Da inutilidade de certas discussões

Por Marcel Dias

Muito se fala da revolução da Internet e do “poder das redes sociais”. Hoje, com essa tragédia sem precedentes que ocorreu em Santa Maria – RS vimos um pouco de tudo. É normal em momentos de grande comoção os ânimos ficarem exaltados, para o bem ou para o mal. E conforme escrevi em outro post, em situações como essas a razão fica em segundo plano. A emoção toma conta do raciocínio e busca apenas validar as crenças pré-existentes.

No caso do incêndio que matou mais de 200 jovens, as reações em redes sociais foram bem previsíveis. Pessoas indignadas, pessoas reclamando das pessoas indignadas alegando que elas não tem ligação com as vítimas e portanto, não poderiam sentir pelo ocorrido. Pessoas fazendo piadas de gosto duvidoso. Pessoas se ofendendo com as piadas. Religiosos dizendo que foi punição de Deus para com os “pecadores” que estavam se divertindo ao invés de buscar Jesus. Enfim, um monte de lixo e ruído em uma situação onde o mais importante era passar informações sobre o ocorrido e sobre como ajudar da melhor forma.

Sempre encontramos pessoas dispostas a ajudar, divulgando links, telefones, fazendo doações e algumas se voluntariandoin loco (algo que não é possível para a maioria, por questões geográficas). Mas a tal da revolução silenciosa das redes sociais passa despercebida diante da enxurrada de bobagem que circula pelas redes. Em questão de minutos, o Facebook estava inundado de montagens religiosas, de pessoas culpando e condenando o dono da boate, dizendo que a polícia agiu errado, fazendo afirmações levianas sobre um assunto que desconheciam, motivadas sabe-se lá pelo quê.

A revolução das redes sociais nunca existiu de fato. Quiçá nunca existirá. Porque as redes sociais são compostas por pessoas. E pessoas são isso aí, cínicas, fanáticas, desapegadas, sem noção, etc. Ela só pode realmente existir e fazer alguma diferença se servir meramente como um apoio a ações reais. Não há mal nenhum em compartilhar um link ou dar like numa postagem. Mas é pura inércia fazer APENAS ISSO e sentir-se com a sensação de dever cumprido. Hoje as pessoas sentem que seu dever foi cumprido com muito pouco. Com um like ou um RT.

Dias atrás, centenas de milhares de pessoas se engajaram numa “causa”. Curtir uma imagem que supostamente faria um garoto conseguir transar com uma amiga. Em questão de horas, o “objetivo” foi atingido. Hoje, diante dessa tragédia que arrasou uma cidade inteira, destruiu famílias e obrigou pais a reconhecerem os próprios filhos carbonizados, tivemos que filtrar milhares de mensagens para poder obter informações úteis e repassar em meio a um festival de agressões, palavrões, “piadas” e demonstração de falta de sensibilidade.

Seja qual for a rede social, repleta de pessoas, o comportamento do organismo funcionará da mesma forma como funciona aqui, fora dos computadores. O meio virtual apenas “digitaliza” o caráter das pessoas. Por maior que seja o fingimento, o comportamento apresentado é real. É triste saber que nem uma tragédia dessa proporção consegue unir as pessoas. E que não dá pra esperar nada muito diferente disso, só lamentar. Lamentar muito.

Se você pretende ajudar de alguma forma, neste link estão reunidas todas as informações necessárias.

