. Ramires não foi a Genebra. Paulinho não veio a Londres. Recadinho”.

Ramires fez duas temporadas enormes no Chelsea. É um jogador moderno, que pode ajudar nos quatro cantos do campo. Dá opções táticas, velocidade, tudo isso. Seu futebol, não se discute. Mas ele não está fora pelo futebol. Está fora porque pisou na bola. Em sua posição, Felipão considera que Hernanes e Paulinho sejam suficientes, então ficou fácil cortar Ramires da lista.

Outros jogadores foram claramente se garantindo pelas atuações. Jogaram bem ou relativamente bem, não fizeram besteira fora. Júlio César, Marcelo, os zagueiros todos, Fred e… Jadson. Dele, falo daqui a pouco.

Mas é aí que Ronaldinho ficou fora da convocação.

Vejam bem. Felipão é um pragmático. Ele gosta de ter dois jogadores para cada posição. Na frente, seu time titular terá Neymar, Lucas e Fred. Hulk é um reserva para o lado do campo, faltava outro. Oswaldo foi testado e, por um momento, até achei que ele estaria na lista. Mas o plano sempre foi Bernard, que não havia sido convocado antes pelo simples fato de estar machucado. Fiquei surpreso quando vi o nome de Bernard. Mas, pensando bem, não é tão surpreendente assim. Jogador rápido, veloz, tipo que agrada muito Scolari. Hulk e Bernard são os reservas de Neymar e Lucas. Damião ganhou a vaga de reserva de Fred.

No meio, sempre ficou claro que seria Ronaldinho ou Kaká para disputar posição com Oscar. Um jogador veterano, experiente, que pudesse trazer aquele toque para o ataque formado pela molecada. E que pudesse agregar a um jovem promissor, mas não testado e aprovado, como Oscar.

Mas aí Oscar joga bem nos amistosos e mostra que dá para confiar nele. E Júlio César e Fred, dois jogadores experientes, se firmam e mostram que podem exercer esse papel de líder. E Thiago Silva e David Luiz, mesmo sem tanto histórico de jogos pela seleção nas costas, também mostram espírito de liderança suficiente. E aí o técnico percebe que a tal experiência nem seria tão fundamental assim. A cabeça de Felipão, que estava entre Kaká e Ronaldinho, começa a amadurecer a ideia de não levar nem um nem outro.

E aparece Jadson. Que é criticado por muitos, já percebi isso pelas redes sociais. Jadson foi uma grata surpresa para Felipão, pela consciência tática, inteligência futebolística e comportamento adequado fora de campo. Quem sabe de futebol e quem vive esse mundo sabe o tamanho do jogador que Jadson é e pode ser. Um jogador que aprendeu fora do país que jogar futebol é diferente de jogar bola e que pode desempenhar inúmeras funções em campo. Para Felipão, Jadson foi melhor que Ronaldinho.

Ronaldinho chegou atrasado à concentração em Belo Horizonte e tem uma maneira de jogar que não encaixa com o que Felipão gosta. Vejam o quarto gol do Galo contra o São Paulo. Sabem aquele passe de gol de Ronaldinho a Jô, olhando para o outro lado? Esse tipo de jogada, que faz 10 em cada 10 jornalistas e torcedores babarem, não agrada Felipão. Estou usando apenas um exemplo pontual.

O fato é que o tempo inteiro ele estava pisando em ovos. O estilo, o jeito de ser ser, não agradam Scolari. E ele, Ronaldinho, precisava provar o contrário. A ficha caiu de vez para Felipão com a atuação tenebrosa dele e do time no Mineirão, contra o Chile. Ele não quer formar um time em função do Gaúcho e sabe que não tem um time organizado o suficiente para isso.

Ronaldinho teve sua chance. Jadson também. Qualquer líder, qualquer chefe, tem o direito de escolher o profissional que se encaixe melhor ao perfil esperado. Para o chefe atual, Ronaldinho não se encaixa. O que acontecerá ao longo de 2013? O Atlético Mineiro é o time mais bacana de se ver no Brasil. Vai disputar o título da Libertadores, vai disputar o título brasileiro, e Ronaldinho seguirá sendo o melhor jogador em um país em que o futebol está atrasado. Na Europa, seu estilo de jogo não tem mais espaço. No Brasil, sobra espaço para ele.

Ronaldinho fatalmente vai arrebentar durante o ano. E, sem um time pronto, não vejo chances de o Brasil ganhar a Copa das Confederações. Consequentemente, se preparem. Serão meses de pressão absoluta e ouviremos muito o nome de Ronaldinho nas entrevistas entre agosto de 2013 e a Copa do Mundo de 2014. Felipão já tem seu novo Romário.

