As ‘organizadas’ podem acabar com o futebol

Por André Barcinski

estadio-vazioNão interessa de que time é o “torcedor” que disparou o sinalizador que matou o menino Kevin, de 14 anos, em Oruro. O que aconteceu lá poderia ter acontecido no Engenhão, no Mineirão, nos Aflitos, ou em qualquer estádio do país. Reduzir o crime a um incidente isolado, ou culpar apenas um torcedor de uma determinada torcida organizada de um determinado time, não só é injusto, como imoral. O problema é geral.

A verdade é que o futebol, como nós o conhecemos, acabou. E a culpa é da violência nos estádios.

Já nos acostumamos a clássicos com uma torcida só, ou com a torcida visitante reduzida e espremida em um canto. Virou a regra.

Se você mora em São Paulo e tem um filho que começou a gostar de futebol agora, nunca – repito, NUNCA – poderá levá-lo para ver um clássico estadual como deveria ser, com o estádio dividido em dois e a emoção que só o futebol pode proporcionar.

De quem é a culpa? Só das organizadas? Claro que não. Todos são culpados: as organizadas, os clubes que as apóiam, a polícia que não as reprime, políticos que lhes devem favores, as federações que não as punem, os jogadores que lhes puxam o saco, e até os torcedores comuns, que cantam as músicas grotescas de louvor à violência.

Acabar com o poder das organizadas é necessário. Mas há vontade de fazer isso? Os clubes vão conseguir viver sem o apoio bélico desses torcedores profissionais? Os políticos terão coragem de ir contra essa massa que lhes dá votos?

Enquanto isso não acontece, os torcedores de verdade, aqueles que pagam ingresso, que gostam de seus times e querem levar seus filhos ao estádio com segurança, ficam reféns desses profissionais.

E assim vamos vivendo, tendo nossas liberdades individuais tolhidas diariamente. Já não podemos ir aos estádios. Se um cretino invade a apuração das escolas de samba e rasga envelopes, proíbe-se a entrada de torcedores. Como sempre, é mais fácil proibir que remediar.

Como acabar com as organizadas? Isso é tarefa para especialistas. Na Inglaterra, onde o problema era tão ruim quanto o nosso, deram um jeito. Acho que um bom começo seria cortar os benefícios delas, fichar os diretores, responsabilizar os clubes por atos de suas “torcidas”. E todos sabem da penetração de facções criminosas em diversas torcidas organizadas.

Mas a principal mudança teria de partir da sociedade: parar de enxergar esses grupos como “torcedores” e vê-los como o que são: profissionais dos estádios, para quem o futebol é só uma desculpa. Se o esporte mais popular do país fosse o críquete, estaríamos aqui discutindo a violência nos estádios de críquete. As organizadas gostam de futebol porque é onde arregimentam mais mão-de-obra, mais sócios. É um esquema empresarial.

Para finalizar: eu tenho uma filha pequena que gosta de futebol. Eu gostaria de levá-la a um clássico sem medo de levar um rojão na cara ou de apanhar na entrada do estádio. É pedir demais?

5 comentários em “As ‘organizadas’ podem acabar com o futebol

  1. Uma imagem que gostaria que fosse contínua:
    Minha filha mais nova quando tinha 16 anos, pediu-me para ir ao estádio mangueirão no jogo Remo x Paysandú pelo Campeonato Paraense, fiquei reticente com a ideia, mas acabei cedendo pela insistência dela. Detalhe, era a primeira vez em estádio de futebol. O estádio estava lotado, como é comum em jogos do clássico, torcedores eufóricos, alegria e tudo de bom que se vê em grandes jogos. Mas, percebi que uma coisa despertou a minha filha; exatamente as torcidas organizadas remoçada e terror bicolor, com suas coreografias sincronizadas, as cores azulinas e bicolor estampadas em camisetas, balões e bandeirolas. Ela me disse: – Pai muito legal essas torcidas alegrando aqui no estádio, Eu disse – Bonito mesmo, mas infelizmente só aqui dentro do estádio, pois lá fora se tornam verdadeiros vândalos. Ela disse – poxa que pena, é tão bonito eles torcendo. Agora eu digo; como seria ótimo se esta boa imagem captada nos olhares de filha filha, servisse como parâmetro aos torcedores associados a estas torcidas, para que ao saírem de suas residências para o estádio torcer por seus clubes, lembrem-se de que podem despertar olhares positivos, igualmente como os de minha filha, somente por esta ótica e não pelas notícias negativas estampadas nos jornais e telejornais.

  2. Volto a repetir : Em um país sério, tais problemas seriam erradicados,ou substancialmente amenizados,porque suas leis e respeito ao povo fazem-se valer.

    No Brasil,há como exterminar os entraves mencionados e que amedrontam os bons cidadãos,porém, a falta de ética,a insensibilidade, o egoísmo,e,principalmente a impunidade, infelizmente,até então,inviabilizam o que tanto enseiamos.

  3. Mais um belo texto, mais quantos serão necessários para acabar com as torcidas organizadas do futebol ?

  4. revendo meus comentários ate reconsidero algumas coisas , realmente pessoas de bem não podem pagar pelas organizadas que são uma MAFIA mundial , em relação ao time visitante sou um eterno defensor dos 10% das arquibancadas , somente para visitantes ou seja o que rege a LEI , não vamos longe , todo jogo contra algum time de expressão de fora do nosso estado o mangueirão é dividido , isso é cultura , em terra de otário manda quem pode e obedece quem tem juízo. só que eu não sou otário e muito menos tenho juízo obscuro , vou fazer campanha no jogo REMO X FLAMENGO para que apenas 10% das arquibancadas seja disponibilizadas para o torcedor ou secador , afinal o mando é nosso e quem não estiver satisfeito que assista o jogo pela TV , pois o mando é do REMO e quem for carioca que vá cantar de GALO em sua terra e não venha dar palpite em nossa administração ao qual o mando é nosso.

  5. O conteúdo da crônica aborda muitíssimo mais, do que o título sugere que vai ser dito ao se limitar às “organizadas”.

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