Deixem o Neymar ser feliz

Por Fernanda Salgado

O texto de hoje é mais que uma opinião. É um desabafo. Não aguento mais ouvir e ler pessoas dizendo o que Neymar deve ou não fazer. Qual o rumo ele deve seguir. Sem contar os que criticam o modo que joga. O episódio recente foi a reclamação do atacante Nunes, do Botafogo-SP, queixando-se que o Neymar humilhou no duelo contra o time em que ele joga. Não aceito pessoas que gostam de futebol concordar com o jogador. O craque do Santos joga assim contra todos os times. Não faz para humilhar. É o estilo de jogo. Aceitem. Ao assumir esse estilo, ele sabe que pode ser agredido, é o risco que corre por jogar desta maneira. Postura que teve desde que despontou para o futebol, em 2009. Deixem-no em paz.
Outra discussão desagradável é a opção de querer ficar mais por aqui. Se o moleque acha que não é o momento de sair, é um problema dele. Ninguém tem nada a ver com isso, além dele e da família. Não se esqueçam de que ele vai completar 21 anos no próximo dia 5. É novo. Mesmo que tivesse mais idade, somente ele pode decidir o que fazer da carreira.
Os mesmos que pedem para ele ir para a Europa, que jogar o Paulista é fácil, são os mesmos que, quando ele for embora do Brasil, vão reclamar da péssima qualidade do futebol jogado por aqui. Quem trabalha com futebol tem que torcer para o Neymar permanecer no país por mais algum tempo. Não só ele, mas como todos os excelentes jogadores que aqui estão. E que venham mais craques da Europa para cá. O futebol agradece. Todos ganham com isso: os clubes, os torcedores e os jornalistas. Ou vocês querem ver um futebol feio, cheio de brucutus?
Deixem o Neymar ser feliz do jeito dele! Deixem que mude o visual toda semana, poste inúmeras fotos! É seu estilo. Aproveitem a oportunidade de ver um excepcional jogador enquanto ainda atua sob nossos olhares. Neymar prefere jogar num futebol onde o calendário é mal feito, jogando, às vezes, três vezes na semana, atuando em gramados de péssima qualidade a ir para a Europa, onde tudo é mais organizado. É um desafio também.
Por fim, parabenizo o craque do Santos e da seleção pela paciência, pela humildade que tem com a quantidade de gente que gosta de dar palpite em sua vida. Confesso que eu não teria a mesma tranquilidade. Continue desse jeito, moleque! Não mude para agradar ninguém. Seja ousado e alegre. Você não precisa provar nada. Ah, se quiser ficar mais um bom tempo no Brasil, eu vou adorar e a torcida santista também! Não só eu, mas milhões, de pessoas que o reverenciam e torcem por você!

Contra o desejado

Por Janio de Freitas

Os juros em alturas imorais eram acusados de impedir a retomada efetiva do crescimento e a capacidade da indústria de competir com a produção estrangeira. Os juros foram baixados. E as correntes que os culpavam entregaram-se a intensas e extensas críticas à sua redução. A energia cara era há muito acusada de obstruir o crescimento econômico e a capacidade de competição da indústria brasileira. Foi reduzida em 32%, um terço, para a produção industrial. E as correntes que a culpavam se entregam a criticá-la e desacreditá-la.

Esse jogo de incoerências proporciona noções importantes para os cidadãos, mas de percepção dificultada pela próprio jogo.

Está evidente na contradição das atitudes o quanto há de política no que é servido ao público a respeito de assuntos econômicos. Na maioria dos assuntos dessa área, o direcionamento é predominantemente determinado por política, e não pela objetividade econômica.

É assim por parte dos dois lados. Mas não de maneira equitativa. Os economistas mais identificados com o capital privado do que abertos a problemas sociais, ou a projeções do interesse nacional, fazem a ampla maioria dos ouvidos e seguidos pelos meios de comunicação.

É esse o desdobramento natural da identificação ideológica e política e das conveniências mútuas, entre empresas capitalistas e “técnicos” do capitalismo. Mas não necessariamente, como supõem certas interpretações ditas de esquerda, um desdobramento forçado aos jornalistas. Também entre os comentaristas e editores há, é provável que em maioria, identificação com os economistas do capital. E, em certos casos, com o capital mesmo. O que vai implicar tratamento político –de apoio ou de oposição– a decisões econômicas e respectivos autores.

Foi a essas críticas políticas que, a meu ver, Dilma Rousseff respondeu junto com a comunicação do corte maior no preço da energia. Nada a ver com o lançamento de campanha reeleitoral que lhe foi atribuído pelo presidente do PSDB, deputado Sérgio Guerra, logo seguido pelos porta-vozes, assumidos ou não, do PSDB e dos remanescentes do neoliberalismo.

Do alto de sua aprovação pessoal e da aprovação ao seu governo, o que de menos Dilma Rousseff precisa é precipitar a disputa eleitoral. Essa necessidade não é dela, é dos oposicionistas –como se viu, há pouco, Fernando Henrique propondo o início imediato de um périplo eleitoreiro de Aécio Neves pelo país afora.

Dilma Rousseff fez a promoção de seu governo como Fernando Henrique fazia do seu, e todos os presidentes fizeram e fazem. A afirmação de que falou como candidata leva a uma pergunta: se não a favor do seu governo e da novidade que lança, nem há algo grave, como é que um/uma presidente deve falar?

A redução do preço da energia e a queda dos juros agravam o aturdimento da oposição representada pelo PSDB. Se nela não brota nem uma ideiazinha nova, para contrapor à queda de juros, desoneração da folha de pagamento, redução do IPI, ampliação do crédito para casa própria, só lhe resta dizer que isso não passa de um amontoado de medidas de um governo sem rumo. Mas não ver nesse amontoado, ainda que para criticar, uma coerência e um sentido de política a um só tempo industrial e social, aí já é problema para quem organiza o Enem.