Felipão barra Gaúcho e Kaká

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O técnico Luiz Felipe Scolari divulgou nesta terça-feira a lista dos 23 jogadores que integração a Seleção Brasileira na Copa das Confederações e deixou os dois campeões mundias de 2002 fora. A principal surpresa da relação é o meia-atacante Bernard, do Atlético-MG. “Nós não somos um clube, um estado. Somos o Brasil. Convocamos de acordo com o que pretendemos para agora e para a Copa do Mundo, o que achamos o caminho certo para a Seleção. Independentemente de quem torce para A ou B, de quem for escolhido ou não, que nós possamos trabalharmos juntos em junho pela nossa Seleção. É isso que eu peço a todos”, disse Felipão antes do anúncio da lista. Como surpresa maior, a ausência dos veteranos Ronaldinho Gaúcho e Kaká.

As várias mortes de Kevin Carter

Sudão, Março de 1993. Uma criança sem identidade, do sexo feminino, arrasta-se em direção a um campo de alimentação montado pelas Nações Unidas. Um abutre espera pacientemente que a Mãe Natureza lhe sirva o almoço. O fotógrafo sul-africano Kevin Carter também está à espera. O que seria apenas mais uma entre as muitas dezenas de fotos que já tirara naquele dia, transforma-se numa imagem memorável quando o animal surge e ocupa o mesmo enquadramento. “Se ao menos o abutre abrisse as asas…” – pensou. Vinte minutos passam e o abutre não colabora. O fotógrafo acaba por desistir e tira várias fotos da menina e do animal, uma das quais ficará imortalizada na capa de 26 de Março do New York Times como “o símbolo da fome e do horror em África”.

