Professora sofre ameaças por defender floresta

Citada no último relatório da Anistia Internacional sobre a situação dos defensores de direitos humanos na América Latina, a professoraLaísa Santos Sampaio, ameaçada de morte por defender a Floresta Amazônica, ainda não conseguiu proteção do governo.  Enquanto aguarda em Nova Ipixuna (PA), teme ter o mesmo destino de sua irmã e de seu cunhado, assassinados por causa de disputas de terra na região.
Os extrativistas Maria do Espírito Santo e José Cláudio Ribeiro foram mortos no ano passado, nessa mesma cidade. Laísa tem seu caso reavaliado pelo Programa de Proteção de Defensores de Direitos Humanos, do governo federal – em uma análise preliminar, a proteção foi negada. Além da menção no relatório da Anistia Internacional, corre na internet uma petição pública para que ela receba proteção imediata. Dos cinco suspeitos da morte do casal, dois continuam soltos.
Em fevereiro, a professora recebeu em Nova York um prêmio póstumo oferecido pela ONU a seus familiares, que denunciavam o uso irregular de terra e o desmatamento na região do assentamento agroextrativista Praia Alta Piranheira, o primeiro do tipo no Pará. Desde então, mesmo ameaçada, Laísa dá aulas na escola local e mantém o Grupo de Trabalhadoras Artesanais Extrativistas, que produz fito-cosméticos e fitoterápicos com óleo da andiroba.

A entrevista foi publicada por Amazonia.org.br.

Qual a origem das disputas?
Isso se deve ao processo desordenado de ocupação de terras na Amazônia. Em 1997, foi designada uma área de 22 mil hectares para o primeiro projeto agroextrativista do Pará. Nessa área, que pertencia a grandes fazendeiros de Marabá, há predominância de culturas como a castanha e o cupuaçu, além do babaçu e do açaí, em menor escala. Colocaram então o Zé Cláudio, meu cunhado, como primeiro presidente da Associação dos Pequenos Produtores do Projeto de Assentamento Praia Alta Piranheira (Apaep). Desde o início houve tensão, pois a Maria, minha irmã, e o Zé Cláudio bateram de frente e os próprios fazendeiros os procuraram com pistoleiros. Foram três linhas de perseguição. Uma foi por causa desses conflitos por lotes de terra. Depois, pela questão madeireira, pois em 2004 começou a se intensificar a entrada dos madeireiros no assentamento e, logo em seguida, foi a vez dos carvoeiros.

Por que começaram a invadir?

Em um primeiro momento, viram que a Maria e o Zé Cláudio tinham coragem ímpar e respeitaram. Depois de um tempo foram acabando as espécies madeireiras de valor nas áreas próximas. Então, começaram a invadir o assentamento para tirar as castanheiras, que são protegidas por lei. Para isso, entravam armados. O Zé Cláudio e a Maria paravam o caminhão e discutiam. Tentavam interditar de qualquer forma, fazendo registros fotográficos. Depois, vieram os carvoeiros, que derrubam todas as espécies de árvore e deixam a área desertificada.

Falta fiscalização ali?
Há muita floresta na região, é propícia para práticas ilegais. Mas há descaso do governo, pois em um projeto extrativista tem de haver fiscalização intensiva. O madeireiro entra e sai porque não há fiscalização permanente. Quando apareciam, os fiscais até diziam que só estavam ali porque havia sido feita uma denúncia.

Quando começaram as ameaças?
A primeira de que me lembro foi em 2001, quando chegou à casa deles uma caminhonete com um fazendeiro e três pistoleiros. Com um papel na mão, tentaram despistar o Zé Cláudio, mas ele não tirou o olho deles. Na saída, ainda disseram: “Não foi desta vez”.

Os dois pediram ajuda às autoridades?
Tenho queixas deles protocoladas no Ibama e no Incra. Eles pediram auxílio nos níveis municipal, regional, estadual e até federal. Procuraram o Ministério Público, que veio algumas vezes, mas voltava depois de seis meses e não conseguia avançar na investigação.

Quando foram mortos?
Foram assassinados juntos no dia 24 de maio de 2011, aqui mesmo no assentamento, a 4 quilômetros da casa deles. Estavam indo em direção à cidade numa moto e tiveram de parar em uma ponte velha. Era um ponto estratégico, onde dois pistoleiros estavam esperando. A investigação da Polícia Civil apontou como principal mandante um homem chamado Zé Rodrigues, que também está preso. Mas a Polícia Federal chegou a cinco nomes, pelas intercepções que foram feitas. Esses outros dois não estão presos.

Um comentário em “Professora sofre ameaças por defender floresta

  1. Nos livros de história o povo quase nunca aparece ou, se aparece, surge como massa de manobra da burguesia. Fala-se muito que o brasileiro é desonesto desde o DNA herdado dos degredados, que o povo precisa de catequização jesuítica. Francamente, a exploração desordenada, e ilegal, da Amazônia só interessa a nós mesmos, amazônidas. Mais ninguém se importa. Na pauta da elite brasileira está a próxima viagem a NY. Que interessa uma árvore a mais, ou a menos? Que diferença faz um desconhecido a mais ou a menos no meio do mato? Mesmo que se diga que o problema é que mais uma lei foi transgredida, desrespeitada ou violada nesse país, que diferença faz, uma a mais ou a menos?

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