Cabra bom…

O futebol mudou

Por Tostão

Anos atrás, os jovens Neymar, Ganso, Lucas, Oscar, Pato e Leandro Damião eram superelogiados e tidos como certos na Copa de 2014. Pato, Leandro Damião e Ganso não foram chamados por Felipão. Oscar e Lucas devem ser reservas no jogo contra a Inglaterra. Talvez, jogue um dos dois desde o início.

O que aconteceu? Fora Neymar, um fenômeno, esses jogadores não são tão bons como diziam? Ainda é cedo para falar disso? Ou Felipão se precipitou ao convocar Fred, Luís Fabiano e Ronaldinho, jogadores com grande risco de não estarem bem durante o período da Copa? São grandes dúvidas, hoje sem respostas.

Felipão pode organizar o time de várias maneiras. Se jogar no 4-2-3-1, Ramires e Paulinho seriam os volantes. Neymar, Ronaldinho e Lucas (ou Oscar ou Hulk) formariam uma linha de três meias-atacantes, além de Luis Fabiano ou Fred de centroavante.

O problema de jogar dessa forma é que Neymar, pela esquerda, teria de voltar para marcar o lateral. Com Mano Menezes, sem um centroavante fixo, Neymar era o jogador mais adiantado, sem funções defensivas.

Deixá-lo mais próximo do gol é importante. Uma maneira de evitar que ele recue demais, mantendo o centroavante, seria ter uma linha de três no meio-campo (Ramires, Paulinho e Arouca ou Hernanes ou Oscar), Ronaldinho pelo centro, e, na frente, Neymar e mais um centroavante (4-3-1-2).

Outra possibilidade seria jogar no 4-4-2, com duas linhas de quatro e dois atacantes (Neymar e um centroavante). Neste caso, Ronaldinho teria de jogar pelo lado, mais recuado, marcando o lateral, o que ele nunca fez. No Barcelona, Ronaldinho era um atacante pela esquerda. Não voltava para marcar. No Atlético-MG, é um meia de ligação, sem funções defensivas.

Os maiores elogios à convocação de Felipão foram por causa da ausência de um volante mais marcador, plantado à frente dos zagueiros. Felizmente, esse tipo de volante tem desaparecido. Na Europa, ele nunca existiu. Hoje, os volantes são jogadores de meio-campo, marcam e saem para o jogo, como se diz no futebolês. O problema é que pouquíssimos jogam em alto nível. Para avançar sem saber, é melhor ficar lá atrás.

Paulinho e Ramires são hoje os dois melhores volantes. Evoluíram bastante. Mas só teremos um volante fora de série, um grande craque, quando os técnicos das categorias de base pararem de colocar armadores criativos para serem meias ofensivos ou jogadores pelos lados. Essa é uma mania mundial.

Gosto de jogadores pelos lados, que atacam e defendem, desde que tenham características de atacante, como Lucas, Oswaldo, Bernard, Cristiano Ronaldo e outros. Times como o Chelsea, com três excelentes meias “armandinhos” (Hazard, Oscar e Mata) e com um centroavante isolado, dificilmente vai ganhar títulos.

Campanha pela paz e agressão em campo

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Antes do Re-Pa, os capitães Alex Gaibu e Carlinhos Rech (acima) posaram com a bandeirola distribuída pela Rádio Clube na campanha pela paz no futebol. Ironicamente, durante a partida, uma agressão do zagueiro Raul ao meia Tiago Galhardo (abaixo) foi o ponto destoante da festa no Mangueirão. Para piorar, a boa arbitragem de Dewson Freitas falhou ao não punir o agressor com a expulsão – Raul não levou nem cartão amarelo, apesar dos protestos dos demais jogadores e do técnico Flávio Araújo, do Remo, que avisou o quarto árbitro à beira do gramado.

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Um Re-Pa com tintas épicas

Por Gerson Nogueira

Longe de expressar superioridade absoluta dos azulinos ou fraqueza dos bicolores, o Re-Pa de sábado reafirmou a lógica da objetividade, que vem marcando este começo de campeonato. O Remo se comportou, acima de tudo, de maneira pragmática. Aplicado, resguardou-se em seu campo na maior parte do tempo, com marcação firme à entrada da área e nos corredores laterais, saindo apenas para explorar o contra-ataque. Fez isso com competência e método, e por isso mereceu vencer.

bol_seg_280113_23.psClaro que o clássico não se resumiu a isso. Foi um jogaço, daqueles de não dar descanso ao torcedor. Emoção a todo instante, principalmente na etapa final. Desde o começo, ficaram claras as diferenças. O Paissandu avançava com até cinco jogadores (Eduardo Ramos, Gaibu, Pikachu, João Neto e Rafael Oliveira). Apesar de tanta gente no ataque , as chances eram raras. Justamente porque as características do Remo estavam no bloqueio e na ocupação de espaço, com presença de vários jogadores onde estava a bola.