945408_457101304364498_1268800739_nDepois de tirar as fotografias, Carter afasta o abutre e senta-se à sombra de uma árvore a fumar um cigarro, enquanto a criança, esgotada e faminta, retoma a sua lenta e penosa marcha pela sobrevivência.
14 meses depois, a 23 de Maio de 1994, Kevin Carter recebe o Prémio Pulitzer por causa desta foto – às aclamações iniciais, porém, sucedem-se as críticas. Alguns jornalistas questionam a autenticidade da foto, sugerindo que esta fora “encenada”. Outros colocam em causa a ética do fotógrafo: “Um homem ajustando as lentes até conseguir o quadro perfeito do sofrimento da menina bem pode ser visto como um predador, outro abutre em cena”, escreve o St.Petersburg Florida Times.
A 27 de Julho desse ano, dois meses depois de ganhar o Pulitzer e ser transformado numa das «sensações do momento» em Nova Iorque, Kevin Carter estaciona a sua Nissan «pickup» vermelha à beira do rio Braamfonteinspruit, um pequeno curso de água nos arredores de Johannesburg onde costumava brincar em criança. Liga uma mangueira de jardim ao tubo de escape, fecha-se no carro, escreve um bilhete, coloca os “phones” nos ouvidos, liga o motor e morre por inalação de monóxido de carbono. Tinha 33 anos.
O suicídio de Kevin Carter é contado entre os fotojornalistas como um «aviso» aos novatos, servindo como exemplo dos perigos de se fotografar demasiado perto as misérias humanas. Dan Krauss, realizador de um documentário da HBO sobre o fotógrafo, “The Death of Kevin Carter: Casualty of the Bang Bang Club”, vê nessa foto o momento em que Kevin incorporou, na criança moribunda, “o sofrimento de África” e, no abutre, “o seu próprio rosto”.
Carter sempre viveu o seu percurso profissional vivendo o típico dilema dos fotojornalistas: testemunhar ou ajudar. Na maior parte das vezes, diz o próprio Carter, “estou a fazer um zoom sobre um tipo morto com uma piscina de sangue à volta a misturar-se na areia. O rosto está ligeiramente cinzento. E tenho de pensar visualmente. Alguma coisa grita dentro de mim ‘Meu Deus!’, mas estou a trabalhar. Lido com o resto depois.”
A carreira é feita à sombra da violência na África do Sul, na luta dos negros (e alguns brancos) contra o Apartheid, nas represálias de polícias e bandidos, gangs e justiceiros, na guerra entre zulus e o ANC, nas atrocidades cometidas por todos. Por ter passado tanto tempo a documentar os horrores sul-africanos, o grupo de fotógrafos em que estava incluído Kevin Carter e o seu amigo de infância, Ken Oosterbrock, passou a ser conhecido como “Bang Bang Club”.
Quando Carter parte para o sul do Sudão, em 1993, tenciona fazer uma foto-reportagem com as tropas rebeldes. Em vez disso, mal o avião aterra e ele desembarca, depara-se com centenas de homens, mulheres e crianças famintos a dirigir-se em direcção a um campo de alimentação da ONU.
Depois de tirar dezenas de fotografias, afasta-se alguns metros em direção ao mato para “fugir à visão de todas aquelas pessoas a morrer de fome”, segundo recorda o fotógrafo sul-africano de ascendência portuguesa João Silva, que faz parte do “Bang Bang Club” dos tempos da África do Sul e acompanhou Carter no Sudão.
É Silva quem posteriormente contará o que se passou com Carter quando se sentou à sombra da árvore depois de tirar a foto da menina: «Acendeu um cigarro, falou com Deus, chorou. Depois disso ficou deprimido, dizia que só queria abraçar a filha».
O impacto da foto foi tremendo. O New York Times recebeu tantas cartas de leitores a querer saber o que tinha acontecido à criança que se viu forçado a publicar uma nota onde informava “desconhecer o seu destino”.
969022_457101384364490_547146320_nThe Show Must Go On. O prémio aumenta a auto-confiança de Carter: editores de revistas em Nova Iorque querem conhecê-lo, as mulheres começam a interessar-se por aquele tipo sempre vestido de calças de ganga preta e t-shirt branca, as portas da fama abrem-se de par em par e ele acaba por ser contratado pela prestigiada agência Sygma.
“A pressão de estar sempre onde está a ação, o medo de que as suas fotografias não fossem suficientemente boas, a lucidez existencial ganha por sobreviver a tanta violência e as drogas que usava para minar essa lucidez», segundo a interpretação do jornalista Scott MacLeod, do Times, estão na base da «meteórica ascensão e queda» de Kevin Carter, “a prova de que nem todas as tragédias possuem uma dimensão heróica.”
Dois serviços falhados arrastam-no novamente para a depressão. Na cobertura da visita de Mitterrand à África do Sul, atrasou-se a enviar as fotos; quando finalmente chegaram, a Sygma não as publicou por considerar que não tinham a “qualidade desejável”. À segunda oportunidade, um serviço em Moçambique não deu em nada porque, depois de passar seis dias no país, Carter perdeu os rolos no Aeroporto e nunca mais os encontrou. Recordam os amigos que foi na sequência destes dois falhanços – e dos problemas de dinheiro – que Carter começou a falar abertamente em suicídio. Muitos colegas aconselharam-no a marcar consulta no Psicólogo.
A morte em serviço do seu melhor amigo, Ken Oosterbrock, arrasou-o por completo. Oosterbrock, grande fotógrafo, vencedor como ele de um Pulitzer, era o seu oposto: “Ken era aquele tipo bem casado e com a vida organizada, mas Carter era caótico, sempre a trocar de mulher e, pelo meio, pai de uma criança que não planeara”, de acordo com um dos seus colegas dos tempos do Bang Bang Club.
O bilhete que escreveu antes de morrer: “Estou deprimido, sem telefone, sem dinheiro para pagar a renda, sem dinheiro para ajudar ao sustento da minha criança, sem dinheiro para pagar as dívidas, sem dinheiro! Sou assombrado pelas vívidas memórias de mortes e cadávares e raiva e dor, de crianças feridas e esfomeadas, de loucos que assassinam alegremente, alguns deles polícias (…). A dor de viver ultrapassa a alegria ao ponto em que esta deixa de existir.”
E depois, recordando o amigo falecido: “Vou partir para me juntar ao Ken – se eu tiver essa sorte.”
A filha de Carter, Megan, tem uma visão muito diferente da fotografia premiada: “Eu vejo a criança em sofrimento como o meu pai. E o resto do mundo é o abutre.” (Por Marco Santos)

A seleção dos melhores

Por Gerson Nogueira

Havia planejado divulgar minha seleção do campeonato depois do jogo final. Tive que alterar meus planos depois que o torneio foi finalizado, domingo, com acachapante chinelada que o Paissandu aplicou sobre o PFC. Diante disso, vamos à lista da coluna.

O goleiro é Fabiano, um dos poucos a se salvar do caos azulino. No sistema de jogo usado por Flávio Araújo, sem jogadas de meio-de-campo, a defesa ficava excessivamente exposta e o goleiro tinha que fazer algumas façanhas a cada jogo.

bol_ter_140513_11.psNa lateral-direita, Levy foi o que mais chamou atenção. É verdade que o São Francisco virou nuvem passageira, fazendo alguma pororoca no primeiro turno, mas afundando por completo no returno. Levy, porém, manteve a regularidade, adicionando maturidade à técnica e velocidade dos tempos em que surgiu no Remo.

