Os coniventes

Por Luis Fernando Veríssimo

O ex-deputado estadual e ex-marido da Dilma, Carlos Araújo (foto abaixo), não é um ex-ativista politico, pois recentemente voltou à militância partidária no PDT, apesar de limitado pela saúde. Quando militava na resistência à ditadura foi preso, junto com a Dilma, e os dois foram torturados. Depondo diante da Comissão Nacional da Verdade, esta semana, sobre sua experiência, Araújo lembrou a participação de empresários na repressão, muitas vezes assistindo à ou incentivando a tortura.

129_2130-alt-araujoQue eu saiba, foi a primeira vez que um depoente tocou no assunto nebuloso da cumplicidade do empresariado, através da famigerada Operação Bandeirantes, em São Paulo, ou da iniciativa individual, no terrorismo de estado. O assunto é nebuloso porque desapareceu no mesmo silêncio conveniente que se seguiu à queda do Collor e à revelação do esquema montado pelo P. C. Farias para canalizar todos os negócios com o governo através da sua firma, à qual alguns dos maiores empresários do país recorreram sem fazer muitas perguntas.

A analogia só é falha porque não há comparação entre o empresário que goza vendo tortura ou julga estar salvando a pátria com sua cumplicidade na repressão selvagem e o empresário que quer apenas fazer bons negócios e se submete ao esquema de corrupção vigente. Mas a impunidade é comparável: o Collor foi derrubado, o P. C. Farias foi assassinado, mas nunca se ficou sabendo o nome dos empresários que participaram do esquema.

Nunca se fez a CPI não dos corruptos, mas dos corruptores, como cansou, literalmente, de pedir o senador Pedro Simon. No caso da repressão, talvez se chegue à punição, ou no mínimo à identificação, de militares torturadores, mas o papel da Oban e da Fiesp e de outros civis coniventes permanecerá esquecido nas brumas do passado, a não ser que a tal Comissão da Verdade siga a sugestão do Araújo e jogue um pouco de luz nessa direção também.

A comparação nossa com a Argentina é quase uma fatalidade geográfica, somos os dois maiores países da America do Sul com pretensões e vaidades parecidas. Lá o terrorismo de estado foi mais terrível do que aqui e sua expiação — com a condenação dos generais da repressão — está sendo mais rápida. Mas a rede de cumplicidade com a ditadura foi maior, incluindo a da Igreja, e dificilmente será julgada. Olha aí, pelo menos nessa podemos ganhar deles.

5 comentários em “Os coniventes

  1. Bastante oportuna a reportagem. Pela história da Revolução Francesa sabe-se que sempre há os traidores do povo. Imagine-se só se o proletariado não tivesse ficado de fora, não fosse posto de lado. A Revolução Francesa é o parâmetro histórico mais emblemático de como a burguesia adquiriu o poder e passou a legitimar o Rei, deslocando a Igreja, e fez isso enquanto teve paciência, e de como aproveitou a insurreição do proletariado para substituir uma monarquia burguesa por uma república burguesa. Segundo Karl Marx, a burguesia deixou de governar em nome do Rei, para governar em nome do povo. Já era ela quem dava as cartas no reinado de Luis XVI. Na Revolução, para muitos historiadores, não houve transição de poder, houve transferência de legitimação, saindo a sucessão ao trono, entrando o sufrágio universal. Sabemos, ou achamos que sabemos, que o golpe militar de 1964 foi impulsionado pelo medo ao socialismo, e bancado pelos militares, Igreja Católica (Marcha da Família com Deus pela Liberdade), burguesia local (empresários, indústrias) e interesses americanos. Ainda há muita coisa a ser descoberta.

  2. Essa doença chamada ditadura militar, também fez uma vitima dentro de minha família! Pois meu avô paterno, foi caçado e torturado sob a batuta do Barata este que deve esta torrando no inferno pro resto da eternidade pelos seus atos indigestos contra a humanidade.
    Meu avô aquela altura, era vereador do pc-do-B, logo foi caçado assim como os demais “socialistas” que naquela época eram chamados de “comunistas” se eles eram ou não, o que importa, o que importa e que ceifavam a vida de pessoas inocentes e destruíam famílias! Minha finada avó que Deus a tenha, teve de criar o meu pai e mais cinco irmãos sozinha naquele tempo, o problema e que ela não tinha profissão nenhum e mesmo assim ela teve de dar o jeito dela.
    Foi trabalhar em casa de família durante o dia, e lavar roupa durante noites para alimentar o meu pai e irmãos, mais nem por isso, ela deixou de lhes da auxilio, educação e amparo, ao contrario do governo, que virava as costas para famílias de pessoas “comunistas”. Tem muita coisa além disso, mais não sou eu que terei de falar!!!!

    1. É fato, amigo André. Belo e oportuníssimo texto de mestre Veríssimo sobre um aspecto nebuloso, como ele bem observa, da repressão militar no país.

  3. gerson para de secar o remo, pois os dois time nao tem condicao de mostrar futebol, pois o gol do pfc nao foi nada de jogada treinada foi sorte de chutar a bola,eu sei q tu es psc

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