Surpreendente, o gol de Val Barreto logo no início atestou a qualidade da saída que o Remo iria utilizar na partida. A bola passava sempre por Tiago Galhardo e Fábio Paulista. O cruzamento perfeito e o cabeceio certeiro evidenciaram também as dificuldades defensivas do Paissandu. Raul ficou pregado ao chão, assistindo a bola passar e chegar até o centroavante.

A desvantagem balançou as convicções do Paissandu. O único que seguia no mesmo ritmo desde sempre era Ricardo Capanema, um dínamo na cobertura à zaga. O ataque insistia, mas sem a manha necessária para envolver o trio de zaga do Remo. O ponto crucial era a falha no penúltimo passe, quase sempre interceptado pelos zagueiros.

Outro ponto desfavorável foi a atuação de Pikachu, que normalmente é uma válvula de escape, aparecendo como reforço nas tentativas de ataque. Vigiado de perto por Berg, pouco produziu. Do lado remista, os avanços pelas laterais se tornaram um fator de desassossego para o Paissandu. Fábio Paulista confundia a marcação e conseguia, junto com Galhardo, reter a bola no meio, resolvendo em parte um crônico problema do atual time azulino.

Para o segundo tempo, a principal mudança no Paissandu foi na forma de pressionar. O time voltou mais rápido, com evidentes benefícios para os homens de frente. Pikachu, porém, continuou discreto, acusando o policiamento que sofria dos marcadores.

Quando Iarley entrou, a partida já estava mais favorável ao Paissandu. Mesmo vulnerável na marcação, o time se impunha em campo, às vezes com até quatro atacantes – Rafael, Neto, Héliton e Iarley. O preço da ousadia desesperada de Lecheva ia saindo caro, pois o Remo esteve perto de ampliar.

O gol de Iarley, na metade do segundo tempo, retratou a dimensão do clássico. A bola chorou para entrar. Bateu na trave, voltou para um chute torto de Rafael e ainda desviou na zaga antes de entrar. A partir daí, lances vibrantes de parte a parte davam a impressão de que qualquer lado podia vencer, mas com o Remo sempre mais agudo, explorando o vazio na marcação criado com a saída de Capanema.

No fim, prevaleceu o roteiro traçado por Flávio Araújo. Em lance parecidíssimo com o do primeiro gol, Paulista caiu pela esquerda e cruzou na medida para Leandro Cearense finalizar. Lecheva, que brincou com a ousadia, não atentou para os avanços de Paulista, que descobriu a única via de ataque do Remo no jogo. Como nas grandes batalhas, o erro de um lado propiciou o triunfo do outro. Méritos do vencedor.

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Gastos que desafiam a lógica

Os 1001 problemas de sempre no trajeto para o Mangueirão, temporal caindo em cima da hora do jogo, gangues vestindo camisas dos clubes à solta para assaltar – até shopping center localizado na Augusto Montenegro passou aperreios por causa do Re-Pa. Mesmo com transmissão direta pela TV, superando todos os obstáculos impostos pela desorganização, 41 mil pessoas compareceram e mais de 39 mil pagantes proporcionaram a renda de R$ 832.120,00.

Subtraídas as despesas, os clubes ficaram com a renda líquida de R$ 584.557,00 (R$ 292.228,00 para cada um). Dividem a arrecadação com custos de R$ 247.663,00, onde se destacam os R$ 83.212,00 (10% do total bruto) para custeio de providências por parte da FPF. Indo mais fundo no borderô, surgem facadas igualmente dolorosas: R$ 49.927,20 (ingressos) e R$ 24.967,00 gastos com equipamentos de rádio e lanches!

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Arbitragem pecou por omissão

Dewson Freitas é o melhor árbitro paraense em atividade. É indiscutível que sua escolha deu segurança ao jogo. Tecnicamente esteve perfeito nas marcações, trabalho facilitado porque não ocorreram lances polêmicos. Disciplinarmente, porém, cometeu omissão grave: a agressão do zagueiro Raul ao meia Galhardo, que chegou a levar pontos na boca, deveria ter sido punida com expulsão.