Para a zaga, optei por Cristovão (PFC) e Raul, do Paissandu. Foram os mais regulares, superando Diego Bispo e Carlinho Rech. Na defesa do Paragominas, Cristovão tornou-se o homem de referência, aparecendo sempre bem. Raul, que chegou com o campeonato em andamento, tomou conta da posição e ajudou a dar equilíbrio ao setor defensivo do Papão. Andou abusando do sarrafo no começo, mas aos poucos passou a jogar apenas futebol e ganhou mais destaque.

Do lado esquerdo da defesa, embora pouco utilizado por Flávio Araújo, Alex Ruan foi o mais destacado jogador, superando nomes mais experientes, como Rayro e Rodrigo Alvim.

No setor de marcação, Ricardo Capanema e Jonathan foram absolutos, cada um à sua maneira. Capanema é o homem dos sete fôlegos, referência no Paissandu como homem do primeiro combate. Precisa melhorar o passe, mas é peça indispensável ao time. Jonathan, que chegou a ser negligenciado por Flávio Araújo, tomou conta da posição. Ofensivo, deu ao setor de ligação a qualidade que o Remo não tinha no primeiro turno.

Eduardo Ramos e Djalma foram os homens da criação no Paissandu e os melhores da competição. Pode-se dizer que Ramos, principalmente, foi um dos fatores mais determinantes para que o time ganhasse consistência e liga. Com ele, o Paissandu passou a ter passe, lançamento e aproximação na meia cancha. Um organizador como há muito tempo não se via por aqui. Djalma foi o co-piloto, agindo como um dínamo foi importantíssimo nas articulações de ataque do Paissandu, ajudando também a marcar.

O campeonato teve inicialmente vários destaques ofensivos, mas no fim das contas Aleilson e Rafael Oliveira foram os mais efetivos, apesar das diferenças de estilo. Aleilson carrega a bola, aliando rapidez, habilidade e capacidade de colocação na área. Rafael Oliveira usa mais a força, mas se destaca também quando parte com a bola sobre os zagueiros. Sofreu críticas, chegou a ser barrado, mas é o principal atacante do Paissandu.

Lecheva, pela regularidade e bons resultados desde o ano passado, é o técnico da minha seleção. Superou a desconfiança de muitos no Paissandu com um trabalho sério e vitorioso, valorizado pela conquista do acesso à Série B. Graças a ele, o time passou a ter uma cara. Sofreu um princípio de desmanche no fim do ano passado, mas se manteve extremamente eficiente no Parazão.

O craque da competição é Eduardo Ramos, indiscutivelmente. Alex Ruan é a revelação, embora já tivesse aparecido em 2012.

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Espaço livre para o grito da galera

Lucilo Filho aconselha a diretoria do Remo, em caso de garantir participação na Série D, a contratar o polêmico Aderbal Lana para comandar o time. “Pegou o Nacional de Manaus em situação difícil, arrumou o time, ganhou o título do segundo turno e agora vai decidir o título com o Princesa do Solimões. Dando a ele melhores condições de trabalho, tenho quase certeza de um bom rendimento do time, pelo menos melhor do que temos visto”.

Já Miguel Ângelo acha que o Remo tem boas possibilidades de ganhar a vaga na Série D. “Seria hora, se é que já não está ocorrendo, de os remistas agirem nos bastidores até financeiramente para ‘herdar’ uma das duas vagas pois sabem que os fanáticos azulinos encherão os seus cofres de dinheiro. Para mais quatro ou cinco jogos até serem eliminados novamente!”.

Sobre a vitória do Papão sobre o PFC, Carlos Lira avalia que Charles Guerreiro se equivocou na armação do time interiorano. “Todos os times que enfrentaram o PSC de peito aberto (o Remo no primeiro jogo do segundo turno) perderam com sobras. O título já é do Papão!”

Emerson Dias observa “enorme alívio da crônica esportiva pela volta do título à capital”. Acrescenta, porém, que isto “não significa que o futebol esteja bem por aqui. O Paissandu não deve achar que a Série B é do mesmo nível que o Parazão, cujo nível técnico sofreu enorme declínio este ano. Para a Segundona, o Bicolor precisará de um time inteiro. Que não se entusiasme com o título ganho sobre esta equipe de Paragominas, que, de tão ruim, é inqualificável”.

Rafael Gouveia enaltece a vitória do Paissandu em Paragominas. “Jogou futebol de campeão, mostrou postura de time grande (o que realmente é). Ontem, mostrou porquê tem o melhor ataque do campeonato, um time que vai sempre em busca do gol, não se amedronta parte para cima sempre em busca do resultado positivo. Marcou forte não deixando o adversário jogar”.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta terça-feira, 14)