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Dramas do choque-rei

O amigo André Papão, um dos baluartes do blog campeão, protesta contra os desmandos no estacionamento externo do Mangueirão: “Se já não bastasse o absurdo do torcedor ter que pagar 10 reais, com tíquete e tudo, os flanelinhas lotearam e demarcaram ‘suas áreas’. Isso tudo causando constrangimento e ameaças dos mesmos, sem qualquer providência da PM. Fica aqui a minha indignação pela extorsão feita na maior cara de pau!”.

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Corneteiros em ação

Cornetas pós-clássico apressam-se em malhar Lecheva. Fala-se até em Givanildo, outra vez. É cedo para crucificações. A Páscoa ainda não chegou. Pela atuação que o Paissandu teve, o Re-Pa não pode alterar os planos da diretoria. Muita calma nesse momento.

(Coluna publicada na edição do Bola/DIÁRIO desta segunda-feira, 28)

Réquiem para as “organizadas”

Por Daniel Malcher
Há muito se discute a existência das ditas “torcidas organizadas”. Os que veem com bons olhos a existência de tais grupos afirmam que elas incendeiam as arquibancadas com seus cânticos e motivam os atletas nos cotejos por eles disputados. Mas não sejamos ingênuos. As “organizadas” mudaram os hábitos dos torcedores não organizados (a maioria esmagadora), inclusive os afastando dos estádios; se infiltraram na vida política dos clubes, em alguns casos decisivas nos processos eleitorais internos das agremiações e sendo inclusive “acalmadas” pelos cartolas quando estas cobram de forma incisiva melhor desempenho das equipes, jogadores e treinadores ou quando tentam auferir regalias. Quando elas passaram a ser relevantes no cenário futebolístico local e nacional não é neste momento algo a ser abordado. Por outro lado, seu modus operandi de “torcer” e a virulência no tratamento e no convívio com os demais torcedores, estejam estes envergando as mesmas cores ou cores que não as suas, são de extrema relevância para se pensar um futebol do futuro, que possa resgatar sob padrões civilizacionais aceitáveis a rivalidade e a existência da alteridade futebolística – o que é, acredito, a vontade de muitos vide a constante evocação do enunciado “a rivalidade deve existir apenas dentro das quatro linhas”.
A existência destas turbas “organizadas”, bem como o comportamento violento e a suas vocações para distúrbios e vandalismos de toda a sorte em confrontos pós-modernamente agendados pelas redes sociais explicam-se sob que perspectivas então? Sentido da existência individual somente através do grupo; raiva niilista; ódio visceral pelo “outro”; necessidade de autoafirmação em meio a outros grupos uniformizados através de conflitos que, numa espécie de “rito de passagem”, batiza os iniciados ou o simples prazer de ver o sangue jorrar e a balbúrdia ser tocada? Sim e não.
Estes grupos, em sua maioria composto por jovens, de certa forma mostram a diluição de valores de nossa sociedade e como tão cedo eles são relativizados. Suas posturas violentas são significativas amostragens da deterioração do sentido de viver em sociedade, assim como refletem desigualdades sociais, falta de perspectiva de vida e a banalização de constructos e valores morais outrora absolutos, tais como o respeito à vida.
É a somatória de todos estes aspectos adicionados ainda com o tempero da leniência dos poderes constituídos que descortinam e ao mesmo tempo encobrem a face nua e crua das hordas que vestem as cores de clubes de futebol no Brasil e no Pará. Governos, órgãos de segurança e entidades desportivas – os clubes e federações estaduais – fingem não ser responsáveis pelo contingenciamento da selvageria. E as vítimas das batalhas campais, em ruas e arquibancadas, continuam a encorpar as estatísticas.
Possibilidades e teorias sociológicas à parte, urge uma atuação cirúrgica das autoridades competentes visando combater e efetivamente dissolver estas associações disseminadoras da barbárie travestidas de torcedores de futebol.  Embora tenhas suas particularidades, o exemplo inglês no combate ao hooliganismo é um alento e uma demonstração de que é possível também tornar proibitivo a presença de bandoleiros nos estádios brasileiros e paraenses. Desmantelar estes agrupamentos de expediente perigoso torna-se imperioso. Afinal, muitas das maiores manifestações da violência e da maldade humana na história realizaram-se no seio dos agrupamentos coletivos. Que o digam o nazismo na Alemanha e as guerras civis nos Bálcãs nos anos 90, cujos grupos extremistas de limpeza étnica e racial recrutaram muitos membros, ora vejam, em torcidas organizadas de futebol da antiga Iugoslávia.
Para que possamos torcer em paz, que entoemos um réquiem para as “organizadas” e suas guerras.